17.1.13

Alexanders

Outro dia vi um anúncio de um rapaz que pedia mais ou menos o seguinte: "Procuro um homem de 45 a 65 anos que me deixe morar com ele, me sustente e me faça de mulherzinha. Que eu use roupas de mulher enquanto estiver em casa e que traga amigos, suados depois de jogarem futebol, para me comer."

Tão específico, o rapaz, que me condoí por ele. Espero sinceramente que alguém tenha lhe respondido o anúncio - e que os amigos desse cara joguem futebol, e não vôlei.

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Não vou entrar nos méritos das frustrações que algumas fantasias trazem quando são, finalmente, realizadas, e nem como certas fantasias são muito melhor aproveitadas enquanto fantasias do que como realidades.

Fico pensando em como essas pessoas faziam para se encontrar antes da internet. A possibilidade de se comunicar com qualquer pessoa do mundo trouxe uma coisa bacana para os excluídos. A chance de achar alguém compatível com a própria loucura aumentou.

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Ele ficou órfão aos quatro anos de idade. Ela perdeu toda a esperança no amor romântico depois de descobrir que o rapaz de quem era noiva há quatro anos mandava mensagens para outras mulheres falando que "hoje a baleia vai ficar em casa".

Ele se sentia incompreendido nos seus relacionamentos e tinha vergonha do que desejava. Ela jamais voltou a se sentir capaz de confiar no amor de alguém.

Encontraram-se, os dois, numa sala de bate-papo.

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Três semanas de conversa, criaram coragem para se encontrar. Ela, decidida a ter pelo menos uma boa noite de sexo. Ele, decidido a se controlar para não assustar a moça de papo bacana  - com quem já fantasiava a possibilidade de um namoro.

Comeram pizza. Horas de risada. Ela fascinada pelo jeito de garoto tímido dele. Ele, encantado por como ela era capaz de dominar a conversa.

Ela, seis alexanders, pra enfrentar a insegurança e curtir o sexo casual.

Ele, sete caipirinhas, para ter o que fazer com a boca nos momentos de silêncio.

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Foram para a cama. Deram-se uns beijos esquisitos no começo, até que um pegasse o ritmo do outro.

Completamente encaipirado, ele esqueceu o plano de se controlar. "Foda-se. Se ela me estranhar por isso, pelo menos vou ter curtido a noite."

Se soltou. Mamou profundamente nas tetas dela. Lambeu-lhe o umbigo. Olhou-a nos olhos.

"Cuida de neném", disse, com os olhos nos olhos dela, como um garoto pidão. "Cuida, mamãe?"

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Ela ficou estarrecida. Mais de cem bilhões de neurônios no seu cérebro, todos eles ecoavam um grito silencioso de "Que porra é essa?".

Mas, por causa dos seis alexanders, ela entrou na brincadeira.

Afagou-lhe os cabelos. Esfregou-lhe os peitos na cara, dando-lhe de mamar. Abraçou-o carinhosamente com todo o corpo, o rosto dele afundado nos seus pentelhos.

"Mamãe tá aqui por você".

Gozaram. Dormiram.

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Ele acordou primeiro.

Abriu um olho, viu que ela ainda estava dormindo. Fingiu voltar a dormir.

Ela fez a mesma coisa. Ficaram, por duas horas, acordados e de olhos fechados, os dois constrangidos demais para tomar a frente em levantar da cama.

Ela desistiu de enrolar. "Foda-se", pensou, e fez um cafuné no homem ao seu lado, que dormia como um bebê - depois de ter trepado como um. Ele, sorrindo, fingiu que acordava.

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Ele nunca foi tão feliz na cama quanto naquela noite. Nunca teve coragem de confiar numa mulher como confiou naquela noite, ao realizar seu desejo de ser cuidado. Não sentiu vergonha do que quis.

Ela, por sua vez, achou conforto na fantasia esquisita dele. Pela primeira vez em muito tempo, viu verdade nos olhos de um homem. Sentiu-se como se o seu amor fosse necessário.

Amaram-se e curaram-se, um à dor do outro.

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Sim, a chance de encontrar um serial killer que arranque suas córneas com um garfo e as coma na sua frente também é muito maior com a internet.

Mas, como uma grande mão que embaralhou o mundo e transformou em próximas as cartas que antes eram distantes, a internet nos aproxima de nossos iguais.

Seja para dividir histórias sobre criar gatos persas, seja para contratar um travesti que se vista de freira, use salto alto e mije na sua cara, estamos mais perto uns dos outros.

Como se tivéssemos bebido um alexander virtual.

14.1.13

Como as coisas começam


Comecei a me masturbar muito cedo. Eu tinha uns oito anos, olhei para aquela coisinha dura e tinha uma vaga ideia de que esfregando aquilo eu sentiria uma coisa gostosa. Esfreguei e senti. Deu certo.

Sem entender, comecei a investigar outras partes do corpo.
Passava a mão fechada furiosamente pelo dedo indicador da outra mão, num vai-e-vem intenso torcendo para que aquilo me desse a mesma tremedeira nas pernas que me dava mexer no pipi.

Não dava.

Fazia movimentos de fricção na dobrinha do joelho. Se algum lugar no corpo tinha potencial para ser erótico, era a parte do joelho ao redor da rótula. Deus perdeu uma grande oportunidade de criar uma zona erógena ali.

Também não tive resultado.

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Não que tentar coisas ao acaso não possa render bons frutos. Por exemplo, uma das coisas que mais me intrigou por toda a vida foi a invenção do café.

Tudo começou quando um árabe que caminhava pela vila numa tarde de domingo olhou para uma plantinha de café, carregada de frutinhas vermelhas e cercada por uma multidão de mosquitos.

"Quer saber?", pensou ele, "Vou catar essas frutinhas, arrancar as sementes delas, torrar as sementes ao Sol e moê-las."

Não satisfeito, depois das sementes torradas e moídas, ele decidiu jogar água fervente nelas. E jogar as sementes fora. E beber a água que sobrou do processo.

Com isso, ele afetou todos os desjejuns da história da humanidade.

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Se esse árabe fosse o Djavan, provavelmente tomaríamos chá de besouro torrado todos os dias pela manhã.

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Vários anos depois, levei para a cama um cara que gemia de prazer toda vez que eu tocava nos joelhos dele. Aquilo que eu imaginei era possível!

Fiquei com orgulho da minha investigação - mas morri de inveja. Quem sabe se eu torrar meu joelho no Sol e depois jogar água fervente...

5.1.13

Sobre morar com pessoas

Em quatro anos e meio de morar aqui e ali para fazer faculdade em uma cidade diferente, já dividi moradia com três homens e com quatro mulheres diferentes. Um amigo travesti foi agrupado com os homens porque não peidava em público.

Sim, todas as mulheres com que eu morei peidavam na minha frente sem cerimônia. Os homens, não.

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Sobre mulheres: elas são incentivadas à comunicação frequente, e isso é uma coisa boa. Se você quer ter companhia para o fim do dia mas não teve um dia muito interessante para contar, não se preocupe. Sua colega-mulher pode ter carregado carvão o dia inteiro, mas vai ter toda a disposição para contar como em detalhes como foi seu dia e como o carvão estava especialmente sujo.

Você vai dar uma resposta sem muito nexo e composta de duas palavras e receber como resposta uma elocubração enorme que, ao mesmo tempo, discorda, concorda e debocha de você. Mulheres tem essa habilidade.

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Outra coisa: mulheres vão lavar a louça. Não se preocupe se você esquecer uma pilha de pratos na pia. Assim que você voltar para casa, os pratos vão estar limpinhos e expostos no escorredor. Sua colega-mulher não vai falar uma palavra sequer.

Você vai se acostumando a esquecer um pratinho ou outro, e ela vai continuar a lavar a louça. Você começa a estranhar e pergunta.

Ela vai falar que não se incomoda com isso. Você fica contente, até o dia em que ela vai embora porque está cansada de conviver com um porco como você - e dá pra tirar a razão dela?

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Ainda sobre morar com uma mulher: A vida social dela sempre vai parecer muito mais ativa que a sua: Vocês podem até sair o mesmo número de vezes na semana, mas ela sempre vai fazer isso soar mais interessante.

Enquanto você responde "O que você fez no fim de semana?" com "Tomei uma com os guris e fui jogar bola", ela responde "Eu, a Alice e a Manquinha fomos no Bebum's e tomamos todas! Sabe quem tava lá? O Jefferson. Você nem acredita no que a Manquinha fez com o Jefferson. Quando eu vi, estavam os dois no banheiro se beijando." e prossegue com toda a história dos dois anterior ao fato.

Uma mulher é capaz de fazer um passeio no parque soar como uma odisseia. Às vezes, isso vai te fazer se sentir como se sua vida não tivesse acontecimento nenhum.

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Mulheres se preocupam com a sua pneumonia: pode ser só saudades de ter a mãe por perto, mas é legal quando a pessoa que divide casa contigo te pergunta se você tomou o remédio. É uma preocupação gostosa de se receber.

Ainda mais quando elas são só colegas de quarto e não se incomodam com você levando pessoas pra cama - imagino que num relacionamento conjugal isso não aconteça tão facilmente.

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Já os homens:

Homens vão ser surpreendentemente doces: Uma vez, numa república que eu morei, comprei um guarda-roupa usado de um dos meninos. Saí de casa e voltei para encontrar o guarda-roupa todo montado no meu quarto, e o quarto todo arrumado. Uma doçura que só vendo.

Homens são incrivelmente desatentos: Já fui viajar no fim de semana sem levar a chave de casa. O menino que morava comigo - o mesmo do guarda-roupa - achou uma boa sair de casa na manhã que eu chegava. "Pô, mas o que custava você esperar até eu voltar?", disse ele, quando chegou em casa depois do meio dia. Meu ônibus chegava às seis e meia da manhã.

Homens vão te perturbar: Em geral, as meninas respeitavam mais minha privacidade. Os rapazes, na maior parte do tempo, não tinham o menor problema em abrir a porta do meu quarto de madrugada para perguntar se eu podia emprestar um moletom. Por mais incômodo que pareça, você se acostuma e isso faz falta depois de um tempo. Pelo menos não era pra soltar pum

Homens vão experimentar todos os saltos-altos do supermercado e desfilar enquanto você tenta fazer compras: talvez isso tenha sido só o meu amigo travesti, mas acho importante fazer constar.

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Entre morar sozinho e morar com outras pessoas, eu confesso que prefiro a liberdade de fazer cocô com a porta aberta e ver filme pornô sem precisar botar no mudo. Ainda assim, morar com outras pessoas ensina muito a conviver, entender e tolerar - os outros e você mesmo, seja homem ou mulher.

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...