11.8.17

Quase-Perdão

Sempre achei estranho quando uma pessoa falava "Nunca consegui perdoar fulano!".

Acho que é de geração. Hoje o pessoal tem mais como lema  aquele "Eu só me arrependo do que eu não fiz" que as pessoas falam quando saem do Big Brother do que as velhas ideias católicas de pecado e arrependimento.

Não adianta. Chega uma hora em que você é passado pra trás ou alguém faz algo que te fere. 
Como o assassinato é um crime e esconder um corpo é muito difícil, o que sobra pra fazer?
Exercer o perdão.

Mesmo sem acreditar tanto assim nele.

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Começar a perdoar é muito difícil, porque a primeira fase do perdão é a raiva e nós somos um bando de frouxos. A gente acha que raiva é coisa boba, a gente imita a Sandy na capa da Capricho falando que "Ódio é uma palavra muito forte" e empurra tudo goela abaixo.

Mas a raiva é essencial para botar fim numa situação de dor. É preciso ter ódio, agressividade, vontade de matar, ou pior!, de casar a pessoa com o José Serra, porque a raiva é justamente a energia que permite botar ponto final em uma coisa e ir para outra.

Para perdoar , você admite que a pessoa que (traiu sua confiança? roubou seu namorado? sequestrou seu cachorro? deu o nome do próprio filho com o nome que você sonhava desde o jardim de infância?) foi escrotíssima, e confessa a si mesmo que não é um anjo de luz e que sim, está se mordendo de  ódio da pessoa pelo que ela te fez.

A raiva é a mastigação do perdão: se você tentar engolir alguma coisa sem ela, a situação vai ficar entalada na sua garganta por muito tempo. 

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A segunda fase do perdão é a mais difícil. É o "Quase-Perdão".

Quando você está no "Quase-Perdão", a situação já parece ter ficado pra trás e os pingos já parecem ter caído confortavelmente sobre os is, até que...

Você sonha com o desgraçado.
E, no sonho, você faz com um taco de beisebol o que normalmente se faz com creme antirrugas, e espalha porrada na cara de quem te machucou.


Quando você acha que já está tudo superado, você cruza com um carro igualzinho ao de quem te machucou e você imagina a cena se repetindo, dói tudo de novo, todos os sentimentos vem à tona e você chora no meio do estacionamento da Havan... 
Mas esquece tudo meia hora depois, porque afinal de contas, você já perdoou - ou quase.

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A terceira fase do perdão já não tem a ver com a outra pessoa.
Perdão mesmo, de verdade verdadeira, pra fechar o negócio, é dado a si mesmo. Você precisa se perdoar por ter sido trouxa o suficiente pra passar pelo que passou. 

A gente gosta de pensar que é o centro do universo, e que provocou tudo o que o outro fez com a gente, mesmo que tenha sido atropelado por um desconhecido bêbado. 

Por isso, mesmo sem ter feito nada, é preciso perdoar-se por ter provocado o problema. 

Por ter acreditado em quem não devia, por ter sido ingênuo e ambicioso, ou por repetir o mesmo padrão que, agora, olhando pra trás, estava na cara o tempo todo.

Se perdoar por ser humano e ter acreditado quando alguém ofereceu uma oportunidade de ganhar muito dinheiro rápido, e por ter deixado essa pessoa fugir com as suas economias para o Paraguai.

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Depois de tudo perdoado (a si mesmo) e esquecido (porém guardado para futuras referências), você pode retirar seu diploma de Perdoador Exemplar na paróquia mais próxima.

Não é uma conquista muito feliz, porque ela sempre vai partir de ter tido uma experiência ruim.
Infelizmente, perdoar não dá prazer nenhum. 

Mas, pelo menos, abre espaço pra que algum outro prazer aconteça.
Se você tentar tudo isso e o perdão não vier... Falha minha. 
Me perdoe.

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