27.4.09

Fagocitose

Arre, estou farto de gente normal. Também não quero semideuses. Quero demônios por inteiro, pessoas sem medo da própria humanidade. Quero a minha porcentagem de toda a matéria negra que é maioria no universo. Quero poder vampirizar os meus demônios, sugar sua vulgaridade doce, a doçura que aprendemos a banir de nós mesmos.

O mundo não é cão-come-cão. Acredito que os cães tenham mais dignidade. Somos primitivos demais para caçar em matilha, acabamos concorrendo e perdendo a caça. Não somos muito mais inteligentes do que um anticorpo que ataca o próprio corpo pensando estar fazendo o bem. Nos fazemos mal, e adoramos. Amar é devorar o próximo pelo prazer da indigestão.

Sou como o vinho: azedo com o tempo. Torno-me intragável, mais e mais a cada dia. Meu bouquet não encontrou lábio que o merecesse no tempo de sua doçura. Agora deleito-me da distância, dos calos deixados por pequenos machucados que receberam importância demais e que permeti que doessem uma dor desnecessária.

Brincar de esfinge é deliciosamente idiota e humano. Decifra-me ou o quê? Decifro-te antes, com garfo e faca na mão. Depois você me devora de volta e ficamos todos em fagocitose. Como é prazerosa a indigestão!

Pura imagem! O que me falta falar? "Oh, sou amargo e acho bonitinho?". Só me falta gesticular com um cigarro aceso. Talvez acarinhar um gato enquanto faço a minha mais ensaiada cara de cu. Milhões de anos de evolução, dezenas de músculos no rosto, tantas expressões possíveis e eu decido usar nenhuma. Aquela mesma cara que tinha minha ancestral ameba. Medo do ridículo?

RI-DÍ-CU-LO. Demônios por inteiro, agora fico de demoniozinho de mim mesmo. Vou amar o ridículo. "Amar é o ridículo da vida", foi Fernando Pessoa? Ridículo é amar a vida. Ridícula é a vida de quem ama. Ridículo é tudo, e eu amo o que me faz rizível. Perdi a vontade de ter graça. Que a graça venha involuntariamente, que surja a graça da minha desgraça. Demorei demais para acolher o meu ridículo.

Ser gente enjôa, tentar ser semi-deus é querer virar uma estátua de mármore e quebrar na primeira vez em que algo atinge mais o "semi" do que o "deus". Não quero ser semi-nada. Já me basta ser semi-novo e não poder me trocar por outro modelo mais recente. Demônio, sim, demônio como fui proibido de ser. Divirto-me mais. Quero amores mais doídos, mais reais, menos bonitinhos. Dores de verdade, não de fachada. Experimentar a vida toda, não só as partes bonitas.

Não tente mais me decifrar. Fagocita-me, tô pedindo.

25.4.09

Lábios Ateus

Lábios lambidos
Saliva espalhada por tudo
O amor, definitivamente, não sabe ser higiênico.

Devolva-me:
- o tempo perdido
- as noites sem sono
- o Neruda que você me fez ficar sem ler, porque quis ir ao cinema
- a capacidade de sentir o aroma de perfume barato e não lembrar do seu cheiro
- o dinheiro que eu gastei em telefone
- o retrato que você roubou da minha carteira (se ainda tens, não sei, mas se tiver...)
- o tempo que eu gastei tentando entender seu gosto musical ruim
- a minha ingenuidade (que você quebrou)
- a minha ingenuidade (tinha sobrado um restinho, você fez questão)
- a minha ingenuidade (ok, eu sou patético)
- as horas gastas na frente do espelho pra me sentir bom o suficiente pra você
- o esforço que eu fiz pra que fôssemos compatíveis e tivéssemos assunto
- o meu ridículo

Pode ficar pra você:
- a minha idiotice (por ter sido tão ingênuo)
- algumas das memórias boas
- aquele boné nojento que você não tirava por nada nesse mundo
- minha dúvida sobre você ser careca e tentar esconder
- tudo o que eu te escrevi
- as cicatrizes da minha paixãozinha barata e seus reflexos metidinhos a artísticos
- (te interessa um pouco da ingenuidade que ainda ficou comigo?)

Lambi seus lábios
Lambeste os meus
Só me restaram
lábios ateus
No fim das contas
de que vale um lábio?
Lábios: os pára-choques da alma.

21.4.09

Passou

Passou batom. Passou rímel. Passou blush.
Passou fome uma semana inteirinha esperando o dia do encontro.
Passou o vestido à ferro ela mesma, com medo que a empregada queimasse.
Passou um café bem forte, sem açúcar, pra agüentar ficar em pé durante o dia.
Passou pela farmácia e comprou camisinha, só pra garantir.
Passou raiva quando o flanelinha na frente da farmácia a chamou de tia.
Passou o tempo tentando assar uma torta (que ela só ia olhar, nada de comer). Passou do ponto - de tão distraída, esqueceu do forno.
Passou as obrigações do dia seguinte para uma colega (aquelas colegas que sempre entendem).
Passou a noite inteira sentada, esperando.
A noite passou.
No dia seguinte, passou com o carro por cima do infeliz.
Passou o resto da vida com um sorriso bobo - na cadeia não se passa fome.

17.4.09

Bibliotecas

O mundo mudou, e hoje somos completamente dependentes da grande biblioteca virtual - como diria uma reportagem de televisão sobre a internet, ignorando que ninguém pega vírus numa biblioteca normal (a não ser transando no banheiro da biblioteca, e sem camisinha). O problema mesmo foi quando a internet resolveu meter a mão nas bibliotecas de verdade, aquela metida.

É prático poder renovar o livro só entrando no site da biblioteca e botando o código de barras da sua carteirinha? Prático, é. Só que livro de biblioteca não tem a mesma graça se você não lembrar no fim da tarde que hoje é o último dia para a devolução e tiver que sair correndo pra não pagar a - caríssima - multa de um real por dia de atraso.

E outra, não é mais carteirinha, é cartão. Ficou tudo magnético demais, nem carimbo o cartão leva! Lembram dos carimbos de biblioteca? De morrer de orgulho porque teve de trocar quatro vezes de carteirinha no ano letivo, porque não sobrava mais espaço pra carimbar os livros?

Sem contar na delícia de olhar o cartão pendurado na parte de trás do livro, com as datas de devolução de quem pegou o livro antes de você. Ótimo pra ficar indignado: "Como assim, ninguém empresta Na Sala com Danuza desde 1997?", e depois comentar com todo mundo que as pessoas não lêem mais nada que preste.

E os códigos? Agora toda biblioteca tem vários computadores pra você procurar o livro pelo título, e é só dar Enter para saber em qual estante o livro está. Antes não, era preciso procurar a seção de Literatura, depois de Literatura Brasileira, depois de Clássicos, e achar o livro por ordem alfabética - escravidão! Tudo naqueles corredores frios, e aquela vontade de soltar pum que só um corredor de biblioteca consegue dar.

Me surpreende mesmo é que as bibliotecárias - essas sortudas - tenham se adaptado às mudanças. Se fosse eu no lugar delas, iam me encontrar abraçado nas fotos 3x4 e na cola de bastão, me recusando a largar as carteirinhas de papel. E os carimbos, meu deus? Largava o emprego, mas não os carimbos. Ia pra casa, carimbar todos os meus livros, todas as vezes que eu lesse. "Como assim, eu não leio Tereza Batista Cansada de Guerra desde 2006?". E dá-lhe carimbo.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...