26.8.14

As Meninas do Papai

Das lições que a vida costuma dar, algumas parecem se repetir. E parecem se repetir com um script tão parecido que fica difícil não procurar os elos entre a dor de uma pessoa e outra, para entender o que elas têm em comum.

--

Estou entrando na fase da vida em que a morte dos pais começa a ser mais natural e menos vista como tragédia.

Mas essa cena se repete muito: Tenho visto várias amigas, jovens mulheres recém-entradas na vida adulta, perderem o pai recentemente.

Fiquei reparando o padrão, e algumas coisas parecem ser compartilhadas.

A morte enfeita as pessoas, mas todas essas meninas descrevem o pai como a referência de amor de suas casas, a maior fonte de carinho que tiveram quando meninas.

--

O que a vida está querendo ensinar quando tira de uma recém-mulher a sua maior referência de amor da infância?

Minhas amigas que ficaram órfãs depois de adultas parecem mudar de jeitos similares.

Ficam mais seguras para a vida, até meio duronas. Começam a comprar briga, quando antes eram menos dóceis.

Ficam à sós com as mães, quase sempre pessoas mais distantes e conflituosas do que a figura que o pai representava, com mais dificuldades para mostrar amor.

Apanham do amor, na dificuldade de encontrar alguém que lhes dê um carinho do tamanho que o pai era capaz de dar.

E sofrem. Todas elas sofrem, de um jeito que não imaginavam ser capazes de conseguir, e por mais tempo do que pensariam poder.

--

Talvez esses pais afetuosos tenham sido uma maneira que a vida encontrou para facilitar a entrada dessas mulheres no mundo. Carregam essas meninas no colo, em famílias nem sempre tão equilibradas, e lhes dão a oportunidade de conhecer o amor.

Um amor bem protetor, aliás, que amortece muitos dos sofrimentos que essas meninas teriam passado caso os pais não estivessem presentes.

Depois, com a partida do pai, desce todo o sofrimento de uma vida de uma vez só, sem amortecedores.

E, da pancada, elas se reconstroem.

--

Não deve ser uma cruz fácil de se carregar. Nenhuma cruz é.

De longe, observando, me surpreende a força que essas menininhas do papai mostram.

A elas, meu afeto. Aos pais, onde quer que estejam, o orgulho.

21.8.14

Partindo pra briga

Minha mãe, como todas as mães do mundo, tinha um argumento certeiro para me desarmar quando eu brigava com ela:

"Você sempre foi brigão! Só sabe brigar!", ela falava.

Eu, sem saber outra maneira de reagir que não fosse dizer "EU NÃO SOU BRIGÃO!" aos berros, partia pro quarto batendo porta. Até mesmo um brigão precisa de coerência.

Alguns anos de doutrinação cristã depois, eu fui pamonhizado o suficiente para me tornar mais pacífico. Ganhei muitas coisas com isso: menos conflitos, fama de bonzinho e gastrite nervosa.

--

O problema de ser bonzinho é que isso acaba com a sua energia.

A parte de você que briga é a mesma que luta pelo que quer, arrisca coisas novas e faz sexo.

Matando essa parte, tudo isso vai embora.

--

Desocupei o apartamento onde morei por cinco anos essa semana. Isso significa que precisei lidar com a imobiliária.

Pra quem não sabe, imobiliária é um lugar que negocia imóveis e representa Satanás na Terra.

O processo de vistoria foi cruel. Por mais que eu tivesse recrutado meus amigos para pintar as paredes e beber cerveja (não necessariamente nessa ordem), o agente decidiu que o apartamento precisaria ser todo repintado. Partes do piso, o armário do banheiro e todas as torneiras da casa também.

Aparentemente, eu tenho os hábitos de moradia de um diabo da Tasmânia.

--

Quando o laudo da imobiliária chegou, o valor do fundo de conservação do imóvel estava muito abaixo do esperado, e o preço orçado para os reparos no apartamento estava próximo da peruca do Donald Trump.

Me revoltei. Nunca fui de calcular minúcias financeiras, mas minha parte brigona surgiu, como um braço de criança na jaula de um tigre.

Foram tardes na frente do computador, somando cada centavo pago e pesquisando cada direito que eu poderia exigir. Quando terminei, tinha uma papelada gigante que comprovava que os cálculos deles estavam errados.

Eles iam conhecer a minha fúria. Cada segundo gasto no telefone ouvindo a moça da imobiliária dizer que eu calculei errado seria cobrado em sangue, e a revanche se estenderia até a oitava geração.

--

Estava na sala de espera da imobiliária como um soldado que se prepara psicologicamente para a guerra. Nunca fui de fazer barraco, mas hoje seria o dia. Eles iam ver com quem estavam mexendo.

Cheguei confiante, calmo, sorridente.

Botei a papelada em cima da mesa explicando cada direito que eu tinha, pronto para explodir a qualquer momento.

A moça da imobiliária analisou os gastos, me olhou nos olhos... e disse "OK."

"OK." A filha da puta não se deu nem ao trabalho de conferir se meus cálculos estavam certos e já foi aceitando a minha proposta.

Se a parte que briga é a parte que transa, essa foi uma broxada das bravas.

--

O que importa é que agora quem vai gastar dinheiro é a imobiliária, e não eu. Com tempo, vontade de brigar e jeitinho, se consegue qualquer coisa.

Até uma resposta para a minha mãe:
"Você só sabe brigar", ela diz.
"Mimimi, você só sabe brigaaaar", respondo eu, com voz de criança, e continuo brigando.

Porque maturidade é uma coisa que se adquire.

1.8.14

Faculdade pra quê?

Meu irmão nunca foi pra frente numa faculdade. Começava um curso, fazia um semestre, achava tudo um saco e trancava a matrícula. Dizia que aquilo não era o que queria da vida, mesmo, e acabava escolhendo outra faculdade pra fazer.

Um semestre depois, tudo era um saco novamente.

Ele comentou comigo, essa semana, que quem sabe agora, um pouco mais perto dos trinta do que dos vinte, fosse a hora de fazer uma faculdade.

Vejam bem: ele já tem uma empresa, tem uma série de capacidades que conseguiram seu sustento até agora, e não tem a intenção de pedir um emprego para ninguém tão cedo.

--

Talvez eu seja resistente demais a essas coisas.

Desde adolescente, toda vez que a leitura de um livro era exigida para alguma avaliação, eu corria atrás de algum resumo, uma ideia geral a respeito ou o relato de um colega que se deu ao trabalho de ler. Sempre consegui nota suficiente sem ter lido nada.

Depois das avaliações, passava na biblioteca, emprestava o livro e lia com o maior gosto do mundo.

No meu ritmo, sem a obrigação de ser avaliado depois.

--

Algumas das pessoas mais felizes que eu conheço nunca atuaram na área de formação. Estudaram, arranjaram um diploma qualquer, enfiaram o diploma rabo adentro e foram parar no primeiro emprego que surgiu.

Tristes adolescentes, que pensam que estão tomando uma decisão importante quando prestam vestibular para algum curso. Sofrem tentando decidir o que vão ser na vida, sem perceber a irrelevância disso depois de um tempo.

--

A questão é: dezenas de pedagogos já provaram por amaisbê que essa história de sentar pessoas numa fileira e derramar conteúdo sobre elas não é a melhor maneira de adquirir conhecimento. É só uma maneira barata e fácil de deixar crianças amontoadas e quietas.

E onde estão os estudantes de doutorados em pedagogia? Amontoados e quietos em sala de aula.

--

Me vi num dilema parecido com o do meu irmão quando comecei a considerar fazer uma pós-graduação ou um mestrado.

Ter feito faculdade me ensinou uma coisa: faculdades não valem nada.

Claro, você tem experiências interessantes, conhece pessoas com desejos afins e tem um pouco mais de facilidade para descobrir o que é interessante saber ao trabalhar na área que escolheu, mas é basicamente isso.

Num mundo em que todo o conhecimento já produzido está a um clique de distância, em que você pode ver os maiores estudiosos do planeta falando eles mesmos sobre suas descobertas, a sala de aula convencional é uma solução no mínimo preguiçosa.

Por quê depender de um currículo selecionado por uma faculdade tendo em vista o maior lucro possível da instituição se posso basear meus estudos no meu próprio instinto, curiosidade e tesão?

--

Talvez o que mais me incomode nesse assunto seja a hierarquia que esse ambiente acadêmico sugere. Não é por sede de conhecimento que meu irmão se sente pressionado a entrar numa faculdade, nem eu a fazer um mestrado.

É pela impressão de que quem tem um título acadêmico tem mais poder. Como se possuir uma faculdade fosse garantia de conhecimento.

Não é.

--

Fazer faculdade tem, pelo menos, o lado bom de você poder ir para uma cela especial quando for preso.

O problema é se ela aprisiona o seu desejo de aprender.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...