17.9.16

Agente 06

"Agente 06, você está vestindo seu chapéu de papel de alumínio?"
"Estou, agente 08."
"Ótimo. Assim o governo não vai conseguir interceptar nossos pensamentos."
"Compreendido. Espero que eles também não desejem interceptar esse telefonema."
"Isso é irrelevante, agente 06. Preciso discutir um assunto sério com você."
"Pois não, 08. Diga-me."
"Eu tive um sonho muito estranho essa noite, agente 06. Eu estava no supermercado..."
"Compreendido."
"E eu estava na fila para passar as compras no caixa e pagar a conta."
"Compreendido."
"E, quando chegou a vez de eu pagar, de repente eu estava em outro supermercado..."
"Em outro?"
"Exato. E estava novamente no fim da fila do caixa. Preciso te dizer, agente 06, a fila era enorme."
"Você esperou, agente 08?"
"Esperei. Por horas."
"E aí?"
"Aí chegou minha vez."
"E aí?"
"Aí eu não tinha nada na cestinha."

Silêncio na linha.
"E aí?"
"Aí eu acordei."

Silêncio novamente.
"Você não percebe, agente 06? O governo está manipulando meus sonhos para testar minha resistência mental."

O agente 06 raciocina.
"Faz sentido, agente 08. Mas e agora?"
"Ora, agente 06. Preciso de um travesseiro de papel alumínio."
"Ótimo. Você já fez um?"
"Não fiz. Preciso ir ao supermercado comprar."

14.9.16

Inventar-se homem

Rapazes, essa é pra vocês.

Homens que não se sentem em casa entre os sarados top macho alfa da balada e nem com os desconstruidões do pé descalço do sarau-ciranda.
Os que estão no meio-termo.

As mulheres não são mais as mesmas do que prometeram pra gente quando a gente era criança, né? Pois é, elas mudaram. A gente, não tanto.

Aí sobrou pra gente se segurar como puder.
Alguns se afirmam no "foda-se, vai fazer meu sanduíche, mulher é pra meter mesmo, sai feminazi".
Outros ainda não sabem bem o que fazer diante de uma mulher empoderada, que ele respeita e admira mas fica mas sem saber qual a função que lhes resta.

Desses eu tenho visto muitos, que aparecem no consultório, calados e intimidados por não quererem a mesma coisa de um relacionamento que a namorada, ou morrendo de vergonha de estarem com menos tesão por uma mulher que engordou, como se não tivessem o direito de ter um pau que fica duro por causa de atração física.

--

Meninos, a gente tem que aprender algumas coisas com elas.
Elas que, muito mais que a gente, foram forçadas a cumprir papéis nem sempre compatíveis com o que eram realmente. A construção da mulher atual começou com uma desconstrução.

Descontentes com como eram obrigadas a agir, foram despindo-se.
Despindo-se da obrigação de casar, da obrigação de ser mãe, da obrigação de ser o objeto do outro.
E foram vendo que não precisavam despir tudo de uma vez, que podiam curtir a delicadeza, que podiam querer dedicar a vida aos filhos, assim como podiam curtir a intensidade e a vida de negócios.

Passo a passo, elas foram olhando para o que era esperado de uma mulher e abandonando o que lhes era incômodo, vestindo só os papéis que lhe cabiam no desejo e passando com um trator para abrir caminhos onde antes não podiam passar.

Ainda há muito o que se conquistar, mas olha só que longe elas já chegaram.

--

Já os homens estão desconfortáveis.
Quando a referência de ser homem é ser o oposto da mulher, e as mulheres começam a ser polivalentes, não sobra pra onde se correr. Não dá pra ser o oposto de tudo no mundo.

E é aí que podemos aprender com o processo delas, que começaram a partir do próprio desejo em vez de a partir de quem é o outro.

Olhe bem o que lhe incomoda sobre o papel que é exigido de um homem.
Olhe bem o que você gosta sobre as expectativas que um homem tem sobre si.
Olhe onde seu sapato aperta e onde há espaço para folgá-lo.

E construa-se a partir daí.
Da sua própria experiência, do seu próprio jeito de viver a masculinidade.

--

"Toda armadura de homem é emprestada e dez números maior, e dentro dela mora alguém com medo de ser descoberto", disse a Norah Vincent depois de passar dois anos passando-se por homem para escrever um livro.

Com razão.
Nos cercamos de armaduras por não acreditar que somos fortes o suficientes sem elas.

--

Mudar é mais simples do que parece.
Basta se permitir e se conhecer sem preconceitos. Como uma pessoa única, em relação com uma série de pessoas - homens e mulheres - tão únicas quanto.

Um homem só é fortalecido quando se permite ser exatamente o que é.
Porque um homem pode ser sensível - e pode ser bruto também.
Selvagem e sensível. Vulnerável e poderoso. Romântico e sexual.
Naturalmente, na medida de cada um.

Como homens sem armaduras e ainda assim fortes, não vai nos intimidar ver uma mulher ter seu poder.

E então, lado a lado, poderemos nos divertir bastante.

2.9.16

Suspenso

De uns dias pra cá, toda vez que o despertador toca pela manhã, eu entro num estado de vazio de pensamentos que me assusta.

É como se eu passasse alguns segundos em estado de total falta de referência, como se o computador da minha mente ainda estivesse inicializando e os dados ainda não tivessem sido computados corretamente.

As informações de quem eu sou vem uma a uma, como se não fosse natural pra mim sabê-las.
"Onde é que eu trabalho mesmo?"
Eu lembro, e é como se levasse o soco da rotina da vida adulta todo de uma só vez.

"Eu moro sozinho?"
E cai a ficha, "Sim, eu moro sozinho. É muito fácil alguém entrar nessa casa se pular o muro."
E vem um pânico que ignora o fato de eu já morar sozinho há anos.

As notícias dos últimos tempos vão aparecendo.
"Quem morreu? Ah, é. Que merda."
"O que é que eu prometi fazer? Mas eu não consigo fazer isso!"

Dura muito pouco tempo, mas é uma sensação muito ruim de ausência de localização.

É como se eu tivesse ido dormir aos dez anos de idade e acordado aos vinte e seis, e esses dezesseis anos precisassem se revelar em poucos segundos, antes do dia começar.

E por um minuto, eu quero chorar.
E então levanto e vou tomar o café.

Talvez eu precise dormir mais.

Cumprimentos

Já existiu um mundo em que, guerras e traições à parte, havia mais honra entre os homens. Havia um código, um sinal universal que garantia a...