31.12.12

Superstições

Minha família nunca teve dessas superstições de fim de ano. A única tradição que tínhamos no dia 31 de dezembro era reclamar do Show da Virada da Globo e contorcer o pescoço na sacada para ver os fogos da praça da cidade.

Não que eu não tivesse as minhas superstições:  "Vou aproveitar que tô comendo uva e mandar umas sete pra dentro", eu brincava. Gargalhava. E contava bem certinho sete, que era pra dar sorte.

"Peguei por acaso no guarda-roupa", eu falava, enquanto vestia a única roupa branca que eu tinha.

Coisa de supersticioso que não se assume.

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Esse ano, pela primeira vez, resolvi bancar que gosto desses rituais bestas. Gosto mesmo, e assumi minhas bichices de fim de ano.

Preparei todo um visual: camisa amarelo ovo, que é pra assumir que eu quero dinheiro, camiseta branca, por baixo, para garantir a paz, e uma calça jeans, porque eu não tenho nada de colorido para a parte de baixo do corpo.

Ficou faltando algo vermelho. Nada no meu guarda-roupa combinava com o que eu tinha para vestir e tinha a cor que simboliza a paixão.

Ensaiei outras opções. Tentei amarrar uma fita vermelha no pulso, nada deu certo. Desisti. Quer saber? Vestido parecendo uma tenda de circo, de tantas cores, que eu não ia atrair paixões mesmo. Que viesse um 2012 desapaixonado.

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Aí eu botei a mão no bolso e a capinha do celular, não sei de que jeito, fez um corte no meu dedo indicador. O corte foi surpreendentemente fundo e sangrou mais do que eu imaginava que um dedo poderia sangrar. Tá aí a peça vermelha do meu visual.

Não adianta planejar: a paixão é inevitável.

28.12.12

Como cometer suicídio

Nos meus tempos de adolescente obrigado a ir para a igreja, eu não sabia o que era pior: assistir os discursos prolixos que vinham do púlpito ou esperar a boa vontade dos meus pais de irem embora depois do culto.

Eu ficava em pé, olhando as pessoas se cumprimentando e torcendo para ir pra casa logo. Não era fácil fazer amigos da minha idade naquele ambiente em que, se eu comentasse com alguém que eu batia punheta de vez em quando, eu seria 'denunciado' e uma reunião seria feita - com todo o amor cristão, é claro - para debater meus hábitos sexuais com a Bíblia na mão.

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Foi mais ou menos nessa época que uma família nova se mudou para a nossa congregação. Um homem mais velho, oriental, afetuoso apesar da aparência rígida, sua esposa, uma mulher cuja permanente poderia ser vista da Lua, e três filhas.

Foram se tornando amigos da minha família. Com a proximidade, veio a descoberta que o pai da família era afetuoso sim, mas só com quem não era da família. Para cada filha, ele tinha um assobio diferente - e ai da filha que não respondesse quando era chamada feito cachorro.

A filha mais velha era de um outro casamento da mãe, que, ao ver o marido cair doente, precisou dar um jeito de sustentar a filha recém-nascida. O jeito? Largar o marido no hospital e casar com o primeiro homem com dinheiro que lhe desse atenção.

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Não poder falar o nome dessa filha mais velha, que se tornou minha amiga, me incomoda. Mesmo assim, prefiro preservar a família, porque essa é só a versão que eu fiquei sabendo da história. Pode ter sido tudo completamente diferente. Isso é só o que eu imagino a partir do que eu vi de longe.

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Acabou que essa menina, que era tratada ainda pior que as outras por não ser filha de sangue do novo marido de sua mãe, virou uma amigona minha. Passávamos os momentos antes-e-depois das reuniões religiosas conversando besteiras de adolescente: nada profundo, mas eu não estava mais sozinho.

Depois de alguns anos na minha cidade, mudaram-se todos para o Japão. Minha amiga foi contra a vontade, seguindo a maré da família. Arranjou um emprego de doze horas por dia em uma fábrica. Lá, meio perdida, encontrou um rapaz e - para poder se libertar da família - casou-se com ele.

O resto da família fez algum dinheiro e voltou para o Brasil. Minha amiga ficou por lá.

Poucos meses depois, seu marido encontrou seu corpo pendurado pelo pescoço no lustre da sala.

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Fiquei sabendo dessa história casualmente, pela minha avó, que contou do suicídio da minha amiga no meio de uma roda de chimarrão, como se fosse uma curiosidade qualquer.

Se hoje eu parar pra contar, devo ter perdido uns quatro ou cinco amigos de adolescência para o suicídio. Alguns eram mesma religião que eu era, alguns não. Todos eram muito sensíveis e generosos. Talvez eu tenha sobrevivido por ser covarde, talvez por ser menos generoso (no sentido de me importar menos com agradar os outros).

Todos tinham uma sensação enorme de falta de sentido. Uma falta de sentido tão grande que gera culpa de estar vivendo sem saber porquê, culpa tamanha que gera essa pena de morte auto-imposta.

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Culpa que eu também sinto, um pouco. Por ter deixado minha amiga perder o contato comigo. Por não ter estado perto para ouvi-la reclamar da família, do Japão, do trabalho e do marido. Por não poder estar do outro lado do mundo para abraçá-la quando ela precisou.

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É difícil botar um fim num texto que conta uma história que acaba de um jeito tão difícil. Não é fácil botar fim nas coisas que ficam em aberto.

Então o texto fica em aberto caso alguém encontre o texto procurando pela frase do título no Google: se você estiver pensando em terminar a sua própria vida, procure algum tipo de ajuda. Procure um amigo, um parente, e desabafe. Se não tiver ninguém com quem desabafar, procure um estranho. Ajuda pode vir dos lugares mais surpreendentes se você estiver disposto a procurá-la.

Se não encontrar ninguém, procure um profissional, um centro de valorização da vida, qualquer lugar. Ou me mande um e-mail.

Mas saiba que alguém se preocupa com você - mesmo que seja no outro lado do mundo.

25.12.12

Cachorro-quente

Para alguns, Natal é uma coisa importantíssima. Devem ser muitos, imagino, já que o natal é uma onda geral de maluquice que acontece todos os anos e dura três meses.

Já para mim, o natal nunca fez tanta falta. Não fui em uma ceia de natal em toda a minha vida: nasci em uma família de Testemunhas de Jeová e, depois de crescido, não quis invadir a ceia de família alguma só para ver qual era a do peru.

Também nunca me fez falta acreditar em Papai Noel. Acho até meio bobo você criar a ilusão de que o tiozão barbudo existe só pra fazer uma criança chorar desdizendo isso depois.

Mais produtivo a criança crescer sabendo que o seu brinquedo novo veio do esforço do papai e da mamãe em trabalhar para ganhar dinheiro e em acotovelar estranhos em uma loja lotada na véspera.

Ainda assim, por algum motivo, eu tenho muito mais facilidade em aceitar quem adora o natal do que quem é fixado em outras tradições religiosas.

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Quando eu tinha 13 anos, fui comer cachorro-quente numa barraquinha perto de casa no dia de Natal. A barraquinha, quase deserta, só estava aberta porque o atendente não tinha família e não queria ficar sozinho no dia. Eu e meu irmão, na falta de qualquer comida especial em casa, fomos lhe fazer companhia.

Na mesa de plástico que ficava na calçada, uma família estava sentada. O pai, a mãe e dois filhos, cada um com meio cachorro-quente para comer.

Aquele momento, para mim, era só um cachorro-quente em um dia qualquer.

Para aquela família, era a refeição mais importante do ano. Era a prova do amor dos pais, que provavelmente abriram mão de alguma coisa para poder dar metade de um cachorro-quente para os filhos na noite de natal.

Voltei para casa chorando e abracei meus pais.

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Escutei vários funcionários do shopping em que estou trabalhando dizendo que o natal desse ano foi fraco, e que as pessoas não estão mais fazendo tantas compras quanto antes. Que muita gente decidiu viajar e preferiu não gastar em presente.

Fico feliz.

Um feriado baseado em propaganda na televisão e condições especiais de parcelamento no cartão de crédito não pode ir muito longe mesmo. Acho mais bonita a mitologia de que essa é uma época de renascimento. Nascer de novo, todos os anos e, seis dias depois, ver outro ano nascer.

Mesmo que esteja tudo na mais profunda bosta, brota na bosta um cogumelo de esperança. O cogumelo pode até ser venenoso, mas brota. Com sorte, dá um baratinho.

E na alucinação da data, fica a esperança de viver momentos melhores e poder dividir o que temos de especial com as pessoas importantes para nós.

Mesmo que o que tenhamos de especial seja só um cachorro-quente.

17.12.12

Na redoma

Até agora, minha vida foi mais ou menos um trajeto fácil. Um momento ou outro de dificuldade maior, um draminha ocasional que me faça encher a boca pra dizer "enfrentei tal situação", cheio de orgulho. Ainda assim, quase tudo se resolveu facilmente. Sou branco, homem, de classe média e com uma saúde de ferro.

A situação em que boa parte da população mundial gostaria de estar.

Dei mais sorte ainda: consegui uma bolsa de estudos numa faculdade boa, meu pai pôde me ajudar a me manter numa cidade distante sem sacrifícios enormes, pude fazer um estágio na área social que, se não pagava bem, cobria meus supérfluos e me deixava arrotar algum grau de independência.

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Minha mãe é uma figura. Quando levei o primeiro chifre da minha vida - se você nunca foi traído, pegue sua senha e vá para o final da fila: um dia você vai ser. Idosos e gestantes tem direito a atendimento preferencial - telefonei para ela que, sem titubear, passou oito horas no ônibus seguinte, só com a roupa do corpo, para consolar o filho que sempre lhe tratou a pancadas.

Enquanto ela passava uns dias aqui, precisei levá-la comigo para a faculdade. Enquanto conhecia meus amigos, largou a seguinte: "O Flavinho foi educado primeiro em inglês... fala super bem, você precisa ver."

Pura balela. Aprendi inglês cedo sim, mas nada de diferente de qualquer criança cuja mãe dessa aulas no CCAA. Ela só estava tentando maquiar a história pra tentar me fazer parecer mais especial enquanto eu estava na fossa.

Morri de vergonha, mas agradeço o chifre pela oportunidade de ver como minha mãe é bacana.

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Agora estou trabalhando em shopping center, vendendo celulares. Eu, que uso um celular de meia década atrás. Eu, que comprei um HiPhone. Eu, que odeio shopping centers.

Adorei os estágios que fiz no decorrer da faculdade. Adorei trabalhar com pessoas privadas de liberdade, adorei trabalhar com drogadição, adorei defender aquelas pessoas que ninguém defende.

Mas agora, sou vendedor em shopping center. Mais ou menos o quê, um terço da população brasileira faz isso pra sobreviver?

Pois eu, euzinho, estou apanhando. Não conseguindo levantar pela manhã sem antes enfiar a cabeça no travesseiro e largar um gemido tão profundo quanto a vontade de ganhar meu salário no fim do mês.

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Ouvi de várias pessoas "Nossa, mas vendedor de shopping? Tu é bom demais pra perder tempo fazendo isso".

Mas o aluguel corre e não dá pra ficar de braços cruzados esperando que caia do céu uma oportunidade a altura do neném em que mamãe passou talquinho, dá?

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A questão é: eu não me sentia necessariamente desconectado da realidade. Não me achava fora de contato com aquilo que as pessoas fazem.

As pessoas que não passaram na entrevista que eu passei por não falarem inglês, ou por não terem tido a mesma chance de ter um bom estudo, ou por chegarem atrasadas na entrevista porque o ônibus atrasou, provavelmente fariam um trabalho muito melhor que eu - que estou mais uma vez vendo uma dificuldade enorme em uma coisinha pequena.

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Não que o meu trabalho seja desleixado. Longe disso, dou o meu melhor para garantir o feijão na mesa. Mas precisar sair da redoma de proteção financeira que eu tive até agora está sendo desafiador.

Faz falta poder ter disposição no final do dia para ler um livro, ou escrever um texto. Ainda assim, de um jeito estranho, a dor insuportável nas pernas no final do dia é gratificante.

No final, alguma coisa a gente sempre tira das experiências que tem. Mesmo que seja um chifre. Mesmo que seja um desempenho ruim num emprego que você precisa pra pagar as contas. Mas olha só, mundo real: eu te respeito.

10.12.12

A Fraude e a Foca



Eu sou um péssimo nadador, mas persistente o suficiente para acreditar que, eventualmente, vou ser enquadrado como ruim ou, com sorte, medíocre. Uma vez tentei fazer uma travessia a nado no mar. Não dei conta de terminar o feito: nadei quatrocentos metros rumo à linha de chegada antes de entrar em pânico. Achei que não seria capaz de completar a prova e nadei os mesmos quatrocentos metros para voltar para o lugar de onde saí.

A prova era de setecentos e cinquenta metros. Seria menos trabalho terminar a prova do que perder tempo entrando em pânico e voltando.

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Seja por persistência ou chatice, voltei ao mar para tentar nadar uma segunda vez. Pleno inverno. O céu de Santa Catarina estava nublado e a água, geladíssima.

Não era, definitivamente, as condição ideal pra nadar. Enquanto criava coragem com os pés na areia, olhei para o lado e vi algo que parecia ser um cachorro.

“Que gozado, um cachorro nadando no mar!", pensei. “Se um cachorro consegue nadar nesse frio, eu também consigo”. Encorajado pelo cachorro-herói, segui em frente.

Braçada após braçada, fiquei lado a lado com meu colega-cão. Comecei a prestar mais atenção nele. “Que bigode esquisito ele tem”, pensei. “Que cachorro mais gordo”, pensei. “Que nadadeiras estranhas!”, pensei.

Foi quando caí em mim: aquilo não era um cachorro. Era uma foca.

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Ou pelo menos essa é a história que eu conto para todo mundo.

Pois então, todo mundo: saibam que eu não nadei com foca nenhuma. A história verdadeira é que, algumas horas antes de entrar no mar para nadar, estava caminhando pela orla com uns amigos e vi o bicho preto-petróleo brincando na água.

Sim, eu pensei que era um cachorro. Sim, eu levei um susto quando vi que a água estava gelada a ponto de ter uma foca nela. Não, eu não nadei com uma foca. Infelizmente.

Eu sou uma fraude.

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Acho que a parte mais triste da história não é tanto o fato de eu ter distorcido a verdade, mas sim a razão pela qual eu o fiz. Por mais que, dessa vez, eu não tenha tido um momento de pânico enquanto nadava, como da primeira vez que tentei nadar no mar, isso me pareceu pouco. Eu não me contentaria se eu chegasse de viagem e, ao encontrar com o porteiro do prédio, a seguinte conversa acontecesse:
- E aí, como foi na praia?
- Genial! Acredita que eu nem entrei em pânico?

Ele ficaria sem entender nada:
- Uhn, que... bom, né?
- Ótimo! - eu diria.
- Quantos quilômetros você nadou?

Minha vez de ficar constrangido:
- Quilômetros? Eu nadei setecentos... metros.

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Inexpressivo demais, não? Eu posso ser um péssimo nadador, mas jamais admitiria ser pouco expressivo. O que explica o surgimento da história da foca. E esse é meu mea culpa. Sou um corrupto. Me corrompi e inventei uma fantasia em alto mar, eu e uma foca, para salvar minha história de ser desinteressante.

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Para concluir: quando cheguei de viagem, fui procurar imagens na internet para ver se o bicho com quem não nadei era realmente uma foca. Descobri que, na verdade, aquilo se tratava de um leão marinho.

Ainda assim, contei a história com uma foca como protagonista. É minha culpa que um leão-marinho não soa bem? É um bichinho adorável, mas inexpressivo demais para fazer juz ao seu título de leão. Precisei reescalar o papel para a história ficar melhorzinha.

Não adianta, eu sou irrecuperável. Me botem na cadeia antes que seja tarde.

28.11.12

Menos progresso, por favor

Depois de uma série de mudanças de endereço, há mais ou menos quatro anos me estabeleci em um lugar só, aqui em Curitiba. Um bairro bacana, tranquilo, perto o suficiente do centro para ir caminhando e longe o suficiente para um amigo estacionar o carro na rua sem se preocupar muito.

Claro que o maior motivo de vir morar aqui foi o aluguel, que na época era uma pechincha. Apesar de ser um dos cartões-postais da cidade, o Jardim Botânico - a duas quadras da minha casa - demorou a ser descoberto pela especulação imobiliária.

Meu aluguel mais do que dobrou desde que me mudei para cá, mas a paixão pelo bairro pacato foi mais forte do que o buraco no bolso.

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Li no jornal, hoje, que vão construir um shopping center imenso quase na esquina de onde eu moro. Fiquei triste. Vai ser prático? Vai. Vai ter um hipermercado imenso em vez de um supermercado humilde em que eu pergunto pra operadora do caixa se o filho dela melhorou de saúde? Também.

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Não entendo porque as pessoas enxergam shopping centers com tanta boa vontade. São caixas imensas de concreto e vidro, em que você não sabe se é dia ou noite - a não ser que seja funcionário, aí você sabe que é noite (e também que você não tira dois dias seguidos de folga do seu emprego de salário mínimo há quase um ano).

Eu gosto de morar num bairro que muita gente nem conhece o nome. Eu gosto de precisar caminhar cinco quadras para comer cachorro-quente numa barraquinha que está quase falindo por falta de movimento.

Enquanto isso, o novo shopping vai ser construído a toque de caixa: a obra toda deve ser concluída em menos de cinco meses. Vai gerar muito emprego, que é bacana. Vai ser mais um megatemplo do consumo, que é menos bacana. Pelo menos não é uma megatemplo da Universal, que é muito bacana e pelo menos coloca as coisas em perspectiva.

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No processo de construção do shopping, também vão demolir uma farmácia, que tem uma atendente com distúrbio bipolar adorável.

Num dia ela me interrompeu a compra pra dizer: "Você tem certeza que vai levar essa caixa de bombons da Arcor? Eles são uma bosta."

No outro, ela me falou que é muito rica e faz medicina.
No outro, ela me abraçou no ônibus e perguntou se eu não tinha me arrependido de comprar aquelas bostas de bombons.
No outro, encontrei ela na rua, chorando e com o rosto completamente rabiscado com batom vermelho.

Uma figura. Não vai sobreviver num shopping center.

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Já consigo imaginar a inauguração. Adolescentes gritando, mães segurando bebês de colo que choram e tentando acalmá-los dizendo "Vou meter a mão na sua cara", filas imensas em lojas de fast food, o cenário todo estéril, modernoso e padronizado. Tudo para a fazer o povo consumir se sentindo como se estivesse nos Estêites.

Tudo muito sem graça. Posso fazer um protesto? Menos progresso, por favor. Menos McDonalds, mais amor.

25.11.12

A palavra errada

Escolher as palavras corretas para transmitir exatamente o que você está sentindo é provavelmente a parte mais difícil do ofício de escritor. Uma palavra errada, uma margem que se deixe a uma interpretação dúbia já é capaz de derrubar um texto erguido com muito carinho.

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Não que o texto da Black Friday, de sexta passada, tenha sido escrito com tanto carinho assim, mas fiz uma piada que acabou se tornando o foco de quase todos os comentários do texto. Brincando, traduzi o "black" da sexta-feira como "afro". Uma piada sem muita graça insinuando uma tradução ruim, que já na hora de escrever o texto me incomodou a ponto de querer tirar. Resolvi manter a piada.

Por conta de um link na página do Facebook do Tecnoblog, esse foi o texto mais lido e comentado que eu já escrevi. Recebi muitos elogios, muitos chamamentos de burro e alguns de racista.

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Na terapia, uma vez, comentei que uma atitude que tive com uma pessoa me dava remorso.

A terapeuta tratou a questão com tanta seriedade que só então me caiu a ficha que remorso, para mim, é só sinônimo de arrependimento, e que ela pode ter interpretado a palavra "remorso" como se eu ficasse na cama, suando frio, sofrendo e tendo flashbacks do que fiz, de tanta angústia.

Não era o caso.

Besteira minha ignorar que o significado das palavras depende tanto de quem as transmite quanto de quem as recebe. Cada leitura e cada experiência relacionada a cada palavra lhe dão um significado único para cada sujeito.

O dicionário só serve para que a nossa pátria não vire uma Torre de Babel. Ajuda a fazer os significados de cada um girarem ao redor do mesmo eixo.

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Por isso não é minha intenção justificar o uso da palavra "afro" e fazer constar que não sou racista. Isso não serve para nada. A questão que ficou comigo foi "será que só a minha intenção por trás da palavra deu conta de chegar ao destinatário?".

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Quase todo o humor que temos disponível na TV (ou nas redes sociais, onde todo mundo é um comediante) esbarra nessas questões. Humoristas às pencas reclamam que antigamente se fazia piada de negro, de gay e de loira e que isso nunca foi visto como preconceito.

É um problema de perspectiva: acredito mesmo que as intenções de uma piada com um grupo minoritário possam não ser preconceituosas. Acredito também que, às vezes, uma punchline bem sacada possa se sobrepor à moral.

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Mas é o outro lado do espectro que deve ser focado. De quantas piadas de viado eu já ri, só pra mostrar para quem contava a piada que eu não tinha problema nenhum com isso? Que eu era um viado legal, que não via problema na piada deles?

E que, por fazer isso, abaixava a cabeça em submissão e dizia amém a cada uma das piadas que emitiam a mensagem de que era a Pessoa Padrão de Deus®, homem, branco, heterossexual e cristão, que detinha o poder, e que o gay tem mais é que ser objeto de riso mesmo?

Questionando a piada, eu questionaria o poder.

E aí eu não seria mais julgado por ser homossexual: seria julgado por ser um homossexual que não sabe rir de uma simples piada. Na piada residia o poder.

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E é por isso que as minorias enchem o saco. Qualquer uma delas.

Elas questionam aquilo que nos faz rir, e o riso é o que temos de mais puro. É a resposta emocional mais direta e mais rápida, a mais sem filtro que podemos ter.

E é por isso que o riso nos denuncia. Quando tiramos o filtro que colocamos em nós mesmos para não parecermos preconceituosos, o que aparece?

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Acho muito interessante o nome dado ao dia em que se celebra a cultura afro no Brasil. "Dia da Consciência Negra".

Porque fala dos negros tendo consciência do valor que têm ao mesmo tempo que fala da puta consciência negra (no sentido de turva, pra ficar bem claro) que nós, brancos, temos.

E que precisamos passar a limpo, pra ficar negra no sentido bom - de cor e de cultura.

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Aí o papagaio do judeu disse "Comi o cu do preto viado!", e a loira não entendeu nada.

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Eu posso controlar as palavras que escrevo só através da minha própria experiência, e a minha experiência não é capaz de entender todos os lados de todas as situações. Por isso fiz questão de explicar a piada - e mesmo explicando, de pedir desculpas a quem eu possa ter ofendido.

Que é pra não ficar com remorso.

23.11.12

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo.

Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições.

Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas.

A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa.

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Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso. 

A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá.

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Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoas com duas, três televisões LCD lotando o carrinho de compras corriam de um lado para o outro, desesperadas com a possibilidade de não conseguir comprar a quarta.

"Os preços das televisões devem estar ótimos", pensei, "vou tentar roubar uma no estacionamento".

Era a Black Friday (sexta-feira afro, em bom português).*

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Ano passado, não ouvi um pio na mídia brasileira sobre a tal da Black Friday. Esse ano, de uma hora pra outra, todo mundo só fala nisso.

Ano que vem, já vai ter gente esperando pelo dia de fazer compras. As tradições tem surgido cada vez mais rápido - pelo menos quando ajudam a vender quinquilharias pra classe média.

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Depois de jogar duas pessoas no chão e empurrar uma criança para conseguir enxergar os preços, me decepcionei: estava tudo tão caro quanto no dia anterior. 

Tá certo que o conceito de caro para um estagiário de psicologia que conta o salário em múltiplos de cinquenta centavos não vale para todo mundo, mas nada justificava aquele furdunço todo - quer dizer, algo justificava: propaganda na televisão e um nome abestalhado em inglês.

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Quem vê, pensa que dinheiro é mato. Como eu saí de lá sem televisão nenhuma, talvez eu não seja realmente a pessoa mais influenciável do mundo. Pena que fiquei sem sopa.


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*Eu sei que não é afro, gente. Não sabia se ressaltava a ironia, se assumia que era uma piada ruim ou tirava essa parte do texto. Resolvi fazer uma nota de rodapé, que é a coisa mais fina que se pode fazer em um blog.

16.11.12

Alfajores

Fui visitar meus pais e, ao chegar em casa, dei de cara com dezenas de pacotes de alfajores, azeites, frisantes e frescuras em geral compradas a preço de banana na Argentina.

A quantidade de doces disponíveis me deixou feliz, mas a situação em si me deixou estranhamente... triste. É esquisito poder comprar coisas muito baratas sabendo que o único motivo de você poder fazê-lo é porque algumas pessoas estão sem dinheiro para comprar nada.

A tristeza passou com o terceiro alfajor.

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Um teste para saber o quanto você se deixa afetar pela pressão social: Você está na rua, debaixo de uma precipitação forte demais para ser garoa e fraca demais para ser chuva.

Você foi esperto e carregou um guarda-chuva consigo quando saiu de casa pela manhã. Decide se proteger e abre o guarda-chuva. Segue caminhando orgulhoso de si mesmo.

Entretanto, várias pessoas pelas quais você passa no caminho estão com um guarda-chuva na mão, só que todos fechados. Todos que passam por você olham para o seu guarda-chuva aberto, olham para a sua cara, olham para o guarda-chuva de novo, olham para baixo e seguem em frente.

Você fecha o guarda-chuva ou não?

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O que eu percebo em algumas pessoas da minha idade pra menos é que não se tem muita perspectiva do que é aperto financeiro de verdade. Quando eu nasci, o Plano Collor tomou conta da poupança que meus pais fizeram por anos para poderem ter o segundo filho. Minha mãe ficou putíssima, porque pensou que dessa vez ia ter grana para usar fralda descartável.

O que é uma depressão pós-parto perto de uma depressão pós-fralda, né?

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Alguns anos mais tarde, já com a situação bem mais tranquila, eu lembro de algumas reuniões de família em meu pai falava que precisávamos diminuir as despesas. Não adiantava. Estávamos todos apegados demais ao supérfluo para fazer concessões de verdade.

"Então ficamos assim: cortamos todos os HBO da DirecTV, e pay-per-view só no final de semana. É assim, tem que apertar o cinto!".

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Uma vez atravessei a rua para não precisar passar por um ponto de ônibus cheio de gente. O outro lado da rua era completamente deserto. Se alguém se desse o trabalho de olhar para a frente, poderia me ver sem obstáculo nenhum - mas pelo menos eu não cruzaria com ninguém.

Exceto que... cruzei. Com um quero-quero. Que dava rasantes na minha cabeça e gritava (grasnava? grunhia? o que um quero-quero faz?) desesperadamente, enquanto eu corria batendo com as mãos na minha cabeça.

O "Gasp!" feito por todas as pessoas do ponto de ônibus foi audível a quilômetros.

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Uma colega de trabalho me contou que algum tempo atrás foi visitar uma família pobre para cadastrá-los em um programa social. Chegando lá, deu de cara com uma geladeira velha, mas brilhosa; um fogão antigo, mas sem um pingo de gordura. A casa toda era simples, mas nada faltava.

Até que ela viu, no quintal da casa, uma buraco cheio de cinzas e com alguns gravetos empilhados.

"A senhora vai fazer churrasco?", perguntou minha colega.

"Não, não, é aí que eu cozinho."

Os móveis eram todos inúteis, que a dona da casa encontrava na rua, limpava até ficarem em estado de novo e trazia para dentro de casa. Talvez para que a falta e a pobreza não ficassem tão explícitos. Talvez por vergonha de não ter aquilo que tanto se diz ser necessário para ser feliz.

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Aí você escuta alguém reclamando do Bolsa Família e quer matar.

Mas tudo bem. É só comer um alfajor que a vontade passa.

1.11.12

O Pastorzinho Camarada

"Eu vou fornicar esse bandido, esse safado. (...) Essa baixaria do movimento gay é coisa de bandido e de mau caráter… Eu vou arrombar com esses…" - Silas Malafaia, na Revista Época, em resposta a um militante gay que criticou suas declarações em rádio e TV.

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Se eu tivesse uma câmera decente, um canal no youtube e força de vontade suficiente para levantar dessa cadeira, escovar os dentes e tirar o feijão que está agarrado no meu dente desde o almoço, eu faria questão de filmar uma esquete interpretando um personagem fictício, completamente original e cujas quaisquer semelhanças com a realidade fossem mera coincidência.

Esse personagem teria, provavelmente, um dos seguintes nomes: Silas Vai Lacraia, Silas Cláudia Raia, Silas Usassaia, Silas Levavaia, Silas Cinta-Caralha. 

Ele seria um pastor evangélico, porque Silas é um nome bíblico. 

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Cena 1: 
O pastor Silas (insira o seu sobrenome de preferência aqui) está no púlpito, fazendo sua pregação:
- Vocês conseguem imaginar, irmãos? Que coisa nojenta! Dois homens na cama! 

O público fica boquiaberto com a forte imagem descrita pelo pastor. Ele segue:

- Vocês sabem como Deus vê isso? Dois homens peludos, robustos, suados? Só de cuequinha, empilhados em cima um do outro? 

As pessoas se abanam com a Bíblia. "Só mesmo o pastor Silas para nos defender disso!", pensa uma senhora, preocupada com o estranho corrimento que lhe molhava a calcinha naquele momento. "Acho que tô com infecção urinária", jusfitica. O pastor continua:

- Que nojo! Dois homens fazendo abominação, colocando o pênis um do outro na boca? Isso não é de Jesus! O que vocês acham que Jesus pensaria de dois homens nus, um pesando nas costas dos outros, acariciando a bunda do outro, dando beijinhos do pescoço até a virilha um do outro?

A plateia já começa a estranhar a minúcia do discurso do pastor.

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Cena 2:

O pastor Silas chama seu ajudante, o pastor Cezão. 

- Olhem o Cezão, gente. Já pensaram que coisa horrível se dois homens como eu e o Cezão resolvessemos subverter as leis de Deus e nos deitarmos juntos? Vocês conseguem imaginar eu e o Cezão na cama?

Nenhuma cabeça da plateia fica imóvel, todas chacoalham de um lado para o outro, apavoradas com a possibilidade. Para chocar, o pastor senta-se no colo do Cezão e fala, imitando o estereótipo:

- Ui, gente! Olhem só! Eu sou um homossexual, quero ser fêmea do Cezão! 

Ele volta a fazer voz grossa:

- VEJAM QUE ABOMINAÇÃO, IRMÃOS. Pensem no Cezão me abraçando por trás, que nojo! Vem cá Cezão, me abraça por trás, mostra pra eles. Pode apertar. Aperta bem meu corpo contra o seu. Isso, Cezão! OLHA QUE COISA MAIS ABSURDA! UMA CRIANÇA NÃO PODE VER ISSO! 

O pastor Cezão fica sem jeito. Silas fala, firme:

- Não solta, Cezão!

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Cena 3: 

O nosso pastor prega contra a Igreja Católica, dizendo o quão inapropriadas são as imagens de Jesus nas igrejas 

- Ficam todos diante daquele homem nu! Todos falando de Deus, mas diante do corpo nu de um homem! Um homem nu, preso a uma cruz, numa posição indefesa, sem saída daquilo, sem poder se defender, à mercê de qualquer coisa que fizerem com ele. Uh, que loucura!


O pastor tenta disfarçar a onda de prazer que passou pelo seu corpo lhe dando calafrios. Ele remexe o corpo forte demais e algo estranho cai de sua calça.

É um vibrador. Enorme, roxo, com veias maiores do que a da testa do pastor Silas, que entra em pânico:

- IRMÃOS, NÃO SEJAIS ILUDIDOS! ISSO É COMO OS FÓSSEIS DE DINOSSAUROS! NÃO FUI EU QUE BOTEI ISSO NO MEU BUMBUM, FOI SATANÁS! PRA TESTAR NOSSA FÉ. 

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Não sei até que ponto isso seria prejudicial para o (fictício) pastor Silas. 

Afinal, o que importa é ser polêmico. Assim, mais gente frequentaria sua igreja. Com sorte, ele seria convidado para um debate polêmico no Superpop.

Quanto mais fama, mais crentes - e mais dinheiro.


Esse post foi escrito com a colaboração do historiador, colecionador de GI Joes e portador do sobrenome mais foda da história Gabriel Palitos.

29.10.12

Abstinência


Foi o Freud o primeiro a prenunciar: Você vem fodido do berço. Não importa o que você diga que faz, acaba sempre reproduzindo o modelo que teve nos seus primeiros anos de vida. Se os seus chefes são sempre filhos da puta, se suas vizinhas do andar de cima sempre andam de salto pela madrugada, alguma coisa nisso é reprodução do modelo dos seus pais.


Você deve ter procurado, inconscientemente, por um apartamento com uma vizinha barulhenta porque morava em algum lugar assim na infância.

Nada de mágico: a gente só procura viver de acordo com aquilo que reconhece. Se na nossa infância e adolescência passamos por uma família sempre em guerra, é apenas a guerra que nós conhecemos intimamente. Todo o amor que chegou até nós foi engarrafado em pequenas doses de violência, e é esse amor que nós vamos procurar – justamente porque não conhecemos outro.


Minha família é uma família comum, cujos papéis se repetem em várias outras, e tem um histórico de fugas: um pai viciado em trabalho (o que é visto como uma coisa maravilhosa, mas é um vício e faz mal como qualquer outro), uma mãe viciada em comida e um irmão viciado em drogas.

Fora um momento ou outro de exageros frequentes na bebida, meus vícios costumam ser mais discretos, apesar de não menos danosos. Demorei para perceber que todo o tempo que eu passava escutando música, lendo compulsivamente ou com a televisão ligada não era nada mais do que uma tentativa de escapar do silêncio. Uma tentativa de fugir de alguma coisa.


Pode até parecer esotérico demais, mas eu acredito que a vida tenha suas maneiras de dizer para a gente o que é que necessário para a vida não resvalar na bosta completa. No último mês estragaram quatro fones de ouvido, dois celulares e dois notebooks na minha mão.

Me vi obrigado a ficar algum tempo sem ouvir música o tempo todo e sem passar horas na internet todos os dias. Abstinência forçada. Internação compulsória.


Era como se algo me dissesse que eu precisava me afastar um pouco dessas coisas. Ouvir o que o silêncio tinha para me dizer. Duas coisas: 1 - a minha produtividade aumentou muito e minha louça nunca foi tão bem lavada e 2 – eu não me dava conta de como eu era solitário.

Ficar entretido em música e livros era uma ótima maneira de ver como eu sou distante das pessoas – mesmo de que meu considero mais próximo.


Onde a gente mais reproduz os padrões da nossa família? Nos relacionamentos amorosos, diria o velhinho do charuto.

Não sabemos o que o Freud passou quando criança para gostar de dar tanta notícia ruim, mas sabemos que ele destruiu seus diários onde relatava a infância. Sua mãe não devia ter sido muito boa bisca.


Uma das queixas mais frequentes que eu já ouvi, de tantas pessoas diferentes, foi “Ninguém me quer”. Pouco tempo depois, a mesma pessoa conta que conheceu alguém que lhe queria – mas que essa pessoa não era tão interessante assim.

Querer quem nos quer é fácil demais. Cadê o desafio? Cadê o precisar ligar todas as noites em busca de uma notícia, pra dizer pra alguém sonolento o quanto você o ama?


Até que a pessoa se revolte com a própria situação e inverta completamente o jogo: passa a ser o elemento refratário no relacionamento, e o outro que corra atrás. Isso funciona, a outra pessoa quase sempre também troca de papel e passa a ser o que busca desesperadamente o afeto.

(quantas vezes você ouviu/viveu a história de alguém que vivia reclamando de um relacionamento morno e, depois de levar um pé na bunda, passa a sofrer perdidamente pela pessoa que o abandonou?)

A questão é que isso não resolve nada, o relacionamento fica exatamente igual. Você só parou de imitar sua mãe histérica para começar a imitar o seu pai obsessivo.


Acredito que uma série de relacionamentos que dão errado são como os mil fones de ouvido que eu quebrei: um aviso. Uma dica da vida, falando: “vai fazer outra coisa, que isso aqui não vai dar certo por muito tempo”.

O problema é decidir o que fazer de diferente depois. Achar um equilíbrio entre ouvir música o tempo todo e se privar da chance de dançar. Entre ser o que procura (desesperadamente) o amor e ser o que está disposto a dar (desesperadamente) amor.

Mas são vícios: é difícil achar uma maneira de abrir mão do que a gente faz tanto e com tanta frequência, sem trocar por um vício pior. É preciso obstinação e a capacidade de entender que a recaída é normal.

E que, quem sabe, com um pouco de foco e paciência, você arranja alguma coisa melhor.


Por isso que eu acho que provavelmente a pessoa mais feliz do mundo é órfã. Não tem padrão familiar nenhum para imitar e seu cônjuge não tem problemas com a sogra.

Se bem que o padrão familiar pode ser o de morrer cedo. Pobre da viúva. Garanto que não tinha pai, também.


11.10.12

Videogame

Minha colega está fazendo voluntariado com crianças que moram numa área de risco ao redor de um depósito de lixo. Querendo puxar papo com um dos molequinhos que estavam brincando de médico com material perfurocortante de verdade (quero ver o seu filho ter um privilégio desse!), ela perguntou:
- Do que você mais gosta de brincar?

O menino respondeu na lata:
- Videogame.

Claro que o menino nunca tinha encostado num videogame em toda a sua vidinha.

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Esse negócio de pressão da mídia pra que um produto seja seu objeto de desejo pega fundo. Eu, pessoalmente, nunca fui daquela crianças que pediam tudo o que viam na TV. Sempre fui, no fundo do meu coração, o mais exemplar pão duro.

Só que ainda assim o marketing massivo faz efeito em mim. Semana passada, ao procurar um bom celular xing ling que recebesse dois chips e durasse pelo menos um mês, comprei um HiPhone.

O celular era igualzinho a um iPhone, inclusive com um logo da Apple brilhando na parte de trás. Lógico, o sistema dele era uma bosta e era mais fácil caminhar 600km para conversar com a minha mãe do que tentar telefonar pra ela, mas pela primeira vez na vida eu senti o que era possuir um objeto de desejo - mesmo que na réplica.

Sabe de uma coisa? Era uma delícia - só que de mentirinha, tipo sonho erótico.
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Meu pai é técnico de eletrônica, e uns dos melhores momentos da minha infância foram quando ele consertava videogames de algum cliente e precisava de alguém para testá-los. Aliás, acabou de cair a minha ficha de que provavelmente os aparelhos não precisavam de uma semana de testes intensos na mão de dois pré-adolescentes (eu e meu irmão).

Era só porque ele queria que a gente pudesse brincar um pouco com aquilo que a gente tanto queria e não podia ter.

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Meu HiPhone durou exatamente 13 dias. Na mão do Zagallo, isso seria uma boa coisa. Na minha mão, foi uma moleza que derrubou o celular com a tela pra baixo.

Aqui jaz o pior celular que eu já tive.

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Há quem diga que é olho gordo que faz as coisas boas estragarem. Eu tenho uma bolsa de gordura debaixo dos olhos, tire seus objetos de valor de perto de mim.

Ainda assim, quem sabe agora que tem um lixão aparecendo o tempo todo na novela o menino do primeiro parágrafo se dê bem. Não é a mídia que faz os objetos serem desejados?

Pois ele tem uma casa no depósito de lixo. Duvido que você tenha uma igual.

7.10.12

Alambique

Não consigo assimilar o porquê das eleições serem chamadas de festa da democracia. É um exercício de democracia, isso sim. Se fosse festa, o álcool não seria proibido.

Agora, se fosse uma festa das boas, o álcool seria incentivado e seria eleito o candidato que virasse mais tequilas antes de vomitar.

Em caso de empate, o vômito com menos bile ganha.

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Minha avó me disse que, quando era criança, cachaça era completamente liberada, e que essa história de proibir álcool para menores de idade surgiu muito depois. Por isso, não era raro ver uma mãe passar uma dosezinha de cachaça para o filho de cinco anos que não parava de gritar na mesa do almoço.

Por incrível que pareça, esse lado da família não gerou nenhum alcoólatra. Uma multidão de débeis mentais, alguns delinquentes, mas nenhum alcoólatra.

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O outro lado da família sim, esse era cheio de alcoólatras. Tanto que, umas três gerações atrás de mim, tínhamos um alambique que produzia orgulhosamente o que a população paranaense chamava de "a pior pinga que eu já vi".

Se naquela época existissem pesquisas com a população pra ver como uma marca é vista, provavelmente o slogan da fábrica seria "O cachorro mijou aqui ou esse é o cheiro da pinga mesmo?".

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Até que o patriarca morreu e deixou o alambique para os filhos. Se as eleições fossem do jeito que eu propus, provavelmente um deles seria o presidente do país, de tão bons de copo.

Eles conseguiram fazer uma série de decisões administrativas desastrosas que daria inveja ao setor de patentes de Samsung: primeiro levaram o alambique à falência, depois fizeram empréstimos enormes de agiotas, tentaram salvar o alambique apostando-o no jogo e perderam.

Até que atearam fogo no alambique, porque filho da puta nenhum tinha que meter o dedo nos negócios da família. Tenho orgulho de ter esses genes correndo em mim. Tanto os do alcoolismo quanto os da debilidade mental. Faço questão de exercitar os dois.

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Outro gene que corre na família é o da generosidade e do incentivo à educação. Pouco tempo atrás, para colaborar numa campanha de doação de livros, meus pais doaram um raro exemplar de "Como instalar seu videocassete Phillips corretamente".

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Compare o estilo administrativo do alambique com o da sua cidade: meus antepassados não fariam um governo melhor do que o dos eleitos democraticamente?

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Em Pato Branco, onde eu nasci, costuma haver uma prova para selecionar os candidatos mais aptos. Todos os que pretendem ser vereadores e prefeitos são submetidos a um teste de QI.

A linha de corte é um QI de cinco pontos. Se você tem mais do que isso, não pode ser candidato.

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Na próxima, vou lançar minha candidatura. Tenho uma visão de uma cidade de piromaníacos e bêbados, mas com capacidade de instalar equipamentos ultrapassados. Minha frase de campanha? "Flávio Voight: muito vômito, pouca bile."

16.9.12

Eu quero ofender você

Para uma coisa que serve para elevar os espíritos e alegrar ao próximo, o humor realmente se beneficia de um pouco de amargura. É só o ator que interpreta uma tragédia exagerar um pouquinho na hora de fingir choro e o público cai em gargalhada. A risada é só uma expressão de alívio que ocorre quando a chave vira da posição "estamos ferrados" para "estamos salvos".

Por isso mesmo que, ainda que eu não seja ateu, eu me divirto muito quando alguém compartilha alguma postagem da ATEA, uma página de ateus no Facebook. Num país tão religioso como o Brasil, são poucos os que se tornam ateus por serem educados desde criança com esse pensamento. A maioria - e mesmo eu, que me acho espiritualista mas me sinto cada vez mais cético com qualquer tipo de pensamento religioso/espiritual organizado, me enquadro nessa - vem de uma experiência terrível com religião. 

Alguém da minha família provavelmente diria "Pois é, a pessoa se afastou da religião porque quis fazer sacanagem, aí fica mais confortável dizer que não acredita em Deus", como se isso fosse um motivo inválido. Quer saber? Nada mais válido que a vontade de fazer alguma coisa proibida para questionar a proibição.

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Compartilhei outro dia uma imagem de uma santa católica, branca de olhos azuis cheios de lágrimas, olhando para cima com um ar desesperado. "Como eu odeio cortar cebola", dizia a legenda.

Achei hilário. Pouco tempo depois, uma colega minha de aula comentou "Pôxa, Flavito, por que debochar da religião dos outros?"

Primeira consideração: Ela é uma garota extremamente doce, em nenhum momento uma pessoa má. Fiquei realmente triste de pensar que poderia tê-la magoado. 

Segunda consideração: Não era deboche! Depois de se afastar da religião, é normal perder um pouco a perspectiva de que uma brincadeira com uma imagem possa causar uma reação tão forte de alguém que lhe credita poderes sobrenaturais.

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Foi nessa hora que caiu minha ficha de que, apenas por me expressar, mesmo que numa piada leve, alguém vai sair magoado - e que por mais que eu me esforce e me desdobre em sorrisos e agrados, algumas pessoas não vão gostar de mim.

Não que eu tivesse a pretensão de que cada ser humano no mundo gostasse de mim, mas eu acreditava existir uma linha mais clara: quem não gosta de mim é porque é ruim, ou é homofóbico, ou gostaria de ter algo que eu tenho; e quem gosta de mim é porque é uma boa pessoa. 

Idiotice. Gente boa e doce, como a menina que se magoou com a santa cortando cebolas, eventualmente também não vai gostar de mim. 

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Agora, acreditar em Deus e achar que esse ser todo-poderoso não tem bom humor é o pior de tudo. 

Se ele realmente existe e criou a humanidade para logo depois ser traído por um anjo de luz que ele mesmo criou, no mínimo um pouco de amargura Ele sentiria. 

E não é da amargura que vem o humor?

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Tudo uma questão de perspectiva. A mulher que reclama da piada da santa é a mesma que não tem seus direitos reprodutivos assegurados pelo Estado por causa da mesma igreja cujos preceitos segue.

Nada mais esquisito para mim do que ver uma igreja cristã cheia de negros, descendentes de pessoas que foram arrancadas de suas terras e escravizadas com a bênção e o patrocínio do Senhor que estão louvando.

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Por isso você, boa pessoa que discorda de mim, fique livre para não gostar de mim. Mas tente pelo menos pensar no meu ocasional deboche daquilo que você acredita como uma possibilidade de reflexão, assim como eu refleti muito sobre a possível mágoa que eu possa estar lhe causando.

Assim ficamos, dos dois lados, sem lágrimas - a não ser que estejamos cortando cebola.

28.8.12

Obras de arte

Quando eu estava na sexta série, estudava em um colégio que era ao mesmo tempo público e católico, por causa de uma parceria da prefeitura. Ao mesmo tempo um colégio muito rígido e muito aberto à experiências.

Eram meses com música clássica tocando na sala de aula (não deu certo, as caixas de som eram ruins e o som era alto demais), outros com ioga na aula de educação física (fantástico, me ajudou a passar em vários vestibulares em que eu não tinha interesse).

Uma das poucas coisas realmente católicas do colégio era a necessidade de fazer uma prece antes de começar a aula. Um professor de matemática (um dos poucos que tiveram a habilidade de me fazer aprender qualquer coisa em matemática em toda minha vida) era um pouco mais resistente e mudou o hábito nas aulas dele: todos os dias, um aluno precisava citar uma frase inspiradora antes do começo da aula.

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Éramos uns 40 alunos na sala e, por isso, cada um se revezava na função fazendo cada aluno falar três ou quatro vezes por ano. Como ainda não existia o Facebook para vulgarizar frases da Clarice Lispector, a gente se virava como podia para arranjar as frases.

Não, ler livros para achar frases interessantes não era uma opção para a maioria de nós. O negócio era copiar e recopiar frases uns dos outros. Na última página do meu caderno, guardei uma coleção de frases para usar nessas aulas.

No final do ano, o professor reclamou comigo que eu sempre escolhia a mesma frase: "A arte da vida é fazer da vida uma obra de arte", do Ghandi.

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Acho que minha fixação por arte começava por ali.

E é estranho que eu tenha escolhido dar tanta vazão à minha vontade de escrever. De um tempo pra cá, assumi que uma das coisas que eu sou é "escritor". Ainda não falo isso quando me apresento para alguém - alguma parte minha ainda tem vergonha e acha que ser artista é boçal.

Acontece que, fora um concurso ou outro, a única coisa que eu escrevo regularmente é esse blog.

Falar da própria vida a cada quinze dias é arte?

Eu fiz da minha missão na vida a expressão máxima: vir de uma criação religiosa que me oprimia tanto e me fazia sentir um lixo por ser o que eu era acabou virando do avesso. Aprendi que assumir completamente tudo o que eu sinto e sou, por mais vergonhoso que seja, acabou virando minha força.

Parece que hoje eu me oriento na vida sempre por ir na direção que me envergonha mas me encanta. Lutar contra minhas vergonhas acabou virando meu norte e minha arte. Escrever, que é o único dom que eu nasci tendo, a única facilidade que sempre esteve ao meu lado na vida, virou uma maneira de expressar isso.

Quando eu escrevo, eu me torno mais eu. A obra de arte que eu faço da minha vida é essa.




22.8.12

Espetinho e parmesão

São duas e trinta e cinco da manhã, e eu passei a última hora toda deitado na cama e segurando um espelho na mão, tentando adivinhar a cara que eu vou ter no meu velório.

Fiquei percebendo no espelho como a gente passa a eternidade numa posição estranha, a cabeça jogada pra trás, os olhos meio sem saber pra onde vão, o corpo alinhadinho como provavelmente nunca foi em vida.

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Essa história toda de morte é porque fiquei sabendo ontem que um amigo meu da adolescência foi assassinado dois meses atrás. Dois meses atrás, e eu fiquei sabendo agora. Tá certo que não era um amigo tão próximo e que fazia anos que a gente não conversava, mas ainda assim...

Não cheguei a ficar tão triste, não tanto quanto fiquei perplexo com a história toda. Fiquei sabendo da morte do meu amigo depois que me mandaram uma notícia de jornal. Talvez eu esteja me confundindo, mas foi alguma coisa envolvendo uma facada na cabeça e dois espetos de churrasco enfiados no corpo.

Hoje você almoça, amanhã o churrasco é você.

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E tem tudo a maior pinta de crime de ódio, cidade pequena de interior, homofobia correndo solta. O crime tá até agora sem suspeito nenhum. Provavelmente sem investigação nenhuma, também.

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Aí minha amiga me conta da cena que assistiu ontem, da janela do ônibus: uma moça tenta atravessar a rua correndo, atravessando entre os carros que esperavam no semáforo.

No corredor entre um carro e outro, passa uma moto e - coincidência terrível - engata o guidão bem na alça da mochila da moça, que foi arrastada por vários metros.

A moça não morreu, só ficou igual queijo parmesão, toda ralada.

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Espero que no meu velório eu possa ficar com os olhos abertos. Existe uma superstição de que o morto só fecha os olhos quando finalmente vê a pessoa da qual precisava se despedir antes de ir.

Eu gosto dos meus olhos. Mesmo quando o corpo está meio abatido, parece que tem um pouco de vida neles. Espero que a pessoa aceite uma despedida olho-no-olho mesmo.

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Existe lembrancinha de nascimento de criança, de casamento, de formatura, de tudo. Espero que, quando chegar minha vez, façam uma miniatura minha de biscuit: eu dentro do caixão, com os olhos abertos e sorrindo, quem sabe fazendo joinha com a mão.

Pelo menos as pessoas teriam uma lembrança legal de mim. Mesmo que fosse só um souvenir.

31.7.12

MC Pixinga

Alguma coisa mudou na nossa música popular. Não acho que seja ruim - porque música boa continua sendo feita e quanto mais gente se expressando, melhor. A questão que mais me intriga é como, em tão pouco tempo, nossa música foi de "Bonita e graciosa, estátua majestosa" para "Esfrega o pau na cara dela".

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Talvez seja uma questão de repressão, o motivo do Pixinguinha gastar palavras endeusando sua musa quando tudo o que ele queria era esfregar seu genital na face da Rosa.

Hoje estamos mais liberados, não precisamos mais dar volteios quando o que está na nossa cabeça é sexo. Isso permite que a música seja mais específica, com menos eu-te-amos e mais lamba-minha-bola-esquerda.

O problema não é de falta de pudor: é só que um coração parece muito mais bonito numa declaração do que uma bola esquerda.

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Eu queria ter feito meu TCC na faculdade de psicologia fazendo uma análise das músicas da Valesca Popozuda por uma ótica feminista. Tá certo que ela só se coloca como um produto para a degustação masculina, mas é impossível dizer que alguém que canta "Minha buceta é o poder" não contribua em nada para a emancipação masculina.

Sim, a vida dela gira em torno de satisfazer o seu negão - mas ela goza. É muito mais do que a Aracy de Almeida fazia.

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E uma voz feminina mais desbocada aparecendo no funk é essencial. Podem criticar o quanto quiser, mas enquanto houver uma Valesca Popozuda ou uma Tati Quebra-Barraco para gritar que Dako é bom, os funkeiros que versam sobre "esfregar o pau na cara dela" vão ter concorrência.

É o que impede que a mulher seja completamente subjugada no gueto - mesmo que só musicalmente.

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O problema vai ser quando o Homem Branco Cara-Pálida se apropriar do funk. Aí não vai mais ter Valesca Popozuda que ofereça resistência silicônica para tanta misoginia. Minha previsão é de que, em 2019, o maior hit do ano vai ser "Esfrega a cara dela no cocô", do MC Cagão.

A letra vai ser mais ou menos assim "Esfrega a cara dela no cocô / Esfrega a cara dela no cocô / Cachorra tá dizendo que gostou / Esfrega a cara dela no cocô!".

Aí começa uma participação especial do Rafinha Bastos que, depois de fracassar na televisão, vai investir na carreira de rapper e atender por MC Odeia-Fêmea. Ele vai cantar "Não importa se ela é a sua mãe / Não importa se ela é a sua tia / Su-bi-ju-ga essa vadia!".

As Cocozetes, no fundo, dançam de biquini e reencenam o vídeo de 2 girls 1 cup.

MC Cagão vai ser descrito pelo Faustão como "um grande cara, tanto no pessoal quanto no profissional". O Jogo da Vassoura (em que vence o rapaz que consegui esfregar a maior quantidade de rostos femininos no cocô espalhado pelo chão, usando uma vassoura) vai ser o quadro de maior audiência do Programa Silvio Santos.

Aí a gente vai ficar triste pelo mundo não ter acabado em 2012.

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Vocês sabem que o 2 girls 1 cup foi gravado no Brasil, né?

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Haja popozão.

26.7.12

Produtividade

A internet é a maior fonte de inspiração e o maior incentivador para o trabalho que existe no universo - quando sai do ar.

Esse mês esqueci de pagar a conta da internet pré-paga (300kbps, tomem essa!) e nunca fui tão produtivo na minha vida. Minha louça está impecável, fiz a barba (em dia de semana, toma essa outra!) e tô botando a leitura em dia.

Só faltava aproveitar a deixa para escrever alguma coisa para o blog. Vim para o quarto, preparei o pen drive para levar o texto para o meu estágio e colocar no Blogger de lá... e consegui conectar numa rede desprotegida de algum vizinho.

Adeus, produtividade.

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Para um homem que mora sozinho, eu até que sou um dono-de-casa razoável. Não dependo cem por cento de lasanha de microondas e até vegetais eu como de vez em quando.

Uso a mesma xícara do dia anterior para tomar café, todos os dias. E sem lavar a xícara, no máximo dando uma passadinha de água. Meu critério é a presença de uma mancha na xícara: se tiver mancha, eu molho o dedo e esfrego a unha onde estiver sujo. A mancha saindo, eu dou mais uma passadinha pela torneira e a xícara está pronta para abraçar meu café quentinho. Mesmo nesse ambiente de pós-guerra, não morri ainda, vai querer julgar?

Só me falta aprender a lavar banheiro direito e ter a boa vontade de medir a quantidade de sabão em pó certa para cada lavagem de roupa. Vou completamente no aleatório.

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De todos os posts desse blog, o mais visto e comentado sempre é esse, sobre covinhas no rosto. É de quando eu tinha quinze anos. É um absurdo a quantidade de gente que entra nesse blog procurando maneiras de ter covinhas no rosto.

Sabem como eu consegui uma esses dias? Espremendo uma espinha enorme na bochecha. Deixou uma marca gigante e o relevo do meu rosto tá pior que o da bochecha do Michel Teló.

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Meu pai sustentou a família a vida toda, entre outros serviços, microfonando sanfonas - que em Pato Branco se chama de gaita. As gaitas vem de fábrica sem entrada para microfone, precisando de uma paciência de Jó para fazer um furo com serra, encaixar o microfone em um lugar de acústica boa dentro da sanfona e depois fechar tudo sem que fique com cara de gambiarra.

Como meu pai é uma das poucas pessoas que sabe fazer isso bem no Sul do Brasil, cresci cercado por grupos que ganhavam a vida tocando bailes no interior. Quem diria que, de uma banda dessas, sairia um polaco (mais branco que eu!) que faria sucesso no mundo inteiro.



Mas ainda assim, se eu fosse apostar naquela época em quem se tornaria o ídolo mundial, seria no gaiteiro da direita. 

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Ainda assim, eles eram elite demais para serem clientes do meu pai. Acreditem em mim, as bandas que contratavam a gente tinham membros muito, muito menos atraentes - o que não era problema, já que nos bailões de Pato Branco quase sempre faltava luz depois da primeira hora...

2.7.12

Das coisas que ficam turvas


Das páginas que amarelam, das folhas que brincam no chão, tudo envelhece e perde-se de corpo. O físico se esvazia, mas não perde a história de seu dever cumprido.

O que as páginas gravaram é perdido das páginas, mas não da tatuagem que fizeram na pele virgem da cabeça de quem leu.

O ar é poluído outra vez depois do trabalho incansável da folha sob o sol para purificá-lo, mas não fosse a folha, hoje morta, não teria sido possível respirar. Não estaríamos aqui, se não fosse pela folha-cadáver que hoje reveste crocantemente o chão.

Das coisas que ficam turvas sobraram seus olhos - ainda pálidos pelo pouco tempo que tem. Não se perdôe de sua juventude, moço. Logo os olhos enegrecem, e aos poucos os cenários não tem mais a mesma cor de outrora - talvez pelo hábito de sempre ver a mesma cor, sempre ali, vibrantes, enquanto nós, imóveis, permitimos que o olhar apague, aos poucos, o seu vigor.

As cores se perdem de dentro para fora, sempre, e então mesmo as páginas recém impressas vão ficando amarelas - não pelo tempo que elas guardam, mas pelo tempo que os olhos carregam.

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Ainda assim, quando seus olhos ficarem turvos e toda cor for um tom de pastel, serão capazes de lembrar da cor dos meus - assim como os meus guardarão sua cor, viva mesmo quando a própria vida estiver desbotando, com um período e outro de rubrez intercalando a transparência das lágrimas.

E das páginas que guardam nossos olhos, e das folhas que nos deram o ar, a história se completa na nossa finitude e nossa tãopouquice.

O que se amarela e se perde é inevitável, é a resistência o que machuca.

Por isso solto tudo que tento impedir. Que as folhas caiam, que as páginas amarelem. Que meus olhos ceguem, se for o caso de assim ser.

Fica um pouco de tristeza pela história acabada, mas não dor - nossa história não acabou violentamente. Apenas perdemos o viço, meu amor.

Mas guardo seus olhos comigo, em cores vivas.

O resto é inevitável.


-- “A vida segue em frente, quer ajamos como covardes ou heróis. A vida não impõe outra disciplina além de aceitá-la incondicionavelmente. Tudo aquilo para o qual fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos é capaz de nos derrotar no final. Aquilo que nos parecia asqueroso, doloroso, mau, pode se tornar uma fonte de beleza, alegria e força, se encarado com uma mente aberta. Cada momento é de ouro para aquele que possui a visão de reconhecê-lo como tal.” - Henry Miller, tradução minha. --

29.6.12

Vovô Vegano


Ontem assisti uma palestra muito interessante sobre sustentabilidade. A moça que coordenava a mesa de debates apresentou um dos participantes - um cara bonito, charmoso, que cumprimentava a todos como se fosse candidato a vereador - com toda uma ficha técnica que dizia que, aos 39 anos, ele já era reconhecido como uma qualquer coisa na sua área.

A fala dele era sobre o consumo de carne bovina por um enfoque ecológico. Basicamente, se a gente continuar comendo carne o mundo explode. Os argumentos eram todos ótimos, os slides informativos, mas nada me convenceu mais a parar de comer carne como a idade do cara. Porra, 39 anos e com carinha de 26? Mudo até meu nome pra Vegano Voight se for pra ficar assim. Depois disso, virar um vovô vegano com, no máximo, aparência de tio.

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Saí tão entusiasmado da palestra que quis virar vegetariano na hora. Vontade de salvar o mundo, né? E parar de comer tanta asneira. Quem sabe se eu fechar a boca pra mortadela e tomar menos leite por dia do que um bezerro recém-nascido eu fique com menos espinhas na cara e peide menos do que um Monza 94.

Tava aí meu novo objetivo de vida, me alimentar de grãos, frutas, verduras e ter cara de bunda de neném, pela primeira vez na vida e de uma vez por todas. A palavra de ordem: saúde.

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Hoje, um dia depois da palestra, me mantive razoavelmente saudável até o almoço, uma saladinha bem da modesta. Minha janta, pra compensar, foi uma lata de Pringles-genérico-vindo-da-China-por-quatro-e-cinquenta e três pacotes de pão de mel coberto de chocolate (porque comprando três você paga o preço de dois!).

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É difícil tomar decisões definitivas na vida e manter o entusiasmo. A distância entre o “poxa vida, que ideia legal” e o “tô fazendo” é a maior já conhecida pelo homem.

Outro dia um cara atravessou as quedas do Niágara dos Estados Unidos até o Canadá caminhando sobre uma corda-bamba. Um monte de gente estava ao redor, fotografando e torcendo (para que ele caísse). Me surpreendi com o fato de ninguém ter mirado uma pedra bem na cabeça do caboclo pra ele deixar de ser besta.

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Estava com meu ukulele no colo e percebi como eu não tenho a menor capacidade de escrever uma música no momento. Já pensou como seria incrível escrever um disco com minhas ideias, e botar meus dois anos de aula de canto em prática, e quem sabe tocar um coração ou dois?

Mas se com dois anos de aula eu ainda não sou capaz de cantar direito - quanto mais em público - quem garante que vai dar tempo de fazer isso?

Sei lá se é uma questão de tempo, também. Tudo o que eu mais tive essa semana foi tempo, com férias da faculdade e estágio em meio período. Fiquei horas em casa olhando para a parede e tentando arranjar alguma coisa que me divertisse.

Me pergunta se eu lavei a louça: eu não sou doido, vai que alguém me joga uma pedra na cabeça e eu caio no vidro dos pratos?

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Aí eu volto pra minha vida saudável.

Pode ser que essa semana eu não consiga melhorar um pouco meus hábitos, mas quem sabe com um pouco mais de esforço eu consiga depender menos de açúcar e ter mais força de vontade. Talvez eu até consiga criar a coragem pra botar minha voz pra fora, quando tudo o que acontece comigo fica girando aqui por dentro. Se eu conseguir comer só alfacinhas e soja e ser feliz, eu fico com cara de 26 aos 39. Até chegar lá, eu escrevo um disco.

Mas até me entusiasmar com o futuro, preciso digerir o monte de batata frita e chocolate que eu comi. Jesus-vegano que me dê forças.

22.6.12

Oriente, rapaz

"Fiz uma merda e acabei assinando dois anos disso."

Não era muito fácil um palavrão sair da boca do meu pai, mas foi essa a resposta quando lhe perguntei porque algumas revistas estavam chegando lá em casa. A merda, para ele, foi assinar a revista Viagem e a Veja num pacote promocional.

Para mim, foi o paraíso: internet na época era luxo e eu lia qualquer coisa que viesse parar na minha frente. Uma das coisas que veio parar na minha frente foi justamente uma Viagem com uma matéria enorme sobre Tóquio. Fiquei - e ainda sou - fascinado pela cidade, mesmo sem nunca ter ido pra lá. Isso deve ter sido por volta de 2000. Uma das fotos da matéria era de uma pessoa, sentada no meio da calçada, com uma caixa de papelão cheia de celulares na sua frente. A legenda era alguma coisa como "Aqui, celulares custam muito barato. Compra-se na rua, para usar de chaveiro."

Celular era artigo de luxo luxíssimo na Pato Branco daquela época. Meu coração pré-adolescente ficou cheio de vontade de ir para Tóquio, roubar a caixa do mendigo e vir vender celular no Brasil.

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Eu sou um ocidental desinformado e mal viajado, e por isso mesmo não entendo muito bem como funcionam as coisas no Oriente. Minha visão é toda baseada nos orientais que estão ao meu redor desde que comecei a trabalhar no centro de Curitiba. Não sei exatamente quais são coreanos e quais são chineses, mas sei que é impossível comprar um produto popular por aqui sem ter que conversar num dialeto que misture coreano-ou-chinês com o português.

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Ainda assim, a maior barreira vai além da língua. O que me encanta nesse povo - e me sinto mal de generalizar tudo num povo só, mas é porque eu sou ignorante e não sei diferenciar os países - é a mistura de simpatia com grosseria com que os clientes são atendidos.

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Evidência 1: A placa na marquise dizia "PASTELARIA" com letras bem grandes. Na calçada, um quadro em que estava escrito com giz: "Pastel 1,50". Achei que isso fosse suficiente para imaginar que o estabelecimento vendia - segurem o fôlego - pastel.
- Moço, me vê um de queijo por favor?
- NÃO TEM PAITÉU. - disse o senhor que atendia o balcão, como se cada sílaba fosse um golpe de espada ligeiro e fatal.
- Mas nem de outro sabor?
- CABÔ PAITÉU.
- Nem pra fritar?
- NÃO TEM PAITÉU! - ele gritou.

Saí de lá chateado, não só por não poder ter me fartado de uma delícia gordurenta, mas porque foi como se eu tivesse ultrajado o senhor que me atendeu. Pôxa, não era culpa dele de ter acabado o pastel. Ousadia minha pedir.

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Evidência dois: Roupa em lojas populares de coreanos-ou-chineses é muito mais barata. Orçamento de estudante só permite roupa nova de vez em quando, e ainda assim, só se não for muito cara.
Passei horas olhando pela loja até decidir qual jaqueta comprar. Uma funcionária, brasileira, fez o maior esforço pra me atender bem. Quando escolhi, ela me levou até o caixa.
Uma mulher de cinquenta anos grita com ela:
- ELE SÓ VAI LEVAR ISSO?
A moça fez que sim, era só isso. A dona da loja, frustradíssima, gritou na minha direção:
- SÓ VAI LEVAR UM?
- Sim, só um.
- COMPRA DOIS.
- Não, só preciso de um.

Ela me fuzilou com o olhar, gritando bem lentamente:
- LEVA. DOIS.

Levei um só. Mas só volto naquela loja quando tiver dinheiro pra dois ítens.
(mentira, lá é barato demais, volto assim que precisar de outra roupa)

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Evidência três: Dependo de comer marmita durante a semana, pra poder almoçar no trabalho e economizar tempo. Como já estava quase morrendo de tédio de comer sempre no mesmo lugar, comecei a marcar na cabeça lugares que vendam marmita perto do escritório.

Era dia de ir num restaurante que abriu faz pouco tempo aqui, de comida CHINESA E BRASILEIRA, como dizia na porta, que também tinha um cartaz dizendo "COMER AQUI 13,00 LIVRE MARMITEX 8,00". Entrei e pedi pelo marmitex.

- MARMITEX? PUQUÊ NÃO COME AQUI?

Inventei uma desculpa qualquer pra não dizer que era porque o marmitex era mais barato.

- TÁ. GOSTA DO QUÊ? - gritou, sorrindo, a mulher que me atendeu, para saber o que colocar na minha quentinha.
- Posso eu me servir?
- NÃO PODE. EU SILVO. GOSTA FEIJÃO?
- Gosto. - e ela botou feijão.
- GOSTA ARROZ? - e botou arroz sem que eu respondesse.

O resto da marmita foi servida à minha revelia.
- VOLTA MAIS VEIZ. - disse ela, sorrindo.
- Volto sim, pode deixar.

Acho que a felicidade de ter ganho um novo cliente ferveu no coração da moça, e ela continuou a gritar sorrindo:
- TOMA BANANA. - e me deu um copinho de chá com um pedaço de banana caramelizada.

Podem gritar, podem não me dar pastel, podem fazer o que eu quiser. Mas enquanto eu puder fazer um bom negócio, ganhar banana caramelizada de brinde e uma história pra contar depois, vou permanecer cliente.

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Acabei de perceber que comecei falando de Tóquio e fui parar num discurso sobre coreanos e chineses. Eu sou a versão tupiniquim do turista que pensa que Buenos Aires fica no Brasil. Já falei que é por ignorância, né?

6.6.12

Pagando o preço



Foi no meu segundo ano de curso de psicologia que tomei coragem e fui conversar com uma professora para perguntar se ela me indicaria uma pessoa da confiança dela que estivesse começando a carreira e topasse cobrar menos para atender um aluno bolsista sem muita grana.

No fim da conversa, com alguma habilidade dela, decidiu-se que ela mesma seria minha analista. Eu saí dividido daquele papo: uma parte minha estava feliz por poder fazer análise com alguém que eu admirava tanto, outra parte pensava CACETE, CACETE, COMO EU VOU PAGAR POR ISSO?

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De lá pra cá, com alguns apertos no orçamento e um emprego a mais no horário, aprendi uma grande lição: aprender a pagar o preço daquilo que é meu desejo foi mais do que a análise em si, que remexia no meu passado me ajudou.

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É disso que concluo que as mudanças pelas quais uma pessoa passa num processo terapêutico podem ultrapassar em muito os objetivos do processo terapêutico em si. Hoje, na clínica de psicodiagnóstico, somos requisitados a preencher uma ficha de triagem a cada paciente novo. Nesta ficha, os campos “Queixa do paciente” e “Expectativas do paciente”.

Não acredito que, se precisasse responder a essas perguntas no primeiro dia de minha própria análise, eu responderia “Sou incapaz de pagar o preço do meu desejo” na minha queixa. Minha queixa foi de que eu queria fazer aula de canto e não tinha grana nem coragem para tanto. Minhas expectativas do processo analítico? “Transforme-me numa pessoa incrível.”

Aliás, um dos motivos de eu ter procurado minha própria análise foi uma fala dessa professora, numa clara autopropaganda, falando “Quem faz análise fica mais rico, mais bonito e mais feliz”. Não estou mais rico, mas de alguma maneira meu dinheiro passou a ser suficiente para pagar pelas minhas aulas de canto, a natação, o aluguel de um apartamento melhor, camisetas e cuecas novas.

Não estou mais bonito necessariamente, mas a natação (que eu sempre quis fazer e não me permitia) e as roupas novas me ajudam a ter uma aparência muito mais interessante do que a do garoto do interior que achava ridícula a vaidade de quem queria se arrumar para os outros (que eu era antes da análise).

Mais feliz? Não sei se é possível medir felicidade, e também não sei se um nível alto de felicidade o tempo todo seria realmente bom de se ter. Estou, sim, menos dramático – e isso diminuiu um peso gigante que eu estava habituado a carregar. Peso a menos é ótimo, porque sei que o caminho pela frente ainda é longo.

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O que uma terapia pode fazer por um paciente que procura ajuda? São mil terapias que podem aplicar mil técnicas, podem utilizar uma escuta treinada, podem ajudar a botar pra fora muita coisa que se guarda à toa, podem acolhê-lo quando estiver perdido. 

Enfim, com a medida certa de química entre terapeuta e paciente pode se fazer muita coisa, mas nada será possível fazer sem que este paciente cumpra uma condição: estar disposto a pagar o preço.

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A não ser que o seu terapeuta cobre MUITO caro. Aí você pede um desconto.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...