13.11.14

Um ato de fé

Quando meus dentes de leite estavam caindo, senti fortemente que era hora de botar um ponto final naquela vergonha. Na minha cabeça de criança, dentes caindo eram sinal de falta de higiene, e eu não ia mais deixar aquilo acontecer.

Um dos meus dentes da frente estava ficando bambo, e eu não ia arriscar ficar banguela e ter de ouvir piadas de "E essa janelinha aberta?" pra sempre.

Escovei aquele dente por horas a fio, com a gana de quem evitava um desastre.

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Já estava difícil respirar por causa do cansaço da caminhada, e ficou pior quando senti aquele cheiro terrível. No meio da calçada, dois imensos caminhões limpa-fossa.

Respirando apenas o necessário para não cair morto, atravessei a rua e reparei que, entre um caminhão e outro, um mendigo estava sentado no meio fio. Como ele aguentou aquele cheiro de fossa, não sei. Talvez ele mesmo não estivesse com o cheiro tão agradável assim. Talvez ali fosse um lugar onde dava pra se distrair do cheiro do próprio sovaco.

Mas estereótipos caem mais rápido do que dentes de leite, e eu me surpreendi com o que vi: sentado no meio fio, segurando uma garrafa velha cheia de água, o mendigo escovava os dentes.

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Lembro bem de quando não existia essa variedade toda de marcas de pasta de dente. Com sorte, você tinha duas opções, e escolhia pelo preço. Qualquer uma que você comprasse seria igual: branca, com textura de graxa de sapato, e um aroma artificial de hortelã que deixava sua boca com gosto de cano de PVC.

De vez em quando você esfregava aquilo nos dentes, e isso adiaria em uma ou duas décadas a inevitável compra de uma dentadura.

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Dos atos de higiene, escovar os dentes é um dos mais complexos. Requer um instrumento próprio, um produto específico, um gargarejo que movimenta mais músculos do que correr uma maratona, e uma técnica toda especial de movimento das mãos.

Qualquer criança consegue lavar as mãos. Tomar banho não exige nenhuma ciência. Mas escovar os dentes? Não tão simples! Você precisa ensinar as crianças desde a pré-escola. Você precisa segurar na mãozinha delas e dizer "de cima pra baixo, de cima pra baixo!". Você precisa de um adulto vestido de escova de dentes, talvez cantando uma musiquinha.

Não é um trabalho qualquer.

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E ninguém escova os dentes sem ter alguma ambição.

A gente escova os dentes porque sabe que pode encontrar alguém que não queiramos assustar com o cheiro de podre que vem das nossas tripas. A gente escova os dentes porque sabe que pode encontrar alguém que, por um surto de afeição, queira inspecionar nossa boca usando a própria língua.

A gente escova os dentes porque, no mínimo, tem a esperança de que daqui a dez anos a gente vai ter motivo pra sorrir, e quer garantir que vai ter dentes pra isso.

Por isso que, pelo menos comigo, o primeiro sinal de que eu tô entrando em uma depressão é quando eu não consigo levantar da cama para escovar os dentes antes de dormir.

É um sinal de que as coisas não estão bem. É um sinal de que eu estou desistindo de tudo.

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Foi isso que me deixou impressionado com o mendigo. Ele podia estar - literalmente - na sarjeta, mas estava escovando os dentes. Ele podia estar - quase literalmente - na fossa, mas não tinha desistido de sorrir.

Talvez ele soubesse que as coisas podiam melhorar a qualquer momento. Talvez ele soubesse que, na sua faixa de renda, ter dor de dente e precisar consultar um dentista fosse muito inviável. Talvez ele fosse encontrar o amor da sua vida.

Só sei que ele não tinha desistido. Alguma ambição ele tinha. Tinha sim.

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Das coisas que já me deprimiram a ponto de não querer nem escovar os dentes, nenhuma delas foi tão preocupante quanto estar na rua e não ter onde dormir. Por muito menos do que a situação do mendigo, eu já teria me abandonado.

Não consigo imaginar de onde vinha essa força dele. Quem sabe a única coisa que o separasse da sensação de ter perdido tudo completamente fosse a sua escova de dentes.

O mendigo higiênico e eu criança tínhamos algo em comum. Estávamos, os dois, fazendo a mesma coisa: escovando um dente bambo, sem muita ideia de como o futuro seria, na expectativa de adiar uma queda inevitável. Apoiados na esperança de manter um sorriso íntegro.

Um ato de fé, eu diria.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...