26.3.16

Queimada

Jogo de queimada.

Dois times. Um de uniforme verde e amarelo, o outro vestindo vermelho.

Os dois atiram a bola com força, tentando derrubar o maior número de adversários possível.

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A divisão política que temos passado traz uma violência que aparece em embalagens diferentes: do padre que apanha sendo chamado de comunista ao pai de família chamado de alienado por ser conservador, todos tem tentado gritar mais e mais alto, e os rancores parecem irreconciliáveis.

É uma Guerra Fria de baixo orçamento. Uma superpotência arrotando poder e capacidade bélica contra a outra, a errada que tinha que ser detida antes de que o estrago (do comunismo ateu ou do capitalismo opressor) fosse grande demais.

Os dois lados com poder, os dois lados com raiva e - o sentimento esquecido - os dois lados morrendo de medo.

Medo de perder a relevância, medo que o inimigo vencesse e lhe arrancasse a certeza de estar certo, de ser bom, de ter valor.

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É o mecanismo da Maldade Atribuída: quando uma pessoa está incerta quanto à sua segurança em uma questão que lhe parece importante, atribui ao outro lado contornos de grande vilão, de que agem da maneira que age simplesmente por maldade.

Numa hora dessas, de catarse coletiva, nada une tanto quanto um inimigo comum. Odiar em grupo dá um senso de comunidade, além do sentimento de algum valor intelectual. Afinal, se eu penso de um jeito e meu grupo me apóia, eu só posso estar certo. E se eu e minha turma não gostamos de quem está do outro lado é porque isso tem algum motivo.

Qual motivo? Ora, o outro lado está errado.

Se eu sinto que uma situação está fazendo mal para o meu país, quem é a favor dessa situação só pode estar querendo o mal do país. Por ser burro, por ser mau, por ser vendido, quem é contra o que eu acredito está contra mim, está errado, e a discussão acaba aqui.

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Acreditar que quem discorda da gente tem sua razão não quer dizer que a gente não possa lutar pelo que acredite. Ainda somos responsáveis pelo que acreditamentos. Dizem que tem uma ala inteira do inferno só pra gente que votou errado com intenções boas.

Mas isso não se trata de estar correto ou não.

Trata-se de respeitar a opinião alheia, e só se respeita a opinião do outro quando se respeita a própria. Leia-se, quando verdadeiramente se respeita a própria opinião como aquilo que ela é: só uma opinião.

Válida. Com embasamento. Com motivos. Com razão. Exatamente como a opinião de quem está discordando.

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"Mas esse é um momento político crucial, a gente não pode deixar de lutar pelo melhor!"

Ainda que as opiniões sejam diversas, imagino que o objetivo seja comum. Queremos ter grandeza como nação, queremos ter orgulho de quem somos e exercer nossa cidadania com orgulho.

Parece que, coletivamente, topamos a briga de reformar o jeitinho e do Meu-Pirão-Primeiro que está tão arraigado no nosso DNA de nação, pra tentar mudar as coisas num nível mais profundo.

E como estamos tentando reformar nossa democracia? Xingando a presidente de vagabunda e um juíz de filho da puta? Gritando "petralha" e "coxinha" pelas ruas da internet?

Estamos atirando a bola com toda a força no nosso adversário nesse jogo de queimada, esquecendo que ele está exatamente no mesmo jogo que a gente. Esquecendo que, quanto mais violento for o ataque, mais violenta será a resposta do outro lado.

Não parece muito coerente.

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As ruas nunca gritaram tão alto. O que está faltando é aprendermos a ouvir.

Pra deixar bem claro: se você não aceita que a opinião do outro tem valor, se não entende que a pessoa que discorda de você pode estar certa, você não está ajudando em nada a cultivar uma democracia.

Sugiro um experimento. Por uma semana, antes de dar uma resposta a alguém que seja contra sua opinião política, deixe claro para a outra pessoa que você entende a lógica por trás do ponto de vista dessa pessoa. Diga qual é essa lógica. Fale o que você admira na opinião dela. Explicite como, no fundo, vocês desejam a mesma coisa. Mostre como a opinião dessa pessoa lhe faz sentir, e só então diga, claramente, como você acredita que a solução possa ocorrer e por quê.

Quem sabe depois dessa semana você consiga entender melhor quem está do outro lado. Quem sabe o outro lado consiga se sentir escutado e se abra ao seu ponto de vista.

É muito provável que os dois times continuem discordando.
Mas assim ninguém precisa sair queimado.

15.3.16

A prisão do Homem Banana

Sobre brigas políticas, presidentes na prisão e pra quem pensa que a política do Brasil é maluca, uma história do Zimbábue:

Em 1936, nasceu na então Rodésia do Sul um homem chamado Canaan Banana, e não, seu nome não era uma homenagem à Terra Prometida do Planeta dos Macacos.

Banana cresceu e virou um pastor metodista, que estudou nos Estados Unidos quando jovem e voltou para África como responsável religioso pela Universidade do Zimbábue.

Super envolvido com política, Banana era um homem do povo com um quê conservador. Como religioso, chegou a publicar um livro chamado "O Evangelho de Acordo com o Gueto". Foi preso meia dúzia de vezes, como todo bom ativista.

Um revolucionário, um escritor, um homem do povão. Uma mistura de Criolo com Padre Fábio de Mello.

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Num zimbábue dividido, seu maior feito foi unir os dois maiores grupos de guerrilheiros pela Independência, formando um partido político que mais tarde lhe daria o cargo e a honra de ser o primeiro presidente do recém-criado Zimbábue.

Assim que foi eleito, Canaan Banana tomou uma medida não muito bacana com o povão: baixou uma lei proibindo todas as piadas com o seu nome.

Ninguém mais poderia rir do presidente Banana, ninguém poderia mais colar pôsteres pelas cidades com o seu rosto colado num desenho do Andy Warhol, ninguém poderia cortá-lo em fatias e comê-lo com mamão no café da manhã.

Sua imagem saiu descascada.

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Acontece que Banana era uma fruta. No sentido figurado, mesmo.

Depois de sair do governo, foi acusado de praticar sodomia, um crime pesado em seu país - ainda mais para um clérigo evangélico como ele. Depois de todos os julgamentos, foi condenado em onze acusações de ter colocado Banana onde não podia.

(onze casos de sodomia, nos dias de hoje, equivalem a mais ou menos uma semana de um rapaz com o Grindr bem posicionado)

Condenado, fugiu do Zimbábue e encontrou-se com Nelson Mandela, que tinha alguma experiência em ser preso político.

Mandela o convenceu a voltar ao seu país e cumprir pena, provavelmente dizendo algo como "Dez anos de prisão, só? Banana, dez anos não são quase nada, e vão te amadurecer muito!"

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Banana foi preso mesmo negando todas as acusações, dizendo que eram politicamente motivadas. Disse que seus acusadores eram mentirosos patológicos, que todos os vários homens que lhe acusavam de usar de seu poder para fazer avanços sexuais estavam sendo pagos para isso e, como bom pastor, que práticas homossexuais eram "desviantes, abomináveis e erradas".

Mesmo sendo um ídolo do povão, Banana apodreceu da cadeia.

Saiu da prisão em 2001, para morrer de câncer dois anos depois.

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Seu sucessor no governo, Robert Mugabe, o "Tio Bob", entrou no governo em 1987 e acha confortável estar lá até agora.

Enquanto vivo, Banana acusou várias vezes Tio Bob de tramar seu assassinato.

Após a morte de Banana, Tio Bob discursou à nação o chamando de "Um raro presente dado ao nosso povo". Ainda assim, Banana foi enterrado sem nenhuma honra presidencial.

Hoje em dia, as piadas com seu nome estão liberadas.


11.3.16

Com defeitos, com orgulho

Eu sou vaidoso.
Tiro quarenta fotos antes de achar uma boa o suficiente para passar pelo software de edição, e quarenta fotos passam pelos meus ajustes antes que eu ache uma delas boa o suficiente para ser compartilhada.
Odeio me sentir feio, odeio os óculos que carrego no nariz porque o olho não aceita mais as lentes de contato.
Odeio quando tiram fotos de mim e me revelo torto, pescoçudo, fora de esquadro. Odeio perder o controle da imagem que eu tenho de mim, mesmo que essa imagem seja bem distante da realidade.

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É difícil conviver comigo.
Mesmo que minha opinião sobre um assunto não seja tão forte assim, eu tendo a defender tudo com tanta força que eu pareço agressivo. Já tive problemas com pessoas que eu gosto muito por dar a entender que sei mais do que elas.
Aliás, eu tenho essa mania também, de ser especialista em tudo. Não comente nada comigo se não tiver meia hora para me escutar engrossar a voz, fazer pose e dar uma pequena palestra - normalmente mal informada - sobre o assunto.
Me perdoe se eu já fiz isso contigo.
(A não ser que você tenha sido condescendente comigo, que aí eu vou arranjar informação de onde aparecer pra mostrar que você é um escroto. Mesmo que eu não me importe com o assunto tanto assim, porque eu sou um escroto também.)

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Eu sou superficial com as pessoas que eu desejo, porque eu quero que elas estejam à altura da pessoa que eu penso que eu sou, e Jesus Cristo, às vezes eu acho que eu sou a aterrissagem terrestre da Pica das Galáxias.
E logo eu percebo que não, não sou, e vou pro extremo oposto, e me sinto o Cu dos Infernos, e a situação não fica nada legal de olhar.

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Eu não sofro com coisas enormes mas as pequenas me destroem. “Amanhã você vai precisar se mudar pra outra cidade e deixar tudo pra trás” é muito mais tranquilo pra mim do que “Vou atrasar pra encontrar contigo, ok?”.
Me apego aos meus planinhos pequenos como se fossem a coisa mais preciosa do mundo.

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Eu não tenho a melhor relação do mundo com a minha família, por mais que sejam as pessoas mais importantes do mundo pra mim. Às vezes sinto raiva e mágoa, às vezes sinto a maior gratidão do planeta.
Muitas vezes eu sinto que nem os meus melhores amigos me conhecem mesmo.
Volta e meia eu sinto falta pra caramba de me sentir verdadeiramente íntimo de alguém.

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Tenho uma tendência séria a me apaixonar por gente que não é tão calorosa assim, e em geral eu cubro a pessoa de abraços e beijos torcendo pra que uma manifestação espontânea disso venha do outro lado pra mim.
Ao mesmo tempo, não sou muito de dividir o meu espaço e preciso de muuuuito tempo sozinho.
Eu exijo bastante e nem sempre tenho o que contraofertar.

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Eu oscilo entre me sentir a pessoa mais injustiçada do mundo por não ter conseguido as coisas do meu jeito e me sentir o maior ingrato por ter tido tantas coisas ótimas na vida e ter gratidão por elas.
Muitas vezes eu me sinto cansado e brigando com a vida querendo que tudo fosse, ao menos, um pouquinho mais fácil pra mim. Mesmo que, se eu olhar bem, já seja.
Ao mesmo tempo, eu tenho um otimismo quase infantil pra quase tudo.
Minha carreira tá estancada e eu passo oito horas por dia tentando ser bom num trabalho que paga minhas contas, mas em que eu cometo erros primários tentando fazer coisas primárias. Tento lidar com isso trabalhando várias horas além do expediente normal na minha carreira escolhida, que não me paga tão bem assim.

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Ainda assim, eu acho que tudo vai dar certo. A ponto de não fazer tantos planos maduros, a ponto de deixar quase tudo à deriva, achando que algo mágico vai acontecer e me colocar em boas situações.
(E, se for ver, muitas vezes esse algo mágico aconteceu e me deu chances maravilhosas)
Quando eu me dou conta que não dá pra confiar cegamente no acaso, entro num pânico que me faz me sentir a pior pessoa do universo - até que eu tire uma soneca e acorde achando que tudo vai dar certo novamente, me impedindo de tomar qualquer atitude a respeito disso.

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Mas posso falar a verdade?
De todos esses defeitos, acaba que eu sou uma pessoa bem bacana, viu? Prometo que você ia - ou pelo menos eu ia tentar lhe fazer - se divertir se tomasse um café comigo.
Mesmo eu sendo vaidoso, mesmo eu sendo cabeça dura, mesmo eu sendo um otimista cego e mesmo que, com mais frequência que eu me orgulhe, eu desça a escada espiral pra onde mora a loucura.
Nessa vitrine decorada que é uma rede social, não quero que mostrar só a minha parte bonita, curada, pensada. Até porque essa é a pior parte de mim. Esse, com falhas difíceis de lidar, esse sou eu.
Essa parte maluca, estranha e com vergonhas é a parte que me faz ser bacana de verdade. Mais do que numa foto com a luz ideal, mais do que num post que me faz parecer inteligente, mais do que a pessoa que eu idealizo ser.

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Poderíamos mudar muita coisa se pararmos de supervalorizar nossos defeitos e começarmos a compartilhá-los tanto quanto exibimos por aí nossas qualidades.
Ter defeitos é ótimo. São eles que nos salvam de estar no controle o tempo todo e virarmos o maior tédio do mundo.
É a falta que nos faz completos. Querer ser só primavera empobrece muito nossas estações emocionais.

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Não adianta bancar só a parte luminosa de nós mesmos. Um carro não vai pra frente se você quiser acelerar só uma parte dele. Precisamos da estrutura toda, falhas e tudo, pra poder acelerar vida adiante.
Por inteiro. Com problemas e com orgulho.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...