19.9.10

Maldita Família

Trabalhava no mesmo emprego fazia tanto tempo que nem ligava mais de ter que trabalhar violentamente por três dias a cada mês e passar todo o resto do mês atualizando a página do e-mail para ver se tinha recebido alguma corrente nova. Sentia-se emburrecida quando tinha o impulso de repassar para quinze pessoas qualquer coisa que pudesse lhe dar azar.

Os amigos também eram os mesmos há tempo demais. Não que fizesse diferença, já que ela estava no mesmo lugar há tanto tempo. “Lugar” em espaço, sim, mas também lugar no pensamento. Os amigos também estavam morando na mesma idéia fazia tempo demais.

As conversas eram as mesmas, os e-mails eram os mesmos, os dias eram os mesmos. (a não ser pelos violentos 3 dias do mês em que os relatórios chegavam e precisavam ser analisados num prazo tão possível quanto cruzar um jabuti com uma árvore). Mas tudo bem, ela não se importava com isso.

A culpa ela já tinha descoberto de quem era: de sua maldita família.


Maldita porque todos os que vieram antes dela fizeram alguma coisa de importante. Nada de muito importante, pra piorar, porque aí ela não tinha nem como viver dos louros alheios. Mas faziam alguma coisa.

Nasciam no meio do mato e construíam vida na cidade. Largavam a religião em que nasceram e tornavam-se monges em alguma outra religião qualquer. Viajavam o mundo.

Ela não fazia nada disso.


O bisavô, que fugiu da tribo em que nascera para não ser assassinado, e depois acabou iniciando um vilarejo que hoje é uma cidade tão quase grande que está até pra ter um McDonald’s? Morreu sem jamais ver os arcos dourados e sem nunca ter comido um hambúrguer. Hoje mora numa ruga na testa de sua bisneta.

A avó, que não quis fincar raízes na cidade que seu pai fundara, e que por isso mesmo tornou-se a maior tecelã de sua época em uma cidade do outro lado do país? Morreu sem jamais ver a neta vestida com os panos que idealizara. Hoje mora numa úlcera, no estômago de sua neta.

O pai, que construía os próprios carros juntando peças pescadas em ferros-velhos? Morreu sem ver a vida aprender a guiar seu destino. Hoje mora num corte no joelho da filha - já cicatrizado, anos depois do acidente (quem diria que o banco comprado a preço de banana ia se soltar e arremessar a garota contra o porta-luvas?).

Ela? Ela trabalha três dias por mês e lê e-mails nos outros. Isso não a incomoda, mas os fantasmas que ficaram no seu corpo ainda lhe beliscam, de vez em quando.

7.9.10

Chagas

Me diga qual a importância
de morrer e ir pro céu?
de transar com camisinha
lubrificar com álcool gel
porque tudo contamina
e chupar bala com papel
é a saída
mas segurar o desejo
é só a massa do pastel;
a carne é fraca
a carne é moída
é carne de vaca
mesmo que seja de gente
mesmo que seja sagrada
mesmo que esteja salgada
e o paladar não aguente
comemos contentes
damos todos as mãos
e rezamos antes da janta
Deus abençoe o alimento
Arroz com carne humana
A carne é nua
A carne é crua
A carne é sua
A carne sua
A carne é quente
É carne de gente
assada no fogo do inferno
sanduichada no pão
que o filho de Deus amassou
pra comer bebendo vinho
vinho que antes foi mágoa
vinho que antes foi tinto
vinho que molhou a chaga
A chaga que hoje sarou
Todos estamos no céu,
nenhum de nós se salvou.

12.8.10

Churrascaria

Eu sou um artista covarde. Eu não me embrenho no mato por semanas a fio para tentar encontrar meu eu. No máximo, gasto uma graninha em terapia para despejar palavras tentando aliviar a pressão.

Porque artistas são os que pintam o cabelo de cores que o cabelo não gosta de ser. Artistas são os que tem o tênis que os artistas gostam de usar. Artistas gostam de música que ninguém conhece.

Não devo ser nem artista, só covarde. Eu teria pavor de cortar a minha orelha. Por deus, eu tinha medo de pegar na orelha de plástico que vinha de brinde no pacote de salgadinho.

Eu não vivo intensamente. Eu não brigo com as pessoas, eu não sou excêntrico. Eu não presto pra isso. Não vivo grandes amores, no máximo troco abraços no sofá, com a televisão ligada na novela. Eu gosto de novela.

Eu não sou um escritor. Confesso que tenho preguiça de ler, às vezes, e que de vez em quando prefiro um livro de auto-ajuda a um clássico. Eu não sou alternativo. Eu leio auto-ajuda.

Eu uso expressões como "estou aprendendo a amar a mim mesmo" no dia-a-dia. Eu escuto música brega - não de propósito, pra apontar o dedo e falar "que música brega". É porque eu acho bonito mesmo.

Eu não sou politizado. Eu acredito que somos todos iguais, mas quero ser melhor que os outros. Talvez nisso eu seja artista.

Eu não sou rebelde. Eu quero agradar todo mundo.

Eu escuto os outros por obrigação. Eu não gosto de ver pessoas inteligentes perto de mim, me faz sentir burro. Nem pessoas talentosas. Elas inspiram, mas distraem os outros das coisas que são realmente importantes (os meus interesses, por exemplo).

Eu não quero trabalhar. Os trabalhos são todos inferiores à minha capacidade intelectual. Todos, sem exceção (talvez haja algum trabalho que eu seja incapaz de desempenhar, mas são trabalhos de gente besta).

Como faz pra ficar rico desse jeito?

29.6.10

Redenção e Sabão

Uma das coisas que mais me interessou a vida toda foi como as pessoas em algum momento na vida procuram se redimir do que fizeram. Meu avô, agora com setenta e vários anos, é uma dessas pessoas.

Ele sempre foi um dos meus personagens favoritos - eu tenho o hábito de tentar colorir minha vida focando em certas coisas interessantes das pessoas, talvez para não encontrar motivo para reclamar delas. Meu avô sempre fez parte do meu repertório de coisas interessantes para contar para as pessoas tentando fazer com que elas me achassem interessante também.

Eu contava que ele nasceu no navio, vindo da Áustria para o Brasil. Não sei quando eu ouvi essa história, nem de quem. Só sei que provavelmente não se trata da verdade. Muito do que eu ouvi quando criança também foi embelezado.

Meu avô não foi um pai muito bom para minha mãe e meus tios. Bebia, deixava sem comida, espancava. Um dos momentos mais marcantes da minha infância foi encontrar um poema que minha mãe escreveu aos dezessete anos (ela já escrevia para um jornal local) chamado "Morra, Pai". Um poema, apesar do título, belíssimo em que ela pedia para que o pai morresse para finalmente poder amá-lo.

Minha mãe abandonou a escrita já há muitos anos, e agora seu desejo poético deve estar bem próximo de se realizar. Quando criança, eu achava muito difícil encaixar a figura de velho gordo e simpático que eu via em meu avô nas histórias de pai terrível que eu ouvia da minha mãe.

De alguma forma, mesmo tendo boa parte da memória desfigurada pelo álcool, eu acho que meu avô se arrependeu do que fez. Ele é gente, impossível não se arrepender nem um pouquinho. Chegou a perder um filho, que de tanto se sentir sufocado resolveu morrer de pneumonia aos dezenove anos.

Meu avô já está doente há um bom tempo. Não sei exatamente qual foi a doença, mas sei que algum tempo atrás seu coração inchou ao ponto de ele precisar usar uma cinta ao redor do tórax para conter o crescimento.

Quando melhorou, resolveu voltar a trabalhar e passou a dedicar os seus dias a fazer sabão. Sabão tão forte que machucava as mãos de quem o usava. Sabão tão forte, quem sabe, que pudesse limpar as manchas do seu passado.

Agora é ele que está com pneumonia, a doença que matou seu filho, e está na UTI já há alguns dias. Se ele se for, fica de herança para mim a certeza de que a vida tem sempre um jeito poético de resolver as coisas.

O equilíbrio sempre é atingido, nem que seja só por metáfora. Nem que seja fazendo sabão, nem que seja ficando com diabetes por não achar a vida mais doce, nem que seja fazendo o coração ficar um balão gigante - a redenção vem.

Acho que cheguei perto de uma definição ideal do que é ter fé.

Você arranja, depois de anos de tentativas, uma pessoa legal que não deixa de falar contigo depois do segundo encontro. Uma pessoa que te dá até a esperança de passar mais de um mês juntos - felicidade eterna.

Pouco tempo depois, vocês vão pra cama. O sexo é legal, a química é respeitável. Você dorme de conchinha pela primeira vez em séculos, tão feliz que quase não se importa com a dormência de um dos braços.

E então você cai no sono feliz dos amantes - somente para sonhar que está fazendo cocô, o cocô mais importante da sua vida. Um sonho relaxante.

E então você acorda com um pum e reza para que tenha sido só no sonho. Ou, pelo menos, para que ele esteja dormindo e não tenha sentido o ventinho quente no pau.

FÉ.

--

Pior que isso é imaginar que seria legal ter um lugar pra poder contar essas coisas e lembrar que você tem - e não usa há dois meses. Engraçado como na época da minha vida que eu estou mais decidido a ser um livro aberto foi a primeira vez que esse blog ficou mais de um mês sem nenhuma atualização. Posso jogar a culpa na faculdade? A faculdade comeu meus posts.

Isso e a minha pretensão de só querer postar contos aqui. Pra quê, se ninguém lê mesmo e a minha analista está em férias? Economia é tudo.

20.4.10

Moto-contínuo

Duas crianças brincando, a mais nova pentelhando a mais velha, que reclama e faz bico. Segundos de silêncio e de greve de brincadeira rompidos por um cutucão do mais velho no mais novo. Moto-contínuo.

Se eu fosse contar alguma coisa para essas crianças, como se fosse um velho barbudo e sábio de um filme de Hollywood - desses que propagam valores importantes como saber que sabedoria está sempre acompanhada de velhice e barba -, eu ia dizer que tudo o que parece grande e assustador nessa idade vai perder o tamanho com o tempo (o susto talvez continue).

Também diria que não é bom focar no grande, não. O grande só serve para tirar o foco do que realmente tem importância. O estudo, o dinheiro, a vida, tudo é um grande conjunto de grandes porras nenhumas.

Os meninos me perguntariam por quê, e eu diria que é porque o medo das provas na escola vai parecer ridículo em alguns anos (quando se estiver temendo alguma outra prova que também parecerá ridícula depois de provada).

Eu não diria tudo para esses meninos. Tem coisas que eles precisam descobrir sozinhos: que a morte assusta mas não é o pior que se enfrenta, por exemplo. Que um dia, no futuro, quando a vida separar o fictício quadril conjunto que os mantém unidos como gêmeos for separado como um machado arranca as metades de um sicômoro siamês, um dos meninos vai lembrar do outro.

O outro não vai estar morto, só distante. O menino vai chorar de saudades. A morte traz a falta, mas os momentos passados dão coisa pior. A saudade é pior do que a morte, porque transcende a morte. Porque não morre.

E, havendo outra vida depois dessa, a morte poderia ser superada e um reencontro se tornaria possível. Os mortos podem voltar, os momentos não.

Mas pra quê pensar na morte se o seu irmão acabou de te dar um peteleco?

26.3.10

Sirene

Meu avô era um homem distante, mas que me parecia muito calmo. Talvez a calma tenha sido adquirida com a idade, ou talvez tenha sido só o choque da morte dos meus pais que não tinha passado ainda. Mas éramos nós: ele, distante e trabalhando na funilaria, minha avó, doente e a melhor cozinheira que eu já conheci na minha vida, e eu, um menino que vivia com a imagem do acidente na minha cabeça.

Não guardo nenhum caderno do meu tempo de criança. As memórias ainda me chocam muito. Encontrei um por acaso, quando me mudei para um apartamento alugado que deveria significar minha liberdade – enquanto, sem saber, eu me escravizava ao aluguel. Folheando, página após página, reconhecia nos desenhos que fazia enquanto não prestava atenção nas aulas a angústia que me abateu depois do acidente. Entre um rabisco e outro, entre as lições de como Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil e os meus primeiros problemas de matemática, lá estavam meus desenhos: carros batidos, pelo menos três em cada página.

Hoje eu entendo que eram cicatrizes se formando. Cada desenho era um pedaço da casquinha que se formava enquanto eu tentava me recuperar do baque. E não era só nos cadernos, as páginas eram insuficientes para todas as cicatrizes que eu precisava formar. Lembro de ter desenhado muito nas carteiras da sala de aula, e de já ter sido muito repreendido pelas professoras por isso. Entretanto, quando as professoras chegavam mais perto e viam o metal retorcido desenhado em grafite na madeira lisa da carteira, seus rostos refletiam um misto de susto e dó. Acabavam por não brigar.

A imagem do acidente em si, nunca recordei completamente. Lembro do depois. Lembro de estar assustadíssimo no asfalto gelado daquela noite escura, olhando o carro se consumir em chamas. Eu tinha conseguido escapar – e não faço ideia de como – mas lá estavam meus pais. Queimando. Provavelmente já mortos por causa do capotamento, mas as chamas faziam questão de matar bem matado o que quer que por um acaso tivesse sobrevivido.

Sonhei muito com isso enquanto crescia. Cansei de receber abraços da minha avó – e broncas do meu avô, que precisava acordar cedo no dia seguinte – ao acordar gritando durante a noite. Os sonhos eram terríveis. Eu era a causa, eu era o assassino. Engraçado como, nos sonhos, eu nunca estava fora do carro. Eu estava dentro, e gritava, e por isso meu pai se distraía e perdia a direção. O carro não capotava, apenas irrompia em chamas subitamente. Tudo por causa do meu grito, tudo por causa da minha voz. Aos poucos, o longo cabelo loiro de minha mãe se consumia pelas labaredas, seu pescoço queimava de dentro para fora, ela me estendia a mão... e sua cabeça caía, como se tivesse sido abatida por uma guilhotina de fogo. Então meu pai me olhava com olhos de quem tem raiva, mas também de quem perdoa o algoz pelo fato do algoz ser tão ingênuo, e também morria.

Meu avô jamais conversou comigo diretamente sobre o fato. Provavelmente era tão difícil para ele quanto era para mim. Eu não teria coragem de falar sobre o acidente com meus avós, mas o irônico era como eu fazia questão de contar para cada coleguinha da escola sobre o ocorrido trágico. Aliás, era para o mais trágico que eu apelava. Era a versão do sonho que eu passava adiante, e não a não menos apavorante versão verdadeira. Eu contava como se fosse engraçado - eles me olhavam como se eu fosse forte.

De vez em quando os desenhos não bastavam, e uma desafiadora raiva surgia dentro de mim – mesmo que eu já não sofresse pelo acidente em si. O tempo já tinha jogado uma pesada pá de areia sobre aquela memória, e ela já não me doía tanto (ou tão obviamente) quanto antes. Eu já não sentia mais falta dos meus pais, nem chamava por eles durante a noite.

Cresci desenvolvendo um estranho fascínio pelo asfalto. Me machuquei muito até o fim da minha adolescência – qualquer queda já me era o suficiente para quebrar um braço ou uma perna, e eu caía muito por brincar muito na rua. Gesso envolvendo minha pele era tão comum quanto usar roupas para me esquentar em um dia frio. Não consigo calcular quantas vezes meu rosto beijou o asfalto com violência capaz de quebrar dentes.

Depois disso, com meus avós cada vez mais frágeis e dependendo de ajuda, frequentar hospitais virou uma rotina. Entre minhas fraturas e os ataques cardíacos de meu avô, descobri minha vocação. Me descobri um missionário designado a viajar entre cores: conhecer o vermelho do sangue turvo por sujeira e misturando-se com o cinza pesado do asfalto, com pedaços brancos de osso lascado que atravessava a pele roxa de um acidentado; acelerar entre luzes vermelhas e azuis que giram e gritam desesperadas pedindo passagem, a entrar na branquidão de falsa calma de um hospital entregando os restos pálidos de um sobrevivente.

Quantas vezes já me deparei com cenas tão parecidas com a minha? Quantas vezes já carreguei crianças que choravam, assustadas, no asfalto frio, condenadas a desenhar suas cicatrizes metálicas em seus cadernos por toda a sua vida? Quantas vezes eu descobri da forma mais difícil que, por mais que eu socorra os piores ferimentos, eu nunca vou poder me salvar?

De certa forma, eu já fui salvo. Eu sou um sobrevivente e é melhor não reclamar do tempo que tenho de prorrogação. Só me resta acionar a sirene e seguir minha viagem. O asfalto é mais cruel que o tempo.

3.3.10

Do trabalho para casa

Os pés doíam e ela reclamava da vida. Da casa para o trabalho, do trabalho para casa: era assim que descrevia seu cotidiano quando alguém lhe perguntava como andam as coisas.

Casa? Acordava antes das cinco horas. A sua mãe também acordava cedo, passavam quinze minutos juntas tomando café antes que a pressa as separasse; a garota para o trabalho e a mãe de volta para a cama.

Trabalho? Atendia o telefone e anotava recados. Dia após dia. Sem maiores envolvimentos, sem maiores ambições. O emprego servia para pagar algumas poucas contas e para que ela pudesse sair de casa durante o dia.

Casa? Chegava tarde demais, à noite. Todos estavam dormindo. Via o pai só aos finais de semana. De vez em quando sentia saudades, de vez em quando nem sabia quem era o homem barrigudo assistindo televisão no sofá da sala.

Era indo de um lugar para o outro que ela realmente existia. Com a roupa de trabalho, formal e com um lenço amarrado no pescoço, era uma entre muitos no coletivo. Se sentia como gado, sendo tocado de um lugar para o outro.

O ônibus era o único lugar em que sobrava tempo para fazer planos. Planejava comprar um carro, mas aí se lembrava que não sabia dirigir e teria medo demais para tentar - sem contar o tempo que era tão pouco. Pensava em morar mais perto do trabalho. Pensava em mandar uma carta pra algum programa de TV falando como era horrível estar espremida entre tantas pessoas, com janelas fechadas e com um estranho roçando na sua bunda.

No ônibus, ela era uma socióloga. No ônibus, ela era uma pensadora. No ônibus, ela era uma astronauta, ela era genial, era uma revolucionária.

Mas aí chegava a hora de desembarcar.

15.2.10

Rolocompressor

Maria da Graça dos Anjos era uma exterminadora. Obstinação era seu nome do meio, e Graça era o que ela estava disposta a vender em troca de dinheiro. Era tão, mas tão determinada a ter o mundo nas mãos que conquistava simpatia.

Sabem como é o Brasil, o frentista do posto de gasolina sempre vai achar esnobe a pessoa que chegar no carro mais caro – quem ousa querer mais ganha a reprovação de todos: “esse pensa que é melhor que os outros”. Mas Maria da Graça dos Anjos era diferente – ela acreditava tão bem que era melhor que os outros, e que era destinada a ter algo melhor do que os outros tinham que seu pensamento contaminava os que estavam a sua volta.

Quando criança, a atenção que Maria da Graça recebia não era a das outras meninas. A expressão “Que fofa!” jamais foi pronunciada perto dela. Uma vez no supermercado, agarrada na perna da mãe, passou pelo seu médico pediatra. O médico cumprimentou a mãe com um sorriso, dobrou os joelhos, passou a mão na cabeça de Maria da Graça e disse “Essa menina vai ser presidente do Brasil”. E era mais ou menos assim que o pequeno ego de Maria da Graça se criou.

Daí a obstinação. Era uma responsabilidade. Ela ia se tornar a pessoa brilhante que todos esperavam que ela viesse a ser. Não sentia solidão, não sentia medo, não sentia frio. Sentia necessidade de grandeza. Cresceu gostando de ouvir “Você é tão inteligente, já tão nova!”. O problema de envelhecer é esse, uma hora você não impressiona por saber escrever direito, não impressiona por ter cultura, não impressiona mais. Você já não é tão novo pra ser a pessoa mais nova a já ter feito alguma coisa. Pena de si mesma, era isso que Maria da Graça sentia de vez em quando.

Não iria se deixar abalar. Estudou como se o mundo acabasse amanhã. Ficou conhecida, para as turmas seguintes do cursinho, como “Rolocompressor”. Primeiro lugar em quase todos os vestibulares que prestou. Não reprovou em nenhum – e nem tentou tantos, só os mais concorridos, pra não perder tempo.

Chegara a hora de sair daquela cidade pequena onde nasceu e ir em conquista do mundo.

Era uma missão.

Maria da Graça dos Anjos já estava chegando longe. Se formou com honras, foi a oradora da turma mesmo sem ter muitos amigos – os mais próximos eram os que queriam, de alguma forma, se beneficiar da companhia de uma pessoa tão promissora. Promissora, aliás, era a palavra que mais assombrava os sonhos de Maria da Graça. Quando ela ia deixar de ser promissora para chegar, enfim, ao lugar de seu destino? Onde ficava o topo, e como ela chegaria lá?

Acabada a faculdade, acabadas as amizades da faculdade. Não resistiram ao mundo real de desemprego e concorrência – e mesmo assim, não adiantava concorrer com a Graça dos Anjos, o primeiro lugar era garantido para ela. As pessoas iam ficando para trás, e o alvo ia ficando mais próximo.

Entrou para a política, se destacou em seus projetos, se corrompeu o suficiente para subir rápido mas era esperta o suficiente para não ser descoberta. Ia ser a primeira pessoa de sua cidade a ser eleita para o Senado. O rolocompressor estava conquistando o país.

Eram pessoas cuidando de seus discursos, policiando sua imagem, planejando suas ações. Maria das Graças era o novo grande rosto da política brasileira. Era uma das poucas pessoas que ainda recebiam fé dos eleitores. Era uma grande promessa. Era o resultado da obstinação doentia que surgia. Enfim, o pagamento. Estava no seu momento de transição, de Pequeno Príncipe para Rei Leão.

Pouco antes da sua eleição, uma enchente tomou conta da sua cidade de nascimento. Nunca se vira uma catástrofe tão grande em terras brasilis. Maria da Graça tomou um avião para uma cidade próxima, para avaliar os danos, mas os danos eram inavaliáveis.

Seus colegas de escola, sua família, seus vizinhos – não sobrou ninguém. Quem não morreu em desabamentos morreu de alguma doença trazida pela água. Morreu a infância de Maria da Graça. Morreram as expectativas.

Ninguém mais torcia por Maria da Graça, pelo menos ninguém que importasse. Onde estava o pediatra que lhe carimbara o passaporte para o mundo dos importantes? Onde estava sua mãe, que morria de saudades mas fingia que não para que a filha não sofresse na capital? Onde estavam as pessoas a quem Maria da Graça prometeu ser uma gigante?

O dilúvio, por devastador que tenha sido, devolveu a graça para Maria da Graça. Para quem provar que era melhor do que todos? Sentiu-se ao mesmo tempo velha e recém-nascida. Uma página em branco, mas sem tempo a perder com rascunhos.

Mandou o partido para a puta que pariu. Jogou os bottons de sua campanha para o Senado no vaso sanitário e puxou a descarga. O vaso entupiu e o banheiro se alagou quase como a cidade natal de Maria da Graça, mas o que valia era a intenção.

Jogou os livros na água que já estava chegando à cozinha. Era seu dilúvio pessoal. O diploma também já estava boiando perto do banheiro. Largou o apartamento aberto, jogou as chaves na rua e se mandou para o interior. Buscava um lugar onde ninguém a conhecesse.

Estava tão determinada a desconstruir sua vida como tinha estado para construí-la. Na nova cidade, prestou um concurso público. Errou algumas questões de propósito, para que não desconfiassem. Mesmo assim, tirou primeiro lugar. Percebeu que estava de volta ao ambiente em que crescera, em que era melhor que todo mundo.

Mas isso não ia atrapalhar. Foi chamada para o cargo. Era a nova operadora de maquinas pesadas da prefeitura. De tão pequena que era a cidade, teve gente reclamando do cargo ser ocupado por uma mulher. Dificuldade pequena, foi fácil para Maria da Graça passar por cima disso.

Primeiro dia de trabalho. Foi designada a trabalhar no asfaltamento de uma rua. Uma sensação de realização tomou conta de Maria da Graça, a felicidade corria por seu corpo todo. Do alto do seu rolocompressor, esmagando pedra brita, Maria da Graça dos Anjos atingiu seu destino.

7.2.10

Na teoria

Sexo: não adianta, nenhum de nós é confortável com ele. Virgens, prostitutas, solteiros e casados, pais e filhos, estamos todos em agum grau desconcertados pela nossa necessidade de sexo. O ser humano tem uma demanda brutal, incontrolável, por dois tipos de contato carnal – o entre duas pessoas e o entre os dentes e a carne de um Big Mac.

Encontramos nossos refúgios, entretanto. Já que ninguém vive sem – e quem vive costuma dizer que é casado com o Espírito Santo, que ou é um fantasma ou é uma Unidade Federativa inteira, o que desacredita um pouco a abnegação toda – acabamos achando artifícios que nos permitam mergulhar no sexo sem tanta preocupação com a nossa roupa de banho.

Um exemplo disso é a A.D.D.P – a Amiga Desencanada de Plantão, aquela a quem você recorre quando precisa ir para o combate e arranjar no braço uma pessoa corajosa o suficiente para transar com você. A A.D.D.P.não compartilha das suas neuroses quanto ao sexo, ela fala sobre sexo com a naturalidade de quem fala de flores. (Nota: a A.D.D.P geralmente é do sexo feminino. Todos os homens, em geral, assumem esse papel em algum momento de suas vidas, enquanto as mulheres são A.D.D.P. Para a vida toda.)

Ela fala alto. Ela usa decote, ela está sempre com um rolo novo e uma história divertida para contar sobre aquela vez em que ela pulou a cerca para entrar numa festa concorridíssima e acabou sendo pega pelo segurança, que a comeu de quatro enquanto ela planejava a forma certa de atacar o próximo pretendente na festa.

Martina era A.D.D.P. De todas as mulheres que já tinham cruzado com ela. Mulheres que conversavam com Martina na fila do pão já a chamavam de lado pedindo dica de lubrificante e perguntando se liberar a bundinha dói. “Dói nada, com paciência, cuspe e vontade tudo se consegue”, dizia Martina. Era invejada. Como Martina podia ser tão desencanada? “Bem-resolvida”, diziam as amigas.

Primeiro que “desencanada” é provavelmente a pior palavra na língua portuguesa. A idéia de uma pessoa estar presa em um cano, conseguir por uma fatalidade sair dele e portanto estar livre das preocupações dos outros mortais é patética.

Pois a primeira vez de Martina foi uma desgraça. Uma adolescente insegura como todas as adolescentes são, teve a sorte/azar de encontrar um homem que a encantou de tal forma que ela venceu a barreira da timidez e o convidou para sair. Ele disse que na casa dele era mais confortável. Ela foi.

Filme. Beijos. Paciência. Álcool. Roupas no chão.

Martina respirou fundo e pensou “É agora”. Ele veio sobre ela, e ela fantasiara com aquele momento por toda sua pequena vida, e ele era o homem mais experiente do mundo, e ele era seu príncipe, e ele parou e pediu ajuda.

Não conseguia colocar a camisinha sozinho. “Eu nunca fiz isso antes”, disse ele, morrendo de vergonha, “espero que você entenda”. Ela entendeu. Se fez de entendida e botou a camisinha nele (tinha aprendido numa revista. Todo seu conhecimento sobre sexo vinha de revistas, ela lia pilhas e pilhas, sabia de cor milhões de maneiras de como seduzir um homem – aliás, se surpreendia com as dicas dessas revistas em como os homens eram atraídos por fantasias de tigre, chantilly na vagina e banheiras cheias de gelatina. Mas se as revistas diziam, só podia ser verdade).

Camisinha colocada, clima interrompido mas a batalha continuava. Era hora de invadir as paredes de Tróia. Martina teve, também, a sorte/azar de ter um primeiro namorado muito bem dotado. A falta de experiência dos dois fez o ato todo ser tão elegante como três elefantes dançando balé em um piso coberto por bolinhas de gude.

Machucou. Doeu. Não deu pra terminar. Martina deixou pra outro dia. “Pelo menos eu tentei”. Pelo menos ela tentou.

Mas aí aconteceu que todos os rapazes que lhe cruzavam o caminho queriam tudo de cara, tudo o que ela tivera a sorte/azar de ter dado para alguém paciente antes. Se com paciência não dava certo, imagina sem!

Só que Martina era bem informada, e continuou dando conselhos para todas as amigas que se aproximavam. Era uma revista ambulante. As amigas invejavam toda a desenvoltura de Martina para falar de sexo.

Do primeiro para cá, já passaram uns dez anos. Martina teve a sorte/azar de sobreviver todo esse tempo sem sexo. Ela já não tem muita esperança; comprou um vibrador que ainda está na gaveta, sem usar por medo de doer. Já animou dezenas de amigas: “Imagina, colega! É fácil. Respira fundo e deixa que ele cuida de tudo!”. “Não, tenta você por cima, aí você goza mais fácil!”. “Tira a cabeça do chuveirinho, deixa na entradinha um pouco, e depois solta tudo no vaso!”.

As amigas comentavam entre elas sobre como Martina devia ser uma maluca na cama. Uma devassa. Uma mulher tão bem-resolvida. Mal sabiam elas, a amiga desencanada de plantão tinha entrado pelo cano. Semi-nova e semi-virgem – mas ótima na teoria.

16.1.10

Éter

E o meu pior castigo nessa vida é ser todo feito de intenção. De boa intenção o inferno está cheio, falam. Discordo. As intenções, boas ou más, moram no limbo.

Intenções: a morada do futuro. O futuro não chega. Nenhuma intenção se realiza. Quando há realização, não houve intenção prévia. A intenção planeja, a realização faz. Não existe futuro para quem realiza. É a mão no papel lutando contra a mão na massa.

Pretendo encontrar uma pessoa que depile minhas intenções. Que me arranque a pele que veste a vergonha de ser como os outros. Que me cutuque os olhos vermelhos até que fiquem cegos e secos. Que me proíba as lágrimas.

Eu posso mudar o mundo. Eu posso mover montanhas. Eu posso, mas não vou. Eu sou cabeça (fraca, úmida), não corpo. Eu sou intento, eu sou desatento demais para efetuar minhas vontades. Eu sou vento.

É pela intenção que eu me realizo. Eu quero tudo, eu quero o mundo, eu quero agora. Eu quero ser soberano, mas me recuso a lutar pelo meu reino. Por mais jardins que eu plante, as flores que nascerão vão brotar da terra. Prefiro meus jardins suspensos de pensamento, minha flora que bóia no éter.

Eu sou você amanhã. Mas só amanhã.
Por hoje, eu sou incapaz - mas juro, minha intenção é das melhores.

5.1.10

Cuidados Médicos

No urologista:
- Mas não se preocupe, esse corrimento deve parar em duas semanas.
- Ufa. Então tá tudo bem, doutor?
- Só tomar esse comprimido por duas semanas e evitar venezuelanas desmaiadas sem camisinha.
- Fácil de falar, difícil de fazer.
- Pra terminar a consulta, o senhor está sabendo da nova campanha de higiene peniana que o governo está fazendo?
- Campanha de higiene peniana? Mas pra quê campanha, é tão prático, dá pra lavar o pinto na pia mesmo.
- Eu já li isso em algum lugar. Mas enfim, leve o panfleto contigo.

O urologista entrega um panfleto ilustrado. A imagem? Um pênis, uma barra de sabão que provavelmente é do mesmo tipo utilizado por lavadeiras que trabalham em rios e uma torneira. Apenas uma legenda salva a imagem de alguma possível conotação sexual: "ÁGUA E SABÃO: OS MELHORES AMIGOS DO SEU AMIGO".

O paciente sorri.
- Ah, verdade! São amigos mesmo. Pelo menos, são amigos do meu. Todo fim de semana, meu pênis, uma torneira e uma barra de sabão vão juntos ao cinema.
- Como?
- Meu pinto tem carteirinha de meia-entrada.
- O que seu pinto estuda?
- Higiene bucal. Quer que eu demonstre?
- Como?
- Não que seja fino como um fio dental... Quer dizer, o senhor acabou de ver.
- Seu pênis tem corrimento, é melhor que o senhor evite sexo oral desprotegido pelos próximos dias.

Desconforto.
- Uhn, era uma piada, doutor.
- E também não seria legal expôr seu pênis no cinema. Quer dizer, eu vou com meus filhos lá.
- Isso também era uma piada.
- Ufa.
- E se não fosse piada, seria num cinema pornô.
- Mas é aí mesmo que eu levo minhas crianças.

O paciente deixa passar aqueles segundos necessários para se definir se a ironia dita era mesmo ironia.
- Ah, mas e o doutor não quer que seus filhos vejam pintos?
- Não os com corrimento.
- Ah, tá.
- Cinema pornô deixa pagar meia entrada com carteirinha?
- Bom, não sei...
- É cultural, não é?
- É a primeira sílaba de cultural, sim.
- Vou mandar fazer uma pra mim.
- O senhor não é estudante.
- Me recuso a pagar dezoito reais por um cineminha. Se for contar a entrada das crianças... Meu salário não aguenta.
- O senhor leva mesmo seus filhos no cinema pornô?
- Enfim, não vamos entrar em assuntos pessoais. Só uma pergunta, o seu pênis é habilitado em higiene bucal mesmo?
- Doutor, era só uma brincadeira...
- Que pena. Acho que o meu filho está com cáries...
- Acontece nas melhores famílias.
- Mas também, cada coisa que ele come quando vai ao cinema...

Cumprimentos

Já existiu um mundo em que, guerras e traições à parte, havia mais honra entre os homens. Havia um código, um sinal universal que garantia a...