20.3.13

Uma foto feia

Hoje em dia, nada mais é natural.

Evoluímos ao ponto de podermos editar tudo o que as pessoas vêem sobre nós. As fotos, o que curtimos, as nossas palavras nas redes sociais. Tudo pode ser calculado para que os outros nos vejam como realmente somos: cultos, interessantes e sempre com o mesmo sorriso fingido.

Não funcionou tão bem quanto pensávamos: já criamos uma resistência a tudo isso. Não acreditamos mais na beleza de alguém só porque a pessoa saiu bem em uma fotografia, desconfiamos rapidamente de alguém cuja imagem não tem respingo nenhum de imperfeição.

A única pessoa que ainda não sabe diferenciar uma foto verdadeira de uma editada no Photoshop é sua avó, que saiu gritando depois de receber um email com uma foto do Lula abraçado com duas loiras de biquini e com um saco de dinheiro na mão.

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O único registro fotográfico da minha pré-adolescência é uma foto que meu pai me obrigou a tirar, depois de eu fugir de todas as fotos de família por anos a fio.

Na hora da revelação (naquela época, fotos eram como segredos: a hora de revelar era cercada de apreensão, e muitas vezes você acabava se arrependendo), alguma coisa deu errado e outra fotografia - de uma cachoeira - apareceu distorcida por trás da minha imagem.

A maior parte da cachoeira aparecia bem debaixo do meu nariz. Minha única foto em anos, eu tinha uma catarata de ranho emanando de mim.


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Com todas as possibilidades de controlar o que exibimos, é natural que as redes sociais tenham conflitos de interesse. Você ficou terrível na foto, mas sua amiga ficou linda. Ela vai publicar a foto, e você vai ter de lidar com o fato - chocante! - de que você não é perfeito.

Aconteceu comigo. E foram várias as mulheres que também saíram muito bonitas naquela foto, e todas compartilharam a foto. Quem sou eu pra tirar o direito delas de se divulgarem quando estão tão belas? Fotogenia é um dom que nem todos tem, e é feio fazer pouco caso do dom que nós não temos.

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Antigamente, uma foto era tão rara que devia representar tudo o que uma pessoa era. Os retratos eram sérios, posudos, qualquer tentativa de espontaneidade deveria ser previamente ensaiada pra que a foto pudesse retratar exatamente a alma de uma pessoa.

Um bom fotógrafo era o capaz de retratar essa alma sem ofender muito o fotografado.

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E vendo bem, até que essa foto representa muito bem como eu me sinto ao redor de outras pessoas. Parabéns ao fotógrafo.


10.3.13

Um chato autêntico

Uma das maneiras que adotei para simplificar minha vida foi criar um tipo. Nada que eu tenha ficado na frente do espelho ensaiando, mas sim uma série de atitudes que eu via nos outros e passei a usar em mim mesmo.

Em pouco tempo, isso me transformou de uma pessoa tímida com medo da opinião alheia em uma pessoa com uma língua rápida, capaz de fazer mil graças e ironias em uma frase, numa banca que me tirava do modo que eu me via (tímido).

Demorei para perceber que a parte de mim que era tão disposta a vomitar opiniões era só uma casca ao redor do mesmo menino tímido que eu sempre fui. Eu era a mesma pessoa, enrolada na própria língua.

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O tímido tem ares de humilde mas é um grande orgulhoso. O tímido deixa de mostrar o que tem dentro de si porque tem medo de mostrar quem realmente é e, Deus me livre disso, alguém não gostar.

O tímido usa expressões como "Eu não preciso carregar bandeira disso", "Não preciso ficar gritando para o mundo o tempo todo", achando que realmente as outras pessoas saem pelas ruas gritando e carregando bandeiras.

O tímido se recusa a fazer qualquer coisa com o pretexto de "não sou bom nisso". Como é que o tímido, pessoa maravilhosa que é, ousaria fazer alguma coisa sem ser o melhor possível?

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Fiz anos de aula de canto e nunca cantei em público. Não sem estar completamente bêbado, ou fazendo a voz do Pato Donald, ou os dois.

Ninguém julga alguém que canta mal por estar bêbado. Ninguém julga o Pato Donald por não ser o Frank Sinatra.

Mas euzinho? Ou Frank, ou nada.

Ou pior: uma garrafa de vodka e o Pato Donald.

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É tudo uma questão de equilíbrio: não enfiar o pescoço na terra, nem enfiar opiniões garganta abaixo dos outros.

Sim, os extremos são mais seguros. Não se manifestar em absoluto e gritar o tempo todo são muito mais confortáveis do que falar o que realmente desejamos, quando achamos necessário. Normalmente a hora em que é necessário falar é muito desconfortável, e a opinião que desejamos emitir pode ser muito impopular.

É necessário correr o risco de ser chato. É preciso se deixar ser vulnerável. Antes que a opinião do outro seja negativa do que perder a oportunidade de ter uma alma genuína.

Assim se ganha a liberdade de ser um chato autêntico. Melhor ser livre do que perfeito.

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(Isso tudo vale mesmo que a gente morra de vergonha do que vai falar. Mesmo quando você escreve um texto que parece imitação do Paulo Coelho, ainda é melhor se manifestar genuinamente do que fazer tipo ou se calar por completo. Além de tudo, você se sente corajoso por ter enfrentado o medo de se expôr.)

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...