29.12.17

Meus votos

Nessa virada de ano, eu tô praticamente uma propaganda de supermercado em feriado religioso: desejo muita felicidade, fartura e abundância, e faço votos por muito amor e carinho pra todo mundo... que eu gosto.

Agora, minha gente, pra quem eu não gosto... Eu desejo uma avalanche de bosta.

Eu quero sinceramente que o Gilmar Mendes tenha uma síncope e não consiga mais controlar os esfíncteres.

Peço ao Bom Jesus que o Temer engasgue numa uva niágara durante o Reveillón e passe o resto da vida falando que nem o Darth Vader.

Que minha vizinha de baixo, que liga reclamando do barulho quando o meu chinelo bate com muita força no chão, fique surda.

Que o cara que passou de carro me xingando quando eu andei de mãos dadas com outro cara na rua sofra um acidente pulando um muro e tenha os dois testículos arrancados.

Não vou me sentir culpado. Isso não é desejar o mal a ninguém. é desejar que a bondade de quem foi gentil, bacana e decente no decorrer do ano pareça um pouco mais recompensada, frente ao castigo de quem so fez incomodar.

Paz no coração é coisa de pretensioso.

Não que eu vá ter coragem de fazer qualquer coisa de ruim pra alguém: eu jamais teria a capacidade de esganar alguém que me irrite, a não ser em sonho.

Mas fim de ano é época de sonhar, não é mesmo?

E eu sonho com paz, alegria e tranquilidade pra todo mundo... que não me encheu o saco.

O resto? Que exploda junto com os fogos de artifício.
Aí sim, feliz ano novo!

27.12.17

A autoestima do homem hétero

Quando se fala em privilégios, nem sempre as vantagens do grupo dominante estão necessariamente nos aspectos sociais e financeiros.
Quer dizer, não de primeira.

Pra mim que a maior vantagem de ser de uma maioria está na autoestima que a pessoa desenvolve.

E nada, nada supera a autoestima do homem hétero.

Ele não precisa lavar a louça depois do jantar. Os outros que façam isso! Ele não precisa se preocupar em ser inconveniente. Ele está certo de que vai ser amado e cuidado, não importa o que faça.

Enquanto isso, todo o resto do mundo está fazendo esforço pra se sentir digno de amor.

"Lavei a louça, guardei, limpei o fogão e fiz uma sobremesa", diz a filha.
"Tá, agora vai perguntar pro seu irmão se ele quer um pouco", responde a mãe.

O homem hétero é criado pra pensar que o mundo está ali para servi-lo. Reclamou? Ele vai fazer mimimi dizendo que sua reclamação é mimimi.

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Minha amiga está cortando um dobrado pra conseguir interditar o avõ dela.

Ele tem uns oitenta anos, e desde que ficou viúvo, sua casa virou um entra e sai de moças novinhas muito preocupadas com a saúde dele, cada uma com um top mais apertado do que a anterior.

Uma namorou com ele por uma semana e levou o fogão do velho. A outra levou algumas roupas, outra ainda levou parte da poupança, mas o avô da minha amiga se recusa a acreditar que levou um golpe.

Não, elas não querem o seu dinheiro. Ele tem certeza de que continua sendo muito atraente, e que essas mocinhas de 18 anos tem todo o interesse no seu charme de terceira idade.

Isso é um efeito direto do excesso de autoestima do homem hétero.

Enquanto um homem gay acha que sua vida sexual acabou aos trinta, uma mulher passa Renew no rosto desde os vinte e cinco e uma mulher transexual é assassinada aos dezenove enquanto tenta procurar um emprego, lá está ele, com oitenta anos e mais rugas no rosto do que no escroto, se achando um partidão.

Ele foi criado pra isso! Seu programa preferido é o Carga Pesada, em que o Antônio Fagundes, sem nenhum dente original na boca, faz par romântico com a Patrícia Pillar!

O que o Antônio Fagundes tem a oferecer? Um bigode bonito nos anos 70, eu concedo isso, mas só! Enquanto isso, a Patricia Pillar precisou nascer vinte anos depois, ter uma genética impecável e passar a vida sob dieta e maquiagem.

E esse casal é mostrado como a coisa mais natural do mundo. Nisso, o avô da minha amiga se sente no direito de ter uma novinha também.

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A diferença no esforço é absurda.

A mulher é incrível, estudada, gostosa, cheirosa e independente, e pensa "Será que alguém vai me amar desse jeito?".

O homem precisa de dezessete viagras pra ter uma ereção meia bomba e se olha no espelho, cheio de admiração por si, se sentindo um garanhão.

É muita injustiça.

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Quando a mãe da minha amiga tenta explicar pro avô que, se ele continuar se deixando seduzir por uma novinha por semana, ele vai perder tudo, ele responde:

"Bem que minha esposa falou, antes de morrer, que eu ia sofrer na mão de vocês"

Ao que ela responde:

"A única coisa que a mãe falou antes de morrer é que não era pra deixar você maltratar a gata dela!"

Honestamente, eu fico do lado da moça que ficou com ele só pra levar o fogão.
No mínimo, ela passou uns vinte minutos na frente do espelho se arrumando pra se sentir arrumada o suficiente pra dar um golpe. A vítima dela, quando muito, tomou um banho.

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Acho que a verdadeira igualdade social não vai ser atingida só com o aumento da autoestima das minorias. É necessário um investimento na saúde mental do planeta através da redução da autoestima do homem hétero.

Recomendo uma ofensiva direta.

Um cara passou por você numa moto te chamando de gostosa? Pare a moto com um olhar sedutor. Enquanto ele tira o capacete, você faz uma cara de decepção.
"Puxa... Desculpa, eu até tava a fim, mas... Você podia cuidar mais da sua pele, né? Um protetorzinho solar..."

Um senhor tenta furar sua fila no caixa do supermercado como se tivesse todo o direito do mundo? Cutuque-o no ombro e diga:
"Moço, com licença, vo-- Nossa, senhor, que mau hálito!"

Aquele cara super cheio de si não para de interromper suas ideias no meio de uma reunião? Dê uma risada condescendente e diga:
"Tá bom, querido! Agora deixa a gente falar sério."

E quando um homem muito cheio de si lhe mostrar os genitais, NUNCA, NUNCA reaja de outra forma que não seja um olhar de frustração e um:
"Ah... Pôxa... Ok..."

Eles que fiquem neuróticos e preocupados em agradar todo mundo o tempo todo.
Não dou um mês pro planeta estar diferente.

24.12.17

Três contos de Natal

1 - UM CONTO DE ABANDONO

Setecentos e cinquenta quilômetros de distância me separam da minha família, mas esse é um abisminho pequeno perto de como eu tenho me distanciado deles de uns tempos pra cá. Eu assumo a culpa, mas deixo acontecer. Esse distanciamento me parece necessário, porque na minha opinião a vida obedece essa sequência:
1 - Infância, em que seus pais são super heróis e você se sente culpado por tudo o que acontece de ruim na sua casa.
2 - Adolescência, em que você odeia seus pais porque deram um computador pro seu irmão enquanto você, que estudou de verdade, ganhou um tapinha nas costas.
3 - Jovem adulto, em que você reconhece  o trabalho que seus pais tiveram e passa a vê-los como super heróis novamente.
4 - Vida adulta de verdade, em que você percebe que é muito mais cômodo botar a culpa nos seus pais, que eles fizeram algumas cagadas mesmo e que você nunca vai perdoá-los de verdade por terem dado aquele computador pro seu irmão enquanto você realmente se esforçava pra ganhar um pouco de carinho.

Eu estou na fase de me distanciar pra economizar energia, mas Jesus me perdoe, como bate a culpa de decidir ficar em casa em vez de visitá-los no final do ano. Sim, eu ia passar metade do tempo brigando com eles e com vontade de chorar, mas não é disso que se trata o Natal?

Vou manter essa tradição viva por brigar comigo mesmo, depois de ingerir a quantidade absurda de besteira que eu comprei no supermercado ontem.
Depois, provavelmente, eu vou beber uma garrafa de vinho inteira e mandar uma mensagem de áudio no grupo da família falando "EO AMO MOITO TODOS VECÊS! QUERIA ESTAR AÍÍÍGH!".

Porque essa é uma temporada de amor, e amor significa carinho alcoolizado e um pouquinho de hipocrisia.

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2 - UM CONTO DE ABUNDÂNCIA

Eu já passei natais sozinho em casa antes, e eles foram muito bons. Coloquei as sonecas e os seriados em dia lindamente, mas esquecia de uma prevenção básica: a comida.

Natal triste é natal sem comida, e isso não é uma mensagem humanitária. Estou falando do meu próprio estômago e da vez que eu esqueci que o supermercado fecha no dia 25. Passei o dia a miojo e água, e esses alimentos são feitos para o cotidiano, não para datas especiais.

Não esse ano. Esse ano eu fui ao mercado já no dia vinte e três, e gastei uma pequena fortuna em todas as coisas que fariam minha nutricionista dar três saltos mortais pra trás tentando me impedir de comer.

Bolo, biscoito, uma seleção de pizzas congeladas, batata frita, um pacote de alguma coisa com nome em francês que estava pela metade do preço por estar próxima da validade e me fez dizer "Pourquoi pas?". Eu poderia acabar com o problema da desnutrição no Brasil com toda essa comida, e substituí-lo por um problema de obesidade e pressão alta.

Ainda assim, minha tia me mandou uma mensagem hoje de manhã:
"Flávio, eu fiz doces! Certeza que você não consegue uma carona?"
Filha da mãe! Quer dizer, da avó! Ela sabe meu ponto fraco! Ela sabe onde o meu sofrimento bate, ela sabe onde eu não sou capaz de controlar meus atos.

Ela sabe que eu sou capaz de viajar setecentos e cinquenta quilômetros por um bom Chico Balanceado. Diabos, ela sabe que eu iria a pé até o Maranhão por um bom pudim.

Mas já era tarde demais. Não dá mais tempo de ir, nem de ônibus, nem de carona.
A vida adulta é aprender a renunciar. Mas não renunciei à muita coisa.

Esse ano, eu tenho meus próprios doces.

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3 - UM CONTO DE GENEROSIDADE

Alguma coisa deixa as pessoas meio desesperadas quando elas sabem que você vai passar o Natal sozinho.

Fico comovido com a generosidade. A frase que eu mais ouvi na última semana foi "Você quer passar o Natal lá em casa? É um bando de doidos, mas tem comida!".

Dá pra perceber o quanto essas pessoas me conhecem, porque elas utilizam o argumento matador da oferta de alimentos, mas eu fico encucado com a outra parte da pergunta. Por que todas essas pessoas fazem questão de lembrar que tem um bando de doidos em casa?

Toda casa tem o seu próprio bando de doidos. Acho que o governo nem te deixa ter uma casa se ela não abrigar um bando de doidos.

Eu tenho um bando de doido aqui no meu apartamento nesse exato momento, e são só minhas múltiplas personalidades brigando por quem vai tomar o controle do meu corpo no momento em que a pizza congelada ficar pronta.

E, bando de doidos por bando de doidos, eu tenho meus próprios doidinhos lá no interior que estariam muito contentes de dividir seus pudins e dramas pessoais comigo no dia de hoje.

Estar com outros doidos me parece um pouquinho de traição.

Mas eu retribuo a generosidade: Se alguém não tiver onde passar o Natal, fique à vontade para encontrar a minha família no interior. Diga que foi enviado por mim. Faça o que eu faria: abrace meus primos, coma o doce que a minha tia fez e brigue com o meu irmão por algum motivo fútil.

Só uma condição: se ganhar algum presente, favor encaminhar para o meu endereço. É o único apartamento do prédio com a luz acesa, um cara de cueca comendo pizza congelada com o fone de ouvido no último volume, tendo um feliz, feliz, feliz Natal.

19.12.17

Mortos de pressa


Todos desejamos morrer.

A morte vem de fábrica no HD do ser humano. Nosso sistema operacional é todo planejado em função dela: sentimos fome e comemos para não morrer, transamos pra que a espécie não morra e andamos em duas pernas porque nossos antepassados distantes que faziam o mesmo morriam menos.

Ao mesmo tempo que não queremos morrer, sabemos por padrão que a morte é uma etapa essencial da vida. Uma vida bem vivida, ou um self atualizado, só existe por completo tendo a morte como elemento final.

Ninguém quer morrer logo, mas existe o desejo inconsciente de que a morte coroe a nossa experiência. A morte é um desejo do qual a gente foge por saber que é inevitável encontrar.

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A morte é o único impulso humano que vem por delivery.  Não precisamos buscá-la: ao seu tempo, ela nos encontra.
E é justamente ter a certeza de que seremos encontrados pela morte que nos faz andar na direção oposta.

É como o ciclo dos dias: a gente sabe que o sol vai se pôr, então aproveita bem a luz do dia. O dia pode parecer curto, mas traz consigo a paz de não ser interminável.

Ao menos esse era o ciclo, quando a vida era um processo longo e monótono, com menos entretenimento e com meia dúzia de parentes morrendo em casa a cada década.

Tínhamos paciência com a morte pela naturalidade com que ela poderia vir a qualquer momento.

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Não mais. Temos medicina o suficiente pra adiar nossa morte por mais e mais tempo, e o processo em si acontece hermético, da cama de um hospital diretamente pra um caixão coberto de flores.

Por outro lado, nossos desejos estão sendo atendidos muito mais prontamente. A informação é instantânea, o entretenimento está ao alcance dos dedos, a pizza chega em trinta minutos ou não pagamos pela entrega.

Ficamos viciados em ter nossos desejos atendido prontamente.

E é por isso que tanta gente tem se suicidado.

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No momento em que a vida vira um jogo neurótico em busca de satisfações imediatas, deixamos de saber como lidar com uma angústia não atendida.

Todo comichão deve ser cutucado, toda fome deve ser satisfeita, todo buraco precisa ser estufado o mais rápido possível, porque não sabemos mais lidar com a ausência de uma solução imediata.

Nada mais é a longo prazo.  Nem a morte, que costumava ser um investimento feito ao longo da vida.

É aí que o suicídio se torna apetitoso.

Em um momento de crise, em que todos os outros prazeres imediatos estão suspensos, a morte se transforma em um prêmio, a possibilidade da satisfação imediata, a resolução definitiva de uma grande angústia.

Que outro produto oferece isso, se não o suicídio?

As causas dos transtornos mentais são muitas, e nem todos os sofrimentos vem da pressa, mas certamente nos mataríamos muito menos se soubéssemos esperar um pouco mais.

Em algum momento, a satisfação nos alcança - e a morte também.

18.12.17

Muito simples

A vida não é difícil.

Você só precisa aprender o máximo que pode, mas sem perder a ingenuidade; encontrar um trabalho que te sustente, mas faça sentido, sabendo que não se trata de só trabalhar o tempo todo; fazer amizades profundas e sinceras, mas manter um certo grau de independência; se dar prazer, mas não de um jeito imoral, ou hedonista, ou que engorde; permitir-se envelhecer tranquilamente, mas usar protetor solar todo dia; aceitar que as coisas não são do seu jeito, mas lutar pra que elas sejam; levar o que está ao seu redor muito a sério, mas sem ficar neurótico; distribuir amor, mas aceitar o ódio quando ele aparece; apreciar a arte sem se cobrar pra ser um artista genial; fazer aquilo que está ao seu alcance, mas sendo completamente inovador e deixando um impacto relevante num mundo com sete bilhões de outras pessoas...

É a gente que complica.

17.12.17

Soverte

Nunca erre uma palavra perto de mim. Eu tenho um apego infantil ao erro e não vou deixar de insistir nas piadinhas, por mais boba que a confusão tenha sido.

“Eu chamei a Marcela pra tomar um soverte”, diz alguém, tropeçando na palavra.

“SOVERTE?”, eu respondo, rindo.
“Ops, sorvete!”, corrige a pessoa rapidamente, antes de continuar. “E ela me falou que está perdeu todo o trabalho do mês quando o computador estragou.”

“Todo o trabalho do mês?”, eu finjo indignação, “Deve ter dado vontade de enfiar um soverte na testa!”

A pessoa ri amarelo, mas continua.

“Então, ela teve que explicar tudo pro chefe depois. Ela chegou a ficar quente, pingava suor!”

“Suor?”, eu não desisto, “Melhor tomar um soverte pra se refrescar, né?”

Eu sou insuportável.



Não é por mal. Essa coisa chata de se apegar ao erro e colocar os outros pra baixo é um hábito dos piores, mas não é algo que sai com a intenção de machucar ninguém.

Infelizmente, machuca.

Fiz um texto outro dia contando desse jeito de agir e bastante gente falou “Tá, muito interessante, mas como se livrar disso?”. Pois é, como efetivamente virar a chavezinha que critica os outros pra uma chave mais positiva?

Todo hábito começa em algum lugar – normalmente dentro de nós. E é olhando pra dentro que a gente consegue identificar o problema.

Qualquer pessoa que critica muito os outros tende a se criticar muito. Eu, por exemplo, não suporto errar uma palavra. A palavra é meu ofício e eu fico muito frustrado quando erro alguma coisa nesse aspecto.

Isso gera tanta pressão dentro de mim que, quando alguém erra também, eu preciso aliviar esse desconforto interno apontando para um erro de fora.

Quanto mais pressão interna para acertar, mais forte o mecanismo de se aliviar criticando o erro de quem está perto da gente.

Agora pense naquela pessoa que critica todo mundo, que sempre tem uma palavra mordaz sobre o peso, a aparência ou o comportamento de qualquer um que cruze o seu caminho.

Imagine o quão desconfortável ela deve estar.



Muito bem, mas de onde vem a autocrítica? Como parar de se colocar pra baixo também?

Toda voz interna já foi uma voz externa. Tudo o que a gente fala com a gente mesmo começou com algo que alguém já falou pra gente. Infelizmente, como somos cercados de muita negatividade, as vozes que a gente internaliza tendem a ser críticas também.

Por isso, ajuda muito identificar qual a origem dessas vozes. Tente identificar que tipo de críticas você faz a si mesmo. Você reclama consigo mesmo da aparência? É do tipo que não pode passar por um espelho sem achar um defeito? Ou você não se acha inteligente, e grita “Burro!” consigo mesmo toda vez que toda uma atitude errada?

Identificando qual o padrão da crítica, recorra ao seu passado: Quem te desaprovava por essa característica? Quem você gostaria de impressionar corrigindo esse aspecto da sua personalidade?

Simplificando: Quem você quer agradar quando tenta tanto assim ser perfeito?

Essa pessoa vale esse esforço todo?



Resolvendo mentalmente suas questões com essa(s) pessoa(s), é bem provável que você consiga se tolerar melhor por não ser perfeito.

Perdoar-se pode ser o melhor caminho para parar de criticar tanto a si mesmo. A vida melhora muito quando a gente entende que não vai acertar o tempo todo, e deixa de colocar tanta pressão para que todo mundo acerte.

Sem tanta pressão interior, não vai existir tanta necessidade de se acalmar apontando os erros dos outros.

Agora, se continuar tendo problemas com isso, me avise! A gente sai pra tomar um soverte e conversa a respeito.

14.12.17

Biscoito

 Alguém comenta sobre qualquer coisa de decente que fez na vida e lá vem o comentário:

"Tá querendo biscoito?"

Algo tipo "É, panacão, tá sendo um ser humano decente só pra ganhar aplauso, é?". Que argumento! Destruiu a pessoa, hein? Tá mais lacradora que a Claudia Leitte.

Só que se você tira sarro do comportamento de outra pessoa insinuando que ela só está querendo aprovação, isso só diz o quanto você considera a aprovação um componente necessário pra tomar uma atitude.

Se a outra pessoa não fez o que fez querendo aprovação, seu comentário não funciona. Pode guardar o biscoito pra você.

Sem contar que o certo é bolacha.

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Mais do que o desvio de dinheiro nos estádios da copa.
Mais do que os supertemplos da Universal.
Mais do que a chegada do Temer ao poder.

A maior corrupção em andamento no Brasil hoje é a dos sexagenários nas redes sociais. Nada, absolutamente nada, do que uma pessoa com mais de 60 anos fala no Whatsapp é sincero.

Aquele tio que manda correntes falando horrores de como o Lula é um cachaceiro bandido? Ele é o mesmo que tem uma segunda família em outra cidade e bate na mulher quando bebe.

Aquela tia que manda BOM DIA FAMÍLIA pra todo mundo, todos os dias? Ela não está interessada em se você teve um bom dia. Se você conta como foi seu dia, ela faz questão de contar que teve um pior.

Aquele chá que emagrece quarenta quilos em dez dias que a sua tia compartilhou no Facebook? Ela NUNCA tomou!

Mas o pior, o pior de longe, de todos esses crimes, é o da tia-avó que só compartilha receitas. Você fantasia que na casa dela só vai ter a mais fina seleção de quitutes, e o que ela te oferece quando você visita a casa dela? Bolacha!

BOLACHA!

E, obviamente, o certo é biscoito.

8.12.17

Suicídio e graça

Morro de inveja de quem sabe contar uma boa piada.

Eu sou pior do que uma pessoa que não é engraçada: eu sou uma pessoa que tenta ser engraçada, e nada é mais triste que isso.
Meu timing falha, minhas piadas não são fáceis de entender e minha dicção é pior do que a da Tatá Werneck depois de levar uma picada de vespa na língua.

Mas, como um bom tiozão em potencial, eu me esforço.

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Pouco depois de montar meu primeiro consultório, levei um golpe de uma sócia e cheguei a ficar sem ter onde morar.

Quase precisei desistir de tudo e voltar pro interior e morar com meus pais, mas tive amigos legais o suficiente pra me ajudarem a arranjar um lugar pra morar e um emprego que pagasse melhor do que os bicos que eu fazia na época.
Chacoalhei a poeira e segui em frente. Aquilo não ia me derrubar.

Eu já sabia que não ia gostar muito daquele emprego, mas se ele fosse o preço de seguir morando na cidade que eu escolhi e perto das pessoas que eu escolhi ter na minha vida, era ali que eu ia investir minhas energias.

O primeiro dia de trabalho foi massante, torturante, cansativo. "A gente se acostuma com qualquer coisa", eu repetia pra mim mesmo.

No final do expediente, fui dar uma caminhadinha pra espairecer. Telefonei pro meu então namorado tentando desabafar e, no meio da ligação, fui assaltado. Levaram meu celular, minha carteira com todos os meus documentos e o dinheiro que eu tinha recebido de adiantamento naquele dia.

Merda, né? Mas acontece. Bola pra frente.

No segundo dia, eu somei a frustração do trabalho bosta com o assalto, mas consegui enfrentar o dia tranquilamente. Só fiquei um pouco chateado que meu ex não ligou nem tentou entrar em contato de outra forma depois de ter me ouvido sendo assaltado.

Acabado o expediente, já que não tinha mais nada que pudessem me roubar, fui fazer outra caminhada.

Fui atravessar a rua e dei de cara com o meu namorado ficando com outra pessoa. Eu não consegui reagir: cumprimentei e voltei, caminhando calmamente, pro meu outro emprego.

Fui até a sala onde meus amigos estavam, perguntei se eles podiam conversar um pouquinho e caí no choro antes de terminar a frase. Eu soluçava, eu tremia, eu perdia a voz.

Eu nunca tinha desabado daquele jeito.

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Juntando os problemas todos com aquela depressãozinha marota que tá sempre à espreita querendo dar o bote, os meses seguintes foram tenebrosos.

A sensação era de fracasso em todos os aspectos. Eu estava sem grana, num emprego ruim, sem coragem pra sair na rua por medo de mais um assalto, sem perspectiva de mudança... e corno.

A vida estava muito, muito sem graça.

Foi aí que eu decidi me matar.

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Planejar se matar é muito mais difícil do que parece.
Eu não tenho armas de fogo, sou desajeitado com facas (sempre que tento cortar um legume acabo me machucando, se eu tentasse cortar os pulsos ia acabar fatiando uma cenoura por acidente), não sou daquelas pessoas que tem muito remédio em casa...

Me veio à mente me enforcar.
Dei uma olhada pela casa e notei como eu tinha dois problemas:
1 - eu não tinha corda
2 - nenhuma parte alta da casa tinha espaço pra amarrar uma corda com segurança.

Fiquei parado um tempo na porta do banheiro, olhando pro cano do chuveiro e imaginando se daria pra me matar arrancando os fios de luz dali e amarrando no cano mesmo.

Foi quando me ocorreu o pensamento de que, já que eu ia me matar mesmo, eu podia pelo menos passar um tempo fazendo tudo o que eu bem quisesse, sem me preocupar com as consequências.

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Tá, e o que é que eu sempre quis fazer que eu nunca tive coragem?
Bem... Eu sempre tive curiosidade de subir num palco. Já tinha feito muita análise até então pra associar essa vontade a um desejo infantil de atenção e um narcisismo, mas naquela hora isso não importava. Eu ia me matar mesmo, foda-se a análise.

Me cadastrei numa noite de open-mic num clube de comédia de Curitiba. A data era pra quinze dias depois daquilo.

Eu tinha quinze dias para pensar em algo engraçado e não me matar.

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Fiz pilhas e pilhas de rascunhos de coisas que me pareciam engraçadas, mas nada me parecia muito interessante. Acabei escolhendo a opção mais inócua de todas, uma brincadeira com como algumas pessoas tem carisma e outras simplesmente não tem.

Num trecho do stand up, eu comparava a Ivete Sangalo (com carisma) com a Claudia Leitte (sem carisma), e dizia como a Claudia Leitte podia doar medula óssea pra uma criança que ia ser acusada de golpe de marketing, enquanto a Ivete podia derrubar uma criança de um pŕedio que o comentário geral seria de "Eita, que molecona desastrada!".

Nada muito engraçado, mas servia.

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No dia da apresentação, duas amigas me acompanharam. Eu bebi um chope e fiquei torcendo pelo melhor.

Não era só uma questão de conseguir ser engraçado: minha vida dependia daquilo. No fundo, no fundo, eu tinha alguma esperança de que aquilo me desse alguma energia pra viver.

Subi no palco e parecia que eu estava fora do meu corpo, me assistindo. Não conseguia enxergar nada, com as luzes fortes na minha cara.

"Simplesmente faça", eu falei na minha cabeça, pra me motivar, e simplesmente fiz.

Vomitei as palavras uma depois da outra, vorazmente. Acabei meu texto e saí do palco.

No backstage, os outros iniciantes me olhavam com cara de "Sinto muito por ter sido ruim".

Eu só sentia alívio daquilo ter acabado.

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Minha amiga filmou a apresentação.
Eu nunca tive coragem de assistir o vídeo inteiro, mas o pouco que eu vi era eu metralhando palavras sem ritmo nenhum:

"Ahurhue ijiejr heruhrau a CLAUDIA LEITTE iahduahifua e MEDULA ÓSSEA ufduauifeui IVETE SANGALO uahiuahda CRIANÇA DA JANELA nfonfaeuf"

Ansioso, eu apresentei meus cinco minutos de texto em menos de dois. Não tinha nenhuma risada na plateia, mas também não dava pra entender absolutamente nada do que eu falava.

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E foi naquele dia que eu me tornei um comediante de stand up de muito sucesso e minha vida mudou!

Mentira. Eu nunca mais tive coragem pra fazer stand up novamente, mas também não me matei.

Segui me dando outras chances de fazer coisas novas. Fui estudar improviso, subi num palco mais vezes e fui tentar me expressar um pouco mais.
Aos pouquinhos, fui reencontrando a graça da vida.

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E foi aí, sim, que eu encontrei a receita da felicidade e nunca mais fiquei triste!

Mentira. Hoje mesmo foi um dia muito, muito difícil e levantar da cama foi um batalha - e dessa vez não tinha nenhuma tragédia pessoal pra botar a culpa. Só os mesmos monstrinhos internos de sempre botando suas caras feias pra fora.

Aí um colega do curso de improviso me convidou pra participar de uma noite num espetáculo junto com ele e... Bem, o que custa esperar mais quinze dias?

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Talvez esse seja o lance das pessoas engraçadas:  quem faz muito esforço o tempo todo pra tentar achar a graça da vida é porque sente, lá no fundo, que ela não tem graça nenhuma.

Mesmo assim, entre a desesperança e a graça, dá pra continuar vivendo.
A vida é mesmo uma piada.

2.12.17

Sofrimentos

Eu não sabia que era possível conviver com uma pessoa por tanto tempo e não sentir absolutamente nenhuma conexão com ela.

Mas foi assim que aconteceu com essa moça, que trabalhou comigo por sete meses. Linda de parar o trânsito, sempre no meio do povo, com o marido e a filha pra cima e pra baixo, ganhando um bom dinheiro e com uma família tão descolada que parecia saída de um comercial de aplicativo de banco.

A gente se cumprimentava todo dia, beijinho no rosto, “como você tá?”, mas era esquisito.

A sensação que eu tinha era a de conversar com uma fotografia de tamanho humano impressa num papelão.

Eu tentava fazer alguma piadinha, ela ria sem parecer ter entendido. Ela tentava me incluir falando “Olha o psicólogo, pergunta pro psicólogo o que o psicólogo acha, psicologicamente!”.

Ela me parecia meio rasa. O que eu achava, no fundo, é que ela não gostava de mim.

De qualquer forma, sempre nos tratamos muito bem.

--

Eu estava matando tempo no quintal da empresa quando nos encontramos.
Minha primeira reação foi de levantar rapidinho, pra disfarçar que eu não estava fazendo nada, mas então lembrei que era aniversário dela.

Fui até ela e dei um abraço. “Feliz aniversário!”

Ela me abraçou forte. Bem forte.
Apertou a unha nos meus braços, de tão forte. Sussurrou no meu ouvido, com a voz agoniada:

“Feliz aniversário um caralho, né? Tão feliz que tá tudo uma bosta.”

Mal deu tempo de estranhar o que ela falou, porque ela continuou, com o sussurro cada vez mais gritado:
“Feliz aniversário mas a família tá uma merda, o casamento tá arruinado e minha filha me odeia.”

Ela afrouxou o abraço e sorriu.
Mais gente chegou perto de onde a gente estava, e estavam começando a reparar na nossa conversa. Começaram a fazer uma fila informal pra dar parabéns pra ela também.

Ela me abraçou de novo, agora sussu-gritando na minha outra orelha.
“Feliz aniversário, mas eu não faço ideia do que fazer dessa merda de vida. Feliz aniversário, mas eu queria estar correndo pra bem longe daqui.”

Ela me soltou e foi sorrindo receber os parabéns das outras pessoas que estavam por perto. Meu braço doía, de tanta força que ela agarrou.

Enquanto eu olhava aquela mulher linda e bem sucedida, à beira de um surto no dia supostamente mais feliz do ano, lembrei daquilo que todo mundo sabe mas acha tão difícil aceitar:

Tem muita gente sofrendo calada.

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Tem aquele ditado-de-meme que fala pra nunca julgar ninguém que cruza contigo, porque nunca se sabe pelo que essa pessoa está passando.

E sim, todo mundo está com algum sofrimentinho ou preocupação, mas tem muita gente com sofrimento muito muito grande andando por aí completamente destruído por dentro enquanto trabalha, conversa e (finge que) se diverte.

O homem de negócios bem sucedido está preocupado com o tratamento de saúde da irmã e tem muito medo de que mais alguém que ele ama morra.

A moça do corpo perfeito está num relacionamento abusivo e tentando criar forças pra contar para a mãe que apanhou.

O colega que recebe os parabéns de todo mundo por ter parado de fumar está sofrendo muito porque sente que perdeu um dos maiores prazeres que tinha e sabe que voltar atrás e acender um cigarro vai lhe fazer se sentir um fracasso.

O primo que sempre foi o nerd da família está cortando um dobrado pra lidar com as ideias suicidas que não saem da sua cabeça depois da frustração de não estar dando conta do ritmo da faculdade.

Deve até existir algum felizardo ou outro que está surfando uma onda fácil, mas hoje em dia? Acho que é minoria.

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Estar sofrendo não necessariamente impede de tocar a vida em frente, até um momento em que o sofrimento seja mais conciliável ou que - imagina que sorte! - as coisas realmente tenham melhorado.

Para passar por isso, alguma coisa em nós precisa acreditar que passar por cima de um grande sofrimento é possível e que vale a pena continuar tentando.

Isso fica muito, muito mais fácil, quando alguém percebe nossa condição e se aproxima, nos escuta honestamente e nos faz sentir menos sozinhos.

Quem sabe um olhar mais atento ao seu redor possa lhe mostrar um sofrimento bem na pessoa que você menos imagina.

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A moça do começo do texto? Chamei num canto, depois de um tempo, lhe entreguei o telefone de um bom psicólogo e sugeri com muito carinho que começasse uma terapia. Disse que isso poderia ajudar a lidar com as dificuldades todas que estava passando, e que ela merecia ajuda pra passar por aquele momento.

Ela não ligou para o meu colega, nem aceitou tocar no assunto novamente quando eu perguntei. A decisão é dela, eu respeito.
Espero que esteja se sentindo melhor.

30.11.17

Regrinha de ouro

Era meu aniversário.

Uma amiga apareceu na festa exibindo a namorada nova, toda orgulhosa. Fui puxar papo:

"Ah, você é a famosa fulana?"

Ela disse que sim, a famosa fulana era ela.

"Você é bonita demais pra minha amiga, viu? Ainda dá tempo de fugir!", eu disse, rindo de um jeito que só dá pra transcrever com "kkkkkkk", de tão escroto.

Nem percebi que podia estar ofendendo alguém.

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Foi só umas duas semanas depois que eu fui perceber que minha amiga estava meio distante e tive um estalo. Liguei pra ela na hora.

"Puta merda, me desculpa por ter falado aquele negócio na minha festa! Eu juro que não tive a intenção! Você é linda e merece muito ser amada por quem você quiser!"

Eu esperava uma bronca, um perdão, mas o que veio foi um "ahn?":

"Que negócio? Nem tô lembrando..."

A sorte de falar merda o tempo todo é que as pessoas começam a desconsiderar as merdas que a gente fala.

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Mas não dá pra abusar da paciência de ninguém.

Eu já tinha percebido faz algum tempo esse meu hábito chato de colocar os outros pra baixo. Sutilmente, piadinhas, e nunca com desconhecidos - só com gente que eu realmente gosto.

Coisas pequenas, nada humilhante, mas aquela pinicadinha desnecessária, tipo "A gente tá comendo demais, né? Cê pensa em fazer uma academia?", ou "Que legal que você não lavou a louça antes de eu chegar, tô me sentindo super especial".

Boçal à beça, mas eu nunca disse que eu era super legal.

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Foi só falando disso na minha própria terapia que me caiu a ficha óbvia.
Por que é que eu só agia assim com gente que eu amo?

Porque eu fazia igual comigo mesmo.

Quando alguém fica perto demais, é fácil confundir as barreiras de onde começa a outra pessoa e onde termina o eu.

Aí, no meu caso, aquela característica quase fofa de autodepreciação assume a forma cruel que verdadeiramente tem.

É muito fácil parecer legal se botando pra baixo.

Te deixa mais aproximável. Soa genuíno. Não intimida.

As pessoas ficam mais confortáveis na sua presença... Até elas chegarem perto demais e sobrar depreciação para elas também.

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É engraçado o caminho que isso tomou: eu só fui perceber o quanto é brutal o que eu faço comigo quando vi o que isso fazia nos outros. Até porque com o outro eu tenho dó, né?

Comigo é chinelada na cara, e tudo bem, o que é isso, se incomodar é frescura. Bola pra frente.

Só que isso não me dá direito nenhum de culpar o outro pela minha insegurança.
Não é culpa da minha amiga e da sua namorada bonita se eu fico completamente intimidado com alguém interessante ao meu lado.
Não é culpa do meu colega que come bastante se eu estou irritado com o tamanho da minha barriga.

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Pois bem, vou começar a me tratar exatamente do jeito que eu acho que os outros gostam de ser tratados.

Vou acordar, olhar para a barriga no espelho e falar "Cada dia melhor!".
Vou tomar café na padaria encarando o rapaz bonito da mesa do lado.
Vou tirar cinquenta reais da minha carteira e entregar pra mim mesmo, porque eu mereço.
Vou lavar meu cabelo com L'oreal, porque eu valho muito.

E, de verdade, vou tentar me botar menos pra baixo.
Assim, quem sabe, eu consiga ser mais legal com as pessoas.

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Agora, se eu virar daquelas pessoas com autoestima demais, insuportáveis de ter por perto... Alguém se importa de fazer um comentário bem maldoso ao meu respeito, pra eu deixar de ser besta?

26.11.17

Workaholics

Estava num bar com uns amigos que vejo pouco e estava atualizando eles sobre a minha vida:

"Eu tô trabalhando quatorze horas por dia", eu falava orgulhoso, num tom calculado para gerar simultaneamente reações de "coitadinho dele!" e "uau, que homão da porra!".

Eu realmente estava exausto. Minha rotina era assim:
Paciente às sete e meia.
Oito e meia, eu corria pro meu outro emprego, fora da área, que por coincidência era bem pertinho de onde eu atendo.
Meio dia e trinta, eu engolia um ovo cozido como um emprego ruim engole seus sonhos, e ia atender outro paciente.
Voltava pro escritório e trabalhava lá até às seis. Depois, atendimentos até às nove da noite.
Aí, escrever e estudar um pouco pra não emburrecer de vez.

Parecia pouco, então comecei a acordar cinco e meia da manhã pra ir na academia, que é pra ser saudável.

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Depressão é moda da estação passada. O mal do século é a exaustão.

Quem não está no trabalho, está no trânsito a caminho do trabalho, ou fazendo um curso pra melhorar no trabalho, ou tendo um trabalhão pra conseguir conciliar trabalho com um momentinho de prazer.

Ninguém mais para.

Sei lá de que jeito, ficamos com a impressão de que só é bem sucedido quem está trabalhando vinte e quatro horas por dia, ou que sucesso e felicidade são coisas que você precisa trabalhar duro pra conquistar e seguir trabalhando para manter.

Aí saímos por aí, exaustos, desfilando o orgulho que temos de viver como escravos.

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Até dormir virou obrigação.

Manda logo um Rivotril, que é pra eu cair no sono logo e tirar essa tarefa da frente de uma vez.

Não é à toa que tem tanta gente com insônia.
A gente procrastina as coisas que não quer fazer, as coisas que a gente só faz por obrigação.

Enquanto dormir for tarefa e não prazer, vamos seguir assistindo mais um episódio de qualquer coisa antes de fechar os olhos.

E, depois de não dormir, enfia café goela abaixo, que a produtividade não pode parar.

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Está tudo na palavra: Workaholic.
Viciado em trabalho. Viciado. E nenhum vício é bonito. Quer dizer, uma pessoa fumando num filme em preto e branco é estilosíssimo, então vou usar outra palavra: nenhum vício é saudável.

Uma pessoa viciada em trabalhar pode ser tão doente quanto uma pessoa viciada em beber.

O problema é que os vícios são lentos
Ninguém bebe uma vez e sai quebrando todas as mesas do bar, xingando quem vê pela frente, condenado a uma eternidade de vício.

Criar um vício é um processo que demora e se constrói aos poucos, misturando o prazer com a ilusão de controle. A ilusão de prazer. A ilusão de vantagem.

As mesmas ilusões que alguém sente ao trabalhar 15 horas por dia.

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Engraçado que quando eu larguei o emprego que me dava alguma segurança financeira (e só larguei depois de juntar dinheiro suficiente pra manter essa segurança por um tempo enquanto me dedicava à clínica), meu trabalho melhorou muito.

Surpreendentemente, as pessoas preferem ser atendidas por uma pessoa acordada e atenta em vez de um psicólogo com olheiras imensas, bocejando o tempo todo e com a disposição de um zumbi.

Com muito menos coisa pra fazer, meu trabalho finalmente prosperou.

Sucesso!

Aí, antes que eu me desse conta, tinha entupido minha agenda novamente, com horários estúpidos que ninguém aceitaria em sã consciência. Lá estava eu, exausto de novo.

Todo vício tem suas armadilhas.

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O irônico da coisa é que a gente trabalha tanto em busca de uma sensação de sucesso, de completude, de chegar em algum lugar... sem ver que perceber isso é completamente impossível se você não para de trabalhar.

Sucesso só pode ser percebido a partir de um ponto de descanso, uma pausa em que você consiga ter perspectiva das coisas. Se você não descansa, seu sucesso é uma árvore caindo na floresta sem ninguém por perto: passa despercebido.

Sem contar que, se for reparar bem, sucesso mesmo é poder descansar à vontade.


24.11.17

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abençoados. Tem todo um submundo de sofredores em tempo integral que, por conveniência, deixamos esquecidos num canto da memória.

São os doentes, os abandonados, os esquizofrênicos, os pulmões-de-ferro, essa multidão que a gente usa só nos momentos da nossa própria dor, pra relativizar nossa situação e se convencer que não está tão ruim assim.

O engraçado é que, no grupo dos que estão nesse sofrimento grandão, bruto, tem muita gente que dá show na gente sobre como viver com tranquilidade.

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Não sei explicar o motivo, mas quem teve a oportunidade de conviver com alguém com uma doença terminal ou muito grave sabe como é a transformação que um sofrimento desses faz com a pessoa.

Ninguém é herói e ninguém lida com isso sem muita briga, mas em alguns momentos surge uma aceitação que só se atinge num estado desses. É algo um passo além da resignação, como se a aceitação fosse tão profunda que saísse de um mero "Ok, isso está acontecendo na minha vida" e fosse para um "Muito bem, é isso que eu sou agora, e eu vou honrar esse papel que eu recebi".

Então, de alguma forma, misturando um senso de sacerdócio naquele sofrimento todo, a pessoa adquire forças suficientes para seguir o baile sem negar a situação ruim em que está.

Não gosto da palavra "missão" porque ela parece tentar convencer alguém que está muito doente de que ela tinha mais é que sofrer mesmo, mas parece que quem lida bem com problemas tão graves acaba encarando dessa forma mesmo.

Algo como um "Se é isso que me resta, deixe-me enfrentar com alguma dignidade pelo tempo que eu tenho."

Um "aceita que dói menos", se for resumir.

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A gente subestima muito a quantidade de coisas na nossa vida que somos condenados a aceitar.

Não escolhemos nossa aparência, além do corte do cabelo e, tendo grana, aquilo que um cirurgião plástico consegue fatiar. Não escolhemos nossa altura, não escolhemos nossa aptidão física, nem a maior parte dos aspectos de nossa saúde, nem o ambiente em que crescemos, nem nossa família, nem nada.

Nós somos o amontoado de todo o aleatório que fez a gente parar no mundo. O personagem vem pronto.

Daquilo que podemos fazer com aquilo que somos, podemos tirar um pouco mais de liberdade, mas o resto? Só podemos aceitar.

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Viver é aprender a aceitar imposições e mudanças. Só isso.
Por isso que a adolescência é o capeta que é. Todo mundo ao redor parece estar bem ajustado e bonito, e você com aquele pescoção que cresceu antes do resto do corpo, aquela espinha gigante na testa.

E aí você fica com raiva. Chora, culpa os pais, reza, muda a postura tentando disfarçar, faz o diabo.
Mas não adianta: aquilo no espelho é você.

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Ficar adulto não ajuda em nada, porque envelhecer é brincar um jogo de aceitação em que ganha quem aceita que perdeu.

As mudanças vão aparecendo aos pouquinhos, sorrateiras, e você precisa atualizar a listinha daquilo que faz parte de você a cada dia. Você se surpreende quando olha no espelho:

"Essas bolsas debaixo dos olhos não vão mais embora não? Que merda." - respira fundo e tenta aceitar - "Muito bem, é isso que eu sou de agora em diante. Uma pessoa com olheiras e bolas profundas sob os olhos."

Isso pra tudo:
"Joelhos que doem o tempo todo? Bem vindos! Esse sou eu agora: a pessoa que eu era ontem, somada a um par de joelhos que doem o tempo todo."

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É quase como se fosse um guichê de desgraças:
"Aceita que agora você não pode mais dançar como na juventude?"
"Aceito."
"Aceita que agora sua visão não é mais a mesma de antes?"
"Aceito."
"Aceita que sua mãe morreu e você nunca mais vai comer a polenta com queijo que ela fazia?"
"Aceito."
"Aceita esse traste como seu legítimo esposo?"
"Manda ver."

Você envelhece, merda acontece, você aceita.
A cada dia você incorpora o novo e luta pra aceitar que o personagem que você interpreta mudou.

E tem alternativa?

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Tá vendo como é fácil esquecer de quem tá com um problema grave mesmo?
Em dois parágrafos eu fui de pensar em quem tem uma doença terminal pra uma lamentação sobre como é ruim ter rugas no rosto.

Mas a verdade é que ninguém precisa de uma doença grave pra adquirir a sabedoria de quão bonita e impositiva é a missão de ser aquilo que é, mesmo quando você é alguma coisa de que não goste.

É a única forma de dar sentido à vida: tentar conciliar as sinas às quais fomos condenados em um quebra cabeça que, de alguma forma torpe e esquisita, resulte bonito.

Se não resultar bonito, a gente aceita também.

14.11.17

Rituais


Rituais são necessários para marcar qualquer fim de fase na vida. É com o ritual do casamento que a gente se despede da vida de solteiro, com o ritual do velório que a gente se despede da vida, e com o ritual de fazer uma piada machista sem pensar que a gente se despede de metade dos seguidores que tem no Facebook.

Pra marcar o fim da infância, há vários rituais. Os judeus tem seus bar mitzvahs, as meninas tem suas festas de debutantes, meus colegas no interior tinham suas primeiras vezes com uma cabra... Enfim, o ritual varia.

Mas, se para as meninas a menarca inaugura a vida adulta, para os meninos, o fim oficial da infância é o momento exato em que começa a feder o sovaco.

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Meninos são desligados, meninos correm o dia todo, meninos fazem movimentos intensos com o braço direito debaixo do cobertor.
Logo, meninos suam.

Mas meninos também tem muito pouca autopercepção, então demora um pouco até se tocarem que precisam passar um desodorantezinho todos os dias. Os piores odores registrados no mundo são os de cadáveres abandonados, de enxofre queimado e de vestiário masculino cheio de adolescentes.

Alguns demoram pra perceber que o desodorante se passa antes, e não depois, de estar encharcado de suor. Alguns acham que, se suor é um cheiro ruim, desodorante só pode ser um cheiro bom, e por isso se banham em uma piscina olímpica de Axe achando que vão abafar.

Aos poucos, eles vão se acostumando, os hormônios descansam e o fedor vai embora. Mas há homens que passam uma vida inteira sem perceber que fedem. A estes, falta o ritual. São perpetuamente imaturos.

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Na minha família, tínhamos algo além do fedor para marcar nossa saída da infância: acne!

Quase todo mundo tinha muita espinha na adolescência. Os álbuns de família parecem ter sido atacados traças armadas com uma caixa de alfinetes, mas não, é só o jeito que as nossas peles ficaram depois de tanto espremer espinha e cravo.

Eu devia ter uns treze anos, fui lavar as mãos antes de almoçar e reparei que estava com uma espinha enorme na testa. Enorme, como se eu estivesse na metade do processo de virar um unicórnio, como um Hulk que se transforma quando se sente fofo.

Espremi a bicha.

O plotz que uma espinha faz quando explode é um dos maiores prazeres da vida, mas essa em particular tinha muito mais do que o plotz. Ela continuou inchada depois de espremer, cheia de sangue dentro.

Eu, como um homem do campo determinado a secar uma vaca, espremi aquela espinha até o último litro. Dava pra ter salvado um hospital infantil inteiro com a quantidade de sangue que saiu daquela espinha.

Como um sábio, limpei o sangue na toalha branca do banheiro e fui almoçar.

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Minha mãe urrou quando viu:
"Quem diabos sangrou na toalha de rosto inteira?"

Era minha hora de ganhar atenção. Fiz minha melhor cara de coitado e falei:
"Fui eu, mãe..." - pela minha voz, eu estava morrendo de hemorragia - "...eu espremi uma espinha e saiu muito, muito sangue."

Não sei bem o que eu esperava, mas talvez algo como abraços, apoio e gritos de "Você é nosso guerreiro! Você sobreviveu a toda essa perda de sangue!", ou "Meu Deus, filho! Evite ficar com anemia, coma urgente essa barra de chocolate!".

"Se você fizer isso de novo eu vou arrancar seu couro! Que nojo!", disse a minha mãe. Eu sinceramente não entendi qual era o problema. Ela percebeu.

Mães precisam ser ridiculamente didáticas às vezes., então ela me explicou:
"Se alguém limpasse a menstruação na toalha, cê ia gostar?"

Ah, faz sentido. Que vergonha.

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Eu era bem perdido para algumas coisas, mas o desodorante estava sempre em dia, inclusive porque eu era uma criança viada que vendia Avon. Já fedi por muitos motivos, mas nunca por falta de desodorante.

Até ontem.
Saí do banho antes de ir trabalhar, peguei o desodorante e... acabou. Só deu para uma axila. O outro sovaco saiu desprotegido.

"Tudo bem", pensei, "não vou andar muito e posso comprar outro hoje à tarde".

Acontece que justo ontem eu me distraí dentro do ônibus e desci super longe de onde eu precisava ir. Caminhei quarenta minutos, encharcando um lado da camisa enquanto o outro continuava intacto.

Então, me perdoem se eu estou meio fedido.
É um ritual importante pra mim. É hoje que eu amadureço.

13.11.17

Faxineiras

Eu só me senti verdadeiramente próspero na vida quando chegamos num ponto em que não estávamos mais dando conta da limpeza da clínica sozinhos e precisamos contratar alguém pra vir a cada duas semanas fazer a limpeza pesada.

Foi assim que conheci a Lázara.
A Lázara é uma máquina, uma grande máquina alta intensidade, que mesmo depois dos sessenta anos limpa uma casa grande em menos de três horas, usando só um balde, um pano e um rádio AM ligado na estação evangélica.

Reclamar, ela só reclamava de não poder vir mais cedo fazer a limpeza. Começar às oito era muito tarde pra ela, que preferia vir antes para poder emendar outra limpeza depois.

Aliás, um horário com ela era quase impossível de conseguir, porque ela sempre foi disputada pelo bairro todo - e ela nunca parava de trabalhar. Me contaram que ela tinha até uma casa na praia, como se fosse um escândalo uma diarista ter uma casa na praia.

Um dia eu até perguntei pra ela se era verdade:
"Lázara, você vai viajar no feriado?"
"Sim! Vou pra minha casinha na praia!"
"Que bom, descansar um pouco faz bem..."
"É, eu não descanso muito. Primeiro eu tenho que limpar a casa lá, depois eu tenho os meus clientes daqui que também vão pra praia no feriado, então quando eu vou pra lá eu limpo a casa de praia deles também..."
"E aí você descansa?"
"Não, aí eu vou aproveitar pra levantar um muro na frente de casa, que tá precisando..."

Não ouse se chamar de workaholic num mundo onde existe a Lázara.

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O preço que a Lázara pedia pela faxina era tão pouco que a gente deu um aumento pra ela à força, pra conseguir dormir sem peso na consciência.

A diária não era só pra faxina, era também um ingresso pra presenciar a força daquela mulher. Mesmo baixinha e aparentemente frágil, ela levantava móveis pesados como se fossem plumas, usando uma mão só, enquanto a outra mão passava o rodo.

Diz a lenda que ela já levantou uma jamanta de duas toneladas pra limpar uma mancha de óleo que estava embaixo.

Enfim, Lázara era um monstro, uma maravilha de pessoa, daquelas que a gente sabe que não vai saber viver sem.

Até que acontceu de precisarmos viver sem. Ela pediu pra liberar o nosso horário quinzenal com ela, porque ela estava precisando fazer um tratamento na coluna (quem diria que levantar coisas com dezoito vezes o peso do corpo fazia mal pra coluna?) e esse era o único horário que o médico tinha.

Nos outros dias, ela seguiria trabalhando. O motivo pra ela fazer o tratamento? Conseguir pegar o bisneto no colo.

Bisneto, gente, bisneto!

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Saiu a Lázara, entrou a dona Zeli. Outra sessentona.

A Lázara não é dona Lázara porque não gosta, e porque a energia dela já diz quem é que é a dona logo de cara. Já a dona Zeli precisa do dona, porque ela inspira uma coisa mais calma, mais maternal.

Ela não limpa as coisas com a voracidade da Lázara. Ela é a calma em pessoa, passa pano como quem faz um cafuné no chão, leva os panos sujos pra lavar em casa, com cuidado, e traz dobradinhos na limpeza seguinte.

Ela mesma puxa o assunto:
"O meu negócio é criança, sabe?"
"Ah, é, cê cuida de criança também?", perguntei.
"Não, eu sou professora aposentada."

Fiquei surpreso.
"Mas agora ninguém mais quer me contratar. Tô velha. Eu trabalhei na rede de ensino por anos, sou especialista em educação de crianças com deficiência", disse ela como se isso não fosse nada, enquanto esfregava a pia da cozinha, "só que agora não presta pra nada".

Doeu meu coração.

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É por isso que me dá vontade de bater na cara de quem fala "Eu cumprimento da faxineira ao presidente" querendo mostrar o quanto é uma boa pessoa.

Inclusive, se tem alguém com mais honra que o presidente, são essas duas mulheres. Quer dizer, todo mundo tem mais honra que o Temer, mas principalmente elas.

Inclusive, gostaria de fazer uma proposta: Vamos dividir o governo do Brasil entre a Lázara e a dona Zeli.

As duas seriam co-presidentes, e teriam uma ditadura temporária.

A Lázara esfregaria a cara de cada membro do congresso com água sanitária e seria responsável por deixar todas as esferas de governo limpinhas, pra depois organizar.

A dona Zeli gerenciaria a educação e as questões diplomáticas. Seria ela a responsável pelo ousado projeto de tratar gente como se fosse gente - algo que o nosso governo atual jamais faria.

Recomendo fortemente que a gente implemente essa forma de governo.
Minha única condição é que, a cada quinze dias, uma delas seja liberada pra fazer faxina aqui na clínica.

Aí sim, teremos paz.

7.11.17

O fofo

Minha amiga me ligou revoltada.

Ela tinha arranjado um cachinho dos tempos de ensino médio, um menino que estava doido por ela. Ela, recém-saída de um relacionamento mal-sucedido, não estava dando muita corda.

O menino insistiu.

Mandava mensagens românticas, três bons dias por dia, perguntava como estava, oferecia massagem - todo grudento oferece massagem - e falava todos os dias que queria uma chance de levá-la para sair.

Quanto mais ela dizia não, mais ele mandava bom dia. O recorde foram seis bons dias em duas horas.

"Ele não deve ser tão ruim! Ele é fofo!", eu aconselhei.

Minha amiga, tadinha, esqueceu o fato de que meus conselhos são piores do que uma caxumba que desce pras bolas e saiu com ele.

Imagina, se o menino não foi um monstro?

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Não, não foi. O rapaz foi um anjo com ela. Passou horas ouvindo ela falar, elogiando a roupa, os olhos, o cabelo, a atitude.

Foi o genro que a mãe da minha amiga pediu pra eu ajudar ela a encontrar.

No dia seguinte, ela me contou com uma esperança que poucas vezes eu tinha escutado em sua voz:

"Acho que eu vou dar uma chance pra ele. Não senti muita firmeza, mas ele me tratou tão bem!"

Marcaram um segundo encontro.
Já num clima romântico, marcaram para sair com um casal de amigos em comum.

Eu já estava exultante, torcendo pra dar zebra e minha amiga ficar com o menino que tanto tinha desprezado.

(Minha vida romântica atual tem sido vivida através da vida dos meus amigos. Meu coração, hoje, só tem um daqueles arbustos de filme de faroeste girando em falso. Quando alguém tem uma história interessante, eu acabo me empolgando.)

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No dia do encontro, atendi o telefone e a voz dela atingia decibéis nunca atingidosp ela voz humana antes:

"Você acredita que eu tava pronta, maquiada, esperando ele me buscar, e ele me manda mensagem falando que estava cansado e não ia? Que, se eu quisesse, podia ir na casa dela pra gente dormir junto?"

Não sei quem estava mais frustrado, ela ou eu. Eu tinha botado tanta fé naquele moço, ele me dá uma dessas?  Deu vontade de ligar pra ele e dar uma bronca.

"Se a sua estratégia é a fofura, amigo, seja fofo até o final. Se você for dar uma de difícil na última hora, vai morrer na praia. Na areia fofa, como era pra você ter sido."

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"Ah, mas ele é um fofo com momentos de cuzão. Continua fofo!"

Não é uma questão matemática. É uma questão de consistência.

O que mantém muita gente em relacionamentos com cuzões (estou usando essa palavra porque é o termo técnico utilizado pela minha linha teórica favorita, a psicanálise de boteco) é que o cuzão não é sempre cuzão.

Inclusive, o cuzão consistente merece algum respeito. Ele é estúpido sempre, ninguém espera algo diferente.

O pior cuzão é o que consegue peidar cheiroso de vez em quando, o cuzão ocasionalmente fofo. Ele dá suas mancadas, mas depois te dá uma noite ótima, um chamego no pescoço inigualável, um afeto geralmente reservado a filhotinhos de Golden Retriever.

De novo, o problema não está no defeito: está na inconsistência.

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Toda essa história e os palavrões todos são para defender a importânia de alguma consistência emocional.

Todo mundo tem seus momentos de oscilação, mas o caráter e a evolução acabam sendo avaliados pela média geral - e essa média depende muito de como você age com constância.

Uma pessoa não é boa por ser boa o tempo todo, nem por ser incrivelmente boa tudo de uma vez.

Uma pessoa é boa quando é consistentemente boa. Ela não precisa ser perfeita, mas o ideal é que você consiga apostar que, a qualquer momento, você pode aparecer de surpresa e flagrá-la sendo boa, e que a margem de erro não seja tão grande.

É aí que você consegue confiar nela, quando sabe bem que tipo de coelho sai daquele mato.

Água mole em pedra dura só fura enquanto continuar sendo líquida.

27.10.17

A culpa não é sua


Quem procura terapia e lê textos sobre saúde mental na internet geralmente é o tipo de pessoa responsável demais, que quer acertar em tudo, que não quer incomodar, que sente que precisam fazer alguma coisa para receber amor.

Esse texto é para vocês, neuróticos queridos.
Pessoas espertas, que viam os outros falando mal de gente que era folgada, e assumiram desde cedo muita responsabilidade.

Vocês que são maduros. Que sabem cuidar de si. Que resolvem qualquer situação. Vocês que mal podem ver uma responsabilidade que já vão assumindo.

Vocês estão errados.

--

A gente fica desse jeito quando tem a sensação de que, se não cuidar de tudo o tempo todo, as coisas vão dar errado.

É difícil abrir mão desse ponto de vista, porque viver assim funciona!

Você vai bem no trabalho. Seu chefe te adora. Não te dá um aumento há seis anos, mas sabe que você entende a situação da empresa. Não tá fácil pra ninguém, e você assume a responsabilidade de apertar os cintos por ele.

Sua família pode contar com você. Seus irmãos tem a vida deles, então é você que precisa levar sua mãe para todas as consultas médicas. Você reclama, mas se você não fizer, quem faz?

Você está cansado, mas mora bem, não tem tanta coisa dando errado na sua vida (pelo menos comparado aos seus parentes e amigos menos responsáveis) e esse é a vida, não é?

Até que você surta.

--

Quem já teve uma crise de ansiedade sabe do que eu tô falando.

É tanto controle, é tanta coisa pra resolver, é tanta pressão de todos os lados que o corpo começa a gritar "PERIGO!".

E é um perigo real, porque como é que o mundo vai andar se você não estiver cuidando de ABSOLUTAMENTE TUDO O TEMPO TODO?

Essa sensação é destruidora: você passou a vida inteira tentando cuidar pra que as coisas não desabassem, e elas acabaram desabando por excesso de cuidado.

Você se perde. O corpo não dá mais conta, as emoções não conseguem mais se organizar. Por falta de opção, você precisa largar suas responsabilidades.

E qual é o tamanho do tapa na sua cara quando você vê que, mesmo sem você cuidar de tudo, o mundo segue em frente.

Você não era tão importante assim.

--

Então confessa aqui pra mim, meu colega neurótico: Você sempre teve inveja de quem levava a vida sem se preocupar.

Sempre quis aproveitar a vida como aquele seu irmão que não fazia a tarefa de casa quando sua mãe mandava, levava bronca e ainda assim não estava nem aí.

Sempre teve inveja da sua amiga que não se importava em se arrumar toda pra encontrar o namorado, enquanto você fazia o maior esforço pra estar apresentável, e ainda tinha mil homens no pé.

Ou do colega que saiu tocando violão em vez de fazer faculdade, e até que tá se dando bem na vida.

Essas pessoas que vivem a vida sem culpa nenhuma, enquanto você se culpa de cada passo que dá fora do caminho estabelecido.

Posso falar uma coisa? A culpa não é sua.

--

Amigo responsável, você sabe que tem gente se aproveitando do seu desejo de deixar tudo na mais perfeita ordem. Gente que vai tentar te fazer se sentir culpado se você não fizer até a parte deles do trabalho.

Mas se as coisas derem errado quando você abrir mão de ser o único responsável por elas, isso quer dizer que elas já estavam desorganizadas desde o começo.

Talvez você tenha até atrapalhado a boa organização dessas coisas quando assumiu todas as responsabilidades pra si mesmo.

Seja responsável, mas seja responsável por ir até onde pode. Seja responsável por dar limite pros outros, e permitir que eles cumpram com a responsabilidade que é deles - não sua!

Deu errado? Problema deles. A culpa não é sua.

--

Não se preocupe, você não vai se transformar num vagal. Sua responsabilidade não vai sumir completamente.
É questão de estrutura. Você é formiga, não é cigarra.

O que não significa que você não pode relaxar um pouquinho e agir como se os problemas do mundo não fossem todos com você. Você pode, inclusive, usar sua neurose pra planejar bem certinho como você pode se divertir e ainda assim ter uma aposentadoria saudável.

Use sua neurose ao seu favor. As cigarras podem até cantar o dia todo, mas só as formigas sabem o que é realmente doce.

23.10.17

Aumentando o volume

Depois de um debate em sala de aula na faculdade, uma professora me chamou - uma professora incrível, que eu respeito muito até hoje.

"Flávio, não me entenda mal, tá? Mas eu já vi alunos brilhantes saindo da faculdade e não conseguindo emprego porque se expuseram demais nas aulas. Você revela muito de si, as pessoas se aproveitam disso. Toma cuidado, tá?"

Fiquei triste pensando no que essa professora deve ter sofrido na carreira dela pra fazer um gesto desses. Ela realmente estava tentando me proteger.

Mas eu, vindo do interior, quebrado, criado testemunha de Jeová, homossexual assumido e sem contatos na capital, ia ganhar o quê por me esconder?
Pra quem está por baixo no jogo, não adianta cuidar do personagem para parecer algo mais aceitável.

A gente sabe que o jogo não está ao nosso favor.

--

Tentar acomodar as expectativas sociais nas nossas atitudes é - pelo menos no nível do raciocínio - um ótimo negócio: se a minha experiência de vida é considerada incômoda, eu escondo essa parte de mim e fica tudo bem.

Mas não fica. Esconder uma parte de si - qualquer parte, de uma sexualidade a uma opinião - enfia a gente numa panela de pressão emocional.

"E se descobrem que eu sou gay?"
"E se ficam sabendo que eu tenho passagem pela polícia?"
"E se descobrem que, na verdade, eu não sou esse trabalhador que eu mostro pro mundo, e gosto mesmo é de ficar tomando cerveja no bar?"

E toma gasto energético pra tentar se esconder.

--

É questão de transformar a vergonha em orgulho. Quando a gente revela de verdade o que é, ganha a posse da nossa história. Fofoca de coisa que todo mundo já sabe não tem força.

Contemos nossa história antes. Mostremos nosso defeito como bandeira. Quanta coisa a gente não aprendeu sendo diferente de todo mundo?
Pra depois querer jogar isso fora, pra parecer igual a todo mundo? Só porque um monte de gente igual não suporta uma diferencinha?

Eles não vão gostar da gente de nenhum jeito.
Adianta perder o próprio poder por causa disso?

--

O mais duro de tudo é que a bandeira da ignorância tá lá, hasteada, com um monte de boçais morrendo de orgulho dela e chamando a gente de errado!

E qual a reação que muitos tem? De se esconder mais. De justificar. De "não é bem assim".

Frescura. Melhor bancar o que somos.

Nós somos, sim, os subversivos. Nós somos, sim, os que querem destruir a família tradicional - porque sabemos que esse conceito de família não faz bem a ninguém. Somos os que querem que transexualidade e homossexualidade sejam consideradas coisas normais, sim - porque são! Os que acham que religião demais faz mal - porque faz!

Somos os viados, os boêmios, os malucos, os que não gostam das coisas do jeito que estão e acham que tem mais é que mudar tudo mesmo.

Nós temos a opinião que temos porque apanhamos na cara, porque sofremos com a opinião oposta, porque estudamos o suficiente pra achar o que achamos.

Pra quê seguir tentando se explicar tanto, e tentando se justificar pra quem acha que direitos humanos e arte são coisas de pedófilos comedores de criancinha?

Diminuir nossa opinião é jogar nossas histórias no lixo. É abrir mão da potência que adquirimos com muita dor.

E daí que estão reclamando do nosso barulho? É hora de aumentar o volume.

20.10.17

Cumprimentos

Já existiu um mundo em que, guerras e traições à parte, havia mais honra entre os homens. Havia um código, um sinal universal que garantia a comunicação e o respeito entre todos os portadores do sexo masculino: o aperto de mão.

O que começou como uma maneira de mostrar mutuamente que ninguém tinha uma espada na mão dominante, e que qualquer assassinato que ocorresse ali aconteceria em termos mais justos, virou uma linguagem. Apertar mãos com a pressão correta, pelo tempo suficiente pra indicar conforto e firmeza, era uma capacidade a ser dominada para conquistar o respeito em sua comunidade.

Em poucos segundos, se determinava quem era o mais forte da relação, quem dominaria a conversa, quem sairia ganhando na ransação do momento.

Eram tempos mais simples, até que um cretino resolveu cumprimentar com a mão em pé e o dedão pra cima, em vez de pra frente.

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A hora em que um homem inventou de cumprimentar outro de uma maneira diferente que o aperto de mão tradicional foi o equivalente moderno da Torre de Babel.

Nós, homens, não falamos mais a mesma língua na hora do cumprimento.
Olhamos invejosos para as mulheres e seus beijinhos no rosto. Quanta intimidade! Quanto conforto consigo mesmas! Quanta confiança na certeza de que a outra mulher não está com uma espada escondida, pronta para matá-la!

As mulheres dominam todas as outras formas de comunicação muito melhor do que nós, o aperto de mão era tudo o que a gente tinha.

Mas nós, homens, temos tradição em não saber apreciar o que está - literalmente - em nossas mãos.

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Toda interação social entre dois homens, nos dias de hoje, começa com momentos de ansiedade e tensão.

Ao se deparar com outro homem vindo em sua direção, um homem tem milésimos de segundos para tentar adivinhar qual aperto de mão usar com essa pessoa. Em pouco tempo, você precisa enquadrar o homem que vem na sua direção em algum perfil.

Tem os tradicionais, que cumprimentam com o aperto de mão tradicional, sisudo, sério. Esse cumprimento já foi sinal de respeito, mas foi apropriado pelos assaltantes como uma forma de dizer "Se você nem me cumprimenta, tá me dando motivo pra te assaltar, e se cumprimenta, tá dando abertura".
Além dos assaltantes, o aperto de mão tradicional é muito utilizado por advogados e corretores de imóveis. São áreas muito parecidas.

Tem os que querem fazer um cumprimento informal, então espalmam a mão na sua com toda a força que tem, com uma intimidade que casais juntos há décadas não conquistam. Esses são os engraçadinhos, os que tem ambições de fazer stand up comedy, os que vão passar horas te explicando como funciona o futebol americano sem você pedir.

Tem aqueles que já chegam balançando a mão desde as costas, estendidas, pra fazer aquela puxadinha e dar aquele soquinho adolescente de uma mão na outra, um cumprimento que diz "Eu tenho trinta e cinco anos e brigo com a minha mãe pra assistir o que eu quero na televisão".

Tem os cumprimentos combinados, com coreografias individuais para cada amigo, cada um com sua dança particular. Esses são utilizados por pessoas com muito sofrimento dentro de si.

Se você erra na hora de adivinhar o jeito certo de cumprimentar o outro rapaz, vai ter de enfrentar longos segundos de toque descoordenado e perdido entre uma mão e outra, um pânico intenso na hora de encontrar um novo cumprimento em comum, que funcione.

Não é à toa que precisamos ser violentos e encontrar oportunidades pra bater uns nos outros. O toque entre dois homens é uma zona de desconforto e nebulosidade.

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E os tapinhas nas costas?
Não há nada mais desconfortável que encontrar a dinâmica do abraço entre dois homens.

Você só abraça um homem com o qual já sente alguma intimidade, mas não há como saber qual a intimidade dele com você. Aí? Quando o momento é de celebração, então, o que você faz?
Começa avaliando, com um toque sutil de ombros. Talvez um, talvez dois tapinhas nas costas. Nada que ultrapasse três segundos.

Abraço, abraço mesmo, só no cadáver do seu pai, na hora do enterro. E ainda corre o risco do velho abrir os olhos só pra te dizer, com a boca costurada, que é pra você segurar a onda.


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É difícil subverter essa confusão toda e encontrar uma maneira universal de cumprimentar homens.

Todos os cumprimentos existentes tem seu grau de polêmica, e minha tentativa de inovar cumprimentando todo homem que eu encontro com um demorado beijo de língua foi recebida com níveis mistos de reprovação e reciprocidade.

Mas é um desafio que precisamos enfrentar. Insisto que uniformizar o cumprimento vai trazer tranquilidade e paz. Dizem que a incidência de crimes na adolescência cai em 45% em comunidades onde o aperto de mão é regulamentado, mas carece de fontes.

Só sei que enquanto não encontrarmos uma maneira de encontrar a paz entre os homens através do aperto de mão, é melhor não cumprimentar ninguém.

No máximo, ao cruzar com um conhecido na rua, assentir com a cabeça e falar um constrangido "Opa!".

E morrer um pouquinho por dentro.

8.10.17

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais."

O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer aprovação, de quem quer ver em mim um pai que diga "Isso! Faça esforço! Trabalhe duro e se controle! Bom garoto!".

Me recuso a fazer esse papel. Não estou no mercado de melhoramento de pessoas. Encontre outro terapeuta se é isso que você quer.

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Não quero dizer que aprimorar suas qualidades seja uma coisa ruim. Não é, não é mesmo.

Mas se você trabalha pela lógica do "Eu preciso melhorar, eu preciso me controlar mais", você está caminhando justamente para direção oposta de uma melhora.

"Tô me obrigando a ser mais paciente."
Se você precisa se obrigar, você não está sendo paciente. Adianta estar com aparência de calma e carcomido por dentro, cheio de vontade de empurrar alguém escada abaixo?

Por que não se deixar sentir a impaciência? Por que não senti-la profundamente, escutando o motivo de ela estar ali? Tentando ver o que esse sentimento te lembra, quando ele começou e deixando ele simplesmente existir?

Por que não sentir o sentimento que está ali, gritando dentro em você, até o fim e então aprender a lição que ele te traz?

Não.
Você quer forçar a barra: "EU VOU SER PACIENTE AGORA!".
Sem paciência nenhuma consigo mesmo, olha que ironia.

Certeza que vai dar certo, amigão. É bem desse jeito que você vai se tornar uma pessoa melhor: no grito.

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Provavelmente o que te torna impaciente, ou ansioso, ou depressivo - entre um milhão de outros fatores, favor contextualizar um pouco antes de jogar pedra aqui no tio - é essa olimpiadização da vida: não importa viver, importa ganhar o pódio.

Melhorei, agora eu sou paciente! Cadê minha medalha de ouro?

Talvez compense mais ver a vida como um passeio, sem um objetivo final, mas aproveitado a cada passo, do que vê-la como uma corrida, com um objetivo específico que precisa ser atingido o mais rápido possível mas que - apesar de todo o foco e disciplina exigidos para chegar lá - só vai te levar pro túmulo mais rápido?

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"Mas eu preciso melhorar! Isso me faz mal!"

Calma aí.
Só de acreditar que você tem coisas a melhorar, provavelmente, você já está melhorando. Só por estar atento. Só de estar passeando com calma e olhando por onde anda, seus passos vão ser mais corretos.

É devagar, mas é um processo. Não se afobe.

Se você acredita que precisa melhorar, e bate a cabeça pra chegar em algum ponto de suposta felicidade, sem nunca parar pra apreciar as pequenas evoluções do caminho... Você está correndo quando deveria estar passeando.

Está todo esbaforido, jogando uma perna na frente da outra com a intenção de chegar rápido em um lugar quando é justamente o andar cuidadoso que vai te fazer entender o caminho.

De tanto queremos ter paciência, calma, e hábitos melhores, acabamos ansiosos. E, com isso, acabamos jogando toda possibilidade de evolução fora.

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Anunciar "Estou aprendendo a ser paciente", enquanto olha para cada perda de paciência que se tem pelo caminho, é mais rico do que "Preciso ser paciente" que se obriga a fingir tranquilidade onde existe turbilhão.

Ter paciência - ou ser um melhor ouvinte, ou comer melhor, ou desenvolver o hábito da leitura - se aprende justamente pelo processo de tentar ter essa qualidade.

Se você tentar ensinar qualquer coisa para uma criança com agressividade e pressa, você vai ter uma criança assustada e desinteressada, incapaz de absorver mesmo um conceito simples.

Com carinho, entretanto, se ensina qualquer coisa - mesmo que se leve um pouquinho mais de tempo. Então por que não ser carinhoso consigo mesmo na hora de tentar adquirir uma qualidade?

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Você não "precisa" melhorar. Você quer melhorar.
O desejo tem muito mais força do que a obrigação.

Juntando o desejo com um pouquinho de carinho, você chega em qualquer lugar.
Enquanto isso, aproveite o passeio.

2.10.17

Gratidão não é amor

Qual a pior parte de ter um filho?
Pensa aí, rapidinho. Qual seria a parte mais difícil de ser pai ou mãe de alguém?

Preocupação demais? Muito gasto? Ter uma criança irritante e incômoda sob os seus cuidados vinte e quatro horas por dia?

Gosto de fazer essa pergunta aos meus pacientes, mas nem sempre para investigar o que elas acham sobre paternidade. É que sensação que se tem sobre ter filhos quase sempre reflete aquilo que a gente sente que foi para os pais.

Se você sente que ter filhos é uma preocupação constante, talvez tenha sentido que seus pais não tiveram paz ao te criar, cheios de preocupações.

Se você sente que ter filhos é um trabalho horrível, irritante e do qual é melhor fugir, talvez você tenha tido a sensação de que seus pais achavam lidar contigo algo irritante e do qual eles preferiam estar longe.

Não é uma regra, mas pode ser útil para explorar qual sentimento que tínhamos ao receber o amor de nossos pais - já que, para uma criança, tudo o que se recebe dos pais é encarado como amor.

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Normalmente quem sente que foi um grande trabalho para os próprios pais responde a isso com um grande sentimento de gratidão por eles.

Quer dizer, todo mundo se sente grato aos pais, já que é impossível criar alguém sem muito sacrifício, mas onde existe um sentimento muito grande de gratidão pelo amor recebido, existe também uma crença de que esse esforço precisa ser retribuído. E é aí que mora o problema.

A resposta natural para o amor não é a gratidão. Amor, quando sentido livremente, traz consigo uma sensação natural de alegria e tranquilidade, junto com desejo de se transmitir amor para o mundo. Para todos, não apenas para de onde esse amor inicial veio.

Ou seja: quem recebe amor puro retribui com amor puro, não com meio-amor-meio-gratidão.

A gratidão é uma resposta para quando se sente que alguém fez um esforço por você. Um esforço que você, talvez, sinta não ter merecido.

Por isso que gratidão demais faz mal: ela pode esconder sensações profundas de baixa autoestima.

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É importante olhar para como nos sentimos em relação aos nossos pais porque esse tipo de sensação costuma se repetir em outros relacionamentos.

Se a sensação maior for a de gratidão, os relacionamentos tendem a ser vistos como baseados em trocas. Você fez algo por mim, eu faço algo por você em compensação.

O complicado é que amar com base no “Você demonstrou carinho por mim, então eu preciso lhe retribuir com alguma coisa” é a semente mais comum para relacionamentos abusivos.

Porque quanto maior a sensação de gratidão por um pedaço de carinho, menor precisa ser o carinho recebido para se sentir envolvido com alguém. A partir disso, as exigências ficam cada vez menores e as tolerâncias, cada vez maiores.

Excesso de gratidão é o que faz alguém acreditar que pode apanhar de vez em quando, porque a outra pessoa também tem seus problemas e, veja só, é uma pessoa tão boa quando está bem. Basta um mínimo de carinho ocasional para justificar todo um relacionamento.

A gratidão prega que “Eu mereço ser amado enquanto fizer algo”, e lutar contra isso é muito trabalhoso. Para amar além da gratidão, é preciso acreditar que é possível ser amado sem estar fazendo um esforço constante por isso - como um filho desejado que não precisa fazer nada além de existir para ser amado pelos pais.

Amar mesmo é acreditar que só existir basta, que você merece ser amado mesmo quando não pode fazer algo pelo outro (ainda que fazer coisas por quem se ama seja ótimo!).

Viver assim abre a porta para relacionamentos mais maduros. Sem ingratidão e sem a ausência de esforço mas fazendo pelo outro e recebendo coisas dele por outros motivos além do dever: Por desejo. Por vontade.

Por falta de palavra melhor, por amor.

27.9.17

Voo

Acabei de fazer minha primeira viagem de avião.

Por alguns anos, isso me incomodava.
Sonhava direto que estava prestes a embarcar pra algum lugar e opa!, cadê a passagem?, ou opa!, cadê o passaporte?, ou opa! desculpe, o Edson Arantes do Nascimento comprou todos os lugares desse voo e você vai ter que voltar.

A vontade era grande, mas o orçamento não deixava.
"Pôxa, vinte e três anos e eu nunca viajei de avião na vida?", eu reclamava.

E então vinte e quatro. vinte e cinco; os amigos conhecendo o mundo; vinte e seis, vinte e sete e pronto!
Risca a listinha, viagem feita.

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Não fiquei nervoso na hora. Queria ter ficado.

Queria ter sentido frio na barriga, medo, uma emoção forte. É uma primeira vez, cacete, e quantas primeiras vezes ainda restam depois de uma certa idade? Tem que aproveitar bem quando aparece uma.
Sei lá quando tinha sido a última vez que eu tive uma primeira vez de alguma coisa.

Mas fiquei frustrantemente tranquilo.
A única sensação forte mesmo foi de que eu precisava de um Dramin. Ninguém me avisou que quando o avião balança de um lado pro outro, você balança junto.

Agora, olha... o mundo é bonito, de cima. E bem pequeno.
E bem rápido.

Guardei o lanchinho de bordo para comer mais tarde. Comi tudo dez minutos depois do desembarque.
É que eu sei esperar, mas não muito.

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Sou um péssimo agente de viagens pra mim mesmo e escolhi o voo mais barato que consegui comprar, o que resultou num intervalo de oito horas entre o primeiro voo e a conexão que vem depois.
Oito horas é muito tempo.

Já passeei por Viracopos inteiro.
Já pesquisei por que é que o aeroporto tem esse nome (muito tempo atrás teve uma briga numa festa de igreja, o padre ficou bem puto e se referia ao incidente como "aquele viracopos maldito").

Andei na esteira rolante. Andei na esteira rolante no sentido oposto ao movimento da esteira rolante.
Apostei corrida na esteira rolante com a minha amiga. Apostei corrida de carrinhos de carregar mala.
Apostei corrida de carrinhos de carregar mala na esteira rolante.

Tomei um café que custou quinze reais.

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Também tive uma ideia para um livro.

Escrevi cinco páginas para ele, que, a partir de agora, se trata de um Projeto Oficial™, o que provavelmente quer dizer que essas cinco páginas vão ser tudo o que realmente vai ser escrito dele.

A ideia é contar as melhores histórias que eu tenho dos meus avós pra tentar entender o que é que eu tenho em comum com eles, duas gerações depois.

Sempre achei que os avós são uma maneira muito mais carinhosa para explicar uma pessoa do que os seus pais. Histórias com pais dão muita treta, os avós costumam ser um tipo de amor mais pacífico.

O livro ia chamar "De onde vem a voz".
Pegou? Pegou? A voz, avós, a voz?

Imaginem um livro bem bom, porque foi assim que eu imaginei, e é bem possível que ele fique só na imaginação mesmo.

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Tentei tirar uma soneca, mas o café de quinze reais tá fazendo valer o seu preço e me impediu.
Agora estou aqui, exausto e ligadaço, escrevendo esse boletim especial de acontecimentos irrelevantes, e ainda tenho mais três horas pela frente.

Quem sabe o próximo voo traga a emoção que o primeiro não trouxe.
Talvez voar seja que nem transar, que a primeira vez não é tudo aquilo e depois vai melhorando.

Talvez eu passe o tempo todo dormindo, porque até lá esse bendito café já deve ter dado efeito rebote.

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De qualquer forma, estou oficialmente de férias. Não tem avião suficiente no mundo, nem horas de espera suficientes pra tirar a alegria disso.

Por enquanto, eu não preciso ter foco nenhum. Acho que vou correr mais um pouco na esteira rolante pra passar o resto do tempo.

Tomara que o segurança não venha brigar comigo. Mas, se reclamar, já tenho a resposta pronta:
"É minha primeira vez, não sabia que não pode!"

Alguma vantagem precisa ter pra quem é novato.

Insatisfeitos

Nós somos seres insatisfeitos.
Desde o momento em que você chorou no berço e não foi prontamente atendido, seu cérebro ativou um sistema de sobrevivência: a fantasia.

Pra lidar com a opressora realidade de não ser cem por cento compreendido (se já é difícil para um adulto, imagine para um bebê), você começa a imaginar como seria ser plenamente amado.
Surge um personagem na sua cabeça, o de alguém que te entende e te ama sem reservas.
Alguém que te faz apenas bem e antecipa todos os seus desejos, além cujo único objetivo de vida é te deixar contente - sem falhas!

O mecanismo da fantasia existe por instinto de sobrevivência emocional: a fantasia é a reserva do nosso tanque de combustível, permitindo que sigamos em frente mesmo sem sentir amor.

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Por isso mesmo, ela vai nos acompanhar por toda a vida - mesmo quando estamos muito bem, só por via das dúvidas.

Você pode estar solteiro, imaginando alguém que esteja ao seu lado, namorando com essa pessoa todas as noites ao deitar a cabeça no travesseiro, por mais que pessoas não imaginárias que te amem apareçam e você não as deseje.

Você pode estar muito bem casado e imaginar que aquela pessoa que ficou no passado poderia ser a verdadeira melhor opção pra você (e, se tivesse se casado com ela, estaria fantasiando a mesma coisa a respeito da pessoa com quem realmente se casou).

Imaginar um afeto constante é o equivalente emocional da fome. É uma maneira de manter o cérebro ligado para não esquecer de encontrar recursos que o mantenham vivo.

Você pode estar super bem alimentado mas vai salivar ao pensar numa refeição bem preparada.
Mesmo enquanto está comendo, pode acontecer de alguém falar de outra comida e te dar vontade de comer aquela. Isso não quer dizer que sua refeição de agora seja ruim.

Jogar tudo para o alto a cada pequeno sinal de insatisfação só prova que não evoluímos muito do bebê que abriu o berreiro ao não ser prontamente atendido pela mãe.
Estar um pouquinho insatisfeito não quer dizer que você precisa mudar tudo na sua vida.
Só quer dizer que você está vivo - e lutando para sobreviver.

22.9.17

Popstars

É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo.

Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se estapeiam pra soltar a voz em público. A cada canção bem recebida, choram como se não tivessem tido outro sonho na vida a não ser cantar.

E, realmente, talvez não tivessem.
Eu também, famoso fosse, ia querer estar lá, fazendo karaokê de Tim Maia e soltando minha voz grave e rouca pelo ar.

Todos nós tivemos nossas grandes paixões profissionais.
Se desse certo pra todo mundo, seríamos todos rockstars, astros de Hollywood ou o Neymar.

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É importante saber separar o saber do ofício.

Um arquiteto com um grande interesse em pessoas pode saber muito mais profundamente sobre a psicologia humana do que um psicólogo formado, ainda que não saiba praticar psicoterapia.

Um pedreiro com um grande interesse em música pode sentir muito mais profundamente um solo de guitarra do que um músico formado, ainda que não saiba explicar as escalas pelas quais o guitarrista passa.

Um cineasta com um grande interesse por matemática pode não saber resolver equações avançadíssimas, mas vai sentir uma emoção tremenda ao entender como um grande cálculo se executa do começo ao fim que talvez um matemático não saiba perceber.

Um dentista pode amar poesia. Um poeta, quem vai dizer que não?, pode achar lindo um tratamento de canal.

Um psicólogo com um grande interesse em música pode cantar muito mal, mas te indicar uns discos pouco conhecidos bacanas e... Tá, nesse caso não se aplica.

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Essa compreensão profunda e amor pela arte por quem não é artista acontece porque a distância - a falta, a sensação de não poder realmente alcançar o que ama - traz uma angústia que aprofunda as experiências que residem brevemente nos sentidos antes de voltar ao mundo dos sonhos.

Em tempos de escolher uma carreira aos dezessete anos, com a pressão de ganhar dinheiro e fazer o que ama pelo resto da vida, saber que o que se toma de ofício não é necessariamente uma garantia de amor eterno pode parecer pesado.

Mas saber que tornar da paixão um ofício pode trazer angústia e frustração - não financeiramente, como todos os pais pregam, mas na alma, por trazer o seu amor para perto demais, sob uma ótica muito real e cruel, capaz de desmontar as ilusões - pode ser libertador.

É como casar com a pessoa dos seus sonhos: o casamento começa e os sonhos acabam.
Amar à distância pode fazer o amor ficar muito mais interessante. Se o objetivo for manter o sonho, melhor guardar as alianças para si.

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Talvez meu conselho para quem está procurando uma profissão seja esse: faça o que ama, mas não dependa disso totalmente.

Case-se com um ofício que lhe seja fácil e pouco desgastante e persiga sua paixão como quem persegue um amor com astúcia: cuidadosamente, sem se mostrar disponível demais, sem depositar todas as suas expectativas e dando ocasional bote, quando a situação ideal aparecer.

Quem sabe você tenha sorte e sua tórrida paixão mantenha-se luxuriosa e intensa por anos a fio.
Quem sabe sua grande paixão seja melhor como uma amizade para toda a vida.

Amores mudam pela vida, ainda que haja amores duradouros.
Seu ofício pode não ser o que você sempre sonhou, mas pode ser aquele amor que te esquenta os pés no fim da noite e te faz se sentir satisfeito.

Aí, de vez em quando, você masturba sua imaginação botando um bom disco pra tocar e canta junto a plenos pulmões, se sentindo uma estrela do rock. Não há nada de errado em fantasiar com uma grande paixão enquanto se vive um amor maduro.

Chapa Branca

Depois de anos escrevendo me veio o insight: puta merda, como eu sou chapa-branca. Me surpreende o quanto eu consegui passar anos escreven...