1.1.09

A Visão Incômoda

Longe, você está longe. Nessas horas fica fácil te odiar, já que a distância me faz enxergar um plano geral e sentir o cheiro dos nós da corda que nos amarra. Impossível desatar os nós entre nós sem desatar-nos. Mais fácil tesourar nossos tesouros atados.

Na minha cama, mas longe. Quilômetros de distância, um telefonema impossível. As mãos ensaiadas para darem-se nunca mais se deram. Sinto a calma de estar completamente desesperado.

É duro estar vulnerável, e eu tenho estado vulnerável há mais tempo do que eu me esforço pra lembrar. A amiga do peito arrancou-se do peito, a amiga das fotos apagou-se das fotos. O moço distante perdeu-se na distância e encontrou-se no âmago da perda. O equilíbrio tropeçou em si mesmo. O longe não se mede: caiu do coração, está longe demais para ser tocado.

Algum dos meus seiscentos sentidos me permite sentir de longe, mas a emoção é uma lupa que distorce a visão e engrandece o desfoque. O ciúme engole a vontade de conquista, troca a direção e faz o sentido perder o sentido, sentido por não ter sentimento.

Mais econômico, e minhas emoções preferem ser econômicas, é evitar o risco. Arrancar o fruto pela raíz, acentuar o que parece errado para que as contas fechem e a dívida fique mais aparente. Preciso distorcer muito, no seu caso específico. Há muito tempo você somente soma. Você me deve débitos, meu caro, para que eu possa descontar minhas falhas das suas e igualar nossas desigualdades.

Estou contente com a distância, entenda isso. É fácil imaginar o mundo daqui de onde estou. Desconfortável de tempos em tempos, nos tempos em que as pálpebras se descolorem do faz-de-conta e abrem-se para a visão. Incômoda visão, lúcida demais pra minha inteligência emocional frágil.

Não vejo mais amigos na rua, talvez por não prestar atenção suficiente durante minhas caminhadas, talvez por não prestar atenção suficiente aos meus amigos. Desconheci meus conhecidos, impus minha distância. Por pura economia. Pão-durice emocional, um muquirana do espírito. A minha alma líquida vazou aos litros e esgotou-se.

Acaba o combustível e a força para tentar me aproximar. Longe, você está longe. Por deus, EU estou longe. Já não me vejo há muito tempo. Alguém me telefona e diz ter me visto em algum lugar em que não lembro ter estado. Estou distante de mim há tanto tempo que é bem possível que eu realmente tenha passado por lá e deixado de me contar. Perdi a intimidade com a meu íntimo.

Os cômodos estão incômodos, as paredes se contorcem e alimentam minha claustrofobia. Descanso ao trabalhar minha incapacidade de descansar. Dou razão à distância, ela é mais sábia do que eu. Jogo-me fora, estou obsoleto em frente a ela. Recolho-me.

Respiro fundo e volto para casa. Estou em lugar nenhum e já cheguei longe demais.

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...