30.7.15

Assim tá bom

O Darwin mandou a letra: quem não se adapta fica pra trás.

Algum tempo atrás, algum macaco cabeçudo viu os colegas rabiscarem na parede e teve preguiça de fazer igual.  Ninguém quis dar pra ele por conta disso, e agora o DNA dele ficou perdido pra sempre.

É a lei da natureza. Ou você se adapta, ou morre.

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“Sabe no eu penso quando eu tô super mal, Flávio?”

Minha amiga perguntou e eu não sabia. Arrisquei:
“Em comida?”
“Em você. Quando eu penso que eu tô mal, que eu não tenho nada de bom na vida, e quero desistir de tudo... eu lembro de você. Sabe, cê passa por cada coisa... e não desiste.”
"Ahn...", pensei um pouco. "Obrigado?"

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Quando as coisas não vão bem, digamos, no financeiro, o certo é ser um bom cristão e racionalizar que “Pôxa, mas pelo menos eu tenho saúde, tem gente que não tem.”
E se não tiver saúde, pensar “Ah, mas pelo menos eu tenho família, tem gente que não tem.”
E se não tiver família, vai pensar “Pelo menos eu tenho fé.”
         
Agora, se você está sem dinheiro, saúde, família e fé... Tudo bem. Pode reclamar da vida à vontade.

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Num momento deprê, é natural se comparar com alguém que não está tão bem assim para se sentir melhor. Eu só não imaginava que eu era a pessoa em quem os outros pensavam nesse momento.

Eu devia ter desconfiado disso quando um casal de amigos apareceu aqui em casa no começo da noite, em pleno dia dos namorados, com três taças, morangos e uma garrafa de espumante, e disse “Ah, a gente resolveu passar aqui com você.”

E não era uma orgia que eles queriam. Acredite, eu tentei.

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Tá certo, eu passei por umas coisas bem chatas de uns tempos pra cá. De uns vários tempos pra cá. Nada tão pesado assim, só o suficiente pra acabar desenvolvendo o mecanismo do “Assim tá bom”.

Não rolou o emprego que eu queria? Tudo bem, assim tá bom. Levei um pé na bunda? Não dá nada, assim tá bom. Um jacaré comeu meu braço? Ótimo.

E sabe o que é? Até que tá bom, mesmo.

Quando a gente perde muito do que a gente julga ser importante pra nós, acaba descobrindo que não precisava de tudo aquilo que imaginava pra ser feliz.

Não que você fique totalmente alegre depois de uma decepção, claro, mas olha: o mesmo nível de infelicidade de antes dá pra manter, sim.

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Buda disse que renunciar ao desejo é o fim do sofrimento. Darwin disse que quem melhor se adapta ao ambiente é quem sobrevive.

Eu concordo: nada ensina tanto a gente quanto querer alguma coisa e não conseguir.

Ainda assim, acho importante não matar a parte da gente que quer as coisas.

Ficar satisfeito facilmente com o que a vida apresenta é muito útil, mas é a insatisfação é o que nos faz andar.  Se conformar é bom para não ser um chato, mas se conformar com tudo é receita pra morrer em vida.

Se a sua reação frente a uma coisa ruim é dizer “OK” e seguir em frente, você perde a oportunidade de se transformar com a frustração. Para nos transformarmos, precisamos ficar cansados, e frustrados, e chateados, e putos.

Em algum desses passos, surge a energia pra chutar o pau da barraca.

Com sorte, a situação fica melhor e você não tem que se adaptar a algo que não gosta. Se a barraca desabar, não resistir ao chute e cair em cima da nossa cabeça, tudo bem. A gente se acostuma.

Não deve ser tão ruim. O Darwin que disse.

2.7.15

Um pequeno criminoso

Quando tinha oito anos, eu roubei um carro.

Tá bom, tô exagerando. Quem roubou o carro foi o N, amigo do meu irmão.

O pai do N era policial, e um dos sargentos foi viajar com a família. A casa ia ficar sozinha por alguns dias.

Cidade pequena tem umas coisas meio estranhas. Aparentemente, o pensamento lógico era "Vai viajar? É perigoso deixar a casa sozinha. Bota uma criança pra ficar cuidando!".

O N foi ordenado guardião temporário da casa do sargento. Ele tinha doze anos, e chamou meu irmão e eu para lhe fazermos companhia num sábado à noite.

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Foi um dia de cometer pecados.

Ousadíssimos, tomamos quase uma lata de cerveja cada um. Remexemos todos os cantos da casa em busca do inesperado. Encontramos uma arma e brincamos de atirar um no outro.

Achamos o esconderijo de Playboys do dono da casa e nos masturbamos. Eles, com a foto clássica da Scheila Carvalho lambendo o próprio peito.

Eu, um pouco menos animado, tentando imaginar como é que ela conseguia fazer aquilo.

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Pra mim já era aventura o suficiente. Eles queriam mais.

"Véio...", disse o N, "isso aí no chaveiro é a chave do carro?"

Era a chave do carro do sargento.

"Você sabe dirigir?", perguntamos pro N.
"Eu sei."
"Eu também", disse o meu irmão, pra não ficar pra trás.

Fomos os três pro Corsa Wind novinho do sargento. Saímos da garagem, e dali pra frente, foi só emoção.

Dois meninos de doze anos se revezando ao volante, e tentando mostrar que eram bons motoristas. Não por fazer balizas impecáveis, mas tentando fazer a curva mais fechada possível na maior velocidade que o carro aguentasse, com o rádio ligado no último volume.

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Cidade pequena, barulho na madrugada, não demorou para vermos no retrovisor um giroflex atrás da gente.

Minha cabeça de criança foi incapaz de registrar direito a cena, porque a minha memória é praticamente uma cena de filme de Hollywood.

Adrenalina a mil, aceleramos e voamos pelas ruas desertas de Pato Branco, entrando em ruelas cada vez mais tortas, tentando despistar a polícia que nos seguia. Correndo, chegamos à rua de calçamento onde ficava a casa.

Xingávamos o portão eletrônico por abrir tão devagar, enquanto olhávamos para trás, incapazes de acreditar que não tínhamos sido pegos.

Finalmente o portão fechou e... nada aconteceu.

Chegamos em casa foragidos e ilesos. Meu anjo da guarda deve ser o Van Damme.

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Se tivéssemos sido pegos, provavelmente levaríamos belas broncas e uma surra memorável dos nossos pais.
Ainda assim, acho que todos lembrariam que éramos crianças, e provavelmente ninguém consideraria jogar a gente numa cadeia por causa de uma aventura dessas.

Agora, se estivéssemos nos dias de hoje, e  estivéssemos mais perto da periferia, e tivéssemos feito muito menos do roubar um carro por uma noite, já teria gente pedindo nossa cabeça.

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Acho estranha essa obsessão por reduzir a maioridade penal.

Adolescentes são muito inteligentes, mas não sempre. Às vezes a parte criança ganha, a cabeça é tomada pelo senso de aventura e vontade de ser dono de si, e o cérebro simplesmente desliga. Inocência de criança e frustração de adulto se encontram num ser só, desejoso de mergulhar no proibido e pronta pra fazer merda.

E isso até que é bom: errar é a melhor coisa que se pode fazer na adolescência.

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Claro que há erros e erros, mas não é esse o caso.
Essa discussão não se resume a argumentos como "ah, então ele é inocente só porque tem dezessete anos?".

Esperar os dezoito anos para prender alguém é como um combinado de cessar-fogo. É uma trégua.

É como se no começo do jogo, virássemos para um jovem de periferia e disséssemos "Sim, você vai nascer numa sociedade em que sua vida vale muito pouco, e você vai ter muito poucas chances. Mas vamos tentar ser justos: você vai ter até os dezoito anos pra aprender a se virar com isso antes de te jogarmos numa cadeia. Tente ser criança no percurso."

Quando você está com todas as regras do jogo contra você, você precisa pelo menos de um tempo pra tentar se localizar dentro delas. Errar é inevitável.

Quem não entende isso, é por maldade ou total falta de empatia.

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É todo um trabalho de olhar pra um adolescente e lembrar que ele é gente, mesmo quando erra. E que, se errou um erro muito grande, talvez tenha sido por falta de ter aprendido coisa melhor. E que, ainda assim, ele tem tempo pra aprender se for tratado com decência.

Como tratar um pequeno criminoso é uma questão complexa, mais fácil de dizer do que de fazer, e que não se entende com um olhar rápido.

Tipo a Scheila Carvalho lambendo o próprio peito.

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Notinha: tive que tirar o nome do meu amigo do texto porque deu treta. Mas tá certo, quando estamos falando de menores precisamos proteger os envolvidos...

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...