28.8.13

X-Paraíso

Recém-saído da faculdade, estou estudando para um concurso público. É muito complicado decidir o que fazer pelo resto da vida, e trabalhar para o governo pode me colocar na confortável posição de receber ordens de terceiros o resto da vida.

Isso e mais um bom salário no final do mês pode ser o paraíso. Ou, pelo menos, um o purgatório bem confortável.

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Minha cidade natal tem poucos atrativos turísticos, e toda foto de divulgação mostra a mesma igreja e praça.

É uma pena que se desperdice a verdadeira vocação patobranquense para o turismo: o X-Polenta.

Trata-se de uma gambiarra culinária composta por duas fatias grossas de polenta frita, muito queijo, calabresa, bacon, hambúrguer, frango, tomate e rúcula. Isso tudo numa porção do tamanho de um prato.


É um paraíso muito mais acessível do que passar num concurso público.

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Morando na capital do estado, os concursos por aqui costumam ser muito concorridos. Muito mais candidatos por vaga do que, por exemplo, um concurso numa cidade do interior.

Surgiu um concurso público para uma cidade bem próxima da minha, onde eu poderia ter um bom salário e um acesso facilitado a quantos X-Polenta eu quisesse consumir.

Não me inscrevi.

Críticas à parte, consigo entender os motivos de tantos médicos recém-formados preferirem ganhar menos dinheiro e trabalhar em cidades saturadas de profissionais do que irem a uma cidade pequena e virarem semideuses para a população local.

Minha cidade natal nem é tão pequena, mas não tem cinema. Não tem um teatro que receba peças com frequência. Raramente tem exposições de arte.

As três opções de lazer preferidas da juventude local são: beber cerveja e ouvir sertanejo no posto de gasolina, fumar maconha em terrenos baldios e comer o X-Polenta.

Muitas vezes, os três na mesma noite.

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Os médicos que não vão para o interior não são o problema - são o sintoma.

Se as cidades pequenas não tem opções de lazer suficientes, os jovens não são estimulados a ficar. Os que tem a chance, saem. Os que não tem, enchem a cara todo dia para fugir da maneira que podem.

A falta de lazer acaba virando um problema de saúde pública.

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Vejo o problema, mas não vejo uma solução fácil.

Só posso sugerir, para tornar as cidades do interior mais convidativas, que seja obrigatória a implantação de uma lanchonete que sirva X-Pòlenta em cada cidade brasileira com menos de 50 mil habitantes.

Claro, isso pode não resolver o problema dos médicos. Provavelmente precisaríamos de muito mais cardiologistas, a longo prazo.

Mas esses a gente traz de Cuba. O X-Polenta é uma commodity desejadíssima por lá.

25.8.13

Fora do meio

Na cidade pequena em que eu morava, os poucos gays que eu conhecia formavam uma panelinha. Como qualquer grupo de adolescentes, eles agiam do mesmo jeito, falavam as mesmas gírias e usavam as mesmas roupas - e o mesmo tipo de tênis que eu não tinha dinheiro suficiente para comprar.

Eles eram ótimos em oferecer uma imagem de felicidade e diversão constante. Eu me roía de inveja, mas sempre dizia aos meus amigos de internet que aquele grupinho era ridículo e que eu queria mesmo era distância deles.

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Pega bem para um militante político dizer "Ainda tenho meus preconceitos, todos tem... Mesmo que inconscientemente". É uma boa maneira de se incluir se excluindo: todos são preconceituosos, mas comigo é só onde a minha consciência não toca.

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Eu carrego a bandeira do movimento gay com o maior orgulho, mas isso não me impede de julgar meus companheiros e de ter meus preconceitos. Entre gays, é comum ver alguém se orgulhando de ser "de fora do meio". É como um carimbo que se bate em quem não frequenta as boates, dizendo que é de uma cepa mais pura de macho.

Eu sempre fiquei entre os dois - com a auto-estima baixa demais pra frequentar uma boate sem querer sair chorando e politizado demais pra se dizer que eu sou de "fora-do-meio".

Por isso, quando um namorado que também fazia o papel de quem não gosta da "cena gay" começou a querer frequentar esses lugares - às vezes comigo à tiracolo, às vezes sozinho - tive um siricotico e precisei enfrentar de verdade alguns dos preconceitos que eu carregava.

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Ter tido uma infância com pouca grana me fez repetir, durante a adolescência, que roupa de marca é coisa de gente insegura. Que beleza não é tudo. Que eu poderia não ter nenhuma dessas coisas, mas que isso não me faria diferença porque eu teria cabeça o suficiente para ter uma vida legal sem isso.

Foi duro quando percebi que existe gente linda e com roupa de marca que também é inteligente. Gente que além de ler bons livros sabe ir a uma boate e dançar sem se preocupar com quem está olhando. E que, enquanto faz as duas coisas, fica ridiculamente atraente numa foto sem camisa.

Comecei a me torturar com a imagem do meu namorado cercado por essas pessoas. Ele, em uma boate, cercado por caras bonitos, rindo de tudo aquilo que eu não acho graça e se divertindo. Uma foto perfeita, com um verniz que eu não sou capaz de oferecer.

Nessas horas a gente percebe que ser humano e cheio de falhas é uma bosta.

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Quando menos percebi, eu estava odiando essas pessoas.

Essas que vão a boates e gostam, essas que conseguem mostrar pro mundo uma beleza que não é a que eu tenho. Pessoas que, se eu tentar medir com a régua que eu costumo usar para me sentir melhor que os outros, vão se revelar melhores que eu - na beleza, no papo, na segurança.

Pode ser porque eu realmente não gosto de boates e de roupas de marca, pode ser porque eu ainda sou a mesma pessoa que queria pertencer a um grupinho desses quando era adolescente e não conseguia.

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Talvez seja só ciúmes do namorado mesmo.

Mas ele pode sair o quanto quiser - não ter roupas de marca e não sair pros lugares da moda me obrigou a me garantir onde realmente conta - e lá não se usa roupa alguma.

3.8.13

Três Alines

A primeira Aline eu conheci em uma entrevista de emprego.

Os candidatos eram entrevistados um a um, em frente a todos os outros. A entrevistadora perguntou qual era o motivo de e procurar esse emprego e eu respondi: "Feijão. Gosto muito de feijão. Sem trabalhar, sem feijão na mesa. Estou aqui pelo feijão".

Ela também deveria amar feijão, porque a estratégia funcionou. Gostar de feijão aparentemente me tornava apto a trabalhar vendendo celulares para pessoas com mais limite no cartão de crédito do que inteligência.

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Quando a Aline foi entrevistada, só disse que já tinha trabalhado na área antes e que estava procurando um novo emprego. Fomos selecionados, os dois.

Só fomos conversar no dia do exame médico. As primeiras palavras dela para mim foram "Tô precisando de um lugar pra morar, você sabe de alguém que tenha um quarto?". Minhas primeiras palavras para ela foram "Eu tenho."

Três dias depois, estávamos morando juntos e continuamos assim até hoje. Falávamos sobre como íamos vender bastante e ganhar bem (ela conseguiu, eu larguei o emprego no segundo mês) e sobre a fé cristã (ela ama, eu critico).

Ela veio para Curitiba atrás por causa de um amor. Três meses depois, o namoro acabou. Ela não desistiu da cidade, mas não teve pudores de se entregar ao sofrimento até esgotá-lo.

A primeira Aline fala da vida com fé e sofre por amor.

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A segunda Aline é minha vizinha.

Nos encontramos pela primeira vez no elevador, os dois com rumo ao supermercado. Interagir no elevador é uma tarefa especialmente difícil em Curitiba, então quando ela continuou falando comigo depois do "Boa noite", eu já tinha percebido que ela não era daqui.

Ela veio para cá tentando fazer a própria vida depois da morte do pai. Desde então, trabalha em shopping center e incrivelmente ainda consegue sorrir com sinceridade.

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Ela passou a vir no meu apartamento com uma certa frequência. Tomávamos chimarrão (talvez pra reafirmar nossa origem interiorana em comum) e conversávamos sobre as dificuldades de morar sozinho e sobre pagar contas.

Mas o que mais falávamos era sobre amores fracassados. A segunda Aline teve um relacionamento sério com um rapaz que parecia ser perfeito pra ela, até que ele mudou completamente e resolveu que o que realmente queria da vida era ter treze anos de idade.

Ela sofreu por pelo menos dois anos, enquanto trabalhava ainda mais duro no shopping center para poder pagar pelo próprio implante de silicone.

Entendo o raciocínio dela. Se é pra ter dor no peito, que seja por vaidade e não por coração partido.

A segunda Aline também fala da vida com fé e sofre por amor.

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A terceira Aline é irmã de uma grande amiga minha, e apesar de eu ter muita simpatia por ela, convivemos muito pouco.

Na primeira vez que a vi, estranhei um pouco a sua figura loira, de quase um metro e oitenta, e sua voz forte. Parecia um caso de pessoa com excesso de presença, aquelas pessoas que de tanta energia que têm intimidam todos ao seu redor.

Na segunda vez que nos encontramos, ela usava um vestido longo, cor-de-rosa, um coque no cabelo e um sorriso enorme. A guerreira da voz firme estava linda fantasiada de princesa, mas a energia sobrando continuava transparecendo.

"Eu adoro Beatles", ela me disse, falando baixo com um grito.

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Alguns meses depois, tomando um café com a irmã dela, um rapaz de mais ou menos um metro e sessenta e cinco (mas exalando dois metros e dez de autoconfiança) veio até nós pra dizer oi.

O encontro foi desconfortável, mas cordial. Minha amiga diz "Ele era namorado da Aline, já faz uns dois anos. Namoraram um tempão até que meu namorado pegou ele na rua com outra, se escondeu e filmou."

Não sei se pelo excesso de simpatia que tenho por ela ou pela minha experiência com as outras Alines, meu coração se condoeu por ela. Tive vontade de bater no garoto e na sua autoconfiança de baixinho.

Da terceira Aline só sei que fala da vida com fé. Por amor, suponho eu, deve sofrer também.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...