22.1.16

Transações Amorosas

Para viver em harmonia com o mundo atual, só é necessário executar dois passos:
1- Cobiçar.
2- Consumir.

Depois, repetir a operação até se sentir vagamente satisfeito.

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Não é de se surpreender que a ideia de um amor romântico, escolhido a dedo e trazedor de toda a felicidade do mundo tenha vindo de mãos dadas com a ideia do consumo como solução para todos os males.

Escolhemos quem vamos amar como se estivéssemos no shopping: Eu carrego um valor comigo, você me parece ter um valor um pouquinho maior que o meu.

Deixe-me lhe consumir, e eu posso ter valor também.

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Talvez fosse melhor assumir a negociação de uma vez.
Um casal querendo se aventurar num romance se reuniria friamente para discutir os termos do contrato, cada um com seu advogado:

- O que a sua cliente tem a nos oferecer?
- Acredito que seja o seu cliente que precise fazer a proposta se quiser a parceria da Sra. Ivone. Afinal, ela é uma propriedade de alto valor, com amplo espaço para lazer na área dos peitos, e boas habilidades na área gourmet. Capacidade de falar em público interessa ao seu cliente?
- Sim, o Sr, Wellington tem uma tendência a ser tímido. Ela ser extrovertida pode agregar valor ao negócio. Entretanto, meu cliente está com procura em alta desde que trocou de automóvel, está praticamente sem barriga e tem investido pesado em pílulas para não perder o cabelo. Há poucos exemplares como ele disponíveis no mercado.

Tudo seria levado em conta:
- Seu cliente tem filho. Isso no mínimo tem que contar como depreciação.
- Não necessariamente. Experiência empírica tem demonstrado que, ao circular com a criança, meu cliente é abordado com grande frequência por outras interessadas no negócio.
- Está certo. Fechamos o negócio se o seu cliente apresentar pelo menos um ano de garantia desse corpinho.
- Aceitamos a condição se a sua cliente aceitar assinar esse termo limitando seu consumo de bebida alcoólica.

Todos sairiam contentes.

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No momento exato em que acaba a fase da paixão, todo relacionamento inicia uma disputa de poder.
Quando já acabou o jogo da conquista e começamos a ver os defeitos de quem está ao nosso lado (e mostrar os nossos), começa o cabo-de-guerra: cada um puxa a outra pessoa para mais próxima da ilusão que tinha dela quando se apaixonou.

Ou a força entre os lados da corda é equilibrada e o casal continua, ou alguém vai parar na lama.

Aí, sofremos muito mais pelo fetiche da pessoa que vai embora, ganhando da gente no puxa-puxa, do que pela pessoa em si.

Nos sentimos fracos e sem poder - e, com razão, revoltados.
Como é que essa pessoa que me fez pensar que se dedicaria à minha felicidade pôde desistir de mim? Como ela pode mentir que eu tinha alguma importância?
Será que - e tomara que não - eu não sou tão importante quanto eu penso?
(e, na fossa, vamos mais longe ainda: Por que diabos eu não tenho importância nenhuma?)

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É irônico que mesmo com todo o ideal romântico vigente na nossa sociedade, os fins de relacionamento tendam a doer muito mais no ego do que no coração.

"Por que é que quem eu achava que era meu não é mais meu?", pensamos enquanto molhamos o travesseiro de lágrimas.

A dor de amor é muito mais egoísta do que parece. Não agimos muito diferentemente de uma criança que perde o brinquedo preferido:
"Não quero outro! Quero aquele! Era daquele que eu gostava!"

Sem fazer ideia que outra brincadeira poderia ser tão divertida quanto, ou que logo mais o interesse naquele brinquedo ia diminuir e o desejo seria de brincar com outro brinquedo qualquer.

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Mas, mais do que uma transação comercial, o amor pode ser visto como um esporte: nos exercitamos, sofremos, nos divertimos e nos entregamos. Entramos de mãos vazias e damos o melhor de nós, e nem sempre ganhamos.

Terminar um relacionamento é como jogar futebol até furar a bola: nos sentimos cansados, sujos e frustrados.

Nada que um bom banho e uma soneca não resolvam. Logo sobra energia pra entrar no jogo novamente - sem consumir nem ser consumido.
Só pelo espírito esportivo.

18.1.16

Fazendo um pouquinho

Amigos, encarem isso como uma bronca. Como uma bronca bem dada, olhando nos olhos de vocês e falando "olha pra mim" quando vocês desviarem o olhar.

O que vocês fazem É BOM.

Você que pinta, que canta, que costura: o que você faz É BOM.

Você pode pintar torto, desafinar e errar o ponto, mas o que você faz É BOM.

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Por que diabos as pessoas com mais talento são as que mais duvidam de si, e as mais encantadoras as que menos sentem que tem valor?

Não é pra me incluir no grupo dos talentosos e encantadores, mas eu sei o que é se olhar no espelho e se odiar. E não achar que tem nada certo na sua cara, e que nada do que você faz tem valor, e que você é um bosta perto de tanta gente incrível no mundo.

E o mundo é assim mesmo, cheio de gente incrível, talentosa e rica.

E essa gente vai fazer trabalhos melhores que o seu, carreiras mais brilhantes que a sua e parecer mais interessante que você.

E sabem o que isso significa?

Porríssima nenhuma.

Porque ninguém consegue ser perfeito em tudo e todo mundo queria ser melhor em alguma coisa.

E, por incrível que pareça, tem gente nesse planeta que consegue ter inveja de você. De você! E gente que você admira!

Tem gente rezando de joelhos para falar como você fala, agir como você age, costurar como você costura ou ter a coragem que você tem de sair da cama e encarar o dia que você tem.

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"É, mas eu mostro o que eu faço e ninguém gosta."

Sim, mas tem força maior pra controlar uma pessoa do que fazer ela não se achar boa o suficiente?
Tem coisa que segura mais alguém do que duvidar da própria capacidade de fazer aquilo que ela quer? E nem é a respeito de saber fazer, é sempre sobre "fazer bem o suficiente".

Bem o suficiente pra quem, cazzo?

Tem gente aí que adoraria ficar nos ombros do Michelangelo enquanto ele pintava a Capela Sistina, falando "Pô, cara, esse Deus tá muito saradão!".

Pra manter o seu talento preso no seu cagaço. Pra que eles também não saiam do cagaço deles, e ainda consigam dar risada de quem ousou tentar.

Covardes.

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Além do mais, todo mundo vai querer uma fatia da sua coragem.

Se o Beethoven saísse mandando mp3 da quinta sinfonia pra cinquenta pessoas pedindo opinião, cinquenta pessoas dariam algum palpite do tipo "Olha, podia ser mais animadinho" ou "Podia ter um dubstep no meio, tá na moda". Só pra se sentirem participantes de uma obra de alguém que realmente teve o trabalho de sentar a bunda numa cadeira e tentar fazer algo bonito.

Chega uma hora em que você precisa acreditar mais na sua opinião do que na do outro.

Você já tem coisa demais pra se preocupar na vida - sua segurança, ter comida na mesa, juntar os cacos do coração que parte de vez em quando, dar comida pro gato. Tanta coisa pra fazer e você vai perder seu tempo com um Zé Roela que pode vir a achar que o seu humilde trabalhinho não está à altura do traseiro fofo dele?

Deixa disso.

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Mais do que acreditar, você precisa largar o medo de lado e fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

Tirar da ideia aquela sua ideia da lojinha virtual. Filmar aquele vlog que você prometeu pra si mesmo que ia fazer mas tem medo do ridículo. Soltar a voz na rodinha de violão.
Usar a saia curta que você ainda não teve coragem. Fazer aquele telefonema.

Sair um pouco da cabeça e dar a você mesmo a chance de existir um pouquinho.

Mesmo que seja um pouquinho bem humilde e que o resultado não seja o que você esperava.

E, se você foi criticado por alguma coisa que fez, se dê os parabéns. Você fez alguma coisa.

Isso já é mais do que muita gente é capaz de fazer.

7.1.16

Plano odontológico

Todos os dias, a formiga acordava com o dia ainda escuro. Batia duas vezes na função soneca, abraçava o travesseiro e criava coragem. Depois, enchia a cara de café, vestia terno e gravata e ia trabalhar.
“Sou precavida”, pensava ela enquanto se pendurava no ônibus, “É uma vida sofrida, mas isso ainda vai valer a pena”.

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Tão incansavelmente quanto, a cigarra passava pela apressada formiga todos os dias.
“E aí, workaholic de seis pernas”, gritava, “bora pra um happy hour?”
“São seis horas da manhã”, respondia a formiga.
Essa atrevida da cigarra ainda ia aprender uma lição.
Por mais desanimador que fosse ver folhas e mais folhas se empilhando em sua mesa, a formiga adorava imaginar a sensação de vingança e glória que sentiria quando o inverno chegasse.

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Mas, por enquanto, ainda era verão. E que verão!
Se encontraram novamente.
“Tá confortável esse sapato fechado?”, perguntou a cigarra, com deboche.
“Vai se foder, cigarra dos infernos”, disse a formiga. “Você é tão chata que apelidaram a cantora Simone com o seu nome”
“Então é Nataaaal”, cantou a cigarra, com sua voz fanha.
“E o que você fez?”, respondeu a formiga. “Hein? Porque eu trabalhei o ano inteiro e você me dá licença, que eu tenho que bater cartão”.

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Chegou o inverno.
Era a chance e a vez da formiga se vingar. Andou pela rua ansiosa para encontrar a cigarra. Encontrou.
“E aí, Cigarrinha, curtiu meu cachecol novo?”
“Adorei. Tá parecendo o Smilingüido tentando o suicídio.”
“Ridícula. Mas e aí, tá preparada pro inverno? Acho que não, né? Você não trabalhou o verão inteiro...”
“Amiga, que é isso? Vou pra Recife, lá não tem essa de inverno. Vou vender miçanga, tomar água de côco com vodka e arranjar um gringo! Quer ir junto?”

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A formiga ferveu de ódio, mas não ia sair por baixo.
“Não posso... O trabalho tá exigente, sabe? Tão dizendo que até o final do ano eu vou ser promovida a supervisora”, disse ela, cheia de orgulho. “Vou ter grana sobrando pra viajar, depois disso.”

A cigarra, mesmo sem ter ombros, deu de ombros.
“Bom, eu vou viajar agora mesmo. Tchauzinho!” – e saiu contente.


“MAS EU TENHO PLANO ODONTOLÓGICO!”, gritou a formiga, vitoriosa.

Cumprimentos

Já existiu um mundo em que, guerras e traições à parte, havia mais honra entre os homens. Havia um código, um sinal universal que garantia a...