20.4.10

Moto-contínuo

Duas crianças brincando, a mais nova pentelhando a mais velha, que reclama e faz bico. Segundos de silêncio e de greve de brincadeira rompidos por um cutucão do mais velho no mais novo. Moto-contínuo.

Se eu fosse contar alguma coisa para essas crianças, como se fosse um velho barbudo e sábio de um filme de Hollywood - desses que propagam valores importantes como saber que sabedoria está sempre acompanhada de velhice e barba -, eu ia dizer que tudo o que parece grande e assustador nessa idade vai perder o tamanho com o tempo (o susto talvez continue).

Também diria que não é bom focar no grande, não. O grande só serve para tirar o foco do que realmente tem importância. O estudo, o dinheiro, a vida, tudo é um grande conjunto de grandes porras nenhumas.

Os meninos me perguntariam por quê, e eu diria que é porque o medo das provas na escola vai parecer ridículo em alguns anos (quando se estiver temendo alguma outra prova que também parecerá ridícula depois de provada).

Eu não diria tudo para esses meninos. Tem coisas que eles precisam descobrir sozinhos: que a morte assusta mas não é o pior que se enfrenta, por exemplo. Que um dia, no futuro, quando a vida separar o fictício quadril conjunto que os mantém unidos como gêmeos for separado como um machado arranca as metades de um sicômoro siamês, um dos meninos vai lembrar do outro.

O outro não vai estar morto, só distante. O menino vai chorar de saudades. A morte traz a falta, mas os momentos passados dão coisa pior. A saudade é pior do que a morte, porque transcende a morte. Porque não morre.

E, havendo outra vida depois dessa, a morte poderia ser superada e um reencontro se tornaria possível. Os mortos podem voltar, os momentos não.

Mas pra quê pensar na morte se o seu irmão acabou de te dar um peteleco?

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