19.12.13

Sobre trabalho e gastrite

Você já conheceu (ou foi, ou é) essa figura. A pessoa mais trabalhadora do escritório.

A pessoa que os chefes sabem que podem confiar. Aquela que fala que faz o trabalho de três pessoas pelo salário de uma, reclamando com orgulho de si mesma.

Aquela pessoa que fica com gastrite quando a empresa passa por problemas.

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Historinha do dia: uma colega trabalhava num escritório onde abundavam essas pessoas. Uma equipe de cinco ou seis com a carga de trabalho de doze.

Todos faziam hora extra, todos abriam mão da hora do almoço porque o chefe dizia que contava com eles. O chefe, aliás, era uma figura incrível: aparentava ser o mais sofredor dos homens, dizia que todos precisavam apertar os cintos porque a economia estava difícil, enfim, fazia muito bem o papel de mártir - antes de deixar o pessoal fazendo hora extra e ir pra casa com seu carrão importado.

A carga de trabalho aumentava e a equipe não. Minha colega aparecia lá em casa de vez em quando, para reclamar do cabelo que estava caindo e da gastrite que não ia embora. "Eu sei que não é muito bom, mas eles contam comigo, né? A empresa tá quase sem gente, só eu sei fazer o meu trabalho ali... Não dá pra sair agora."

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Outra conhecida minha trabalhava num ambiente muito parecido: poucas pessoas, muito trabalho, muita exigência e um chefe que combinava exigência e hipocrisia como ninguém.

Até que ela foi cansando de ter como única recompensa pelo seu trabalho um tapinha nas costas no final do dia e uma carga de trabalho maior ainda no dia seguinte.

Foi quando ela aprendeu o que eu considero o verdadeiro mantra universal, a maior frase de perdão e consciência cósmica: o foda-se.

Passou a trabalhar um pouquinho menos. Em vez de se estressar para tentar cumprir as demandas malucas do seu chefe, começou a fazer só o que dava conta. Hora extra sem remuneração, nunca mais. Inventava uma desculpa e saía no horário. Chegando em casa, mandava currículos e saía com os amigos, coisa que não fazia há muito tempo.

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A colega da primeira história foi demitida dois meses depois. A empresa achou uma maneira de terceirizar o setor e gastar menos.

Todo o trabalho, dedicação e horas extras não foram suficientes para mantê-la no emprego. Ela levou consigo a experiência, o seguro-desemprego e uma úlcera no estômago.

A colega da segunda história conseguiu um emprego melhor. Ganha a mesma coisa, mas não precisa fazer horas extras. Está fazendo o que gosta, e é muito trabalho - mas é o trabalho de uma pessoa só.

Antes de ir embora, foi atacadíssima pelo pessoal do escritório. "Você é uma vagabunda mesmo, né?", disse uma colega mais enfurecida. "A gente aqui se matando, e você saindo mais cedo para ir em festa! E agora larga a gente desse jeito!".

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Trabalho é uma coisa ótima. Mesmo que a gente não faça exatamente o que sonhou, trabalhar ajuda a circular o sangue, botar a criatividade pra fora e os pés no chão.

Já a decisão de casar com o trabalho é muito pesada. Casar com o trabalho não é uma via de mão dupla, e você não tem nenhuma garantia de que seu investimento vai ser recompensado a longo prazo.

A satisfação de ser um bom funcionário não pode ser maior do que o prazer de ser uma pessoa livre, autônoma e capaz de tomar suas próprias decisões. Se você chega em casa e não tem energia para mais nada, se você está soterrado em trabalho e isso esgota sua força para procurar outra oportunidade... você está exagerando. Para a sua empresa - por melhor que você seja! - você sempre vai ser substituível e descartável.

E quer saber? Seu emprego também é. Você não vai deixar ninguém "na mão" que não te deixaria também se isso fosse mais econômico.

Isso significa que você precisa jogar tudo pro alto e mandar seu chefe se foder? Não necessariamente. Mas você não precisa aceitar uma pressão que é desumana, nem ficar doente por causa do seu trabalho.

Melhor escolher sofrer menos.

5.12.13

Te faço mal, mas te amo

Já fui extremamente intolerante com gente reclamando do próprio relacionamento. Bastava ouvir uma pessoa reclamar do casamento, meus olhos giravam como um pião recém-lançado.

Peraí, colega. Você se botou nesse relacionamento, continua com a pessoa por vontade própria, e ainda tá reclamando? Se manca. Se a pessoa que está contigo te maltrata, a culpa é toda sua por deixar que isso aconteça. Coisa de gente fraca.

Pelo menos era o que eu pensava.

O que não é mentira, se você for ver bem. A pessoa realmente se colocou nessa situação.

Então eu tive a sorte, sorte mesmo, de viver um relacionamento desses.

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Nem sempre a gente recebe o amor que precisa, do jeito que precisa, desde criancinha. Para uma criança que acabou de nascer, tudo o que lhe é apresentado é amor. Leite é amor, toque é amor, beliscão é amor.

Se a pessoa que cuida da criança apaga cigarros no braço dela enquanto lhe dá comida, a criança vai achar que as queimaduras são parte de ser amado.

Claro que esse é um exemplo extremo, mas ninguém tem um modelo perfeito de amor. Vários de nós tivemos pais distantes, violentos, dramáticos ou instáveis demais. Aprendemos que o amor é distante, violento, dramático ou instável, ou tudo isso num pacote só.

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Quando a gente cresce e vai procurar amor longe da teta da mãe, é impossível procurar uma coisa que nunca se conheceu. Se o primeiro exemplo de amor foi de distância, os amores da vida adulta também tendem a circular ao redor de pessoas distantes.

É o amor que se reconhece fácil. Amor com gostinho de comida caseira. São tantas as histórias de "Te faço mal, mas te amo", que essa fórmula parece quase inescapável.

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Por isso julgar alguém que se encontra preso numa relação abusiva é uma atitude cruel.

Sair de uma relação abusiva não é sair só de um mundo de agressões: é sair de um mundo em que se tem um amor conhecido e seguro, mesmo que acompanhado de uma porção de sofrimento.

Sair de um relacionamento abusivo - mesmo que ele não pareça ser de amor - ainda é abrir mão de algo que se ama.

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Claro que não dá pra culpar os papais e mamães do mundo e dizer que tudo para por aí. A pessoa presa em um relacionamento abusivo costuma ter a auto-estima muito machucada, também.

Entendendo cada agressão como um gesto de amor, e juntando isso com a sensação de não se merecer amor, o diálogo interno fica ainda mais violento. "Você diz me amar, mesmo eu sendo a porcaria de pessoa que eu sou. Eu aceito que você seja uma porcaria de pessoa comigo. Pode me bater. Eu sou tão ruim quanto apanhar, e você me aguenta. Pelo menos você me aceita."

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Antes de pregar as mãos da pessoa abusiva no relacionamento na cruz, vale lembrar que essa pessoa também teve uma referência infeliz de amor. Falta repertório, falta saber amar.

E como uma criança que apronta para chamar atenção da mãe (para que essa lhe dê carinho em forma de bronca ou coisa pior), o agressor usa da violência - é que sabe fazer.

Isso pode acontecer de infinitas formas: xingamentos, ameaças de abandono, distanciamento emocional, manipulação afetiva, comer sua irmã, aquilo que for machucar mais no momento.

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É estranho demais eu ver algo de bonito em tudo isso?

São maneiras de amar! É a luta do ser humano para dar e receber amor, ainda que disfarçado de outra coisa. Só nos falta saber fazer isso de um jeito que machuque menos.

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O mais difícil de um relacionamento abusivo é que, para quem está acostumado com um amor violento, as coisas precisam ficar extremamente ruins para se perceber que há algo de errado.

Que os momentos de puro afeto são muito poucos e as migalhas de amor não conseguem mais te alimentar.

Que mesmo sendo uma porcaria de pessoa, você pode merecer outra coisa.

Ou, mais difícil, perceber que existe outra coisa. Que é possível um amor em que você não fique à mercê da loucura de outra pessoa.

Quanta força se precisa ter para se afastar de uma fonte estável de "amor", enfrentar a própria auto-estima demolida, suportar a solidão, manter a esperança de amar novamente, isso tudo enquanto se reinventa no caminho pra não cometer os mesmos erros no futuro.

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E aí, uma pessoa presa em um relacionamento abusivo é fraca?

Pode até ser. Mas, quando conseguir sair, vai ser uma pessoa muito, muito forte.

26.11.13

O machismo da Lulu

Aconteceu com um amigo de um amigo meu:

Ele namorava há quatro meses com uma moça. As coisas andavam rápido, a namorada praticamente acampada na casa dele, o maior amor.

Até que um dia, enquanto ele dormia, ela começou a passar a mão no seu pênis. Ele resmungava e continuava dormindo, ela avançava mais um pouco. Ele acordou com um boquete dela. Disse que estava cansado e não queria. Ela, com o orgulho ferido, entrou em parafuso.

Agarrou o saco dele e torceu com força. Ele gritou. Ela, ofendidíssima, não parou. Ele gritou "Sua louca!", ela deu um soco na cara dele. Saiu chorando do apartamento pra nunca mais voltar.

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A nossa sociedade, machista por excelência, criou as regras: a mulher deve ser pudica e fingir que não trepa, o homem precisa ser louco por sexo e querer xoxota o tempo todo.

Duas mentiras violentas. As mulheres pagam uma conta muito mais alta, com a parte de serem estupradas e tudo mais. Não preciso nem ir fundo nisso. É mais difícil ser mulher, ponto final.

Mas isso não significa que os homens também não paguem um preço por viver numa sociedade machista. Quando o sistema é vil, o algoz também pode ser vítima.

A história do começo do texto foi contada pra mim por um rapaz segurando as lágrimas, depois de beber várias cervejas pra tomar coragem e arriscar ser ridicularizado. A ex-namorada do meu amigo era extremamente machista (além de completamente maluca, of course).

Foi ensinada que se um homem não quer sexo com ela, é ela que está com um problema. Meu amigo também foi vítima do machismo, ao ser visto como um ser que devia morrer de tesão o tempo todo, sob o risco de não ser "homem de verdade".

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Por isso, quando aparece um aplicativo como o Lulu, com mulheres dando notas e avaliando os homens, duas coisas me passam pela cabeça:

Primeira: grande coisa. É moda de internet, que daqui a pouco todo mundo esquece. Tem a mesma relevância de um Candy Crush, com um público mentalmente parecido com o que preenche os testes da Capricho.

Segunda: eu entendo o incômodo de um homem julgado no Lulu. O aplicativo, todo disfarçado de feminista e empoderador de mulheres, me parece tão machista quanto a ex-namorada do meu amigo, porque julga os homens pelas mesmas categorias que o machismo definiu que os homens devem ser julgados.

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Além disso, as relações de casal, por mais inseridas num contexto social que estejam, sempre vão passar por óticas muito particulares e únicas.

Se você procura reviews de alguém que te interessa romântica/sexualmente através de um aplicativo de internet, como faria antes de comprar um forno de microondas, você pode jogar fora a chance de achar alguém interessante de acordo com o seu gosto.

Você nunca sabe se a louca da história não é justamente a pessoa que criticou seu interesse romântico. O fato de outra pessoa não ter gostado não quer dizer que você vá gostar. Melhor confiar na própria percepção do que no aviso alheio.

A não ser que o cara esteja em uma lista de agressores sexuais ou coisa assim. Nesse caso, melhor correr.

16.11.13

A Família na Brasília

Um dos melhores companheiros para o pobre moderno é o Amigo com Casa na Praia™.

Na falta de um, é sempre importante investigar seu círculo de relações e arranjar pelo menos um Amigo de Amigo com Casa na Praia ou Chefe que Tem Apartamento na Praia e Não Usa Muito.

É isso ou não ver o mar nunca.

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Falam que na morte todo mundo é igual, mas não acho que essa seja a única hora. Num engarrafamento, por exemplo, a Brasília com pneus carecas e o Jaguar andam lado a lado.

Claro, a Brasília não tem ar condicionado e o motor é barulhento, mas ricos e pobres precisam esperar do mesmo jeito pra chegarem a seus destinos.

A não ser que o rico tenha um helicóptero. Esse tá de boa.

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Mas me dói o coração ver que o carro ao meu lado no engarrafamento rumo ao litoral é um carro velho e cheio de gente simples. Impossível não imaginar a história:

O homem, que dirige, fabrica calhas. Tem um dedo faltando na mão esquerda, que serviu para aparar uma queda de um telhado. Há quatro anos ele não tira férias.

A mulher, no banco do passageiro, parou de trabalhar com costura depois de uma trombose na perna. Há um ano e meio, sua rotina é limpar a casa pela manhã., preparar o almoço da família, deitar no sofá e sentir dores durante o Vale a Pena Ver de Novo.

A menina, no banco de trás, tem 17 anos e é a alegria da casa. Estuda bem, é bonita e não fica pedindo roupas de marca porque sabe que os pais não tem condições de pagar. Está com um pouco de vergonha de estar parada na estrada dentro de uma Brasília, cercada de SUVs por todos os lados. Olha para as pessoas nos carros ao lado e se afunda no banco.

A senhora ao seu lado é a avó da garota. Fazia faxina pra viver até precisar operar uma hérnia de disco. Não fazia questão de ir pra praia, porque acha que não dá pra folgar o cinto enquanto não conseguir se encostar pelo INSS.

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É muito injusto, tudo isso. O mundo inteiro acontecendo e sendo lindo, e a única chance dessas pessoas conseguirem ver o mar é passando sete horas engarrafados dentro de uma Brasília, durante um feriado, e levando comida e bebida de casa.

Eles ficam na casa de um parente que tem casa na praia, uma variação do amigo do primeiro parágrafo. O problema de ficar em casa de parente é que você se torna vítima da generosidade alheia.

Como os donos da casa abriram mão da própria cama pra acomodar os hóspedes, a mãe da família passa os dias arrumando a casa e fazendo comida para todos. Passa os três dias que teria de descanso tomando todas as providências possíveis para não ser um incômodo. Vai até a praia rapidinho, em um dia, e só pra molhar os pés.

O homem que dirigia a Brasília passa os dias conversando com o cunhado, mesmo sem ter muito assunto. Recorre a todo o repertório de abobrinha a que tem direito, enquanto escuta o cunhado falando de como tá difícil bancar a reforma a casa e que se ele tivesse uma ajudinha com a calha, ia ser muito bom. Todo o processo acontece com uma cerveja na mão.

A filha vai à praia com a prima, e aprende que o próprio corpo não é bonito o suficiente pra chamar atenção. Além disso, se dá conta que é pobre quando precisa fazer um copo de suco render uma tarde inteira por não ter grana de pedir outro.

A avó sente dor na coluna, porque o banco da Brasília não fez muito bem pra hérnia.

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Imagino a situação deles porque a minha é muito melhor. Estou de frente para o mar, escutando as ondas batendo e escrevendo esse texto direto do apartamento luxuoso do meu Amigo com Casa na Praia™.

Enquanto escrevo, meu amigo, dono do apartamento, está na sacada com a cabeça entre os joelhos e chorando por amor.

Acho que todo mundo sofre, mesmo, e não há feriado que dê conta de parar com isso.

Não há quem não precise de um momento de descanso. A família da Brasília pode não estar com muito luxo, mas ralou muito pra conseguir passar o feriadão na praia. Pode não ser perfeito, mas esse é o momento que eles vão lembrar pelo resto do ano com saudades.

Meu amigo tem um apartamento aqui e pode vir quando quiser. Eu posso me convidar e vir junto.

Todos nós com alguma dificuldade, todos com prazer de estar em um lugar diferente. Todos prestes a se encontrarem num próximo momento de igualdade. Seja num outro engarrafamento, seja na morte.

Ou no inferno, que é um engarrafamento interminável em que você está preso numa Brasília.

1.11.13

Mas você não sai?

É muito constrangedor quando alguém me pergunta se eu tenho o hábito de sair.

Como assim sair? Eu saio de casa. Eu não sou um eremita, eu não tenho uma horta na minha casa que me permita viver do que eu mesmo cultivo. Se eu tivesse, provavelmente eu não sairia (a não ser que não desse pra pagar a conta da internet pelo site do banco).

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Mas não é como se eu ficasse em casa o tempo todo. Eu saio de casa. Eu encontro pessoas. Eu faço cursos. Mas não é disso que a pessoa está falando. Se eu respondo que eu saio, sei lá, para praticar montanhismo, a pessoa geralmente me corrige:

"Não, não. Eu digo sair sair, sabe?"

"Como?"

"Tipo, sair à noite?"

Entendi.

Bom, o supermercado aqui perto de casa é 24 horas, e às vezes eu tenho uma vontade súbita de comer uma Trakinas de morango, então a resposta seria... sim?

Não, não seria.

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Isso quando a pergunta não é ainda mais confiante:

"Você sai pra onde?"

A pessoa parte da absoluta certeza de que meus fins de semana são gastos em alguma boate qualquer. E, sinceramente, eu costumava ficar chateado com isso. Eu até me justificava:

"Pois é, né? Sei lá, faculdade e tal. Não dá muito tempo."

Ou, quando eu estava mais sincero:

"Ah, não curto tanto sair pra boate. Sou mais um barzinho..."

O que não é uma resposta adequada. É como se a pessoa perguntasse se eu costumo ir ao McDonald's e eu respondesse que não, mas que de vez em quando eu frito um pedaço de frango. As duas coisas são vagamente relacionadas à alimentação, mas são coisas profundamente diferentes.

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O pior é quando é um convite:

"Me diz, o que que você acha de ir no Wonka esse sábado?". Ou ainda pior "Ei, vamos pegar um James essa quarta?".

O que eu realmente escuto é:

"Ei, que tal você gastar um quarto do seu salário vestindo sua melhor roupa, pegando um táxi, ficando numa fila por duas horas e meia para entrar numa caixa cheia de gente?"

Quando eu resmungo alguma coisa parecida com um não, a pessoa fala:

"Ai, que antissocial! É bom pra conhecer gente, sabia?"

Ok, então a gente vai até um lugar onde tem muita gente, com o objetivo de conhecer gente. Muito bem, como é que eu vou conhecer alguém se está tudo escuro e a música é tão alta que não me deixa conversar?

Eu sei que provavelmente esses lugares vão estar cheios de pessoas que tem o gosto musical parecido com o meu, que tem coisas interessantes a dizer e são agradáveis de se olhar. Mas que preguiça isso me dá!

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"Ah, é mais pra beber e se soltar... Ouvir música, dançar!"

Uma boate não é a melhor escolha para qualquer uma das alternativas. Você bebe cerveja por nove reais a garrafinha, tentando dançar e dividir o mesmo metro quadrado com seis outras pessoas ao mesmo tempo, enquanto se esforça para parecer bonito durante o exercício.

Se uma banda estiver presente a experiência se justifica, mas você faz isso pra escutar uma gravação? Que você pode escutar no conforto do seu sofá?  Que você baixar pela internet e ouvir dançando só de cueca, sem ninguém te julgar se você faz o passo do elefantinho ou solta um pum?

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Repito, isso não quer dizer que eu não tenha amigos.

Por incrível que pareça, com o tempo você tem a sorte de encontrar pessoas que gostam da mesma coisa que você. Que também prefiram pagar menos na cerveja e escutarem a música que bem entendem enquanto conversam num volume aceitável sobre coisas que te interessam.

E aí, de vez em quando, vocês vão olhar uns pros outros e falar "Ei, vamos na *baladinha da moda da semana*". Vão concordar. Vão sair todos juntos, vão se divertir sem poder dançar nem conversar.

E depois vão se encontrar no dia seguinte e falar "Pô, amanhã a gente faz um churrasco, que tal?"

Você se sente menos alienígena - e nem precisou pagar ingresso pra entrar.

29.10.13

Desvios

Falando sobre sexo numa mesa de bar, um dos assuntos que mais pegam fogo é o "desvio" - isto é, gente que, na hora de fazer amor, precisa de um incentivo diferente do que as propagandas de cerveja dizem ser o normal.

Sejam desvios mais comuns (como o homem que prefere fazer amor pelo bumbum) ou incomuns (o que precisa ser pisoteado por uma moça de salto alto vermelho que lhe chame de "meu neném"), todo mundo tem uma história pra contar de alguém com uma tara esquisita.

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Em uma madrugada numa sala de bate-papo, recebi de um homem a oferta de mil reais em troca de deixá-lo lamber meus pés.

Nunca tive a capacidade moral para conseguir aceitar dinheiro em troca de sexo (prefiro moedas de troca menos dignas, como um aumento temporário na auto-estima ou escutar alguém mentir que me ama), mas resolvi dar corda para o rapaz.

O problema é que ele foi aumentando o número de exigências: depois de cinco minutos de conversa, ele disse que não queria apenas uma sessão de lambimento em troca dos mil reais, e sim duas.

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Quinhentão por cada meia hora de lambidas seria nojento, mas eu realmente precisava de grana. Continuei dando corda. Ele seguiu:

"Eu gosto de pé fedido, sabe? Se você não se importar de passar uns dois dias de meia molhada antes da gente se encontrar..."

Comecei a achar que os mil reais não seriam um bom negócio. Ele continuou com as exigências, sério como um presidente de multinacional prestes a concluir uma fusão:

"E aí, depois de eu lamber seus pés, você pode montar nas minhas costas e me tratar feito um cavalinho. Pode me bater, pode me fazer andar de um lado pro outro no quarto, pedir pra eu limpar o chão com a língua, sabe? Coisas assim."

Cortei a conversa por ali mesmo. O que me assustou não foi nem o cavalinho. Foi o "Coisas assim." Que tipo de coisa bizarra entra no conjunto de coisas similares a montar numa pessoa feito cavalo e fazê-la passar a língua nas suas frieiras?

Melhor ficar sem os mil reais.

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Tá certo, nem todo mundo chega nesse extremo. Mesmo assim, basta entrar em qualquer ônibus para ver a quantidade de senhorinhas lendo 50 Tons de Cinza com a periquita em fogo para levar umas porradas. A quantidade de gente que quer coisas fora do comum na cama é imensa. Alguns por curiosidade, alguns - me parece - por trauma.

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Percebo com cada vez mais clareza que o mecanismo por trás dos desvios nas preferências sexuais é uma das coisas mais bonitas da vida.

É como se a vida estivesse fluindo no seu curso normal, até ser interrompida por um trauma qualquer. Aí, essa energia vital - vamos chamar de amor, pra ficar mais bonito - não pode ficar parada. Ela precisa continuar correndo. Como não consegue mais correr do jeito que corria antes, faz como a água de um rio que desvia uma rocha e encontra uma nova direção.

Por isso, por exemplo, um homem que foi forçado a ser exageradamente masculino em alguma área da sua vida pode precisar equilibrar sua energia recebendo prazer ao ser penetrado por sua parceira. É o fluxo do amor achando um caminho para fluir.

Ou ainda, para uma pessoa que não teve a chance de aprender as sutilezas do carinho no decorrer da sua vida, achar um parceiro que lhe dê porrada na cama pode ser justamente sua salvação. Quanto mais insensível é o mundo que cerca alguém, mais agressivo o toque vai precisar ser para que o recado do amor chegue onde precisa.

Por isso me recuso a chamar essas tangentes sexuais que tantos de nós temos de perversão. Não é perversão. É salvação.

Como uma planta que cresce com o caule torto para conseguir alcançar a luz do Sol,  o desvio é a maneira que a vida encontrou para que uma pessoa seja capaz de receber amor, apesar dos traumas que tenha sofrido.

Aliás, muito esperto da natureza fazer isso. Se os traumas são inevitáveis, o amor também é - ainda que precise sofrer desvios no caminho.

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Agora, que eu gostaria muito de saber que tipo de trauma sofreu a pessoa que entrou no blog procurando no Google por "freiras lésbicas taradas de quinze anos chupando um martelo coberto de chantilly", eu gostaria.

O que a mãe dessa pessoa fez, Jesus?

25.10.13

Sexo Casual

Nunca fui uma pessoa de fazer sexo casual.

Sempre fui mais de ter relacionamentos casuais, no sentido de conhecer uma pessoa casualmente e depois passar cinco anos com ela.

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Uma vez, entre um relacionamento longo e outro, resolvi dar uma chance ao acaso e experimentar transar sem compromisso. Não fui a uma boate porque a grana e auto-estima estavam curtas. Entrei em um bate-papo online para caçar.

Como sou tagarela até por escrito, acabei fazendo amizades naquele dia que duram até hoje. Depois de umas duas horas conversando com pessoas e aprendendo sobre seus fetiches, uma pessoa foi particularmente insistente comigo. "Não, não vamos marcar pra amanhã. Eu quero agora", ele disse.

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Em pânico, recorri ao método mais eficaz de tomada de decisões disponível para o ser humano hoje: o Tarô online. Não lembro mais que carta saiu, mas ela dizia alguma coisa como "Meu, aproveita logo essa vida. Deixa de ser cagão. Saia da sua rotina e você vai ter histórias para contar para o resto da vida".

Já que estava amparado cientificamente em minha decisão, mandei o menino vir para o meu apartamento.

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Já eram umas duas horas da manhã. Encontrei-o no portão do prédio (caso eu reconhecesse o garoto de algum retrato falado que eu tivesse visto nas duas vezes que assisti ao Cidade Alerta, eu poderia correr pra dentro).

Era bonito, ele. Subimos o elevador conversando tranquilamente, o que explica o susto que eu tive quando fechei a porta do apartamento e ele ficou pelado instantaneamente.

Ok, o combinado era esse. Vamos transar.

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Uma coisa interessante sobre namorar homens é que você nunca tem certeza de como é o pinto do fulano só por ver a cara. É sempre um suspense a hora de tirar a cueca.

Enfim, vocês já viram um pinto piramidal? Tipo, grosso e meio quadrado na base, afinando até a ponta e terminando em uma cabecinha que parece ter passado por um apontador de lápis?

Pois era mais ou menos assim.

Mas tudo bem, quem sou eu pra falar que o meu pinto é mega-simétrico? Nada de errado naquele pinto até que o guri respirou fundo, olhou fundo nos meus olhos, olhou para o meu corpo, fez carinha de safado e... cuspiu no próprio pinto.

Assim, do nada. Só cuspiu no próprio pinto. E fez cara de safado de novo.

"Eu... eu... eu não curto isso...", respondi. Ele se decepcionou, mas não cuspiu mais em nada.

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Vou poupá-los dos piores detalhes - ah, sim, tem detalhes piores - e vou direto para o pós-coito, que foi realmente o ponto alto da noite.

Estavamos deitados, lado a lado, juntando fôlego, depois de pelo menos umas duas horas juntos. Lembrei de uma coisa importante e resolvi perguntar.

"Você me desculpa eu não ter perguntado antes, mas... qual o teu nome?"

Ele pareceu desapontado. Tentei adivinhar e dar uma aliviada no ambiente com uma piada.

"Não é Cleisson, né?", e ri.

"É Cleiton.", disse ele, muito sério.

Ops.

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A situação foi piorando, mas eu não desisti de levantar o clima. "Teu mamilo é bem firme, né?"

"É."

"Tem que ver se você não tem câncer de mama, né?", e ri novamente, como um idiota.

"É."

"Agora você diz que sua mãe morreu de câncer de mama e eu fico me sentindo péssimo."

"Minha avó morreu de câncer de mama."

"Putz, Cleiton. Desculpa."

"Minha mãe morreu atropelada. Mês passado."

considerei a possibilidade de ele estar sendo sarcástico só pra brincar comigo, mas aí ele começou a chorar.

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Depois disso, foi o resto da noite bocejando para ele se mancar e ir embora.

Não sei porquê, mas nunca mais voltamos a conversar. Ainda assim, o Tarô online estava certo. É uma boa história para contar.

Principalmente quando eu tiver netos.

21.10.13

Vamos falar sobre sexo

De cada 10 comentários que eu recebo de gente que convive comigo, em média seis são falando que eu falo demais sobre sexo.

Faz sentido. Estranho é que eu escreva tão pouco sobre isso.

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Existem dois tipos de pessoas, e elas se distinguem pela maneira que reagem a uma crítica.

As mais autoconfiantes e defensivas tem como reagem a uma crítica pensando "essa pessoa tem algum problema, e por isso me criticou". Os mais reflexivos e de auto-estima mais baixa pensam "eu tenho algum problema, por isso fui criticado".

Eu costumo fazer parte do segundo grupo.

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Vai aqui uma análise breve de porque eu posso estar errado em falar tanto sobre sexo:

Primeiro, pode ser attention-whore-ismo. É tipo alcoolismo, mas o que você precisa ingerir com frequência é o olhar do outro. Se o outro te olha com enfado, você não percebe, embriagado com a atençãozinha que recebeu. A ressaca costuma vir quando você lembra do que fez no dia seguinte, tipo soprar as velas do bolo de aniversário de uma criança de seis anos, em um excesso de ousadia.

Se bem que, pra quem já está nesse nível, não há mais nem essa reflexão, e a manhã seguinte é passada gritando com algum vizinho que reclamou da música alta às seis da manhã.

Em minha defesa, não acho que seja esse o meu caso, porque falar de sexo não chama mais atenção nenhuma, a não ser que você seja um aluno de quinta-série gritando "xoxota!" no meio da aula. No círculo de amigos que eu frequento, eu chamaria mais atenção enchendo a cara e falando "EU LEIO NIETSXGZE!".

Não que meus comentários sobre sexo sejam equivalentes a gritar "XOXOTA!" - costumam ser menos elegantes.

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Segundo, pode ser deslumbre. Bem possível, já que eu fui criado numa religião tensíssima quanto a sexo e posso estar tentando recuperar o tempo perdido para falar de sexo o tempo todo.

"Esse peixe está delicioso!", alguém fala. "HIHIHI CURTE BACALHAU, NÉ!!!", eu respondo.

Pode ser isso, mas já faz um bom tempo que eu não sou religioso - e mesmo quando era, na adolescência, me lembro bem de bater uma punheta ou outra no banheiro da igreja. Não, não deve ser compensação pelo tempo de repressão. Nunca me deixei ser tão reprimido assim.

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Se a resposta não está em mim, vale considerar a possibilidade do problema estar no outro, que reclama. Vamos ver o que pode ser:

1 - Desconforto. Claro, se o outro reclama é porque alguma coisa o incomoda. As pessoas que reclamam de eu ser muito sexual quase sempre são pessoas mais fechadas, e que me procuram em particular pra conversar sobre seus problemas na cama.

Aí, quando eu falo sobre alguma coisa sexual sem exigir privacidade, isso incomoda. Isso quando não é um amigo hétero que não se incomoda em ter um amigo gay, mas não suporta ouvir um comentário sexualizado dele. Sim, pode ser isso.

2 - Maturidade, só que não. O roteiro é o seguinte, e deve ser seguido à risca: você não pensa sobre sexo quando criança, só pensa em sexo quando adolescente, e depois que vira adulto não toca mais no assunto. O argumento é de que quem faz sexo não precisa falar sobre ele. Quem fala, não faz.

O mais curioso é que quem pensa assim não precisa de mais de dois copos de cerveja pra desatar a falar putaria. Provavelmente precisa beber pra conseguir transar, também. A relação entre fazer e falar não existe.

Ou você diz que sua vizinha que passa o dia inteiro trocando receitas não sabe cozinhar? Quem faz sexo com saúde sabe falar, e fala, sobre sexo. Não falar é se render ao que foi ensinado e é manter o sexo na caixinha dos tabus - e a gente já sabe o tipo de merda que isso causa.

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Mas provavelmente a resposta não está cem por cento em nenhum dos lados.

Todos nós estamos sob o mesmo guarda-chuva de pressão na vida. Somos pressionados a ter o melhor emprego, o corpo mais bonito, o sorriso mais branco e a vida sexual mais intensa possível.

Como não podemos disfarçar as crises financeiras nem os quilos a mais na balança, a vida sexual passa a ser a única coisa que podemos esconder. Sempre vamos ter a opção de não falar a respeito, ou de mentir a respeito.

Quando uma pessoa saudável fala sobre sexo, não precisa fingir que tudo é maravilhoso - assim como um bom cozinheiro costuma assumir que já errou uma receita ou outra.

Falar da vida sexual sem se vangloriar e sem se esconder, com direito a tratar dos gozos e falhas de cada dia, é romper com a ideia de que esse lado da vida deve ser perfeito. É lembrar que nós somos humanos, e que mesmo sem o corpo perfeito e o melhor emprego, todos fodemos.

E se não pudermos falar que fodemos, estamos fodidos.

26.9.13

Tem gente olhando

Experiência: procure qualquer fotografia publicada em rede social em que várias pessoas apareçam juntas.

Desça até os comentários e provavelmente você vai encontrar várias pessoas falando sobre como estão feias. A foto pode ser linda, um grupo de amigos sorrindo felizes, mas os comentários de "Apaga, tô horrível!" vão estar lá, pode ter certeza.

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Já não participamos mais direito das coisas, tá todo mundo mexendo no celular o tempo todo. Tudo bem, agora o que vale é o registro e não a experiência, mas conseguimos piorar o que já era terrível: só vale o registro em que eu me acho bonito. Uma foto feia ou um check-in em um lugar fora de moda é mais temido que a morte.

Tratamos as redes sociais como nossas avós tratavam suas panelas: esfregamos até ficar brilhando, pra vizinha não ver defeito. Infelizmente, não sai comida gostosa nenhuma do meu Facebook.

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O pai de uma amiga lhe deu um conselho que eu adotei pra mim mesmo: "Sempre que você vir uma foto sua em um grupo de pessoas, a última pessoa que você deve reparar na foto é você."

Tente fazer isso. É quase impossível.

Pode ser a foto de todos os funcionários da empresa em que você trabalha, quatrocentas pessoas lado a lado, com a Rita Cadillac de peitos de fora (ela trabalha na mesma empresa que você), pode ter um Mustang neon estacionado na frente.

O primeiro instinto é procurar a si mesmo. Conferir se o cabelo ficou legal.

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Eu demorei pra entender o conceito de rede social.

Quando eu tinha dezesseis anos, a moda era ter Fotologs. Era muito difícil fazer um fotolog. A procura era tanta que apenas 500 novos usuários eram permitidos por dia, e você poderia publicar uma foto só por dia (e ela poderia ter no máximo dez comentários). Mais do que isso, só com uma conta VIP.

Eu não entendia porque todo mundo usava o endereço do Fotolog,  sendo que havia tantos outros serviços de hospedagem de fotografia sem todos os limites que o Fotolog impunha. Quis dar uma de pioneiro, mas pouca gente reconheceu minha inovação e minha conta no Photobucket morreu por falta de visitas. Acabei me rendendo e fazendo um Fotolog pra mim também.

Outro problema que eu tinha era não ter uma câmera fotográfica digital, o que me atrapalhava pra cumprir o requisito de uma foto por dia. Resolvi isso comprando uma câmera-chaveiro no Mercado Livre por 35 reais. Uma grana razoável, perto do que eu ganhava na época.

Não adiantou muito: as fotos saíam mais granuladas que um brigadeiro feito por uma pessoa com Mal de Parkinson.

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Pra não ficar refém da minha câmera terrível, comecei a grudar em pessoas que iam para a escola de câmera digital na mão e a tirar foto com elas.

Assim, não só eu teria fotos novas com frequência como também fingiria que tinha amigos. Era o plano perfeito.

Uma das pessoas que caíram no meu plano era uma das meninas mais populares da sala de aula. Pra você ter uma ideia do quanto ela era relevante, ela não tinha só um, tinha DOIS Fotologs.

Tiramos uma foto juntos. Quando ela me enviou (via MSN Messenger, outro defunto), me disse: "Editei a foto e deixei mais azulada, pras suas espinhas não aparecerem tanto."

Ou ela era uma pessoa que seguia a regra de se ver por último na foto, ou minhas espinhas eram realmente um problema.

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O motivo das pessoas aceitarem as inúmeras restrições de um serviço de hospedagem de fotografias era a moda. Não era só um site de fotos, era um embrião de rede social. (Aliás, até hoje a descrição site do Fotolog é "the world's leading photo-blogging and social networking website". Acho que eles estão mal informados.)

As pessoas estavam lá para se mostrarem, para se sentirem vistas. Era um medidor de popularidade. Ter um Fotolog era fundamental para ser relevante no mundo online.

Hoje, ter um Fotolog é tão obsoleto quanto carregar fichas telefônicas no saquinho de moedas.

Nada daquilo, que parecia tão importante, existe mais.

Dá pra entender porque eu não quero fazer um Instagram, agora?

18.9.13

Julgamentos

Não sou petista, mas quando alguém comenta sobre política e usa as palavras "petralha" ou "corruPTos", eu já não consigo ouvir a sua opinião do mesmo jeito.

Fica uma impressão de que a ideologia está à frente do julgamento. Se eu não gosto do partido e parte do partido é corrupta, generalizo que o partido todo é corrupto. E o ideal realmente seria esse: qualquer ato de corrupção de um partido queimando a imagem de todos os seus membros.

Mas, infelizmente, quem pensa dessa maneira costuma usar a generalização só para os casos que convém.

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Para as Testemunhas de Jeová, existe a figura do ancião. O ancião é uma espécie de pastor e guia dos fiéis daquela localidade. Se você comete um pecado, deve (ao menos teoricamente) confessá-lo para essa pessoa. Se você falar que está arrependido, tudo bem. Se o pecado foi muito grave, você pode ser repreendido de alguma maneira.

Se você não se arrependeu, ou foi descoberto sem confessar e não pretende mudar seu comportamento, você é desassociado - isto é, as outras Testemunhas de Jeová não podem se comunicar com você. Sua família, seus amigos e as pessoas que antes você chamava de irmãos deixam até de te cumprimentar, até que você perceba seu "erro" e peça para voltar para a organização.

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O primeiro sinal de que alguém não entende de política é quando ela comenta qualquer coisa sobre política no Facebook seguida pelas palavras "ACORDA BRASIL!".

Fica parecendo alguém que está em um hotel e acabou de acordar assustado, tarde demais, e levanta gritando pra quem mais estiver no quarto: "Acorda, gente, vão tirar o café-da-manhã daqui a pouco!".

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Sei que, lá pelos meus dezesseis anos, um dos anciãos da congregação de Testemunhas de Jeová que meus pais frequentavam foi até o trabalho do meu pai para demonstrar seu amor cristão, dizendo que sabia que eu tinha comportamentos "afeminados" na escola, e que meu pai deveria tomar uma atitude.

Mal sabia ele que eu já tinha contado para os meus pais que sou gay, e que eu já achava aquela história de prestar contas da minha vida sexual uma grande idiotice.

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Meus comportamentos afeminados, dos quais o ancião foi carinhoso o suficiente para alertar meu pai, consistiam em ter amizade com meninas. Apenas isso.

Uma das meninas, inclusive, era a filha dele, uma das pessoas mais deliciosamente promíscuas que eu já conheci.

Algum tempo depois, fiquei sabendo (via fofoca, não tenho certeza de nada) que ele perdeu seu cargo de ancião depois de ser descoberto dando um calote financeiro alto em uma empresa.

Pobrezinho.

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É incrível, mas antes de terminar esse texto, fiquei extremamente ansioso. Com as mãos tremendo, telefonei para a minha mãe e, apesar dos pedidos dela para não falar da sua religião e correr o risco de ser desassociado, resolvi publicá-lo.

Pensando melhor, publicar esse texto é difícil não por medo de que a minha família seja proibida de falar comigo.

É difícil porque eu não conheço o ponto de vista da pessoa dedurou minha sexualidade ao meu pai. Eu não sei se realmente ele deu calote em alguém. É possível que filha dele, infelizmente, não seja tão promíscua quanto eu me lembro da adolescência.

Por mais mágoa que essa pessoa tenha me causado, não tenho interesse de retribuir essa mágoa à ele ou à sua família. Eu estaria fazendo uma generalização grosseira, como quem sai criticando os "petralhas" em comentários de internet.

Mas honestamente? Desejo do fundo do meu coração que a filha dele, promíscua ou não, lhe dê um neto muito, mas muito, mas muuuuito gay.

12.9.13

Economia

Eu sou, entre os meus amigos, um notório pão duro.

Não que eu negue pagar a rodada de cerveja quando chega a minha vez, mas antes de sair todos já sabem que eu vou fazer campanha pra irmos ao bar mais barato.

Não me interessa o som ambiente, os móveis de designer famoso ou "gente bonita". (Parênteses: quando me falam que um lugar é bom porque tem gente bonita, eu já sei que o lugar é ocupado por gente branca - quase sempre se sentindo especialpor estar uma camisa de duzentos reais igual a que todos ao redor estão usando.)

O que me interessa é a promoção de duas cervejas por cinco reais.

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Estudando psicologia, você se aproxima e cria distância da própria saúde mental ao mesmo tempo.

Não dá pra ficar analisando tudo o que se sente o tempo todo, então você se assusta quando percebe que não está legal não pelo próprio sentimento, mas por observar os sintomas que tem apresentado:

"Peraí, já é o terceiro dia em que eu não consigo sair da cama e choro antes de dormir."
"Opa, tô pegando pesado no doce ultimamente."
"Esse comercial do Itaú é tão emocionante, né?"

E, por último, somando todas as alternativas:

"Puta que pariu, será que eu tô triste?"

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Estava fazendo um sanduíche de queijo e presunto pro café da manhã e reparei que o presunto é mais barato, por quilo, do que o queijo. Aliás, o quilo de carne é mais barato que o queijo.

O que me deixa confuso, já que a vaca leiteira é reaproveitável e o boi morto não.

Na minha pirâmide alimentar, a felicidade trazida por uma fatia de queijo é muito mais importante que a proteína trazida por uma fatia de carne.

Como todo bom pão duro, fui aos cálculos: segundo os especialistas gabaritadíssimos do Yahoo Respostas, uma vaca produz em média 30 litros por dia.

Por não poder exagerar no café preto por conta de uma gastrite, só eu bebo sozinho um litro de leite por dia.

Se cada pessoa em Curitiba tomar metade do leite que eu tomo, precisaremos de cinquenta mil vacas dando o melhor de si todos os dias, só pra abastecer a cidade.

Isso sem contar o que vira queijo e iogurte. É um exército de vacas.

Pobres bezerrinhos.

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O pão-durismo é o maior indicativo de pessimismo que uma pessoa pode ter. Por trás da fachada de fazer bons negócios, mora o fantasma de que não há o suficiente para todos. Mora a necessidade de economizar tudo, pra economizar a si mesmo diante do sofrimento que a vida pode trazer.

É uma fantasia quase apocalíptica para quase tudo.

O preço do litro de leite no supermercado vira desculpa para se preocupar com as vacas, com a quantidade de pasto, com os bezerros. O litro de leite caro indica que está tudo errado, e pode levar a uma crise de choro ainda mais potente do que a causada pelo comercial do Itaú.

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Leite de soja definitivamente não é a mesma coisa que leite normal. Acredito que a solução seja produzir um pequeno animal transgênico que consiga dar leite custando pouco.

Você acorda, vai à cozinha, sua gata ronrona pra você. Você faz um carinho no pescoço dela, ela deita, você pega sua xícara e tira duzentos mililitros de leite para o seu café.

E depois cai no choro por estar explorando sua pobre gatinha, que nada tem a ver com seu vício em cafeína.

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Ainda assim, o litro de leite a três reais ainda é mais vantajoso do que duas cervejas por cinco. Primeiro, porque quase não existe mais bar que venda duas cervejas de 600ml por cinco reais. Segundo, porque quando vende, o que você bebe não pode muito bem ser chamado de cerveja.
Terceiro, porque o litro de leite a três reais pode te dar uma vontade de chorar que só se atinge normalmente depois da sexta cerveja.

É uma questão de economia.

10.9.13

Cortador de Grama

Estava indo almoçar hoje quando vi, no pátio de um salão de beleza chique do bairro, uma mulher ajoelhada no chão. Reparei bem: suas roupas estavam rasgadas, a boca travada como se estivesse com raiva, a pele que parecia um pêssego (se o pêssego estivesse apodrecendo).

Nas suas mãos, um canivete. A mulher estava cortando a grama de todo o pátio do salão de beleza com um canivete de dez centímetros.

Não quis imaginar quanto ela estava recebendo pelo seu serviço. Provavelmente uma fração do que se cobra por um corte de cabelo naquele salão.

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A minha geração foi alimentada com facilidades desde o útero. Ver uma pessoa num subemprego é terrível, mas ótimo pra botar em perspectiva o olhar travado pela vida na classe média.

Já reclamei muito sobre como queria poder ganhar a vida escrevendo. Realmente, passar anos e anos burilando um estilo, se dedicando a um ofício, e não poder receber o sustento dele tem sua dose de frustração. Mas a frustração é sempre fruto do mimo: como é que a vida ousa não me dar o que eu queria?

E aí aparece alguém cortando a grama com um canivete por menos do que você pagou pelo almoço.

E volta a questão com que todo mundo se depara em algum momento da vida: ir atrás de um sonho ou se contentar com um lugar mais acessível na cadeia produtiva?

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Meu vizinho sustentou a família por anos vendendo espetinho na rua, mas resolveu correr atrás do próprio sonho e se tornar detetive.

Hoje, ele se divide em uma identidade dupla: durante o dia, trabalha com o seu carrinho de espetinhos, mas à noite entra em seu Palio 96 (coberto de adesivos com uma lupa gigante e as palavras DETETIVE PARTICULAR estampadas em uma fonte tão grande que fariam uma fachada de hipermercado passar vergonha) e vai combater o crime.

Não sei vocês, mas eu pensaria duas vezes antes de entrar em um motel com uma amante se esse carro estivesse me seguindo.

Talvez a estratégia seja essa mesmo. Em vez de fotografar os segredos dos seus investigados, ele simplesmente os constrange até que parem de fazer o que faziam. Melhor um detetive que diga "Seu marido parou de te trair" do que um que diz "Seu marido tá te traindo."

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Por isso é tão fascinante assistir alguém se dando mal. Não é à toa que tanta gente assiste a primeira fase do American Idol. Parte do fascínio de ver alguém indo a um concurso de calouros e mandando mal é o alívio de pensar "Pelo menos não sou eu".

É fugir do próprio ridículo e se livrar da culpa de não ter se exposto quando desejava. Ajuda a fingir que não fracassamos. Por isso acho muito mais honrado quem assume o próprio sonho (e seu próprio fracasso) do que quem nem se arrisca a dizer o que sonhava pra si e faz papel de satisfeito com a vida.

Melhor fazer papel de Sherlock Holmes. Ou de cortador de grama.

28.8.13

X-Paraíso

Recém-saído da faculdade, estou estudando para um concurso público. É muito complicado decidir o que fazer pelo resto da vida, e trabalhar para o governo pode me colocar na confortável posição de receber ordens de terceiros o resto da vida.

Isso e mais um bom salário no final do mês pode ser o paraíso. Ou, pelo menos, um o purgatório bem confortável.

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Minha cidade natal tem poucos atrativos turísticos, e toda foto de divulgação mostra a mesma igreja e praça.

É uma pena que se desperdice a verdadeira vocação patobranquense para o turismo: o X-Polenta.

Trata-se de uma gambiarra culinária composta por duas fatias grossas de polenta frita, muito queijo, calabresa, bacon, hambúrguer, frango, tomate e rúcula. Isso tudo numa porção do tamanho de um prato.


É um paraíso muito mais acessível do que passar num concurso público.

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Morando na capital do estado, os concursos por aqui costumam ser muito concorridos. Muito mais candidatos por vaga do que, por exemplo, um concurso numa cidade do interior.

Surgiu um concurso público para uma cidade bem próxima da minha, onde eu poderia ter um bom salário e um acesso facilitado a quantos X-Polenta eu quisesse consumir.

Não me inscrevi.

Críticas à parte, consigo entender os motivos de tantos médicos recém-formados preferirem ganhar menos dinheiro e trabalhar em cidades saturadas de profissionais do que irem a uma cidade pequena e virarem semideuses para a população local.

Minha cidade natal nem é tão pequena, mas não tem cinema. Não tem um teatro que receba peças com frequência. Raramente tem exposições de arte.

As três opções de lazer preferidas da juventude local são: beber cerveja e ouvir sertanejo no posto de gasolina, fumar maconha em terrenos baldios e comer o X-Polenta.

Muitas vezes, os três na mesma noite.

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Os médicos que não vão para o interior não são o problema - são o sintoma.

Se as cidades pequenas não tem opções de lazer suficientes, os jovens não são estimulados a ficar. Os que tem a chance, saem. Os que não tem, enchem a cara todo dia para fugir da maneira que podem.

A falta de lazer acaba virando um problema de saúde pública.

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Vejo o problema, mas não vejo uma solução fácil.

Só posso sugerir, para tornar as cidades do interior mais convidativas, que seja obrigatória a implantação de uma lanchonete que sirva X-Pòlenta em cada cidade brasileira com menos de 50 mil habitantes.

Claro, isso pode não resolver o problema dos médicos. Provavelmente precisaríamos de muito mais cardiologistas, a longo prazo.

Mas esses a gente traz de Cuba. O X-Polenta é uma commodity desejadíssima por lá.

25.8.13

Fora do meio

Na cidade pequena em que eu morava, os poucos gays que eu conhecia formavam uma panelinha. Como qualquer grupo de adolescentes, eles agiam do mesmo jeito, falavam as mesmas gírias e usavam as mesmas roupas - e o mesmo tipo de tênis que eu não tinha dinheiro suficiente para comprar.

Eles eram ótimos em oferecer uma imagem de felicidade e diversão constante. Eu me roía de inveja, mas sempre dizia aos meus amigos de internet que aquele grupinho era ridículo e que eu queria mesmo era distância deles.

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Pega bem para um militante político dizer "Ainda tenho meus preconceitos, todos tem... Mesmo que inconscientemente". É uma boa maneira de se incluir se excluindo: todos são preconceituosos, mas comigo é só onde a minha consciência não toca.

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Eu carrego a bandeira do movimento gay com o maior orgulho, mas isso não me impede de julgar meus companheiros e de ter meus preconceitos. Entre gays, é comum ver alguém se orgulhando de ser "de fora do meio". É como um carimbo que se bate em quem não frequenta as boates, dizendo que é de uma cepa mais pura de macho.

Eu sempre fiquei entre os dois - com a auto-estima baixa demais pra frequentar uma boate sem querer sair chorando e politizado demais pra se dizer que eu sou de "fora-do-meio".

Por isso, quando um namorado que também fazia o papel de quem não gosta da "cena gay" começou a querer frequentar esses lugares - às vezes comigo à tiracolo, às vezes sozinho - tive um siricotico e precisei enfrentar de verdade alguns dos preconceitos que eu carregava.

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Ter tido uma infância com pouca grana me fez repetir, durante a adolescência, que roupa de marca é coisa de gente insegura. Que beleza não é tudo. Que eu poderia não ter nenhuma dessas coisas, mas que isso não me faria diferença porque eu teria cabeça o suficiente para ter uma vida legal sem isso.

Foi duro quando percebi que existe gente linda e com roupa de marca que também é inteligente. Gente que além de ler bons livros sabe ir a uma boate e dançar sem se preocupar com quem está olhando. E que, enquanto faz as duas coisas, fica ridiculamente atraente numa foto sem camisa.

Comecei a me torturar com a imagem do meu namorado cercado por essas pessoas. Ele, em uma boate, cercado por caras bonitos, rindo de tudo aquilo que eu não acho graça e se divertindo. Uma foto perfeita, com um verniz que eu não sou capaz de oferecer.

Nessas horas a gente percebe que ser humano e cheio de falhas é uma bosta.

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Quando menos percebi, eu estava odiando essas pessoas.

Essas que vão a boates e gostam, essas que conseguem mostrar pro mundo uma beleza que não é a que eu tenho. Pessoas que, se eu tentar medir com a régua que eu costumo usar para me sentir melhor que os outros, vão se revelar melhores que eu - na beleza, no papo, na segurança.

Pode ser porque eu realmente não gosto de boates e de roupas de marca, pode ser porque eu ainda sou a mesma pessoa que queria pertencer a um grupinho desses quando era adolescente e não conseguia.

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Talvez seja só ciúmes do namorado mesmo.

Mas ele pode sair o quanto quiser - não ter roupas de marca e não sair pros lugares da moda me obrigou a me garantir onde realmente conta - e lá não se usa roupa alguma.

3.8.13

Três Alines

A primeira Aline eu conheci em uma entrevista de emprego.

Os candidatos eram entrevistados um a um, em frente a todos os outros. A entrevistadora perguntou qual era o motivo de e procurar esse emprego e eu respondi: "Feijão. Gosto muito de feijão. Sem trabalhar, sem feijão na mesa. Estou aqui pelo feijão".

Ela também deveria amar feijão, porque a estratégia funcionou. Gostar de feijão aparentemente me tornava apto a trabalhar vendendo celulares para pessoas com mais limite no cartão de crédito do que inteligência.

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Quando a Aline foi entrevistada, só disse que já tinha trabalhado na área antes e que estava procurando um novo emprego. Fomos selecionados, os dois.

Só fomos conversar no dia do exame médico. As primeiras palavras dela para mim foram "Tô precisando de um lugar pra morar, você sabe de alguém que tenha um quarto?". Minhas primeiras palavras para ela foram "Eu tenho."

Três dias depois, estávamos morando juntos e continuamos assim até hoje. Falávamos sobre como íamos vender bastante e ganhar bem (ela conseguiu, eu larguei o emprego no segundo mês) e sobre a fé cristã (ela ama, eu critico).

Ela veio para Curitiba atrás por causa de um amor. Três meses depois, o namoro acabou. Ela não desistiu da cidade, mas não teve pudores de se entregar ao sofrimento até esgotá-lo.

A primeira Aline fala da vida com fé e sofre por amor.

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A segunda Aline é minha vizinha.

Nos encontramos pela primeira vez no elevador, os dois com rumo ao supermercado. Interagir no elevador é uma tarefa especialmente difícil em Curitiba, então quando ela continuou falando comigo depois do "Boa noite", eu já tinha percebido que ela não era daqui.

Ela veio para cá tentando fazer a própria vida depois da morte do pai. Desde então, trabalha em shopping center e incrivelmente ainda consegue sorrir com sinceridade.

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Ela passou a vir no meu apartamento com uma certa frequência. Tomávamos chimarrão (talvez pra reafirmar nossa origem interiorana em comum) e conversávamos sobre as dificuldades de morar sozinho e sobre pagar contas.

Mas o que mais falávamos era sobre amores fracassados. A segunda Aline teve um relacionamento sério com um rapaz que parecia ser perfeito pra ela, até que ele mudou completamente e resolveu que o que realmente queria da vida era ter treze anos de idade.

Ela sofreu por pelo menos dois anos, enquanto trabalhava ainda mais duro no shopping center para poder pagar pelo próprio implante de silicone.

Entendo o raciocínio dela. Se é pra ter dor no peito, que seja por vaidade e não por coração partido.

A segunda Aline também fala da vida com fé e sofre por amor.

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A terceira Aline é irmã de uma grande amiga minha, e apesar de eu ter muita simpatia por ela, convivemos muito pouco.

Na primeira vez que a vi, estranhei um pouco a sua figura loira, de quase um metro e oitenta, e sua voz forte. Parecia um caso de pessoa com excesso de presença, aquelas pessoas que de tanta energia que têm intimidam todos ao seu redor.

Na segunda vez que nos encontramos, ela usava um vestido longo, cor-de-rosa, um coque no cabelo e um sorriso enorme. A guerreira da voz firme estava linda fantasiada de princesa, mas a energia sobrando continuava transparecendo.

"Eu adoro Beatles", ela me disse, falando baixo com um grito.

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Alguns meses depois, tomando um café com a irmã dela, um rapaz de mais ou menos um metro e sessenta e cinco (mas exalando dois metros e dez de autoconfiança) veio até nós pra dizer oi.

O encontro foi desconfortável, mas cordial. Minha amiga diz "Ele era namorado da Aline, já faz uns dois anos. Namoraram um tempão até que meu namorado pegou ele na rua com outra, se escondeu e filmou."

Não sei se pelo excesso de simpatia que tenho por ela ou pela minha experiência com as outras Alines, meu coração se condoeu por ela. Tive vontade de bater no garoto e na sua autoconfiança de baixinho.

Da terceira Aline só sei que fala da vida com fé. Por amor, suponho eu, deve sofrer também.

20.7.13

Muchas gracias, pero soy fea

"Você tá escrevendo pra caralho!"
Por mais que o ambiente da boate não fosse dos mais silenciosos, foi difícil não me assustar um pouco com a voz que veio de trás de mim. Um colega meu dos tempos de ensino médio surgiu, me cumprimentando aos abraços e repetindo o elogio para quem quisesse ouvir.

Fiquei meio bobo e sem resposta. É muito difícil receber um elogio quando você não quer fazer pouco de si, um "muito obrigado" não corresponde a alegria que você sentiu e o lugar é impróprio pra fazer sexo oral na pessoa que te elogiou.

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A única coisa mais difícil do que não receber reconhecimento nenhum é justamente receber o reconhecimento que você queria. Mesmo que você passe o dia resmungando que seu trabalho não é reconhecido, a hora em que se é elogiado sempre é constrangedora.

Talvez o embaraço causado por um elogio venha da surpresa que se sente quando alguém tem uma visão positiva daquilo que achamos ruim em nós mesmos.

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Também não concordo com retribuir um elogio com falsa modéstia. Nada é mais desesperado do que alguém que passa quatro horas em frente ao espelho antes de sair de casa e responde um "Que bonito você está!" com um "Imagina, tô nada".

Se você fez um esforço pra conseguir alguma coisa e esse esforço é recompensado com um elogio, o mínimo que você pode fazer - em respeito ao próprio esforço que fez - é aceitar com gratidão o resultado.

Se não, você é equivalente a uma menina que mendiga atenção postando fotos tiradas na frente do espelho, fazendo biquinho, com os peitos de fora e a legenda "Sou feia =/".

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Gratidão é um sentimento realmente difícil de descrever. E de provocar, também, já que é quem recebe algo de bom que provoca gratidão em quem lhe deu essa coisa, e não o contrário.

No chavão de que é melhor dar do que receber, é de gratidão de que se fala. Roubando um exemplo do Luiz Gasparetto (que fez fortuna fazendo palestras de auto-ajuda e programas de rádio para um público composto de velhinhas donas-de-casa e eu), peço ao leitor que se coloque na seguinte situação:

Você tem um filho prestes a completar cinco anos de idade. A grana está curtíssima, mas você se esforça para dar uma festa de aniversário. Com todo o amor do mundo, você vira a madrugada fazendo salgadinhos e enrolando brigadeiros. Com os olhos pesados de sono, você gasta seu fôlego enchendo bexigas e machuca a coluna pendurando a decoração no teto.

Na hora da festa, você prefere que:
a) Seu filho corra até você e diga "Muito obrigado!", mostrando a boa educação que recebeu de você.
b) Seu filho perca completamente a cabeça, corra de um lado para o outro com os amiguinhos, passe mal de tanto comer doce e passe a semana perguntando quando vai ser seu aniversário de novo.

A primeira opção mostra a gratidão expressa, que é até bacana, mas na segunda opção a gratidão é sentida - pela criança que gozou tudo o que pode da festa e pelo pai que se esforçou para fazer a festa acontecer e ficou feliz com o brilho nos olhos do filho.

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Por isso que a melhor maneira de agradecer alguma coisa boa é sempre aproveitar ao máximo aquilo que recebeu - seja um elogio, o apoio de um amigo ou um dia bonito.

Isso, é claro, quando fazer sexo oral na pessoa que lhe presenteou não for uma opção válida.

4.7.13

Doutorzinho

A casa dos meus avós sempre foi mais parecida com um cassino pobre do que com uma casa normal. Talvez por falta de outra opção na cidade pequena, dezenas de velhinhos se revezavam nas visitas para jogar uma rodada de canastra ou truco, temperada com histórias do passado e competições acirradíssimas de quem estava mais doente.

Numa das vezes que apareci de surpresa para uma visita, minha avó se apressou a me exibir para a amiga.
"Esse é o meu neto, tá morando lá pra Curitiba. Vai ser médico. Doutor."

Fiquei sem jeito mas não vi problemas em corrigir o engano da minha vó.
"Médico não, vó. Eu faço psicologia."

A decepção foi pior do que se eu tivesse dito que ia me tornar alcoólatra profissional. Visivelmente envergonhada diante da amiga, ela tentou disfarçar:
"Bom, o importante é estudar, né?"

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A reação de alguns médicos quanto à possibilidade de trazer médicos cubanos para o Brasil é interessante de se observar. Falam que os profissionais cubanos são mal preparados (o equivalente a um enfermeiro brasileiro, dizem). Que não há planos de carreira decentes. Que falta estrutura para o atendimento.

Entretanto, numa questão de emergência como essa, a maior questão é: um atendimento simples é pior do que atendimento nenhum?

Em paralelo com os protestos dos médicos, outras categorias (como enfermeiros, fisioterapeutas, psico e fonoaudiólogos) reclamam do Ato Médico, que faz com que qualquer diagnóstico precise ser feito por um médico, ignorando os conhecimentos das outras categorias da área da saúde.

Já faltam médicos. Ao evitar que outras categorias também possam fazer atendimentos básicos, a questão não é a qualidade de atendimento. É disputa de mercado.

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A visão do médico como um detentor de todos os conhecimentos sobre o corpo humano já é impossível. A quantidade de especialidades médicas já evidencia como o ser humano é extenso demais para que todas suas necessidades sejam compreendidas por uma só pessoa.

Os poucos lugares onde essa visão de médico onipotente persiste são as cidades pequenas, onde faltam médicos e o atendimento básico fica emperrado por não poder ser feito pelas categorias mais humildes da área da saúde.

É o que faz minha avó achar que um neto médico seria o maior orgulho que a família poderia ter. Um marketing muito bem feito pela medicina, que convenceu muita gente de que está acima das outras áreas, vistas como descartáveis e menos importantes. A ideia de trazer médicos cubanos para o Brasil fez a categoria médica ser tratada como sempre tratou as outras categorias da área da saúde. Claro que doeu.

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Além disso, numa cidade pequena, faltam mesmo opções. Numa cidade menor, não se pode ir ao cinema, ao teatro ou a um bar diferente a cada fim de semana.

Provavelmente esse seja o maior problema: o não haver médicos nas regiões distantes do país não diz só a respeito dos médicos, mas da falta de possibilidades. Além de faltar saúde, falta cultura e lazer. Falta diversão.

Quem diria que justo a falta de cultura causaria um transtorno de falta de saúde? A falta de possibilidades de entretenimento deixa qualquer um doente mesmo.

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Tendo morado em uma cidade do interior na maior parte da minha vida, percebi que se aprende a compensar a falta de opções. Não ter tantos lugares para sair te obriga a conhecer os vizinhos, fazer amizades mais profundas e se aproximar do povo que te cerca.

O que é, aparentemente, justo o que a categoria médica não deseja fazer.

3.7.13

Óculos

Depois de dez anos usando lentes de contato, meus olhos não aguentaram mais o tranco e pediram arrego. Desde então, tive que voltar a usar óculos para evitar que minha abundância de miopia me faça ser atropelado por um ônibus.

Procurei muito por um óculos que se adaptasse ao meu rosto e não me incomodasse tanto. Acabei escolhendo a que custava menos. Difícil viver com uma armação estampada no rosto.

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"Se você ficar forçando o olho pra ficar vesgo, vai acabar enxergando assim pra sempre!".
Mal sabia minha família que dizer isso pra mim era basicamente me mandar ficar forçando os olhos o tempo todo. Além disso, passava as noites tentando ler gibi com a luz do quarto apagada. Tudo para ficar cegueta.

Lembro bem do dia em que saí do consultório médico com uma receita de óculos pela primeira vez. Eu saí correndo, pulando e girando do consultório, tamanho era o êxtase da graça alcançada.

Para mim, naquela época, usar óculos era incrível. Um atestado para a maturidade. Finalmente as pessoas depositariam em mim a confiança que eu merecia. Afinal, quem pode contradizer uma criança de oito anos com vidro e metal pendurados na cara?

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Fiquei abismado com como as coisas eram diferentes usando o óculos. As lâmpadas tinham formato próprio, e não a aparência de um fogo de artifício que nunca termina de explodir. Tudo era uma surpresa. Minha vó ficou impressionadíssima quando eu gritei "NOSSA, VÓ, DÁ PRA VER TODAS SUAS RUGAS!". 

Quase me bateu, de tão alegre que ficou.

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Um dos efeitos colaterais de usar óculos é que os olhos, com o tempo, podem não produzir mais lágrimas o suficiente para lubrificar o olho.

Aliás, isso também é um efeito colateral de usar lentes de contato. E de fazer uma cirurgia corretiva de visão. Acontece alguma coisa num olho que enxerga mal e passa a enxergar bem que faz com que ele decida seguir a vida seco. 

Talvez porque passando a ver a vida com mais detalhes, haja menos motivo pra chorar. 
Talvez porque o olho se recuse a produzir lágrima depois de ser chamado de incompetente e coberto por uma lente que muda todo o foco que ele tinha na vida. 

Ainda assim, antes que os olhos sofram de sequeira que de cegueira.

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Hoje eu já estou acostumado a usar óculos novamente, mas odeio tirar fotos com eles. Parecer mais inteligente do que sou e ser visto como adulto era muito mais interessante aos oito anos.

A vaidade não me ajuda muito. Eu saio na foto com os olhos miúdos de tanto apertar, tentando descobrir onde o fotógrafo está. 

E nem adianta procurar ficar bonito. Se a beleza está nos olhos de quem vê, melhor que quem me vir seja míope. Somos mais compatíveis e a relação vai ter menos lágrimas.

14.6.13

Papai mandou lhe dar um tiro

Um paciente comum nas clínicas de psicologia é a pessoa que nunca se dá bem em nenhum emprego por brigar com os chefes. Em qualquer lugar que trabalhe, com o chefe que for, aparece um conflito.

Alguns anos de divã mais tarde, a pessoa percebe que a raiva dos chefes vinha de antes. Alguma coisa na relação com o pai criou um padrão de comportamento que se refletiu em todas as relações de subordinação pelas quais a pessoa passou na vida.

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A repressão policial e a intolerância com manifestações que estamos vendo hoje é apenas um reflexo de como muitos de nós fomos educados.

Quem cresce aprendendo a ficar com a boca calada e ouvindo que deve agir de algum jeito sob o argumento de "porque eu mandei!" vai ter apenas esse modelo para compreender as relações entre detentores de poder e os discordantes da opinião que vem de cima.

Foi com a mentalidade de que pais violentos criam filhos comportados que elegemos os governos que fazem das suas políticas públicas um instrumento para reprimir manifestações do povo.

Um povo que se manifesta e que se recusa a seguir o comportamento esperado diante de uma mudança de situação (como o aumento das passagens) não é muito diferente de uma criança que chora e se recusa a comer uma papinha que está quente demais e queimando sua boca.

Sim, é birra - mas é um mecanismo completamente saudável, e não é com porrada que algo que faz mal para a criança vai passar a fazer bem.

A birra e o grito são as únicas armas da criança abusada.

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A dinâmica de poder que vem de cima aparece em muitos lados diferentes dos protestos quanto ao aumento das passagens de ônibus.

Está nos policiais que tem parentes e amigos que vão ser prejudicados com os abusos de poder representados pelo aumento da passagem. Os policiais também são vítimas do comportamento repressivo do governo, mas são usados para reprimir as outras vítimas.
Porque é o dever deles. Porque a ordem vem de cima.
Papai mandou lhe dar um tiro, não podemos fazer nada.

Está nos jornalistas que entraram na profissão por ideologia e que se obrigam a escrever matérias do ponto de vista dos donos do jornal, apesar de isso conflitar com o aquilo que sempre acreditaram.
Porque é o dever deles. A ordem vem de quem pagou o salário.
Papai mandou avisar que quem protesta é vagabundo, não podemos fazer nada.

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Não importa de onde vem o protesto, somos um povo acostumado a cumprir ordens. A família tradicional, idolatrada pelos grupos de extrema-direita, é aquela em que o pai manda e o resto obedece.

A grande surpresa dos protestos em São Paulo foi a revolta do povo. Não estávamos esperando por isso. Estávamos prontos para repetir o bordão de que "Brasileiro não faz nada". Não estamos habituados a dizer "Não, Papai, você está acima de mim mas eu discordo de você".

Alguma coisa parece estar mudando. Quem sabe nossa nação esteja entrando na adolescência.
Ainda somos desengonçados, sem saber quem somos e experimentando pontos de vista na base da tentativa e do grito, mas estamos aprendendo a questionar aqueles que estão com as rédeas do poder.

É hora da ovelha-negra. Papai vai ter dor de cabeça.

30.5.13

Os Incurtíveis

As redes sociais nos deram o que nossos antepassados apenas sonhavam vir a ter. Não, não é feijão na mesa e escola para os filhos: é a possibilidade de exibir uma vida perfeita para os outros.

Sim, você já leu pelo menos mil e quatrocentos textos sobre como as pessoas projetam na internet aquilo que gostariam de ser. E é impossível negar isso. Metade dos meus amigos no Facebook gostariam de ser um hambúrguer do McDonald's com um filtro ruim do Instagram sobreposto.

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O grande negócio de uma rede social não é o controle que temos sobre como nos mostramos - com a luz certa e a câmera desfocada o suficiente, você fica parecendo que quase não tem barriga na foto do perfil. Também não é a possibilidade de nos mostrar pros outros - você chama muito mais atenção saindo na rua com alguma coisa presa nos dentes do que com quinze publicações no Facebook.

O que nos interessa é o feedback.

Não tem a menor graça você passar horas projetando o queixo para frente, as pálpebras para cima e o nariz para a sombra antes de tirar uma foto se você não receber pelo menos um ou outro curtir e um comentário falando que você tem a aparência dos anjos e só está solteiro porque quer.

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Minha avó precisou ser a única mulher alfabetizada da cidade, na sua época, para chamar atenção suficiente e conseguir um marido alcoólatra. Hoje, bastaria ela fingir ser alcoólatra ela mesma, publicando fotos de minissaia ao lado de uma pilha de latas vazias de Skol, seguidas pela hashtag #ousada.

Mas como eram outros tempos, ela precisou dar aula por quarenta anos para que hoje, quando vai à farmácia medir a pressão, algum cinquentão barbado a interrompa e diga "Dona Alba, lembra de mim? A senhora foi a melhor professora que eu já tive!".

Ela já não faz questão de fingir que reconhece a pessoa, mas tenho certeza que ela acha o elogio delicioso.

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O feedback, que demorava muito para acontecer, agora aparece mais rápido. Uma frase certeira na sua timeline e já aparecem os "Curtir", dizendo que você é uma pessoa válida para esse mundo. Ótimo. Afinal, qual a graça de ser genial se ninguém aparece pra te dizer isso?

Não estou fora do que eu critico. Quase dez anos atrás, quando comecei o blog, achei "Comentários Abertos" um nome muito bom. Até hoje, é muito pouca gente que comenta os textos, mas pelo menos o meu motivo para escrever está explícito. A outra opção de nome era "Sorvete de Ego", que permanece no cabeçalho do blog. Serve pra provar que sou um autoabsorvido crônico.

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Infelizmente, o feedback de rede social é muito efêmero. Provavelmente, quando eu estiver com 84 anos de idade, ninguém vai me interromper na farmácia para dizer que eu fiz uma diferença na sua vida.

Então, vou tirar uma foto de mim mesmo e publicar na rede social que estiver na moda. "Na farmácia, medindo a #pressão. #geraçãosaúde."

E vou curtir meu próprio link.

26.5.13

O Sobrevivente Dependente

Você é um sobrevivente. Pode assumir, você tem orgulho do que fez na vida. Você enfrentou sua família, a sociedade, os seus medos. Vez após vez, você encarou a solidão em busca de um objetivo e conseguiu. Você olha para o passado e sorri. Você é foda.

É fácil arrotar as conquistas do passado como se elas fossem medalhas de uma aquisição impossível de perder. Olhar para a vida, ver quantas vezes você foi corajoso e arredondar para cima como se isso fosse definitivo: "Eu sou corajoso".

Sobreviver dificuldades é o melhor combustível para o otimismo. Você olha para os obstáculos que já superou e percebe que isso pode se repetir.

Você fica com uma perspectiva bonita. "Sobrevivi ao que eu achava que seria impossível, não sobrevivi? Então, não importa o que continuar vindo de pedrada na vida, pode vir, eu aguento."

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Nada é tão bom para destruir uma certeza como um coração partido. As pessoas mais fortes e corajosas que eu já encontrei foram, ao mesmo tempo, as mais carentes.

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Ter passado por situações difíceis te fez perceber a força que tem, mas também desejar não precisar usar essa força o tempo todo. Desejar que alguns momentos da vida não sejam tão complicados, permitir-se ser frágil.

Aí aparece alguém com quem você se sente capaz de demonstrar fragilidade. É uma coisa tão maravilhosa que você mal percebe que despejou uma caçamba de vulnerabilidade na outra pessoa, e que esse peso é difícil de carregar, mesmo com todo o amor do mundo.

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Foi tão difícil se abrir com alguém, que você passa a tolerar quando a pessoa ultrapassa um limite seu. Afinal, é mais fácil se tornar mais elástico com alguém do que perder a única pessoa com quem você é capaz de mostrar seu lado vulnerável.

Você começa aceitando falhas - ótimo -, começa a perdoar defeitos - muito cristão da sua parte, parabéns -, e termina engolindo traição e mentira - e se perguntando se isso compensa.

Concessão após concessão, você percebe que não sobrou mais nada de seu em você. De repente, você está implorando pela presença de alguém que - olha a ironia - se apaixonou por você por você ser independente.

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É quando o amor passa a ficar cheio das matemáticas: "Vou sumir por um tempo para ele sentir minha falta". Você some e a pessoa não sente. Você cede outra vez, procura novamente o seu amor, e reforça a sua dependência da pessoa. "Não sou capaz de ficar sem", você pensa.

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Finalmente você percebe que do jeito que está não está mais funcionando. Você decide botar um fim na história. Você termina o relacionamento, chora três oceanos e consegue se afastar. Percebe que, quem diria, você até que consegue ficar bem sozinho.

É quando o telefone toca e seu coração bate muito mais rápido. É a pessoa. Diz que sente sua falta. Que te quer. Que te ama.

E você cede outra vez.

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Duas semanas depois, você percebe que já está completamente estragado no sentido romântico. Confiar já não é mais por inteiro, porque tudo o que se ouve tem o eco do que você já ouviu de mentira antes.

E você percebe pistas de que seria melhor não ter abortado o plano de se afastar.

Você se questiona. Se analisa. Porque não pode ser tudo culpa só do outro, né? A culpa também deve ser sua. Você investe para ser menos dependente. Você volta a rezar, depois de anos de ceticismo. Você pede forças para tomar a decisão certa.

Mas continua cedendo. De dor em dor, vai apanhando tanto até que cansa.

E não sabe se termina o relacionamento e enfrenta a solidão mais uma vez ou se aguenta mais um pouco na esperança de que a pessoa mude e você receba o troféu de toda a sua paciência.

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Você ainda não sabe como vai resolver essa história, mas olha para trás novamente e pensa "Eu sobrevivi aos desafios de antes". Pede a Deus para que sobreviva a esse também - e para que a próxima pessoa tenha a chance de te conhecer tão disposto a se entregar quanto a última.

E que, da próxima vez, seja mais fácil.

12.5.13

Mamãe no Pedestal


Ouvi um professor comentar, uma vez, que quando a mãe é superprotetora com o filho, ela só encontrou um disfarce inconsciente para a própria rejeição. Depois de nove meses ouvindo falar que o que vai sair da barriga dela vai ser maravilhoso e que ela vai amar cada segundo, acontece que o que sai é só um bebê.

A recém-mãe se vê com aquela coisinha enrugada no colo e se sente culpada por não sentir tudo aquilo que a vizinha disse que sentiu quando o filho dela nasceu. A culpa é tanta que ela decide - inconscientemente, é claro - que a coisinha enrugada vai ser tudo na vida dela.

E isso dá merda.

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Me parece que as propagandas de TV que falam das mães como se fossem seres iluminados, incapazes de errar, um poço de candura e mais nada, estão fazendo a mesma coisa.

Tá certo que um comercial falando "Mãe, eu casei com uma histérica por sua causa" não vai vender tantas máquinas de lavar quanto um que fale "Mãe, a mulher que peida cheiroso por amor aos filhos". Mas isso vai além do que passa nas propagandas.

Por que nós precisamos tanto endeusar nossas mães? Sim, o amor maternal é lindo. Sim, ela te levaria sacolas cheias de comida se você fosse preso.

Mas talvez, só talvez, essa história de colocar as mães no pedestal tenha um fundinho de rejeição. E por mais que sua mãe possa ficar muito feliz com os elogios infindáveis que ganha uma vez por ano, pode ser que ela sinta falta de uma coisa mais sincera.

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Eu lembro da maior demonstração de amor que eu dei para minha mãe quando era criança.

Meu irmão e eu, pré-adolescentes, corríamos gritando pela casa. Ela, exausta depois de um dia de dar aula de história em um colégio, perdeu a paciência.

Tirou a pantufa do pé, mandou ficar de costas e bateu na gente com toda a força que pôde.

Só que toda a força que ela tinha, no final do dia, era muito pouquinha. A pantufa era macia, e tanto eu quanto meu irmão já éramos bem maiores que ela.

A surra não doía absolutamente nada, mas aí vem a demonstração de amor. Eu e meu irmão trocamos um olhar e, juntos, começamos a chorar aos berros.

Minha mãe, satisfeita, falou "Doeu mais em mim do que em vocês! Agora vão dormir!".

Eu e meu irmão concordamos com ela, em silêncio. Ainda assim, aquietamos nosso facho. Porque, tadinha, ela merecia uma noite de sono.

Isso é amor.

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Tratar a relação de pais e filhos como se fosse só amor e nenhum problema cria uma distância desnecessária. O amor de verdade existe quando você reconhece que nem tudo é perfeito.

Quando uma mãe olha para o filho recém-nascido e pensa "Credo, essa coisa esquisita é meu filho?", mas toca o barco mesmo assim, ela descobre um amor muito mais bonito do que o que aparece no comercial de fraldas.

Da mesma maneira, quando você entende que sua relação com sua mãe pode ter mágoas e raivas escondidas, mas ainda assim lembra de telefonar para ela todos os dias, você encontra um amor muito maior do que o que está na propaganda do Boticário.

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Um amor que se demonstra todos os dias, mesmo com dificuldade, é melhor do que um endeusamento que se dá de vez em quando por obrigação.

Mas como não somos filhos de chocadeira, dá pra trapacear no dia das mães e falar que ela é a pessoa mais perfeita do mundo.

Porque - mesmo não sendo - ela é.

28.4.13

Geografia

Uma estatística que eu ouvi de alguém que provavelmente tinha acabado de inventá-la foi de que 90% dos casamentos são entre pessoas que moram a menos de 400 metros de distância. Sete bilhões de pessoas no mundo, e a maior parte das pessoas decide que a filha do dono do açougue do bairro é a mulher de sua vida.

Imagino que um número parecido se aplique às bandas de rock: quase sempre os Behind The Music começam contando sobre os garotos que estudavam na mesma escola e resolveram fazer barulho juntos, em busca de cocaína e prostitutas.

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Alguns anos atrás, uma série da Globo, Toma Lá Dá Cá, tinha um personagem que repetia que era de Pato Branco, minha cidade natal. Os efeitos foram os seguintes:

1 - Não preciso mais explicar para desconhecidos que Pato Branco é uma cidade. Preciso explicar, entretanto, que a cidade existe de verdade.

2 - Me surpreendi com a quantidade de gente que confunde televisão com vida real. Os diálogos são mais ou menos assim:

"Você é de onde?", a pessoa pergunta.
"Pato Branco."
"Tipo a Bozena?"
"Sim", eu brinco, "ela é minha prima!"
"JURA MESMO?"

3 - A autoestima da cidade aumentou violentamente. Fomos de uma cidade conhecida por exportar Rogério Ceni, Alexandre Pato e a bandeira mais feia do Brasil para uma cidade citada na televisão.



"Voa, pássaro-moeda! Ou eu te dou um peteleco!"



Nada mudou na cidade. A Alessandra Maestrini, que fez o papel, recebeu uma homenagem da prefeitura. Tudo continuou exatamente igual. Ainda assim, os 15 minutos de fama que experimentamos coletivamente foram muito bem recebidos. Reconhecimento é tudo.

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É muita coincidência os Beatles todos terem nascido tão próximos. Será que a banda seria melhor se eles tivessem procurado um baterista decente na internet em vez de deixar o vizinho tocar só por ter um nome bacana? Pode ser que a vizinhança seja proposital, feito de uma consciência cósmica que faça os talentosos nascerem próximos uns dos outros pra cumprir uma missão.

Nesse caso, vou comprar uma guitarra e voltar pra Pato Branco. A filha do açougueiro e eu seremos os novos Lennon e McCartney.

23.4.13

Comprometimentos


a vida da gente 
é sempre um transtorno
é seguir em frente
e fazer o contorno
é fundir-se torrente
e cair-se em um torno
passar frio e o calor 
pra encontrar-se no morno

e se esquenta, e se esfria 
e se fica contente
porque a vida da gente
é um bolo no forno:
metade partida, metade retorno

Me assusta um pouco ver como meus amigos de infância já estão quase todos casados. Vários já tem filho e alguns já estão no segundo da prole. Tudo bem que eu posso não estar tão maduro quanto eles e que nem todos passam pelas fases da vida ao mesmo tempo. 

Ver meu vizinho que comia minhoca (enquanto eu comia areia) já no terceiro filho, se dividindo para comprar fraldas e pagar a parcela do carro, enquanto pego o ônibus rumo a um apartamento vazio, me faz pensar.

Admiro quem tem esse tipo de comprometimento. Sim, depois de se decidir exatamente o que se quer, em geral a gente encontra recursos pra fazer o desejo acontecer. Dá-se um jeito. A decisão é que é difícil.

Nem sempre o comprometimento vem a partir de uma escolha consciente. O primeiro filho pode vir por acidente. O segundo filho também, vá lá, mas o terceiro antes dos 25 já é efeito colateral da minhoca.

Você dá mais um passo e acaba financiando um carro em 60 parcelas, porque são três filhos pra carregar de um lado pro outro. Compromissos a longo prazo que me assustam porque, honestamente, me parecem loucura de se carregar tão cedo na vida.

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Não que eu não me comprometa. Aliás, estou numa fase de terminar muitos comprometimentos que eu fiz: final de faculdade, sair de emprego depois de fazer o possível pra ficar por lá, terminar um namoro no qual eu era dependente demais.

O problema do comprometimento é que ele te amarra numa situação e impede outras possibilidades. 
O problema de não estar comprometido com nenhum projeto é que as possibilidades te soterram. 
O problema das possibilidades é que elas só vão pro real quando você se compromete. 

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Não julgo os meus amigos que estão casando e tendo filhos, numa idade em que eu não me comprometo nem com um cachorro por medo de precisar abandonar o bicho depois. 

Também não me julgo por não saber muito bem o que é que eu vou fazer da vida. Tem horas que é melhor não saber mesmo, e caminhar às cegas pode resultar num acaso feliz. 

Talvez eu demore a me comprometer porque me comprometo demais quando decido. 

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De qualquer modo, acho que estou evoluindo nesse sentido. Não sei nem se vou morar na mesma cidade daqui a três meses, mas negociei o cartão de vale transporte da minha amiga (que não gastava as passagens por ir trabalhar de carona).

São quinhentas passagens, que eu vou comprar a preço menor do que os 2,85 que se cobra em Curitiba. É, no momento, o maior comprometimento da minha vida. Minha maior dívida. 

Não chega a ser, assim, um filho. Mas já é alguma coisa.

E enquanto meus amigos financiam seus carros, eu financio minha liberdade. 
De ônibus, sim. Nada que me comprometa.

13.4.13

No vestiário


Toda polêmica de hoje em dia costuma seguir a mesma sequência de acontecimentos: um grupo, próximo do comportamento dominante, recrimina algum comportamento de um grupo menos influente. A minoria se defende e o outro grupo diz se faz de vítima, dizendo que tem a razão e que a minoria tem mais é que ter vergonha na cara.

Foi assim com o discurso homofóbico e racista do Feliciano, foi assim com quem defendeu a Nicole Bahls do machismo do Gerald Thomas, é assim a cada vez que um grupo de funcionários faz greve. Enxágue e repita a operação.


Uma das atmosferas mais interessantes que tenho frequentado é o vestiário da academia onde faço natação. Nenhum lugar é mais propício para se observar o comportamento humano do que aquele em que todos ficam pelados, molhados e secando os dedos do pé ao mesmo tempo.

Um dia desses, enquanto saía do banho, escutei o rapaz que ocupava o chuveiro ao lado cantar a plenos pulmões. Achei corajoso. Costumo achar bonito quando alguém tem os colhões para fazer o que eu não faço por ter medo de alguém achar feio.

Ele não cantou nenhuma música reconhecível. Ficou no larará clássico de chuveiro, improvisando, como se estivesse em sua própria casa, como se não tivesse medo do vizinho escutar.

Quando terminou o banho e abriu a porta da casinha que ocupava, pareceu tomar um susto com a minha presença lá. Parou de cantar e não disse nada.


Menos de uma semana depois, a cena se repetiu. Enquanto eu me vestia para tomar a rua, escutei uma voz de criança cantando. Poucos sons são tão genuinamente alegres quanto esse.

O rapaz que cantou no outro dia também estava por lá. Foi até a criança e falou “Dá pra parar de cantar, por favor?”.

Depois de receber um ou outro olhar reprovador dos outros homens do vestiário, tentou consertar escorregando para uma brincadeira. Soltou uma gargalhada. “Brincadeira, pode cantar sim. Criança é o máximo, né? Nem aí pra quem tá ouvindo. Mas tem de fazer umas aulinhas, hein?”

O menino que cantava, com uns seis ou sete ano de idade, ficou constrangido e se calou.


Num outro dia, escutei a conversa desse mesmo cara com um homem, também no vestiário.

Sabe porque eu gosto de estudar Direito? Porque me garante poder. Ninguém mais fode comigo, porque eu sei como eu posso foder com a vida de quem me incomoda.”

Eu sorri, preferindo ficar em silêncio perante a onipotência do rapaz.  

Porque eu tenho conhecimento”, ele continuou, “e quem tem conhecimento se dá melhor do que esse povo aí, que não sabe nada. É fácil passar por cima dessa gente

O amigo dele também estava em silêncio – talvez também estivesse constrangido com o que ouvia. O discurso continuou:

Eu luto pelo meu conhecimento, sabe? Na faculdade, se eu tiro um oito eu já fico indignado. Oito pra mim é pior do que zero. É medíocre. Eu não admito tirar nada menos do que dez.”

Já pensou em procurar um psicólogo?”, me ocorreu dizer. Não disse.


Eu ia falar sobre como a própria reprovação por ter se deixado cantar no chuveiro pode ter feito o meu colega de academia reprovar tanto o canto da criança. Eu poderia falar sobre como as pessoas inseguras com o que são censuram quem não demonstra a mesma insegurança, como o Feliciano e os reacionários de plantão costumam fazer.

Só que isso seria irônico demais, sendo que eu me incomodei e reprovei o comportamento do rapaz do vestiário de se achar melhor do que os outros. Afinal, pode muito bem ser eu mesmo o invejoso. Pode ser que eu simplesmente deseje ser como uma dessas pessoas que, se fossem a Lua, chamariam o Sol de coadjuvante.

Pode ser, também, só medo de levar um processo. Afinal, ele fez questão dizer “Eu posso foder com a vida de quem me incomoda”. Melhor eu ficar quieto.

Espero que a criança cantarolante, que é mais forte que eu, mantenha a resistência.

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...