31.12.12

Superstições

Minha família nunca teve dessas superstições de fim de ano. A única tradição que tínhamos no dia 31 de dezembro era reclamar do Show da Virada da Globo e contorcer o pescoço na sacada para ver os fogos da praça da cidade.

Não que eu não tivesse as minhas superstições:  "Vou aproveitar que tô comendo uva e mandar umas sete pra dentro", eu brincava. Gargalhava. E contava bem certinho sete, que era pra dar sorte.

"Peguei por acaso no guarda-roupa", eu falava, enquanto vestia a única roupa branca que eu tinha.

Coisa de supersticioso que não se assume.

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Esse ano, pela primeira vez, resolvi bancar que gosto desses rituais bestas. Gosto mesmo, e assumi minhas bichices de fim de ano.

Preparei todo um visual: camisa amarelo ovo, que é pra assumir que eu quero dinheiro, camiseta branca, por baixo, para garantir a paz, e uma calça jeans, porque eu não tenho nada de colorido para a parte de baixo do corpo.

Ficou faltando algo vermelho. Nada no meu guarda-roupa combinava com o que eu tinha para vestir e tinha a cor que simboliza a paixão.

Ensaiei outras opções. Tentei amarrar uma fita vermelha no pulso, nada deu certo. Desisti. Quer saber? Vestido parecendo uma tenda de circo, de tantas cores, que eu não ia atrair paixões mesmo. Que viesse um 2012 desapaixonado.

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Aí eu botei a mão no bolso e a capinha do celular, não sei de que jeito, fez um corte no meu dedo indicador. O corte foi surpreendentemente fundo e sangrou mais do que eu imaginava que um dedo poderia sangrar. Tá aí a peça vermelha do meu visual.

Não adianta planejar: a paixão é inevitável.

28.12.12

Como cometer suicídio

Nos meus tempos de adolescente obrigado a ir para a igreja, eu não sabia o que era pior: assistir os discursos prolixos que vinham do púlpito ou esperar a boa vontade dos meus pais de irem embora depois do culto.

Eu ficava em pé, olhando as pessoas se cumprimentando e torcendo para ir pra casa logo. Não era fácil fazer amigos da minha idade naquele ambiente em que, se eu comentasse com alguém que eu batia punheta de vez em quando, eu seria 'denunciado' e uma reunião seria feita - com todo o amor cristão, é claro - para debater meus hábitos sexuais com a Bíblia na mão.

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Foi mais ou menos nessa época que uma família nova se mudou para a nossa congregação. Um homem mais velho, oriental, afetuoso apesar da aparência rígida, sua esposa, uma mulher cuja permanente poderia ser vista da Lua, e três filhas.

Foram se tornando amigos da minha família. Com a proximidade, veio a descoberta que o pai da família era afetuoso sim, mas só com quem não era da família. Para cada filha, ele tinha um assobio diferente - e ai da filha que não respondesse quando era chamada feito cachorro.

A filha mais velha era de um outro casamento da mãe, que, ao ver o marido cair doente, precisou dar um jeito de sustentar a filha recém-nascida. O jeito? Largar o marido no hospital e casar com o primeiro homem com dinheiro que lhe desse atenção.

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Não poder falar o nome dessa filha mais velha, que se tornou minha amiga, me incomoda. Mesmo assim, prefiro preservar a família, porque essa é só a versão que eu fiquei sabendo da história. Pode ter sido tudo completamente diferente. Isso é só o que eu imagino a partir do que eu vi de longe.

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Acabou que essa menina, que era tratada ainda pior que as outras por não ser filha de sangue do novo marido de sua mãe, virou uma amigona minha. Passávamos os momentos antes-e-depois das reuniões religiosas conversando besteiras de adolescente: nada profundo, mas eu não estava mais sozinho.

Depois de alguns anos na minha cidade, mudaram-se todos para o Japão. Minha amiga foi contra a vontade, seguindo a maré da família. Arranjou um emprego de doze horas por dia em uma fábrica. Lá, meio perdida, encontrou um rapaz e - para poder se libertar da família - casou-se com ele.

O resto da família fez algum dinheiro e voltou para o Brasil. Minha amiga ficou por lá.

Poucos meses depois, seu marido encontrou seu corpo pendurado pelo pescoço no lustre da sala.

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Fiquei sabendo dessa história casualmente, pela minha avó, que contou do suicídio da minha amiga no meio de uma roda de chimarrão, como se fosse uma curiosidade qualquer.

Se hoje eu parar pra contar, devo ter perdido uns quatro ou cinco amigos de adolescência para o suicídio. Alguns eram mesma religião que eu era, alguns não. Todos eram muito sensíveis e generosos. Talvez eu tenha sobrevivido por ser covarde, talvez por ser menos generoso (no sentido de me importar menos com agradar os outros).

Todos tinham uma sensação enorme de falta de sentido. Uma falta de sentido tão grande que gera culpa de estar vivendo sem saber porquê, culpa tamanha que gera essa pena de morte auto-imposta.

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Culpa que eu também sinto, um pouco. Por ter deixado minha amiga perder o contato comigo. Por não ter estado perto para ouvi-la reclamar da família, do Japão, do trabalho e do marido. Por não poder estar do outro lado do mundo para abraçá-la quando ela precisou.

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É difícil botar um fim num texto que conta uma história que acaba de um jeito tão difícil. Não é fácil botar fim nas coisas que ficam em aberto.

Então o texto fica em aberto caso alguém encontre o texto procurando pela frase do título no Google: se você estiver pensando em terminar a sua própria vida, procure algum tipo de ajuda. Procure um amigo, um parente, e desabafe. Se não tiver ninguém com quem desabafar, procure um estranho. Ajuda pode vir dos lugares mais surpreendentes se você estiver disposto a procurá-la.

Se não encontrar ninguém, procure um profissional, um centro de valorização da vida, qualquer lugar. Ou me mande um e-mail.

Mas saiba que alguém se preocupa com você - mesmo que seja no outro lado do mundo.

25.12.12

Cachorro-quente

Para alguns, Natal é uma coisa importantíssima. Devem ser muitos, imagino, já que o natal é uma onda geral de maluquice que acontece todos os anos e dura três meses.

Já para mim, o natal nunca fez tanta falta. Não fui em uma ceia de natal em toda a minha vida: nasci em uma família de Testemunhas de Jeová e, depois de crescido, não quis invadir a ceia de família alguma só para ver qual era a do peru.

Também nunca me fez falta acreditar em Papai Noel. Acho até meio bobo você criar a ilusão de que o tiozão barbudo existe só pra fazer uma criança chorar desdizendo isso depois.

Mais produtivo a criança crescer sabendo que o seu brinquedo novo veio do esforço do papai e da mamãe em trabalhar para ganhar dinheiro e em acotovelar estranhos em uma loja lotada na véspera.

Ainda assim, por algum motivo, eu tenho muito mais facilidade em aceitar quem adora o natal do que quem é fixado em outras tradições religiosas.

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Quando eu tinha 13 anos, fui comer cachorro-quente numa barraquinha perto de casa no dia de Natal. A barraquinha, quase deserta, só estava aberta porque o atendente não tinha família e não queria ficar sozinho no dia. Eu e meu irmão, na falta de qualquer comida especial em casa, fomos lhe fazer companhia.

Na mesa de plástico que ficava na calçada, uma família estava sentada. O pai, a mãe e dois filhos, cada um com meio cachorro-quente para comer.

Aquele momento, para mim, era só um cachorro-quente em um dia qualquer.

Para aquela família, era a refeição mais importante do ano. Era a prova do amor dos pais, que provavelmente abriram mão de alguma coisa para poder dar metade de um cachorro-quente para os filhos na noite de natal.

Voltei para casa chorando e abracei meus pais.

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Escutei vários funcionários do shopping em que estou trabalhando dizendo que o natal desse ano foi fraco, e que as pessoas não estão mais fazendo tantas compras quanto antes. Que muita gente decidiu viajar e preferiu não gastar em presente.

Fico feliz.

Um feriado baseado em propaganda na televisão e condições especiais de parcelamento no cartão de crédito não pode ir muito longe mesmo. Acho mais bonita a mitologia de que essa é uma época de renascimento. Nascer de novo, todos os anos e, seis dias depois, ver outro ano nascer.

Mesmo que esteja tudo na mais profunda bosta, brota na bosta um cogumelo de esperança. O cogumelo pode até ser venenoso, mas brota. Com sorte, dá um baratinho.

E na alucinação da data, fica a esperança de viver momentos melhores e poder dividir o que temos de especial com as pessoas importantes para nós.

Mesmo que o que tenhamos de especial seja só um cachorro-quente.

17.12.12

Na redoma

Até agora, minha vida foi mais ou menos um trajeto fácil. Um momento ou outro de dificuldade maior, um draminha ocasional que me faça encher a boca pra dizer "enfrentei tal situação", cheio de orgulho. Ainda assim, quase tudo se resolveu facilmente. Sou branco, homem, de classe média e com uma saúde de ferro.

A situação em que boa parte da população mundial gostaria de estar.

Dei mais sorte ainda: consegui uma bolsa de estudos numa faculdade boa, meu pai pôde me ajudar a me manter numa cidade distante sem sacrifícios enormes, pude fazer um estágio na área social que, se não pagava bem, cobria meus supérfluos e me deixava arrotar algum grau de independência.

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Minha mãe é uma figura. Quando levei o primeiro chifre da minha vida - se você nunca foi traído, pegue sua senha e vá para o final da fila: um dia você vai ser. Idosos e gestantes tem direito a atendimento preferencial - telefonei para ela que, sem titubear, passou oito horas no ônibus seguinte, só com a roupa do corpo, para consolar o filho que sempre lhe tratou a pancadas.

Enquanto ela passava uns dias aqui, precisei levá-la comigo para a faculdade. Enquanto conhecia meus amigos, largou a seguinte: "O Flavinho foi educado primeiro em inglês... fala super bem, você precisa ver."

Pura balela. Aprendi inglês cedo sim, mas nada de diferente de qualquer criança cuja mãe dessa aulas no CCAA. Ela só estava tentando maquiar a história pra tentar me fazer parecer mais especial enquanto eu estava na fossa.

Morri de vergonha, mas agradeço o chifre pela oportunidade de ver como minha mãe é bacana.

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Agora estou trabalhando em shopping center, vendendo celulares. Eu, que uso um celular de meia década atrás. Eu, que comprei um HiPhone. Eu, que odeio shopping centers.

Adorei os estágios que fiz no decorrer da faculdade. Adorei trabalhar com pessoas privadas de liberdade, adorei trabalhar com drogadição, adorei defender aquelas pessoas que ninguém defende.

Mas agora, sou vendedor em shopping center. Mais ou menos o quê, um terço da população brasileira faz isso pra sobreviver?

Pois eu, euzinho, estou apanhando. Não conseguindo levantar pela manhã sem antes enfiar a cabeça no travesseiro e largar um gemido tão profundo quanto a vontade de ganhar meu salário no fim do mês.

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Ouvi de várias pessoas "Nossa, mas vendedor de shopping? Tu é bom demais pra perder tempo fazendo isso".

Mas o aluguel corre e não dá pra ficar de braços cruzados esperando que caia do céu uma oportunidade a altura do neném em que mamãe passou talquinho, dá?

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A questão é: eu não me sentia necessariamente desconectado da realidade. Não me achava fora de contato com aquilo que as pessoas fazem.

As pessoas que não passaram na entrevista que eu passei por não falarem inglês, ou por não terem tido a mesma chance de ter um bom estudo, ou por chegarem atrasadas na entrevista porque o ônibus atrasou, provavelmente fariam um trabalho muito melhor que eu - que estou mais uma vez vendo uma dificuldade enorme em uma coisinha pequena.

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Não que o meu trabalho seja desleixado. Longe disso, dou o meu melhor para garantir o feijão na mesa. Mas precisar sair da redoma de proteção financeira que eu tive até agora está sendo desafiador.

Faz falta poder ter disposição no final do dia para ler um livro, ou escrever um texto. Ainda assim, de um jeito estranho, a dor insuportável nas pernas no final do dia é gratificante.

No final, alguma coisa a gente sempre tira das experiências que tem. Mesmo que seja um chifre. Mesmo que seja um desempenho ruim num emprego que você precisa pra pagar as contas. Mas olha só, mundo real: eu te respeito.

10.12.12

A Fraude e a Foca



Eu sou um péssimo nadador, mas persistente o suficiente para acreditar que, eventualmente, vou ser enquadrado como ruim ou, com sorte, medíocre. Uma vez tentei fazer uma travessia a nado no mar. Não dei conta de terminar o feito: nadei quatrocentos metros rumo à linha de chegada antes de entrar em pânico. Achei que não seria capaz de completar a prova e nadei os mesmos quatrocentos metros para voltar para o lugar de onde saí.

A prova era de setecentos e cinquenta metros. Seria menos trabalho terminar a prova do que perder tempo entrando em pânico e voltando.

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Seja por persistência ou chatice, voltei ao mar para tentar nadar uma segunda vez. Pleno inverno. O céu de Santa Catarina estava nublado e a água, geladíssima.

Não era, definitivamente, as condição ideal pra nadar. Enquanto criava coragem com os pés na areia, olhei para o lado e vi algo que parecia ser um cachorro.

“Que gozado, um cachorro nadando no mar!", pensei. “Se um cachorro consegue nadar nesse frio, eu também consigo”. Encorajado pelo cachorro-herói, segui em frente.

Braçada após braçada, fiquei lado a lado com meu colega-cão. Comecei a prestar mais atenção nele. “Que bigode esquisito ele tem”, pensei. “Que cachorro mais gordo”, pensei. “Que nadadeiras estranhas!”, pensei.

Foi quando caí em mim: aquilo não era um cachorro. Era uma foca.

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Ou pelo menos essa é a história que eu conto para todo mundo.

Pois então, todo mundo: saibam que eu não nadei com foca nenhuma. A história verdadeira é que, algumas horas antes de entrar no mar para nadar, estava caminhando pela orla com uns amigos e vi o bicho preto-petróleo brincando na água.

Sim, eu pensei que era um cachorro. Sim, eu levei um susto quando vi que a água estava gelada a ponto de ter uma foca nela. Não, eu não nadei com uma foca. Infelizmente.

Eu sou uma fraude.

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Acho que a parte mais triste da história não é tanto o fato de eu ter distorcido a verdade, mas sim a razão pela qual eu o fiz. Por mais que, dessa vez, eu não tenha tido um momento de pânico enquanto nadava, como da primeira vez que tentei nadar no mar, isso me pareceu pouco. Eu não me contentaria se eu chegasse de viagem e, ao encontrar com o porteiro do prédio, a seguinte conversa acontecesse:
- E aí, como foi na praia?
- Genial! Acredita que eu nem entrei em pânico?

Ele ficaria sem entender nada:
- Uhn, que... bom, né?
- Ótimo! - eu diria.
- Quantos quilômetros você nadou?

Minha vez de ficar constrangido:
- Quilômetros? Eu nadei setecentos... metros.

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Inexpressivo demais, não? Eu posso ser um péssimo nadador, mas jamais admitiria ser pouco expressivo. O que explica o surgimento da história da foca. E esse é meu mea culpa. Sou um corrupto. Me corrompi e inventei uma fantasia em alto mar, eu e uma foca, para salvar minha história de ser desinteressante.

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Para concluir: quando cheguei de viagem, fui procurar imagens na internet para ver se o bicho com quem não nadei era realmente uma foca. Descobri que, na verdade, aquilo se tratava de um leão marinho.

Ainda assim, contei a história com uma foca como protagonista. É minha culpa que um leão-marinho não soa bem? É um bichinho adorável, mas inexpressivo demais para fazer juz ao seu título de leão. Precisei reescalar o papel para a história ficar melhorzinha.

Não adianta, eu sou irrecuperável. Me botem na cadeia antes que seja tarde.

Suicídio e graça

Morro de inveja de quem sabe contar uma boa piada. Eu sou pior do que uma pessoa que não é engraçada: eu sou uma pessoa que tenta ser engr...