19.4.16

Cento e oitenta minutos

Sete horas da manhã.

O despertador já te faz acordar com o coração acelerado. Tem que dar tempo: você pula da cama num golpe só e só ganha consciência novamente de frente para o espelho do banheiro. Meia hora para banhar, escolher roupa e sentar no vaso com a cabeça nas mãos querendo estar dormindo.

Sorte sua que você não mora tão longe e leva só meia hora pra chegar o trabalho.

Quatro horas trabalhando: duas de trabalho intenso, uma de trabalho distraído e uma só pra desfazer os erros da hora de distração.

Hora de almoçar.
Não dá pra fazer muita coisa, a hora passa tão rápido. Tem que dar tempo: qualquer comida serve, você precisa economizar. Volta correndo pro escritório, porque ainda precisa escovar os dentes. Um sorriso mal cuidado pega mal no mercado.

Segundo round. O relógio do computador marca um minuto a cada duas horas.

Justo as horas do dia em que há luz do Sol. Lembra o Sol? Aquela bola de hélio e fogo que você precisa ver de vez em quando pra não cair em depressão? Aquela coisa que precisa pousar na sua pele vez ou outra pra você não ficar desnutrido?

Pausa rápida para ir ao banheiro. Você mexe no celular, lava o rosto. As últimas horas do expediente são equivalentes a um ano em Júpiter.

Seis horas.
Uma passada rápida supermercado para comprar o básico do dia e perder trinta minutos.
Tem que dar tempo: mais meia hora para ir pra casa.

Sete horas e dez minutos. Você está acordado há mas de doze horas.

Uma hora para improvisar qualquer coisa para o jantar, comer com as pernas latejando, lavar a louça sem prestar atenção e dar um suspiro.

Afinal, logo mais é hora de dormir, e você não tem mais vinte anos para conseguir se virar com menos de oito horas de sono por dia. Tem que dar tempo.

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Noves fora, te resta um intervalo de exatamente três horas.

As outras vinte e uma outras horas do dia você gastou só para atividades voltadas a manutenção da sua existência: trabalhar para ter o que comer, comer, manter a higiene e se locomover.

Para viver, viver mesmo, sobram cento e oitenta minutos.

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Mesmo que você goste da sua rotina, não há alma que consiga florescer num ambiente desses.

Com o cansaço pesando no fim do dia, é fácil se deixar levar pela exaustão e se render ao entretenimento mais fácil possível.

Ligar a TV em qualquer coisa, deixando alguma notícia entrar cabeça adentro e semear uma opinião mandada.
Correr os olhos pelo feed do Facebook, que mostra a felicidade desesperada de quem também só tem três horas por dia para se existir e precisa mostrar que curte a vida a qualquer custo.
Empanturrar o bucho com qualquer coisa que prometa dar algum sabor à vida.

O desafio é fugir disso.
É nessas três horas por dia que a gente precisa impôr a nós mesmos algum respeito. No mínimo o respeito à nossa necessidade maior como seres humanos, que é crescer.

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São cento e oitenta minutos por dia que nos restam pra pensar no que somos, pra aprender algo de novo, pra conviver com nossos amores, pra existir para além dessa vida mesquinha, e pequena.

E o que a gente faz com esse tempo tão precioso?
Foge, com qualquer coisa mais confortável que buscar consciência.

Não é à toa que tanta gente tá precisando de remédio pra dormir. Em algum momento a cabeça precisa pensar, ora bolas! E se você entupir seus dias com trabalho, obrigações e entretenimento barato, pode ter certeza que ela vai achar um jeito de te obrigar a ouvir as suas necessidades.

São cento e oitenta minutos fora da água, para puxar a respiração e decidir o rumo das próximas braçadas antes de mergulhar de volta.

Cento e oitenta minutos para escutar o coração a  respeito de como tem sido a vida - inclusive se o que você tem feito nas vinte e uma horas restantes está valendo à pena.

Com sorte, dá tempo.

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