20.10.16

Sentindo sentidos

O que você está fazendo agora?

Eu espondo: está pensando. 
Botando informação pra dentro, mastigando com os neurônios e alojando cada coisa numa gavetinha na sua cabeça.

Evolutivamente, o processo de aprender não tem nada a ver com conseguir blefar melhor no pôquer ou citar Nietzsche. Tem a ver com sobrevivência.

A gente observa, repete, aplica e guarda tudo aquilo que pode nos ajudar a escapar de um risco iminente, seja um leão ou uma palavra. 

Pensamos para conseguir sobreviver.

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Sentir, por sua vez, é o termômetro interior que desenvolvemos ao longo de milhares de anos, que nos diz se estamos seguros nesse ambiente perigoso, cheio de leões e palavras.

Sentir serve para que mostrar uma realidade dentro de nós que vai além do dicionário e da lei da selva.

Sentimos para dar significado à existência.

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E como é que a gente toma decisões?

Pensando. 
Ignorando o sentido e focando na estratégia de sobrevivência, mesmo quando não estamos correndo tanto risco assim.

Usamos justamente a estratégia de fuga, quando podíamos muito bem estar no lugar seguro, no termômetro evolutivamente refinado e facilmente acessível dentro de cada um.

"Usar a cabeça" virou sinônimo de decisão bem tomada, mas eu tô com o consultório cheio de gente infeliz com a cabeça exausta de pensar.

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Aproveita que você tá matando tempo e faz esse exercício rapidinho:

Escolha um assunto que te incomoda.
Pode ser uma decisão, uma relação com alguém, um trauma do passado. 

Tenta relaxar um pouco o corpo, na cadeira mesmo.
Respire fundo e tenta se conectar com o seu corpo pelo lado de dentro.

Veja bem o que está confortável e o que não está, sem tentar corrigir nada.
Tente, por uma vez na vida, ser seu amigo e receber o que vem de você como se viesse de alguém que você gosta muito.
Aceite o que o seu corpo mostrar, sem julgamento e com bastante carinho.

Agora preste atenção na região entre a barriga e o pescoço, e manda a pergunta pra dentro:
"Que espaço isso (o tema que você escolheu) ocupa aqui dentro de mim?"

Tente não usar palavras.
Só sinta dentro do corpo, o espaço que isso ocupa dentro de você.

Resista à tentação da cabeçorra voraz. Sinta o corpo.

"Como meu corpo se sente em relação a isso?"
Perceba os sentimentos que vêm a tona. 

O corpo não responde com palavras, mas com sensações, cenas, memórias.
Deixe vir.

Depois de sentir por um tempo, pode usar a cabeça pra tentar descrever essas cenas e sensações brevemente. Brevemente, hein?

Às vezes só essa parte já ajuda a perceber o que a gente pode fazer pra mudar a situação.

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Mas tem uma segunda parte:

Ainda relaxado e amigável consigo mesmo, foque naquela mesma parte do corpo e pergunte:

Do que eu preciso em relação a esse tema?
Como é que eu me sinto bem?

Sons, imagens, memórias, aceite o que vier com bastante atenção e carinho.

E sinta o alívio de identificar o que você sente.
Pode ser que você não sinta isso há muito tempo.

Agora, mesmo que a situação continue a mesma, você já sabe o que se dar.

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É chato que a vida da gente esteja tanto na nossa cabeça que seja necessário reservar tempo e fazer exercícios simplesmente pra conseguir sentir alguma coisa.

Mas o esforço compensa, principalmente pra quem com ansiedade e depressão.

Entrar em contato com o porto seguro do corpo ajuda a desenvolver a força emocional e o carinho consigo mesmo necessário pra enfrentar essas condições.

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Vários estudos científicos relacionam a percepção de emoções a partir do corpo a um bom resultado de terapias. 

Fazer isso uma vez por dia pode fazer uma grande diferença a longo prazo. 

Experimente e me conta como foi. Como você se sentiu?
Fez sentido pra você?

6.10.16

O Gambá

Essa é uma história de vingança.

Começou no domingo. Apareceu um gambá morto na calçada na frente de casa.

"Vou ter que tirar essa merda daí, mas sem chance que vou fazer isso agora."
Procrastinei. Ao contrário da vida, a morte pode esperar.

Saí de casa e passei um tempo me convencendo que não ia ser tão nojento assim tirar o bicho de lá.

Mas ia sim. Voltando pra casa, encontrei uma surpresa.
Um cachorro cagou no gambá.

Além de morto e na sarjeta, o gambazinho estava literalmente na merda.

"Lei da atração", pensei. "Essa é uma alma afim."

Adiei o serviço novamente. Não tinha estômago pra catar o gambá morto naquele momento.

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Mais tarde resolvi encarar o problema e tirar o bicho dali de vez.

Peguei dois sacos de lixo grandes, forrei a mão com sacolas de supermercado, segurei na mão de Deus e fui.

E, milagre! O gambá sumiu.

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Algum dos meus vizinhos era uma pessoa especial, iluminada, divinal, com fetiche por necrofilia de gambá, alguma coisa assim.

De tão feliz, quase saí pela vizinhança oferecendo chocolates, flores e sexo oral como agradecimento.

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Corta pra hoje. Quinta-feira.

Alguém comenta comigo de um fedor característico vindo da rua.
"Acho que tem um gambá morto ali", disse o alguém.

Eu não quis acreditar. Que onda de morte de gambás é essa no meu bairro, gente?

Mas não era uma onda. Era o mesmo gambá, arrastado até a floreira alguns metros pra frente de onde o corpo estava.

O mesmo maldito gambá cagado, agora com quatro dias a mais de sol e chuva na carcaça pra feder mais gostoso.

QUEM DIABOS CUTUCA UM GAMBÁ MORTO SÓ PRA LEVAR ELE PRA UMA FLOREIRA DOIS METROS ADIANTE?

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Eu nunca me senti tão conectado a uma pessoa que eu não conheço quanto estou agora.

Essa pessoa, essa pessoa que escondeu o gambá morto pra me fazer cutucar um defunto apodrecido, essa é uma pessoa que eu vou virar amigo.

Eu vou virar íntimo dessa pessoa. Eu vou frequentar a casa dessa pessoa.
Eu vou ser convidado pra ceia de Natal na casa dessa pessoa.

E vou trocar o peru da ceia pelo corpo do gambá numa bandeja.

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Não, eu vou me aproximar dessa pessoa. Trazer felicidade pra vidinha miserável dessa pessoa.
Apresentar o grande amor da vida pra essa pessoa. Ser padrinho de casamento dessa pessoa.

E enfiar o gambá dentro do buquê.

Botar o focinho do gambá como enfeite do bolo.

Fazer o gambá de travesseiro na cama da noite de núpcias.

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Eu vou perseguir essa pessoa até ela morrer de remorso por ter escondido meu gambá.

Quando ela morrer, quando ela estiver sendo enterrada, eu vou jogar o gambá em cima do corpo dela.

Então, e só então, eu vou poder perdoar.

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Agora cês me dêem licença que eu tenho um gambá pra ajuntar.

2.10.16

Vergonha e orgulho

Ontem eu tive vergonha dos meus pais.

Estávamos nós, eles exaustos de viajar o dia inteiro, passando algumas horas comigo antes de seguir viagem madrugada adentro, eu querendo agradar e disposto a levá-los a algum lugar bacana pra mostrar como, apesar de telefonar todos os dias me fazendo de coitado, as coisas estão indo bem.

Eles preferiram ir ao Subway. Era rápido, tinha salada, tinha cafeína e isso era tudo o que eles precisavam para seguir dirigindo a madrugada inteira.

É o mesmo fast-food em que eu apareço no fim da noite, em fiapos, prestes a comprar um sanduíche da promoção antes de voltar para casa e ligar para os meus pais me fazendo de coitado.

E entramos na fila. Minha mãe primeiro, então meu pai e depois eu.

Um pássaro sob o efeito de LSD não daria tantas voltas para voar quanto minha mãe deu para escolher o sabor que queria. Perguntou o que era cada um dos recheios. Conjecturou. Perguntou a opinião do atendente sobre cada um.

Botou a mão no queixo e coçou a cabeça como se a extinção da fome no mundo dependesse do recheio daquele sanduíche.

Eu atrás, como um adolescente, batendo o pé no chão e pensando "Afe".

O atendente, um rapaz com a cara, a voz e os trejeitos do Lázaro Ramos, que me fez pensar que em algum momento o Luciano Huck apareceria e revelaria que tudo era uma brincadeira e eles iam reformar minha casa, teve a maior paciência do mundo.

Explicou ingrediente após ingrediente, disse qual achava mais gostoso, foi um lorde.

E foi a vez do meu pai.

Meu pai não é indeciso, mas é um palhaço. Escolheu rápido, mas justificou cada um dos sabores.

"Então o Frango Teriaki, o Steak de Frango e o Frango com Cream Cheese são todos de frango?"

Lorde Lázaro Ramos disse que sim.

"Que bom. Eu gosto de frango."

Eu ao lado dele, com os olhos quase enxergando o cérebro de tão virados pra trás.

Então foi minha vez de pedir.

Eu já sabia meu sabor de cor.
Mas aí eu lembrei que tinha uma outra combinação que eu não tinha experimentado.
Perguntei se dava pra adicionar.
Dava.
Fiquei na dúvida. Decidi que ia adicionar, sim.
E se dava pra tostar com a salada junto.
E se ia ser ruim pra fechar o pão se tostasse com a salada junto.
"Porque fica ruim se não der pra fechar o pão direito, né?"
E perguntando a opinião do Lázaro Ramos.

E eu me dei conta.
Como eu sou igual a eles, como eu sou assustadoramente igual a eles.
Se eu fosse meu parente, e estivesse atrás de mim na fila, eu estaria lá, batendo o meu pé e pensando Aff e virando os olhos e morrendo de vergonha, sem perceber que a pessoa na minha frente na fila era exatamente eu.

Só que com mais carinho por mim, parando no intervalo de doze horas de viagem para poder sentar numa lanchonete comigo e assistir a novela.

O lanche acabou e eles foram de volta para casa.

E eu fiquei aqui, digerindo um Subway com o coração apertado, morrendo de saudades, como se já não fizesse oito anos que eu moro longe e não estivesse acostumado a vê-los só de vez em quando.

Como se eu não fosse o adulto que se acha bacana o suficiente para querer levar os pais num restaurante mais chique, pra eles terem uma experiência diferente e quem sabe sentirem um pouco de orgulho.

Como se eu ainda fosse o exato mesmo menino do interior que se mudou para a capital carregando algumas roupas numa sacola emprestada, sem saber pedir num restaurante de fast food, achando que uma bolsa para fazer faculdade ia me transformar numa pessoa completamente diferente.

Sim, eu mudei muito, mas mesmo mudado eu sou exatamente igual a eles.
Nada mais do que um pedaço deles.

E só isso.
Ontem, eu tive muito orgulho dos meus pais.

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...