29.12.14

Pra passar de ano

"O tempo passa cada vez mais rápido, o ano passou e eu nem fiz nada!"

Normal se sentir estagnado no final de um ano. É difícil ter uma ideia clara de como vai a vida quando falta um objetivo claro de onde se quer chegar. Sem objetivo, sem critério para saber se estamos perto dele ou não.

No tempo de escola era muito mais fácil saber se estava indo bem. Você recebia as matérias e uma expectativa mínima de como se sair nelas. Indo acima da média, você passava de ano.

Talvez dê pra fazer a mesma coisa hoje em dia. Vamos lá, tente fazer um boletim do seu ano e descubra como você se saiu  - e se você se aprova.

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Educação Artística: Você assistiu alguma peça de teatro? (3 pontos) Assistiu algum filme que você não entendeu? (3 pontos) Parou para assistir algum artista de rua? (3 pontos) Doou dinheiro para ele? (1 ponto) Comprou o CD da Banda Malta? (DIZ PRA MIM O QUE EU JÁ SEEEEI)

Educação Física: Você fez alguma atividade física por prazer? (2 pontos) Mais de uma vez por semana? (3 pontos) Você fez alguma atividade física por obrigação? (2 pontos) Pelo menos correu atrás de um ônibus ou pra não se molhar de chuva? (3 pontos) Injetou alguma coisa na bunda ou no braço para ficar mais fortinho? (mande uma foto para avaliação. Mas vai ser reprovado.)

Matemática: Pagou juro na fatura do cartão de crédito? (menos um ponto) Conseguiu gastar menos do que ganhou? (3 pontos) Conseguiu economizar alguma coisa? (3 pontos) Conseguiu economizar alguma coisa e ainda assim gastar com algo que te dá prazer? (4 pontos)

Biologia: Brincou com um animal desconhecido, na rua? (3 pontos) Sem se preocupar com o tempo? (3 pontos) Ajudou um animal que estava passando necessidade? (4 pontos) Falou que não gosta de gato porque é bicho traiçoeiro? (Saia já da minha sala de aula!)

Geografia: Conheceu algum lugar diferente fora do país? (2 pontos) Fora do seu estado? (2 pontos) Fora da sua cidade? (2 pontos) Fora do seu bairro? (2 pontos) Frequentou alguma parte diferente da sua casa, pelo menos (2 pontos) Passou noites planejando uma viagem completamente fora do seu orçamento? (está no meu clube! Ponto extra!)

Química: Experimentou misturar sua saliva com a de outra pessoa? (3 pontos) Num tubo de ensaio? (-3 pontos) Misturou alguma coisa por engano na sua comida e comeu do mesmo jeito? (4 pontos) Explodiu alguma coisa por acidente? (aprovação automática, vitória na vida)

História: Parou pra conversar com alguém mais velho? (4 pontos) Sem ser no funeral de algum parente? (3 pontos) Fez alguma pergunta que eles não esperavam? (5 pontos)

Língua Portuguesa: Leu algum autor que nunca tinha lido antes? (3 pontos) Releu um livro que sempre gostou? (2 pontos) Encontrou novo sentido nele? (2 pontos) Escreveu uma carta para alguém que gosta? (3 pontos) Usando a palavra conserteza? (-2 pontos)

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Avaliação Extracurricular: Se divertiu bastante no recreio? Dividiu o lanche com os amiguinhos? Brincou bastante?

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Se o clichê de que a vida é uma escola for verdade, ela é como uma escola ruim: a aprovação é automática.
O problema é que ela também é como uma faculdade exigente: sem ir bem nos períodos anteriores, aprender vai ficando cada vez mais difícil.

Bem ou mal, mesmo passando de ano a gente precisa repetir a lição. Aprovados ou reprovados, melhor continuar estudando - ser expulso dessa escola não é muito legal.

13.11.14

Um ato de fé

Quando meus dentes de leite estavam caindo, senti fortemente que era hora de botar um ponto final naquela vergonha. Na minha cabeça de criança, dentes caindo eram sinal de falta de higiene, e eu não ia mais deixar aquilo acontecer.

Um dos meus dentes da frente estava ficando bambo, e eu não ia arriscar ficar banguela e ter de ouvir piadas de "E essa janelinha aberta?" pra sempre.

Escovei aquele dente por horas a fio, com a gana de quem evitava um desastre.

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Já estava difícil respirar por causa do cansaço da caminhada, e ficou pior quando senti aquele cheiro terrível. No meio da calçada, dois imensos caminhões limpa-fossa.

Respirando apenas o necessário para não cair morto, atravessei a rua e reparei que, entre um caminhão e outro, um mendigo estava sentado no meio fio. Como ele aguentou aquele cheiro de fossa, não sei. Talvez ele mesmo não estivesse com o cheiro tão agradável assim. Talvez ali fosse um lugar onde dava pra se distrair do cheiro do próprio sovaco.

Mas estereótipos caem mais rápido do que dentes de leite, e eu me surpreendi com o que vi: sentado no meio fio, segurando uma garrafa velha cheia de água, o mendigo escovava os dentes.

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Lembro bem de quando não existia essa variedade toda de marcas de pasta de dente. Com sorte, você tinha duas opções, e escolhia pelo preço. Qualquer uma que você comprasse seria igual: branca, com textura de graxa de sapato, e um aroma artificial de hortelã que deixava sua boca com gosto de cano de PVC.

De vez em quando você esfregava aquilo nos dentes, e isso adiaria em uma ou duas décadas a inevitável compra de uma dentadura.

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Dos atos de higiene, escovar os dentes é um dos mais complexos. Requer um instrumento próprio, um produto específico, um gargarejo que movimenta mais músculos do que correr uma maratona, e uma técnica toda especial de movimento das mãos.

Qualquer criança consegue lavar as mãos. Tomar banho não exige nenhuma ciência. Mas escovar os dentes? Não tão simples! Você precisa ensinar as crianças desde a pré-escola. Você precisa segurar na mãozinha delas e dizer "de cima pra baixo, de cima pra baixo!". Você precisa de um adulto vestido de escova de dentes, talvez cantando uma musiquinha.

Não é um trabalho qualquer.

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E ninguém escova os dentes sem ter alguma ambição.

A gente escova os dentes porque sabe que pode encontrar alguém que não queiramos assustar com o cheiro de podre que vem das nossas tripas. A gente escova os dentes porque sabe que pode encontrar alguém que, por um surto de afeição, queira inspecionar nossa boca usando a própria língua.

A gente escova os dentes porque, no mínimo, tem a esperança de que daqui a dez anos a gente vai ter motivo pra sorrir, e quer garantir que vai ter dentes pra isso.

Por isso que, pelo menos comigo, o primeiro sinal de que eu tô entrando em uma depressão é quando eu não consigo levantar da cama para escovar os dentes antes de dormir.

É um sinal de que as coisas não estão bem. É um sinal de que eu estou desistindo de tudo.

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Foi isso que me deixou impressionado com o mendigo. Ele podia estar - literalmente - na sarjeta, mas estava escovando os dentes. Ele podia estar - quase literalmente - na fossa, mas não tinha desistido de sorrir.

Talvez ele soubesse que as coisas podiam melhorar a qualquer momento. Talvez ele soubesse que, na sua faixa de renda, ter dor de dente e precisar consultar um dentista fosse muito inviável. Talvez ele fosse encontrar o amor da sua vida.

Só sei que ele não tinha desistido. Alguma ambição ele tinha. Tinha sim.

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Das coisas que já me deprimiram a ponto de não querer nem escovar os dentes, nenhuma delas foi tão preocupante quanto estar na rua e não ter onde dormir. Por muito menos do que a situação do mendigo, eu já teria me abandonado.

Não consigo imaginar de onde vinha essa força dele. Quem sabe a única coisa que o separasse da sensação de ter perdido tudo completamente fosse a sua escova de dentes.

O mendigo higiênico e eu criança tínhamos algo em comum. Estávamos, os dois, fazendo a mesma coisa: escovando um dente bambo, sem muita ideia de como o futuro seria, na expectativa de adiar uma queda inevitável. Apoiados na esperança de manter um sorriso íntegro.

Um ato de fé, eu diria.

21.10.14

Agressão ao Palmito

Parece que durante toda a minha vida minha situação de moradia foi a mesma. Por mais que eu mudasse de endereço, sempre morei entre um bairro muito rico e outro muito pobre.

Ali no meio, na classe média, onde sempre pertenci.

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Me mudei de novo recentemente. Agora vivo entre o bairro mais rico de Curitiba e uma parte não muito bacana do centro (que não é nenhuma favela, pelo visto eu devo ter subido de vida quando aluguei um quarto na casa de uma amiga).

O que significa que, para garantir minhas andanças diárias, acabo passando em frente de alguns pontos grã-finos da cidade. Não é de propósito, é que quando não quero andar pelo centro fuleiro, esse é o único lugar que eu tenho pra passear por perto.

Com o tempo acabei me acostumando em ser a única pessoa com calça de moletom e fone de ouvido passando em frente aos restaurantes chiques da cidade. A rua é meu quintal, quero ver quem me impede de passar por ela.

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Só que, mesmo assim, eu tenho dias de querer me arrumar mais um pouco pra não receber tantos olhares assim enquanto caminho.

E o último domingo era um deles. Botei uma blusa bonita de fio, calça jeans e um tênis mais limpinho pra dar minha caminhada diária (sim, calça jeans e tênis limpo são meu conceito de me arrumar, me julgue).

Aí, enquanto passava em frente ao shopping mais caro da cidade, sob luzes de vitrines da Prada e Louis Vuitton, dois meninos de chinelo passam por mim:

"Esse aí é do dinheiro, hein? Filhinho de papai, queria ter a tua vida, viu? Metidinho!"

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Então é esse o preconceito que os brancos de classe média dizem sofrer tanto? "Sua vida é mais fácil!"?

Meu comentário sobre essa "agressão": FOI ÓTIMO!

Sério, todo mundo devia experimentar ser discriminado por ter a vida mais fácil, um dia. Ser xingado de "Seu rico!".

Dá uma alegria imensa.

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De verdade: mesmo eu não sendo o playboyzinho que eles imaginavam que eu fosse, minha vida é mais fácil sim.

Sempre que alguém defende cotas raciais ou coisa parecida, alguém solta o argumento "Mas e o branco que nasce pobre, como faz? Fica sem benefício?".

Olha, com a minha carteirinha de Branco que Nasce Pobre™ em mãos, devo dizer que a vida não foi tão terrível assim.

Mesmo estudando em escola pública e tendo que ralar o cu na ostra pra ganhar dinheiro, a percepção das pessoas sobre sempre foi mais generosa. Minha cara de polaco nerd com certeza me fez passar por mais entrevistas de emprego do que se eu fosse um negro nerd.

A cara branca do meu pai provavelmente fez com que ele consertasse mais televisões do que se ostentasse um rosto negro ou uma cadeira de rodas.

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Por isso quando alguém como o Danilo Gentili fala que pode fazer piadas sobre negros porque é chamado de "Palmito", é porque está confundindo bastante as coisas.

Um pouquinho de empatia faz bem. Quando a gente se coloca sinceramente no lugar do próximo, corre o risco de perceber que as proximidades não sejam tantas assim.

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Por piedade divina ou crueldade humana, minha vida de branco foi mais fácil - mesmo com situações econômicas relativamente similares aos garotos negros que estudavam comigo.


E vou reclamar disso? Vou reclamar de quando dão benefícios pra quem não teve os mesmos benefícios que eu?

Prefiro não. Vai que na próxima encarnação eu venho mulher e negra?

Não tenho cacife pra viver no modo hard. Fica meu aplauso pra quem tem.

19.9.14

Vocações

- Padre?
- Pois não, filho.
- Precisamos conversar. Eu sinto que tenho... Que tenho uma vocação. 

A alegria nos olhos do padre era visível. Mal podia se lembrar quando foi a última vez que um rapaz assim, jovem e cheio de vida, lhe procurava para seguir o sacerdócio.

- Mas que bela missão, meu filho! 
- Bela, padre? Não sei. O senhor acha que toda vocação é para o bem?
- Ora, filho... é uma vocação religiosa, certo?
- Sim, padre. Quero dedicar minha vida ao serviço para Cristo.
- Pois então não há nada mais nobre. Nada mais belo para um jovem cristão do que o desejo de ser padre!
- Então... Não é bem isso.
- Não deseja ser padre?
- Pois é, quase isso. O chamado de Deus no meu coração pede que eu seja... freira.

O padre não se sentia tão confuso desde o dia em que leu o Apocalipse depois de beber todo o vinho da sacristia.

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- Como assim, uma freira? Olha, se for pra me faltar com o respeito...
- Juro que não é falta de respeito, padre! É só como eu me sinto. O chamado de Deus no meu coração é claro: eu quero semear a paz, a fé católica, o amor! Quero ser uma irmã de Cristo!
- Não. Irmã não pode. 
- Mas, frei! Eu vi no jornalzinho da paróquia, o número de freiras nunca foi tão baixo!
- A freira vem pronta de fábrica! Não pode ser homem!
- Mas debaixo do hábito, não devemos anular nosso sexo? Não devemos ser castos?
- Pois você pode anular seu sexo e ser casto sendo padre. Não precisa ser freira pra isso.
- Mas e a vocação, padre? Minha vocação é pra freira. Não é pra ser padre, não é pra rezar missa, não é pra conduzir o povo. É pra agir pelas beiradas, é pra ser apoio emocional, é pra rezar na minha. Eu vim pro mundo pra ser freira, padre. Eu sou o amor maternal da Virgem, não a redenção paterna do Cristo.

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Obviamente o garoto estava decidido. Mas o padre era um homem paciente. Não ia deixar a discussão acabar sem um bom argumento bíblico.

- E a tentação? Você seria um homem cercado de mulheres o tempo todo.
- Mas padre, quem é que quer ser padre no século XXI? Só o senhor pra acreditar que eu seria tentado ao estar cercado de mulheres. Mais tentado seria se estivesse cercado por homens. Cercado de mulheres, ó, é garantia de castidade.
- E a influência masculina dos seus irmãos em Cristo, não lhe faria falta?
- E a influência feminina, não faria também? Sorte dos vocacionados que gostam da companhia masculina apenas pra conversar. Eu não sou assim. Eu me entendo na cozinha, padre. Eu me entendo com as mulheres. 
- Pois se entenda com as mulheres, mas se entenda sendo padre! Sendo um homem casto!
- Muito mais fácil ser casto sendo freira! Acho mais bonito. Gosto do hábito mais do que da batina. Gosto mais de cobrir a cabeça do que de raspar a cabeça. É assim que Deus me fez!

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Foi expulso da igreja ali mesmo. O padre não aceitou tamanha gozação com a tradição de Cristo. Freiras não deveriam ser machos. Freiras deveriam nascer mulheres, e negar a sua feminilidade depois de adultas, ora! Deveriam ser mulheres modestas...

Como a mocinha que adentrava a igreja naquele momento. Simples. Calçado baixo, sem maquiagem. Cabelo joãozinho, as unhas sem pintar. De longe, parecia um garoto, de tão sem vaidade. 

Aquilo sim era uma freira em potencial. Sentindo um chamado em seu coração, o padre foi chamá-la:
- Com licença, jovem... Sinto que está aqui por um motivo.
- Estou, padre, estou! Eu vejo como o senhor conduz essa comunidade, seu amor, sua fé! Eu quero a vida religiosa, padre!

Agora sim, uma nova irmã para a vida sacerdotal.
- Tens o desejo de ser freira, minha filha?
- Quase, padre! Quero ser padre também!

Era muito desaforo! Mas a moça não foi mandada embora tão cedo. Só o padre sabia das ereções que essas mocinhas rebeldes lhe causavam...

26.8.14

As Meninas do Papai

Das lições que a vida costuma dar, algumas parecem se repetir. E parecem se repetir com um script tão parecido que fica difícil não procurar os elos entre a dor de uma pessoa e outra, para entender o que elas têm em comum.

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Estou entrando na fase da vida em que a morte dos pais começa a ser mais natural e menos vista como tragédia.

Mas essa cena se repete muito: Tenho visto várias amigas, jovens mulheres recém-entradas na vida adulta, perderem o pai recentemente.

Fiquei reparando o padrão, e algumas coisas parecem ser compartilhadas.

A morte enfeita as pessoas, mas todas essas meninas descrevem o pai como a referência de amor de suas casas, a maior fonte de carinho que tiveram quando meninas.

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O que a vida está querendo ensinar quando tira de uma recém-mulher a sua maior referência de amor da infância?

Minhas amigas que ficaram órfãs depois de adultas parecem mudar de jeitos similares.

Ficam mais seguras para a vida, até meio duronas. Começam a comprar briga, quando antes eram menos dóceis.

Ficam à sós com as mães, quase sempre pessoas mais distantes e conflituosas do que a figura que o pai representava, com mais dificuldades para mostrar amor.

Apanham do amor, na dificuldade de encontrar alguém que lhes dê um carinho do tamanho que o pai era capaz de dar.

E sofrem. Todas elas sofrem, de um jeito que não imaginavam ser capazes de conseguir, e por mais tempo do que pensariam poder.

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Talvez esses pais afetuosos tenham sido uma maneira que a vida encontrou para facilitar a entrada dessas mulheres no mundo. Carregam essas meninas no colo, em famílias nem sempre tão equilibradas, e lhes dão a oportunidade de conhecer o amor.

Um amor bem protetor, aliás, que amortece muitos dos sofrimentos que essas meninas teriam passado caso os pais não estivessem presentes.

Depois, com a partida do pai, desce todo o sofrimento de uma vida de uma vez só, sem amortecedores.

E, da pancada, elas se reconstroem.

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Não deve ser uma cruz fácil de se carregar. Nenhuma cruz é.

De longe, observando, me surpreende a força que essas menininhas do papai mostram.

A elas, meu afeto. Aos pais, onde quer que estejam, o orgulho.

21.8.14

Partindo pra briga

Minha mãe, como todas as mães do mundo, tinha um argumento certeiro para me desarmar quando eu brigava com ela:

"Você sempre foi brigão! Só sabe brigar!", ela falava.

Eu, sem saber outra maneira de reagir que não fosse dizer "EU NÃO SOU BRIGÃO!" aos berros, partia pro quarto batendo porta. Até mesmo um brigão precisa de coerência.

Alguns anos de doutrinação cristã depois, eu fui pamonhizado o suficiente para me tornar mais pacífico. Ganhei muitas coisas com isso: menos conflitos, fama de bonzinho e gastrite nervosa.

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O problema de ser bonzinho é que isso acaba com a sua energia.

A parte de você que briga é a mesma que luta pelo que quer, arrisca coisas novas e faz sexo.

Matando essa parte, tudo isso vai embora.

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Desocupei o apartamento onde morei por cinco anos essa semana. Isso significa que precisei lidar com a imobiliária.

Pra quem não sabe, imobiliária é um lugar que negocia imóveis e representa Satanás na Terra.

O processo de vistoria foi cruel. Por mais que eu tivesse recrutado meus amigos para pintar as paredes e beber cerveja (não necessariamente nessa ordem), o agente decidiu que o apartamento precisaria ser todo repintado. Partes do piso, o armário do banheiro e todas as torneiras da casa também.

Aparentemente, eu tenho os hábitos de moradia de um diabo da Tasmânia.

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Quando o laudo da imobiliária chegou, o valor do fundo de conservação do imóvel estava muito abaixo do esperado, e o preço orçado para os reparos no apartamento estava próximo da peruca do Donald Trump.

Me revoltei. Nunca fui de calcular minúcias financeiras, mas minha parte brigona surgiu, como um braço de criança na jaula de um tigre.

Foram tardes na frente do computador, somando cada centavo pago e pesquisando cada direito que eu poderia exigir. Quando terminei, tinha uma papelada gigante que comprovava que os cálculos deles estavam errados.

Eles iam conhecer a minha fúria. Cada segundo gasto no telefone ouvindo a moça da imobiliária dizer que eu calculei errado seria cobrado em sangue, e a revanche se estenderia até a oitava geração.

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Estava na sala de espera da imobiliária como um soldado que se prepara psicologicamente para a guerra. Nunca fui de fazer barraco, mas hoje seria o dia. Eles iam ver com quem estavam mexendo.

Cheguei confiante, calmo, sorridente.

Botei a papelada em cima da mesa explicando cada direito que eu tinha, pronto para explodir a qualquer momento.

A moça da imobiliária analisou os gastos, me olhou nos olhos... e disse "OK."

"OK." A filha da puta não se deu nem ao trabalho de conferir se meus cálculos estavam certos e já foi aceitando a minha proposta.

Se a parte que briga é a parte que transa, essa foi uma broxada das bravas.

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O que importa é que agora quem vai gastar dinheiro é a imobiliária, e não eu. Com tempo, vontade de brigar e jeitinho, se consegue qualquer coisa.

Até uma resposta para a minha mãe:
"Você só sabe brigar", ela diz.
"Mimimi, você só sabe brigaaaar", respondo eu, com voz de criança, e continuo brigando.

Porque maturidade é uma coisa que se adquire.

1.8.14

Faculdade pra quê?

Meu irmão nunca foi pra frente numa faculdade. Começava um curso, fazia um semestre, achava tudo um saco e trancava a matrícula. Dizia que aquilo não era o que queria da vida, mesmo, e acabava escolhendo outra faculdade pra fazer.

Um semestre depois, tudo era um saco novamente.

Ele comentou comigo, essa semana, que quem sabe agora, um pouco mais perto dos trinta do que dos vinte, fosse a hora de fazer uma faculdade.

Vejam bem: ele já tem uma empresa, tem uma série de capacidades que conseguiram seu sustento até agora, e não tem a intenção de pedir um emprego para ninguém tão cedo.

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Talvez eu seja resistente demais a essas coisas.

Desde adolescente, toda vez que a leitura de um livro era exigida para alguma avaliação, eu corria atrás de algum resumo, uma ideia geral a respeito ou o relato de um colega que se deu ao trabalho de ler. Sempre consegui nota suficiente sem ter lido nada.

Depois das avaliações, passava na biblioteca, emprestava o livro e lia com o maior gosto do mundo.

No meu ritmo, sem a obrigação de ser avaliado depois.

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Algumas das pessoas mais felizes que eu conheço nunca atuaram na área de formação. Estudaram, arranjaram um diploma qualquer, enfiaram o diploma rabo adentro e foram parar no primeiro emprego que surgiu.

Tristes adolescentes, que pensam que estão tomando uma decisão importante quando prestam vestibular para algum curso. Sofrem tentando decidir o que vão ser na vida, sem perceber a irrelevância disso depois de um tempo.

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A questão é: dezenas de pedagogos já provaram por amaisbê que essa história de sentar pessoas numa fileira e derramar conteúdo sobre elas não é a melhor maneira de adquirir conhecimento. É só uma maneira barata e fácil de deixar crianças amontoadas e quietas.

E onde estão os estudantes de doutorados em pedagogia? Amontoados e quietos em sala de aula.

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Me vi num dilema parecido com o do meu irmão quando comecei a considerar fazer uma pós-graduação ou um mestrado.

Ter feito faculdade me ensinou uma coisa: faculdades não valem nada.

Claro, você tem experiências interessantes, conhece pessoas com desejos afins e tem um pouco mais de facilidade para descobrir o que é interessante saber ao trabalhar na área que escolheu, mas é basicamente isso.

Num mundo em que todo o conhecimento já produzido está a um clique de distância, em que você pode ver os maiores estudiosos do planeta falando eles mesmos sobre suas descobertas, a sala de aula convencional é uma solução no mínimo preguiçosa.

Por quê depender de um currículo selecionado por uma faculdade tendo em vista o maior lucro possível da instituição se posso basear meus estudos no meu próprio instinto, curiosidade e tesão?

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Talvez o que mais me incomode nesse assunto seja a hierarquia que esse ambiente acadêmico sugere. Não é por sede de conhecimento que meu irmão se sente pressionado a entrar numa faculdade, nem eu a fazer um mestrado.

É pela impressão de que quem tem um título acadêmico tem mais poder. Como se possuir uma faculdade fosse garantia de conhecimento.

Não é.

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Fazer faculdade tem, pelo menos, o lado bom de você poder ir para uma cela especial quando for preso.

O problema é se ela aprisiona o seu desejo de aprender.

15.7.14

Um assunto espinhoso

Quando uma pessoa olha no espelho, pode olhar muitas coisas.

Pode ver os sonhos que deixou pra trás, as marcas da vida que se transformaram em rugas, o brilho nos olhos que nunca se apagou...

Eu, por minha vez, vejo as minhas espinhas.

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Li um escritor de autoajuda, uma vez, que dizia que a acne é um modo que a pessoa com vergonha de si mesma arranja para se esconder do mundo.

Por isso adolescente costuma ter tanta espinha. De tanta vergonha que tem, arranja inconscientemente um jeito de cobrir o rosto, pra que ninguém olhe para ele.

Aí ele fica com mais vergonha ainda, nascem mais espinhas, e o ciclo se repete até o dia em que ele morre e reencarna num cactus. Alguma coisa assim.

Nada contra essa interpretação, mas eu já sou adulto, pôxa. Tenho outros meios para me esconder, feito barba, óculos e ausência de vida social.

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Soluções milagrosas existem aos montes.

Quando você usa um sabonete desses com propaganda na TV, dizendo que secam as espinhas, se dá conta que o sabonete é muito melhor do que a propaganda promete.

Ele não só seca as espinhas, mas também seu rosto inteiro, que começa a descascar, emoldurando seu nariz com casquinhas brancas. Você deixa de parecer um adolescente punheteiro para parecer uma estátua de gesso depois de uma machadada.

Você pode corrigir isso com um pouco de creme hidratante... que te dá mais espinhas.

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Se bem que meu maior problema nunca foram as espinhas em si, e sim os cravinhos.

Você pode escolher entre não fazer nada com eles e ficar com tantos pontinhos escuros no rosto que fazem parecer que você acabou de fugir de um vulcão em erupção, ou espremê-los e ficar com a aparência de quem lutou contra um pica-pau e perdeu.

Se eu pudesse escolher, trocaria os meus pelos Cravinhos da Suzane Von Richtoffen.

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De todos os tratamentos para acne que eu já tentei, o que deu melhor resultados foi não fazer tratamento nenhum. Deixar os cravos e espinhas quietinhos, na deles, sem pressão.

De certa forma, minhas espinhas são iguaizinhas a mim. Se ninguém me incomoda, eu sou praticamente inofensivo; sob pressão, eu explodo.

E jogo pus pra todo lado.

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Não sei o que eu faria se um dia todas as espinhas fossem embora.  Não ia saber o que fazer diante do espelho. No fundo, acho que gosto dessa mistura que meu rosto acabou sendo.

Por um lado, as espinhas de um adolescente. Por outro, as primeiras ruguinhas e sinais de envelhecimento.

Talvez isso seja ser adulto. Ser novo e velho ao mesmo tempo, sem precisar se esconder.

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Ok, talvez eu não tenha tentado todas as soluções possíveis. Já ouvi dizer que não se masturbar e não comer chocolate ajudam a combater a acne.

Mas quem sou eu pra querer combater aquilo que Deus me deu, né?

18.6.14

Incluindo e excluindo

"Eu já trabalhei com gente especial, também", minha avó me disse, quando eu contei que estava trabalhando com pessoas com deficiência. "Na época o nome era 'retardado', mas eu achava a palavra muito forte."

Minha avó sempre foi uma pessoa à frente do seu tempo.

"Aí eu chamava eles de bocós, mesmo. Achava mais bonito."

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É seu primeiro dia em um trabalho novo, e suas emoções oscilam entre a autoconfiança e o pavor completo. Você tem medo do ambiente novo, mas sabe que, com o tempo, vai se sentir em casa. 

É questão de adaptação e, logo, logo, você vai se sentir incluso. É porque você aprendeu a se incluir.

Quando você foi para a escola pela primeira vez, pensou que nunca ia se acostumar àquele ambiente esquisito, com muita gente e nenhuma mãe por perto.

Mas, dia após dia, foi sentindo o prazer de estar com os colegas, de sair de casa, de viver num novo ambiente. 

O novo ambiente era convidativo, a escolinha era feita sob medida para você. As mesas e cadeiras tinham a altura certa, a professora te tratava com carinho, o parquinho era divertido...

Mais do que o be-a-bá, você aprendeu que pode se sentir bem em novos ambientes - e que só precisava de um pouco de paciência para isso.

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E se fosse o contrário?

É seu primeiro dia na escola.  As cadeiras parecem feitas para alguma civilização alienígena, porque para você não servem. 

Você e seus colegas não conseguem se comunicar direito. Cada um parece estar com a atenção focada no próprio terror de estar ali.

Você olha para a professora, única referência possível de carinho nesse lugar, e ela não te entende. Ela até se esforça, mas está correndo de um lado para o outro tentando fazer da sala de aula um lugar um pouco menos caótico.

Se você é uma pessoa com deficiência, o mundo pode ser mais ou menos assim. Feito sob encomenda para todos, menos você.

Não há como se sentir incluso em um mundo que ignora suas necessidades. Inclusão é isso: deixar o mundo um pouco mais amigável para aqueles com quem ele costuma ser hostil.

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Não adianta proteger o portador de necessidades especiais do mundo. Quanto menos superproteção e mais exposição ao mundo como ele é, mais a inclusão vai ser verdadeira.

O Adriano, que se formou comigo na faculdade, que o diga. Entrou na minha sala na metade do curso, depois de passar por várias outras turmas sem se adaptar.

Na minha sala foi diferente.

Ele não podia largar as muletas no chão que algum de nós as pegava e saía correndo. Fazíamos de tudo com aquelas muletas: lutávamos esgrima, apostávamos corrida, brincávamos de robô, tudo.

Ué, se a gente era imaturo um com o outro ao ponto de esconder mochilas, cantar parabéns pra quem chegava atrasado na aula e jogar bolinhas de papel na cabeça dos colegas, por que não seríamos igualmente infantis com nosso colega de muletas?

Entre todas as turmas pelas quais o Adriano passou, a nossa era sua favorita.

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A própria presença de uma pessoa com necessidades especiais gera algum desconforto em quem não tem essas necessidades. Nós não aprendemos a nos adaptar a pessoas que precisam se adaptar à nossa realidade. 

Mas é só uma questão de empatia: você tem pouca ansiedade sobre o seu dia-a-dia porque a sua vida te preparou para isso. Porque os ambientes que você encontrava no seu trajeto eram, em certa medida, receptivos às suas necessidades.

Não quer dizer que você nunca foi excluído: só quer dizer que você aprendeu a se incluir mais fácil.

E isso é o importante ao se olhar para uma pessoa com necessidades diferentes da maioria: ela não quer ser incluída nos espaços sociais na base do cuidado excessivo.

Ela precisa, sim, de um olhar simpático e carinhoso que a diga "Ei, eu sei que pra você foi mais difícil. Mas não se preocupe. Você é um de nós."

Então, com espaços menos assustadores e mais humanizados, a pessoa com deficiência pode vencer a barreira da ansiedade e saber que, com o tempo, o espaço novo que a intimida pode ser o seu lugar.

Não porque alguém a incluiu, mas porque recebeu a oportunidade para que ela mesma se incluísse, com suas dificuldades e aptidões, como qualquer outra pessoa, sem depender de um gueto ou de termos politicamente corretos.

Andando com as próprias pernas, mesmo que elas não funcionem muito bem.

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E não é como se nós, sem deficiências, vivêssemos em um mundo maravilhoso, cheio de esperteza e possibilidades. Eu sei que estou repetindo um clichê, mas nada impede que uma pessoa com deficiência seja muito, muito, muito mais eficiente que qualquer um de nós.

Feito quando eu estava dando aula de informática para pessoas com deficiência e um aluno cego pediu para ser dispensado porque esqueceu os óculos em casa.

Eu liberei. Minha avó diria que o bocó sou eu - e teria razão.

2.6.14

Piorar faz bem

"Moço, tem dinheiro pra eu comprar um cachorro-quente?"

Eu não ia ajudar, mas meu amigo tirou três reais do bolso e entregou.

"Mas moço, o cachorro-quente é cinco!", o mendigo respondeu, indignado, como se reclamasse do atendimento em um restaurante francês.

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Gente folgada existe nesse mundo por um motivo, que é ensinar quem quer ser bonzinho a não ser tão besta.

Os folgados são um instrumento de evolução. O jeito abusado é um dom que ganharam de Deus para evoluir a humanidade, despamonhizando as pessoas que passam por eles.

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Outro dia, sentei pra comer perto de um grupo de rapazes. Eles conversavam daquele jeito que os homens fazem para reclamar sem parecer fracos, falando dos próprios erros como se fossem a coisa mais engraçada do mundo.

Um deles começou uma história sobre o tio e o primo, que apareciam na casa dele de surpresa, chorando as pitangas de como a vida andava dura. 

"Era assim toda semana. Eu me compadecia, levava os dois ao mercado e depois pagava a conta. Era família, né? Tinha que ajudar."

Depois de um tempo, o tio melhorou de vida. O rapaz ria pra disfarçar a mágoa:

"Pergunta se hoje ele me telefona? Se ele apareceu lá em casa de novo? Chega festa de família e ele nem me olha na cara!"

Pelo menos ele parecia ter aprendido a lição:

"Hoje eu não ajudo mais ninguém só porque é da família. Só se eu tiver certeza que a pessoa precisa e presta."

A hora que ele mais ria era quando lembrava da dor no bolso:

"Eu gastava setenta reais com eles no mercado. Setenta reais!"

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Uma coisa que acontece com quase todo mundo que começa uma terapia é ouvir dos outros algo parecido com "Que terapia é essa? Você tá piorando em vez de melhorar!", normalmente depois de ter limitado os palpites de alguém sobre a própria vida.

A tradução correta dessa frase é "Por que diabos você não faz mais o que eu quero que você faça?".

Como você ousa não satisfazer a expectativa do outro? Só sendo uma péssima pessoa, mesmo.

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Às vezes, a melhor coisa que uma pessoa pode fazer é piorar. Parar de gastar energia querendo salvar a vida alheia e empregar esse esforço todo em cuidar melhor de si mesmo.

É um grande prazer descobrir que não tem nada de errado em ser egoísta. Aliás, quem inventou que egoísmo é defeito era um folgado.

Como a vida melhora quando a gente piora um pouco!

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Quem faz de tudo pelo outro, o faz por vaidade. Faz sabendo que o outro vai amar uma pessoa útil.

É necessário quebrar a cara uma vez ou doze para aprender, mas se a gente se permite não ser tão bom quanto gostaria, descobre um tesouro.

Não se importar em ser mal visto, não se preocupar com o problema do outro só porque acha que deveria, tudo isso libera um tempo gigante para ser feliz.

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Não que ajudar os outros seja errado. 

É que só depois de parar de ajudar por obrigação se aprende a perceber quando a vontade de ajudar alguém é genuína.

Aí você ajuda só porque sua alma quis, sem esperar nada em troca. 

Só assim se ajuda de verdade.

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Dizendo não a um folgado, você passa a ser o instrumento que diz pra ele parar de coitadismo e cuidar da própria vida sozinho. Você é o objeto de evolução. Você é uma pessoa boa.

E só conseguiu isso deixando de ser bonzinho.

27.5.14

As mentiras que os irmãos contam

A diferença entre as pessoas legais e as chatas é que as chatas nunca tiveram um irmão mais velho.

Uma pessoa chata se acha no direito de ser o assunto da conversa em todas as conversas, que a sua vida é a mais interessante do mundo e que, com certeza, o que ela tem a dizer é relevante.

É o irmão mais velho que vai te mandar calar a boca quando você não para de falar besteira.  A missão do irmão mais velho é te frustrar o máximo possível, para garantir que o seu desenvolvimento seja saudável.

Se você elaborar bem esse trauma, vai retribuir o favor e brigar com seu irmão a cada oportunidade que tiver. Assim, os dois aprendem que não são o centro do universo e vão pro mundo como pessoas melhores, castradinhas e legais.

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Quando eu tinha uns sete anos, fui perguntar ao meu irmão o que era o Livro dos Recordes. Ele explicou:

- Recorde é quando uma pessoa faz a maior coisa do mundo. - disse ele - Tem a pessoa mais alta do mundo, a mais baixinha, a mais velha.

- Ah, tá.

- Eu estou lá.

Meu queixo caiu. Como é que eu não sabia que meu irmão era a pessoa mais alguma coisa do mundo? Mais irritante, eu já suspeitava, mas não sabia que ele já tinha sido certificado.

- Pelo quê? O que você fez?

- O maior cocô do mundo.

Eu nunca tinha visto meu irmão falar tão sério. Eu não quis acreditar.

- Mas você não lembra? Aquele dia que a gente tava na praia e a gente foi fazer cocô num ginásio?

- Não lembro. Você tá mentindo.

- Juro! Por João 8:44! - jurou ele. Crescer numa família religiosa te faz jurar de um jeito estranho.

- Quantos metros tinha o seu cocô?

- Ah, uns doze.

- DOZE METROS?

- Eu tinha comido muito peixe.

- E eu não participei?

- Participou sim, mas o seu era menor. Só tinha uns seis metros.

Fiquei triste. Eu ainda tinha muito o que crescer pra aprender a fazer merda como o meu irmão.

--

Só fui descobrir que essa história era mentira bem mais tarde, quando fui contar pra uns amigos que meu irmão estava no Guinness e me dei conta do absurdo.

Eu já era adulto.

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Outra vez, ele me chamou pra comer cachorro-quente.

- Só que eu só tenho grana pra um cachorro-quente e meio. Você vai ter de pedir pra o cara da barraca te dar só a salsicha.

Por mim, tudo bem. Topei o passeio. Chegamos na barraca e ele pediu o lanche. Pedi também:

- Moço, pode me dar só a linguiça?

Até hoje eu confundo salsicha com linguiça. Ele não entendeu:

- O quê?

- Só a salsicha! Desculpa, me enganei. Pode ser só a salsicha?

Ele olhou pro meu irmão e prendeu o riso:

- Só se for a minha.

- OK. - Aceitei, claro. Como ele ia me vender uma salsicha que não fosse dele?

- A minha salsicha? - Ele confirmou, rindo.

A essa altura, meu irmão já rolava pelo chão, em posição fetal e com lágrimas nos olhos.

- Sim, moço.

- A minha. A minha linguiça. Pode ser a minha linguiça?

Só faltou desenhar uma linguiça ao lado de um pênis e gritar a palavra ANALOGIA várias vezes. Não adiantou:

- Moço, eu já falei que pode ser!

A ingenuidade é uma arma poderosa. Acabei ganhando um cachorro-quente completo.

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Talvez não fosse ingenuidade. Quer dizer, eu era super novinho, mas vai que eu queria a salsicha do cara no figurativo, mesmo?

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Todo caçula é uma vítima, mas isso é pro seu próprio bem. Ter um irmão mais velho pode ser traumático, mas te impede de ser um chato completo.

Pior é pensar que, mesmo com todas essas mentiras, minha relação com o meu irmão é a mais honesta que eu tenho na vida.

Que horror.

13.5.14

Política e paixão

Cansei de escutar, enquanto crescia, que o Brasil não ia bem porque "o brasileiro não se interessa por política". O complemento padrão dessa frase era "porque só quer saber de futebol".

Tá certo que a minha timeline do Facebook representa bem menos pessoas que a torcida do Corinthians, mas se for tomada como amostra, as coisas não parecem estar tanto desse jeito.

Aliás, eu diria que o brasileiro está muito mais apaixonado por política do que por futebol.

E que isso não é necessariamente uma coisa boa.

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A paixão é a ilusão de poder encontrar a própria completude através de outra pessoa. 

É uma estranha mistura de humildade (de se aceitar incompleto e carente de sentido) e a onipotência (de achar que, adicionando uma outra pessoa na mistura, ficaremos saciados da nossa fome por preenchimento).

É aí que estamos, como nação. Apaixonados pela possibilidade de mudança. A frustração acumulada é tamanha, e em tanta coisa, que qualquer chance de mudança política brilha em nossos olhos como uma possibilidade de completude.

Isso explica porque fomos do completo desinteresse por política a um fanatismo generalizado.

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Pode parecer exagero, mas olhe ao redor e procure alguém moderado. 

Ao redor não, procure na lupa cruel de uma seção de comentários num site de internet e tente encontrar alguém que pregue o equilíbrio como uma opção viável.

"Impeachment da Dilma, prisão aos petralhas!", gritam uns. 

"Mulheres lésbicas, negras, cadeirantes e umbandistas no poder!", insinuam outros (eu entre eles).

"Mercado livre já! Toda restrição é burra!", ainda outros.

E, os meus preferidos:

"Não tem um que preste. Solução para o país é político no paredão!".

Todos com algo de razão, mas todos inflamados pela paixão com que se agarram aos seus pontos de vista.

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Uma pessoa apaixonada é extremamente manipulável. 

Guiada pela paixão, não vê defeito no seu objeto de desejo. Até porque, se enxergar algum defeito ali, toda a ilusão de estar completo pela presença da outra pessoa vai embora, e será necessário encarar o vazio de estar sozinho novamente.

Um exemplo dessa paixão? Os protestos do ano passado.

Milhares de pessoas, e um número surpreendente de adolescentes, tomando as ruas e esbravejando palavras de ordem. Apaixonados. Sorrindo. Erguendo bandeiras. 

Uma cena emocionante, e também um ótimo momento para quem quiser se colocar à frente como um Messias, tentando associar essa paixão coletiva às suas imagens. Oferecendo soluções para os seus apaixonados.

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Muito perigoso. A paixão é agressiva. A emoção é tamanha que exige alguma soltura para ser eloaborada. 

Para um casal apaixonado, uma boa briga e um bom sexo, quanto mais violento melhor, dão conta do recado. 

Para um país apaixonado? Intervenção militar! Redução de maioridade penal! Pena de morte! 

Porque se a paixão é extrema, a catarse também precisa ser.

Nesse caso, melhor ter uma nação de desinteressados por política do que uma multidão de pretensos informados, indignados por tudo e sem saber de nada. 

Indignação, quando aliada à desinformação, é um combustível perigoso.

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A paixão é ciumenta. Por isso os crimes passionais. 

Quebrar a cara com uma paixão dói tanto que perdemos o controle. Ficamos violentos com o objeto que queríamos que fosse nossa salvação. 

Não sabemos o que fazer quando o nosso ideal não corresponde à realidade.

Junte essa frustração com a necessidade de catarse, e você entende porque há quem precise amarrar um assaltante a um poste ou linchar uma mãe de família, em busca de justiça.

A paixão é cega. Quem ousa contestá-la recebe uma resposta violenta. 

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Mas, com sorte, depois da frustração, a pessoa olha um pouco para si. 

Passa a se ver como responsável pelo desejo que tem, e deixa de exigir do outro a satisfação de suas expectativas. Toma as rédeas da própria caminhada. 

Para quem não quer refletir, resta um caminho mais fácil: trocar de objeto de paixão. Deixar-se enfeitiçar por outra pessoa que ofereça uma tábua de salvação. Outro salvador. 

Enxágue e repita, e mantenha o ciclo de frustração e violência, esperando que algo mude.

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Se o fim da paixão for bem elaborado, a inflamação vai dando espaço à maturidade e é trocada por carinho e amor.

Pelo amor de aceitar a diferença, mesmo quando ela não corresponde às expectativas depositadas. Pelo carinho de fazer a sua parte para que a relação funcione. Pela dedicação para um bem comum. 

Sem tanta violênia, mas com atenção e cuidado.

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Há quem diga que o brasileiro não sabe fazer política. 

Se olharmos com mais cuidado, talvez apenas não saibamos amar.

7.5.14

Chimia, geléia e outras doçuras

Quem olhar pela janela do meu apartamento, numa manhã qualquer, provavelmente me verá tomar uma xícara de café com leite e comer um pão com geléia.

Verá errado. Não é o que eu faço. Não gosto de geléia. Aquilo que eu passo no pão tem outro nome: chimia.

É coisa aqui do Sul. Não se come muita geléia por aqui.

Os olhos nem sempre sabem dar o nome certo para aquilo que enxergam.

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A dona Eli era amiga da minha avó.

Não sei se exatamente amigas, ou só cúmplices, sobreviventes de uma geração. Só sei que havia muito carinho entre as duas e que, desde que eu era muito criança, a dona Eli já era bastante velha.

Das senhoras que iam à igreja toda semana, ela era a única que não ia com a família. Ela chegava cedo - trazida por alguém -, conversava com a minha avó, e depois sentava sozinha.

Na minha cabeça de criança, duas coisas sobre ela ficaram gravadas: a surpresa de descobrir que mulher também podia ficar careca (minha mãe me explicava o porquê, mas eu não entendia), e aquela voz.

A dona Eli sempre falava com a voz tremida. Uma voz tão fraquinha, tão fraquinha, que ela parecia estar sempre chorando.

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Me identifico mais com a chimia do que com geléia. Explico a diferença:

Para fazer geléia, você usa as frutas mais maduras, as mais suculentas, antes que elas passem do tempo. Depois, cozinha lentamente as frutas com açúcar, até que se forme uma pasta doce. É um doce nobre.

A chimia, não.

Inventada pelos imigrantes, que tinham de fazer máximo proveito da terra em que viviam, a chimia é feita com as cascas e as partes menos nobres das frutas, fervidas com açúcar até que se tornem palatáveis.

A geléia é a comida dos a que nada falta. A chimia é para quem precisa arrancar a doçura do bagaço da vida.

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A dona Eli era mestre na arte de fazer chimia.

É um trabalho mais difícil do que parece. Haja braço para mexer aquele monte de pedaço duro de fruta na água fervente até que aquilo se derreta.

E não era uma tarefa de só de vez em quando. A dona Eli tirava seu sustento com as chimias que fabricava em casa, na sua cozinha entupida de vidros de Nescafé vazios, que esperavam recheio.

Algo me diz que ela era muito mais forte do que eu pensava.

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Eu tinha uns sete anos, e minha avó pediu para ir até a casa da dona Eli entregar uma carta. Cheguei à casa dela e fiz a entrega, pronto para rodar nos calcanhares e ir embora.

Não tão rápido.

Ela me segurou com suas mãos, amassadas pela vida e macias apesar de tanta panela, e pediu pra eu esperar.

"Calma, que eu quero ver se tenho uma coisa pra você."

Esperei em silêncio, divertindo os olhos com os padrões que os caquinhos de azulejo desenhavam no chão.

Ela voltou com um punhado de balas.

"Obrigado pela visitinha!", disse ela, sorrindo e com a mesma voz de choro de sempre.

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Estava tão feliz que até fiquei constrangido, sem querer passar a impressão de que fui ali só pra ganhar bala. Ela olhou para mim por mais alguns segundos e disse de novo:

"Espera. Acho que eu tenho mais alguma coisa."

Dessa vez ela levou mais tempo. Corria de um lado para o outro dentro da casa, em busca de alguma coisa, enquanto eu entupia os buracos dos dentes com açúcar.

Voltou com uma nota de um real na mão.

"Toma. É pra você."

Não entendi bem por quê, mas tive vontade de chorar. Como podia sair tanta doçura de uma mulher tão pequena?

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Perguntei aos meus pais se a dona Eli ainda estava viva. Me disseram que está. Pedi quantos anos ela deve ter hoje, eles não sabiam.

Perguntei se ela ainda faz chimia pra vender. Disseram que sim, ela faz, e que ainda é a mais gostosa da cidade.

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Prestando mais atenção, tinha muito mais coisa onde eu via uma aquela mulher pequenininha e sofrida.

Olhando para ela hoje, pela janela do tempo, eu vejo uma alquimista, capaz de transformar bagaço em doçura, redefinindo o que significa força.

Não sei qual era o seu segredo. Os olhos nem sempre sabem dar o nome certo para aquilo que enxergam.

Suspeito que seja carinho.

5.5.14

Sobre morar em Curitiba

- Já são cinco e meia da tarde, que horas sua aula começa? - disse meu colega de quarto.
- Sete. - respondi.
- E por que você não foi pegar seu ônibus ainda? Você vai chegar atrasado!

Com essas palavras me dei conta de que eu não morava mais numa cidade pequena, atravessável a pé em trinta minutos.

Era meu primeiro dia em Curitiba, e o primeiro dia na faculdade.

Também foi o primeiro dia em que passei mais de uma hora num ônibus que não me levaria a uma cidade diferente.

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Hoje eu já acho tudo perto. "Ah, dá só quarenta minutos de ônibus, vamos caminhando!", eu digo pros incautos que vem me visitar.

Mesmo assim, eu ainda me surpreendo quando vou pra uma parte mais distante da cidade.

É rua, rua, rua, casa, casa, casa, e a cidade não acaba nunca.

Tem horas que eu penso que estou no desenho do Papa-Léguas, correndo no meio de um cenário repetido.

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"As pessoas são muito frias", dizem sobre Curitiba.

Não sei.

Aqui foi a única cidade em que eu já estive em que, recém-chegado e com cara de confuso na rua, alguém se aproximou e disse "Querido, cê precisa de informação?".

Talvez seja só minha cara de confusão que seja muito expressiva. Que nem aquele quadro do grito, do Munch, mas de touca na cabeça pra não passar frio.

(Ao mesmo tempo, essa cara devia parecer muito confiável, porque nunca me pediram tanta informação na rua quanto no meu primeiro mês aqui.)

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"É a Europa brasileira", dizem sobre Curitiba.

Também não concordo com essa. Na Europa não tem ninguém seminu e de corpo oleoso empurrando uma bicicleta de um lado pro outro.

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Acontece que essa cidade realmente tem algo de diferente. Talvez a malandragem exija um pouco mais de temperatura ambiente pra acontecer, mas aqui as pessoas são... mais certinhas.

Teve uma vez que, a caminho de casa, eu fui assaltado.

O bandido apareceu com a maior cara de mau do mundo, partindo pra cima de mim como se fosse me matar ali mesmo se eu não entregasse os cinco reais que eu tinha e meu celular comprado em 2004.

Um profissional do crime, sem dúvida.

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- IRMÃOZINHO, FICA DE BOA! - disse ele, num tom de voz que tornava impossível alguém ficar de boa.

Eu já estava resignado e pensando em maneiras de ir pra casa sem o dinheiro do ônibus, quando ele puxou uma faca do bolso.

Foi a cena mais triste que eu já vi: ele puxa do bolso uma faca enrolada em papel toalha, embrulhada certinho pra não machucar o bolso da calça.

Parecia até que a mãe dele tinha embalado aquela faca pra cortar uma maçã na hora do lanche. Provavelmente o papel toalha tinha uma carinha feliz desenhada por ela e um aviso de "Come tudinho, filhão!".

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Até o ladrão estava constrangido de tirar uma faca daquelas do bolso.

Não sei se ele se comoveu ao lembrar da mamãe, em casa, preocupada com se o filho, mas ele se estabanou e derrubou a faca no chão.

- Ai, cacete! - disse frustrado, enquanto se abaixava pra pegar a arma do assalto que não foi.

Aproveitei a deixa pra correr, mas me senti meio mal educado.

Devia ter mandado um abraço pra mãe dele, pedido desculpas por correr, falar que na próxima ia dar tudo certo... Vai que era o primeiro dia dele na profissão?

Pôxa vida, talento ele tinha.

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Só sei que hoje, seis anos depois, formado e distante da pessoa que ficava confusa na rua, eu não penso mais em sair daqui.

Nesse lugar de povo certinho e esquisito, que não sabe o que fazer num elevador lotado, acabei encontrando meu verdadeiro lar.

Pena que não dê pra ficar no lar por muito tempo. Eu trabalho do outro lado da cidade, e já tá na hora de pegar o ônibus.

29.4.14

Entre meninos e meninas

No jardim de infância, eu era cercado por meninas.

Talvez por ter uma quantidade de tias superior à lotação do maracanã, sempre me afinei mais com o papo das mulheres, seja lá o que isso signifique.

Mas nem sempre o clube da Luluzinha aceitava minha invasão.

Algumas meninas reclamaram com a professora e uma solução foi proposta: o parquinho da escola seria dividido ao meio. De um lado, as meninas brincariam. Do outro, os meninos.

Isso impediria minhas invasões no território feminino e, com sorte, me obrigaria a virar um menino mais normal.

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A estratégia não deu muito certo.

Fora do grupo das meninas e sem amizade com os garotos, eu passava os intervalos sozinho, no meio do parquinho, onde a linha divisória foi marcada.

Lá ficava eu: entre o masculino e o feminino, com seis anos de idade, brincando de balanço.

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Na quarta série, resolvi que era hora de mudar. De uma vez por todas, eu ia ser um menino igual aos outros.

Decidi passar pelo ritual mais masculino de todos: o futebol.

Só naquele dia, não fingi a tradicional dor de barriga na aula de educação física (que me permitia fugir para jogar xadrez), e ainda lembro dos olhares de espanto enquanto entrava na quadra.

Fui o último a ser escolhido para um time, mas participei do primeiro lance da partida: no primeiro passe, um garoto meteu toda a força que tinha na bola, e ela vinha na minha direção. O tempo passava em câmera lenta, eu sem reação alguma.

Antes que eu pudesse pensar em sair correndo, a bola encontrou as minhas próprias bolas com uma intensidade que eu nunca tinha sentido até aquele momento.

Entrar em contato com o masculino nunca foi tão dolorido.

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Depois da faculdade, por alguma coincidência a maior parte dos meus amigos íntimos são homens heterossexuais. Não do tipo machão, mas do tipo melhor: que sofre por amor, gosta de mulheres fortes e não vê problemas em ser dono-de-casa.

Ainda assim, de alguma maneira, me infiltrei no clube do Bolinha - mesmo sem saber jogar futebol (na última tentativa, minha melhor jogada foi dar uma manchete na bola).

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Hoje, sou praticamente um deles. Mas não cem por cento:

Outro dia, num churrasco, três amigos começaram a bater um no outro, de brincadeira. Primeiro, um dando tapas na mão do outro. Depois, socos no ombro, um no outro, cada vez com mais força.

A sequência era essa:

1 - Soco.
2 - Grito.
3 - Soco mais forte ainda no colega.

Até tentei participar, mas desisti depois de perceber que
1 - Levar socos dói.
2 - Ninguém ganhava.

Fiquei assistindo, fascinado, enquanto um batia no outro, com os olhos inflamados de paixão e fúria.

Naquele momento, eu entendi tudo o que representa ser um homem.

A disposição para a luta, ainda que desnecessária. O motivo das guerras no mundo. O porquê do UFC fazer tantos ídolos. A competição pela graça da competição. A quantidade de bacon que se vende no mundo.

Não, eu nunca seria um deles.

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No dia seguinte, eles não paravam quietos no Whatsapp. Era mais uma competição, dessa vez para ver quem ficou com a mão mais machucada depois da brincadeira.

Entendi que não era uma questão de ver quem ganhava a briga: era pra ver o quanto de sofrimento que eles aguentavam antes de pedir arrego. São um grupinho muito especial, esses homens.

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Ao contrário das meninas no parquinho, ninguém me pediu para sair do grupo - mesmo sem eu participar muito bem da brincadeira. Eu não precisava participar da disputa de poder para ter meu lugar ali. A competição não termina nunca, mas quem não ganha nada também tem o seu lugar.

Demorei anos pra entender o quanto os homens também são sensíveis, com seus laços de amizade e relações profundamente generosas. Às vezes isso se demonstra na base do soco, mas tudo bem.

Outra coisa legal: eu os comparei à meninas de seis anos de idade, e nenhum deles vai se ofender com isso.

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Pra concluir numa nota importante: a bolada no saco foi quinze anos atrás, mas só de lembrar, doeu tudo outra vez.

22.4.14

Cachorros, gatos e empregadas

O céu estava cada vez mais negro, anunciando a tempestade que se aproximava.

Corri para casa tentando impedir a tragédia iminente. Nas primeiras gotas de chuva, tudo poderia estar perdido. Eu fingi não ouvir os alertas anteriores, e agora teria de arcar com as consequências.

Se o cocô da cadela molhasse, grudava no piso e nunca mais desgrudava dali.

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Isso na casa dos meus pais, que são responsáveis o suficiente para ter um animal de estimação.

Sob os meus cuidados, a pobre da cachorrinha ia morrer soterrada no próprio excremento antes mesmo de ter a chance de morrer de fome.

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Quando eu era criança, adotamos um gato de rua. Um desses cinzas e enormes que botam cachorro pra correr.

A regra imposta pelos meus pais era clara: ele não podia entrar na casa.

O meu complemento à regra: ...enquanto meus pais estivessem lá.

Enquanto meus pais trabalhavam, ele ficava comigo. Quando chegava a hora de um deles chegar, eu levava o gato até a porta.

Na primeira vez que meu relógio mental não me avisou que era hora de botar o gato pra fora, eu estava assistindo TV com aquela imensidão de pêlos no colo.

Quando escutei minha mãe chegando do trabalho, não tive dúvidas. Corri para a sacada e atirei o gato de lá.

Voltei tranquilamente para a televisão, cumprimentei minha mãe, contei até dez e tive a maior crise de choro da minha vida.

Um monstro, sim. Mas um monstro arrependido.

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Chegando em casa e correndo para limpar o cocô da pobre cachorra, dei de cara com a empregada.

Eu sempre esqueço que meus pais são ricos, o pobre sou eu.

(Pelo menos no Brasil, onde mesmo sem ser rico, existe alguém ainda mais pobre que você, que precisa trabalhar por uma merreca e ainda limpar o cocô do seu cachorro. O fato mais triste do mundo, e também o mais celebrado pela minha mãe.)

Pedi com carinho:

- Dona Maria, a senhora tira os cocôs da Lilica lá de fora antes que comece a chover, por favor?

Ela me olhou fixo nos olhos. Seu olhar era de perplexidade, de espanto. De "eu não mereço ouvir isso". Eu tinha certeza que essa seria a hora rebelião. Ela não ia mais aceitar essa vida de limpar cocô por salário mínimo. Eu teria sorte se ela não me matasse ali mesmo.

Ela só gargalhou e disse:

- Credo, menino! "Por favor"? Em empregada a gente manda. Não precisa ficar se humilhando, não!

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Acho que eu preferia levar a bronca. Fiquei sem saber o que responder.

Por pouco não tive a mesma reação da infância e joguei a Dona Maria da sacada. Não fiz porque eu ia acabar pisando num cocô de cachorro e caindo junto.

Além do mais, já estava chovendo.

6.4.14

Caminhando

Eu tinha quatorze anos quando o tédio de ficar em casa ficou maior que o prazer de não sair do sofá.

Eu não tinha nada para fazer, a internet ainda era discada e eu não tinha saco pra essas coisas. Solução: dar uma volta na quadra.

Pode parecer uma daquelas mentiras que o Globo Repórter quer que você acredite (comer vegetais faz bem, é possível ser feliz na terceira idade, é prazeroso estar em contato com a natureza), mas a tal da endorfina realmente vai parar no sangue depois de uma caminhadinha.

Terminar uma caminhada causa um prazer indescritível, ainda mais se aliado ao consumo de uma barra de chocolate.

Em pouco tempo, fugir de casa pra caminhar virou um hábito.

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Erik Satie, o compositor, chegava a caminhar trinta quilômetros por dia. Foi assim que ele aprimorou seu senso de ritmo e de variações sobre temas repetitivos.

A Fiona Apple precisou fazer tratamento no joelho depois de gravar seu último álbum, porque ela passava quatro horas por dia subindo e descendo um morro perto de onde morava pra fazer fluir a criatividade antes de ir pro estúdio.

Tchaikovsky, Kant, Mahler, os gênios adoram fazer caminhadas. Era parte do que os tornava tão sensíveis e inovadores.

"Mas Flávio," você pode falar, "você adora fazer caminhadas e não é nem um pouco genial".

Verdade. Mas é porque essa gente toda não tinha um mp3 player no último volume enfiado nos ouvidos o tempo todo. Provavelmente essa genialidade toda vai chegar em mim daqui a três ou quatro anos, quando eu finalmente ficar surdo.

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Posso não ter virado um artista genial com as minhas caminhadas, mas decorei todas as músicas do último disco da Kylie Minogue em menos de um dia. Quero ver o Tchaikovsky fazer isso.

Aliás, a natureza é muito sábia. Ela sabe como é importante para um homem escutar a voz feminina, e não nem que os gays ficassem sem isso.

Alguma coisa evoluiu diferente na audição dos homens gays, e se nós não vamos casar com uma mulher para escutá-la reclamar sobre tudo, é bem provável que gastemos metade do nosso salário em discos em que mulheres (de preferência, loiras que cantam sem calça) cantam estridente, gritam e reclamam da vida.

Desde que dê pra dançar ao mesmo tempo, a gente topa.

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Essa história de fazer caminhadas combina muito com o fator pobreza que assola a minha vida.

Ter resistência para caminhar bastante sem cansar (e tolerância para não se importar de chegar suado em todos os compromissos) torna mais fácil a vida de quem não tem carro e quer economizar na passagem de ônibus.

Mas nem tudo é tão econômico assim. Um vez, meu namorado me deu de presente um tênis de quatrocentos reais (uma fortuna, ao meu ver), e ficou indignado quando viu que o tênis tinha se destroçado completamente em menos de seis meses.

"O que você fez com ele, meu Deus?"

"Caminhei, uai."

Ele, que vai de carro até a padaria na esquina da casa dele, não quis acreditar.

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Essa semana, bati meu recorde. Entre um compromisso e outro, o tempo todo à pé, caminhei dezesseis quilômetros em um dia.

Você sabia que isso é suficiente para dar dar duas voltas completas no planeta Terra?

Tá, pode não ser verdade. Mas a sola do meu tênis tá toda ferrada, minhas pernas estão doendo e eu quero me sentir bem a respeito disso.

Ainda bem que existe a endorfina.

11.3.14

Cadernos

Foi algum tempo atrás.  Eu mal acreditava na sorte que estava tendo naquele momento.

Não é sempre que, no meio da pior semana da sua vida, se topa com um cara daqueles. Muito mais bonito do que os que costumam cruzar o meu caminho.

Veja, eu sou um cara normal. Me cuido na medida do possível mas não sou de dizer não a um pedaço de pudim. Ou de qualquer outro ítem alimentar, mas isso não vem ao caso.

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Só sei que aquilo parecia um presente.

Aquele peitoral, aqueles braços. Aquela sensação de que ele está ali por falta de uma opção melhor. Aquele corpo, aqueles olhos.

Intimidado sim, mas não derrotado, eu utilizava todos os meus esforços para ser o mais charmoso possível. Não conseguia.

Ele disse que não se importava com meu corpo imperfeito. Eu, tentando acreditar.

--

Sexo casual já não é uma coisa que eu faça com frequência, mas quando faço, o ambiente costuma ser o meu próprio apartamento. Pelo menos se eu for assassinado, encontram o corpo mais fácil.

Mas fomos ao apartamento dele. Obviamente um apartamento de solteiro, porque homens solteiros só sabem acampar, não viver decentemente.

Na cama não havia lençóis, só uns cadernos empilhados. A vida de um homem solteiro é uma vida de improviso.

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"Não vou pedir pra apagar a luz", eu pensava. "Não vou ficar encolhendo a barriga. Não vou. Não tem nada de errado comigo."

Era uma questão de aproveitar o momento de sorte.

Entre um beijo furioso e outro, joguei uma piadinha:

"Deixa eu tirar esses cadernos daqui... Bonito assim, você não precisa ser inteligente."

Ele sorriu estranho.

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Muito tempo depois me dei conta que eu estava sendo algoz do mesmo mal que me fazia tentar disfarçar a barriga o tempo todo.

Usufruí da boa vontade daquele Apolo versão pé-de-boi, que realmente aparentava não estar nem aí com meu corpo. Eu, todo preocupado pra ele não me julgar pela minha aparência, fiz isso com ele.

Reduzi o moço a só um corpo bonito, que não teria nada mais a oferecer, enquanto tento me convencer que, apesar de não ter tanquinho e músculos, posso ser atraente.

Na inteligência eu não sei, mas no quesito superficialidade, eu ganhava de longe. Além de mais bonito, aquele menino era muito menos frívolo do que eu.

--

Depois ele me repassou umas correntes de internet super sem graça, coisa que eu não faria nem morto.

Vou tomar isso como uma grande vantagem, que é pra não deprimir demais. Já me basta ser feio.

11.2.14

Para ter segurança

Eu tinha quinze anos.

Mudava de canal freneticamente até ver uma cena que me chamou a atenção. Era sobre um menino que abandonava suas luvas de boxe e, apesar do preconceito, decidia dançar balé. 

Era Billy Elliot, um clássico do cinema gay, e o menino passava o diabo durante o filme inteiro até enfim conquistar a aceitação da sua família.

No fim do filme, eu estava em êxtase. Era uma história de orgulho, da diferença vencendo barreiras, de aceitação. Eu nunca tinha visto aquilo antes.

Quase um abraço em forma de filme, para um garoto que ainda precisava aceitar a própria diferença.

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O entusiasmo foi tanto que não aguentei ficar em casa. 

Agarrei um livro que eu tinha pego emprestado de uma amiga que morava do outro lado da cidade. Com o filme ainda na cabeça, ia ser bom dar uma volta e pensar na vida.

Nem vi o tempo passar. Acho que carregava comigo a possibilidade de perder a vergonha de quem eu era. Quase chegando na casa da minha amiga, comecei a escutar alguém me chamando.

- Ei, viado. Vem aqui. 

Dois meninos, de uns dezessete anos, sentados no meio-fio.

- Não finge que não tá ouvindo, não, viadinho. Tá com medo, é?

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Eu estava. 

O modo de emergência foi ativado naquele momento, e todo o sangue do meu corpo se direcionou para endurecer o corpo, caminhar duro e apertar o passo o máximo possível.

Os meninos me seguiam, sem parar de xingar de viadinho o viadinho que tentava escapar deles. Lembro de pensar que, se eles quisessem mesmo me alcançar, já teriam conseguido.

O que eles queriam era me deixar em pânico. Quem sabe se eu chegasse em uma parte mais movimentada do bairro eles me deixariam em paz. Qualquer coisa, era só entrar em algum comércio e esperar.

Não deu tempo.

Quando eles me alcançaram, eu estava em um quarteirão sem casas, apenas barro e mato.

- Por quê você fingiu que não ouviu a gente, seu viado?

Fiquei gelado. Tentei conversar. Pedi desculpas. Olhei pra baixo. Rezei para aquilo terminar logo.

Alguns chutes e socos depois, terminou.

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Cheguei em casa chorando de raiva, mas tentando disfarçar. 

Eu não podia contar o que aconteceu para ninguém. Ninguém podia saber por que eu apanhei. Antes que quebrassem a minha cara do que quebrassem meu armário.

Lavei o rosto vermelho, coberto de terra e lágrimas. Sentia ódio de ser quem eu era, medo de apanhar de novo, raiva do filme que me fez pensar que eu era normal.

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Foi uma longa jornada até eu conseguir vencer esses medos e assumir o que, hoje, parece ser uma parte tão pequena da minha personalidade. 

Aos poucos, fui aprendendo a conviver melhor com quem eu era, e a me defender melhor de quem tentava me impedir disso. 

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Lendo as dicas que a Folha de São Paulo deu para os gays que querem evitar a violência homofóbica, lembrei do adolescente que passou dias sem sair do quarto pra ninguém reparar o olho roxo e perguntar o que era aquilo. 

Lembrei dele sentindo pânico, e lembrei que era bem isso o que aqueles meninos queriam.

O agressor tem tesão em ver o medo nos olhos da vítima. Quer se sentir superior. Tem prazer em usar a violência para fazer o outro calar a boca.

Não, evitar lugares abertos e não dar pinta não é uma estratégia de segurança capaz de combater isso. 

Como cachorros treinados, as pessoas que usam da violência sentem o cheiro de quem tem medo deles. 

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A maior estratégia de segurança que eu aprendi desde então foi a seguinte: Exponha-se.

Quando seus colegas estão falando das namoradas, fale do seu namorado. Você não tem por quê se esconder. 

Quando se sentir agredido por um comentário, mostre isso claramente. Não fique em silêncio. Não finja ser quem não é. 

Você não precisa fazer um anúncio formal para cada pessoa que encontra. As oportunidades são várias e se apresentam no dia-a-dia. Falar da própria vida é natural, e a naturalidade é maior inimiga do medo.

Fale abertamente sobre ser gay com a sua família, com os amigos, com o conhecido que faz piada e acha que viado é xingamento, com a vizinha que reclamou do beijo gay na novela. 

Erga a sua bandeira. Defenda seu ponto de vista. 

Trabalhe suas inseguranças. Faça algum curso de defesa pessoal. Conheça seus direitos.

Estando seguro de si, você está mais seguro do mundo. 

E essa é a única estratégia que conta.

3.2.14

Derrubando paredes

Estar inspirado é estar disposto a correr em direção a uma parede de tijolos.

Na falta de inspiração, isso também pode ser feito. Talvez com mais de cautela, talvez com menos velocidade. Talvez procurando uma pedaço de parede que pareça mais fácil de derrubar.

Com inspiração, você pode derrubar uma parede que, sem ela, poderia parecer intransponível.

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Não que haja garantia dos poderes libertadores de agir inspirado.

Você pode estar inspiradíssimo, alinhado com os seus sonhos mais selvagens, com a fúria de mil rinocerontes em fuga, e dar de cara com a parede de uma forma que te derruba tão feio que a queda parece ser definitiva.

Mas não se derruba uma parede de tijolos com uma pancada só, não tão fácil.

Você pode teimar, e retornar à parede com a cabeça mais dura do mundo, e com a maior violência, só para encontrar uma parede ainda mais resistente do que da última vez.

E então, lágrima nos olhos e sangue escorrendo da tampa da sua cabeça teimosa, corre ainda outra vez em direção à ela.

E falha.

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Você corre mil vezes e continua falhando. E isso lhe desespera, e lhe desinspira.

E você começa a quase achar a graça na parede, e começa a duvidar de correr em direção a paredes, e decide que, se esse caminho fosse para você, a parede não estaria ali.

Com o afeto de uma despedida, você passa as mãos pela parede com delicadeza. Se apóia na parede como quem está descansando de uma jornada longa.

Encosta sua testa nos tijolos, como quem entrega os pontos em uma luta impossível de vencer.

E então, a parede desaba.

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Alguns tijolos caem na sua cabeça, mas tudo bem. Ela já está acolchoada pelos galos que a sua teimosia deixou.

A parede, ao cair, ergueu um poeirão que ainda te engasga. Fica difícil enxergar qualquer coisa, o horizonte nublado por poeira e surpresa.

Aquilo que você tentou por tanto tempo aconteceu. A parede que te confinava não existe mais. Finalmente você pode correr pra onde quiser.

E a parede dá saudades.

E isso te inspira.

E é hora de encontrar outra parede pra dar cabeçada.

16.1.14

Professor Linguiça

Ato-falho: nome que o Freud deu para aquela situação em que você quer dizer uma coisa e acaba dizendo outra, que era o que você realmente queria dizer o tempo todo.

Ou, como diria o Chaves, fazer algo "sem querer querendo".

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Sei que eu já cometi tantos erros assim que eu mesmo poderia ser um personagem do Chaves. Na faculdade, os atos-falhos eram tantos que já me chamavam de ato-Flávio.

Por exemplo, toda vez que eu brigo feio com um namorado (não briguinha qualquer, briga feia mesmo), eu acabo o chamando pelo nome do meu irmão mais velho.

- Você nunca atende o telefone!
- Você que não pára de ligar!
- OLHA AQUI, PLÍNIO!
- Plínio?
- NÃO DISTORCE O QUE EU TÔ FALANDO!

Acho que isso é mais explicável pelo fato de eu ter passado a infância brigando com o meu irmão do que por qualquer aspecto relacionado à libido. Chaves 01, Freud 0.

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Mas o pior ato falho da minha vida foi na minha formatura da faculdade.

Fui escolhido para fazer a homenagem aos professores. Três minutos de puxação de saco, uma piadinha ou outra, apelar pro emocional, coisa fácil. Sem muito onde dar errado.

Uma das minhas tarefas era escolher uma música, de preferência instrumental, para tocar durante a homenagem. Depois de escutar várias músicas e não achar nenhuma muito adequada, lembrei da versão instrumental de uma música da Aimee Mann que eu tinha no computador.

Não muito agitada, melódica o suficiente pra não ser monótona, perfeita para ser fundo do meu discurso metido a engraçadinho.

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Chega o dia da formatura e eu estou com os nervos à flor da pele. É hora do discurso. Os professores todos aguardando a homenagem, a plateia lotada. Enquanto eu caminho em direção à tribuna, começa a tocar a música.

Era a música errada. Mesmo conferindo logo antes de enviar o email, mandei o arquivo de outra música, chamada Nothing is Good Enough. Traduzindo livremente uns trechinhos da letra:

"O que começou com tanto ânimo, agora eu orgulhosamente termino com alívio. Porque nada é bom o suficiente pra pessoas como vocês. Os piores críticos jamais poderiam criticar da maneira que vocês fazem. Ninguém é capaz de destruir uma esperança assim como vocês."

Ops.

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Essa eu não sei se dá pra culpar nas brigas com meu irmão - só se for com base nas pancadas na cabeça de quando a gente saía no soco.

Mas nem eu sabia que tinha todo esse rancor inconsciente dos meus pobres professores, que eu (juro!) admiro demais. Ok então, ponto pro Freud.

Chaves 01, Freud 01.

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Na hora, o engano acabou passando batido. O sonoplasta deixou o volume bem baixinho, pra não atrapalhar o discurso.

Ainda bem que ninguém percebeu. Mas se tivessem percebido, a resposta estaria na ponta da língua: "Foi sem querer querendo, professor Linguiça!".

Chaves 02, Freud 01. Vitória do Chaves.

12.1.14

Antes de dormir

Pergunte para qualquer serial killer ou cientista social: o ser humano é perfeitamente fatiável. Entre orientais e ocidentais, religiosos e céticos, os que preferem Trakinas de chocolate e os que preferem de morango - é possível dividir a humanidade em infinitas categorias para compreendê-la melhor

Nenhuma divisão, entretanto, é tão poderosa quanto a entre pessoas que dormem rápido e pessoas com insônia.

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Se você é capaz de deitar numa cama, fechar os olhos e só abri-los novamente no dia seguinte, você não tem ideia de como é invejado. Você é visto como o possuidor de um superpoder, como alguém que não precisa enfrentar a morte.

Porque a pessoa que deita na cama e demora pra dormir... só essa pessoa tem noção do que é a eternidade.

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Você deita.

A cama está confortável, a temperatura está ideal. Você está cansado. Você acordou às cinco da manhã e agora já passou da meia-noite. São as condições perfeitas para cair no sono.

Aí você lembra que precisa passar no supermercado no dia seguinte. Coisa rápida, você perde uns minutinhos fazendo uma lista de compras mental e se prepara pra dormir novamente.

Mas não adianta. Como engrenagens de um relógio gigante que começam pouco a pouco a girar, seu cérebro começa a pegar no tranco. Quando você vê, está processando mais dados por segundo que um computador da NASA.

Você pensa no que precisa fazer no trabalho no dia seguinte. Você corrige seus deslizes na apresentação que na sala de aula na sétima série. Você tem ideias de invenções que poderiam revolucionar a humanidade.

Puta merda, você nunca foi tão genial quanto nesse momento de insônia.

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Mas você sabe que isso é tudo artifício do seu cérebro, que acha que dormir é para os fracos e quer te convencer disso. Você sabe que as ideias geniais não vão render o mesmo entusiasmo pela manhã.

Você tenta se aquietar um pouco. Foca na respiração, tenta frear o raciocínio.

Mas seu corpo luta até o fim: o coração acelera feito doido, a perna chuta sozinha. Você pensa que vai conseguir pregar os olhos e - segura! - lá vem a sensação de estar caindo, e você volta a estar mais acordado do que nunca.

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Quando você finalmente dorme, já passam das seis horas da manhã.

Você acorda ao meio-dia, exausto, e aquela pessoa que fecha os olhos e dorme instantaneamente cruza contigo no corredor. E dispara, orgulhosa:

- Cacete, você é dorminhoco, hein? Eu acordo às seis da manhã e já tô ótimo!

Sorte que você se sente como se tivesse sido atropelado por um caminhão carregado com outro caminhão em cima. Porque senão você matava - e  depois ia tomar seu café, sorrindo.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...