16.12.09

Culpa dela

Lá vem a noiva, a bela noiva.
A noiva que nunca imaginou que uma limousine pudesse ser tão claustrofóbica. O vestido sufocando-lhe as pernas e o corsete obrigando as costelas a fazerem agressivas cócegas nos pulmões - cócegas que não faziam riar, cócegas que lhe feriam. Ela queria mesmo era chamar a mãe, e chorar no seu colo.
Não adiantaria nada, ela já tinha chorado no colo da mãe na noite anterior. A mãe conseguiu acalmá-la e convencê-la de que o nervosismo era natural, obrigatório antes de um acontecimento tão importante na vida de uma mulher.
De uma mulher, só de uma mulher.
Não se pensa no noivo numa hora dessas? Bem, o noivo não devia ter um corsete lhe apertando. É mais fácil manter a calma quando o diafragma não está amortecido.
A noiva nunca ligou muito para o noivo, mesmo. Ela se sentiu solitária a vida toda, não podia se dar ao luxo de dispensar tão incrível cavalheiro, o homem ligeiramente barrigudo mas encarável, com uma feiúra que, na luz certa, passava por beleza. Ele estava ali e a queria. Isso bastava.
Bastava?

Lá vem a noiva, a bela noiva.
A noiva que nunca imaginou que maquiagem pudesse fazer tanto calor. "Ainda bem que existe maquiagem à prova de água", pensou ela enquanto o buço jorrava litros de lágrima que não podia sair pelos olhos.
A noiva que pagou o aluguel do vestido em prestação. O noivo era rico, mas nunca lhe deu muitos presentes. Só alguma coisa que mostrasse como o casamento seria um bom negócio. "Depois do casamento", se iludia a noiva, "eu recupero o investimento".
Lá vem a noiva, a prudente noiva.
Aquela que sabia investir até no casamento. Aquela que sabia que se aprende a amar, e que paixões são perda de tempo. Paixões são coisa de gente carente. Não que ela não fosse carente, mas a carência sabia que nunca seria extinta e sabia que dinheiro não é tão fácil assim.

Lá vem a noiva.
A limousine estacionada a duas quadras da igreja. O noivo se atrasou.
Pela primeira vez, uma emoção direcionada a ele. Raiva. O noivo era cortês, fazia esforço para agradá-la na cama - ela que não fazia muito esforço pra gostar -, era polido e distinto. Pontual. Sempre pontual.
Ela que tinha o direito de se atrasar, oras. Não ele! Ela que era a esperta da história, não ele! Ele era a pessoa disposta a pagar pelo produto "Noiva Perfeita", e ele deveria desempenhar o papel "Marido ideal". O "Marido Ideal" não se atrasa, pombas.

Lá vem o noivo.
E a noiva se frustra. Seria tão bom se ele não tivesse aparecido. Mas apareceu. A limousine ruma para a igreja.
Hora de fechar o negócio. Ela capricha na cara de princesa da Disney. Torce para que ninguém perceba o Nilo que brota do seu buço.

"Eu aceito".

Ela aceitou a mentira de que ele era o príncipe encantado.
Ela fingiu ter vocação pra Cinderella.
Ainda hoje, ela diz que não foi culpa dela.

27.11.09

Astronauta

Acontece que sempre que eu olho pela janela tem um avião passando.
São muitos aviões passando todo dia, e cada um vai para um lugar diferente. E eu não consigo nem sair do apartamento!
O décimo-sétimo andar do prédio-poleiro me parece suficiente para viver em paz, quando eu não lembro que divido meu espaço com gente que ouve cada grito que eu solto quando me sinto sozinho demais e o silêncio me aperta a faringe.

É pra não parecer sozinho. Olha só, eu rio! Os vizinhos sabem que eu rio. Tem dias que eu chego em casa e rio bem alto, por horas a fio. É pra eles saberem que eu sou feliz. Só que ninguém é feliz assim, de ser só feliz, então tem dias que eu também choro. Mas eu choro sempre bem baixinho, porque bem baixinho é o meu jeito de chorar. Eu choro bem baixinho porque eu sei que se eu chorasse bem alto, eu ia incomodar os outros.

Aí, pra que saibam que eu não sou feliz o tempo todo e que eu não sou doente de só ficar em casa rindo, eu dou uns soluços bem altos. Aí eles percebem.

E pra não pensarem que é solidão, de vez em quando eu pego o celular e vou pra janela pra conversar com alguém. Meu celular não tem créditos. Não tem nem bateria, acho. Não lembro quando foi a última vez que conversei com alguém. Mas eu estou ali, todos os dias, meia hora na janela falando ao telefone.

"Estou com saudades!", eu me despeço bem alto. "Mal posso esperar pra te ver de novo". E desligo de mentirinha.
Aí eles sabem que eu gosto de alguém. E que eu sinto saudades.
Mal sabem eles que eu não gosto, nem sinto saudades - simplesmente porque eu não conheço o outro lado da linha. Não há outro lado na linha.

E quando eu desligo o celular de mentirinha, eu olho pra cima e vejo um avião passando.

Sempre que eu olho pela janela tem um avião passando. E ele passa por cima de mim, me atropelando sem saber.
Sem saber que um dia eu vou sair desse apartamento.
Que um dia eu vou gostar de alguém de verdade, e sentir saudades de verdade, e pegar um avião e ir pra bem longe, pra bem perto de onde a saudade apontar.

E aí o apartamento vai me parecer tão pequeno.
E depois de um tempo, o mundo vai me aparecer tão pequeno.
E depois de mais tempo, aviões não vão mais me bastar.

Aí eu viro astronauta, e fujo desse planeta pra nunca mais voltar.

26.11.09

Humberto

Como era homem que o mundo pediu pra nascer naquele exato minuto, naquela cidade árida do Centro-Oeste? Porque o resultado do pedido saiu muito estranho.

Não foi erro na fôrma, nasceu um entre muitos iguais. Mas nasceu estragadinho. Como quando você vai ao supermercado e está escolhendo pepinos, e vê aquele pepino lindo, verde e pepinesco. Vai apalpar o pepino (não me pergunte o porquê de eu ter escolhido um pepino, sometimes a cucumber is just a cucumber), e percebe o pepino tem uma bolota pepínica grudada ao lado. Nem o psicanalista mais bem-resolvido compraria aquele símbolo fálico. Nada de errado com o pepino, mas é estranho.

Estou dando a impressão de que Humberto era um machão, comparando-o com pepinos desse jeito. Também não era efeminado, sua voz grossa de assustar, sua presença estranha. Mas tinha uma delicadeza mais do que feminina nos modos.

Humberto não queria desagradar. É só acordar com a pá virada um dia para entender como as pessoas desagradam. As pessoas não dizem bom-dia, as pessoas não pedem favor, as pessoas saem desleixadas, as pessoas... são pessoas demais e gente de menos.

E usou toda a força com a qual nasceu para forjar uma armadura. Endureceu (não por dentro, porque permanecia frágil, conscientemente frágil, mas Humberto pensava que podia esconder isso dos outros). Endureceu de medo.

Humberto nunca tinha dançado, não em público. Às vezes, quando ainda era criança, dançava em frente à televisão quando via algum artista. Depois odiava o artista. Odiava! Maldito artista! Por quê o artista podia dançar e ele não?

Ele não dançava.

Mas quarenta anos passam como passa uma agulha sobre um disco de vinil – às vezes travando, às vezes furando, mas passando. Humberto engessado, os anos passando.

Mas Humberto quis dançar. Foda-se o Centro-Oeste, pensou ele – mas pensou com outras palavras, foder não fazia parte de seu vocabulário ou de seu repertório de atitudes. Juntou o dinheiro que ganhava na Vigilância Sanitária – seu empolgante emprego de segunda a sexta-feira, quando ele não era o heróico Homem de Gesso, que não sentia nem movia nem dançava – e comprou uma passagem para São Paulo.

Desconhecidos. A Revolução, como Humberto chamou o acontecido daquele dia em diante, foi uma festa. A primeira festa de Humberto. Desconhecidos assustados pelo jeito engessado de ser. Desconhecidos fascinados pela falta de desenvoltura social. Desconhecidos que não davam a mínima. Paulistas.

A música, alta e estranha. As mulheres, girafas, altas e estranhas. Os homens, correndo seminus e pulando em piscinas, estranhos. Humberto se sentiu em casa.

Humberto dançou! E quem disse que ele não sabia dançar?
Bom, quem disse isso provavelmente estava certo. Ele não sabia, mas o que importava era dançar, não importava como.

E o grande feito do Homem de Gesso foi ter se deixado quebrar.
A carcaça pode até voltar com o tempo, pra evitar a criptonita do dia-a-dia. Mas Humberto era um super-herói, e ele dançava.

Mesmo sendo um pepino deformado.

23.11.09

Aos meus treze anos

Sabe aqueles sonhos que você tem? O chato do tempo é que ele consegue dissolver a graça desses sonhos. Maturidade é isso, e ela nunca acaba. A cada ano você repete o ritual de achar o sonho anterior estapafúrdio.

E o que é que decide por nós? A sorte. E não se preocupe, a sorte está do seu lado. Não na hora, não de um jeito que você bata o olho e diga "Veja só, quanta sorte!". Mas é aquela velha história do bordado, depois de um tempo a sorte explica como foi que aconteceu e como foi que aquilo foi melhor pra você.

Mas sabe a incerteza? Ah, querido. Ela nunca passa.
Então. Sobre aqueles sonhos: não foram ainda. Talvez nunca venham a ser. Talvez venhamos a nos acostumar com isso (vamos ver daqui a alguns anos, na minha carta aos meus vinte e nove).

E quando o tempo passa e a gente está disposto a largar algumas mãos e segurar outras, simplesmente para largá-las depois, a gente aprende. E aprender é ótimo. O ruim é que é um conhecimento de dentro, de passado, completamente inútil para o presente. A gente pode acumular todo o conhecimento do mundo, mas quer saber? A gente nunca aprende. Nunca mesmo.

Então não posso te dar conselhos. Só evite cortar o cabelo sozinho, você vai ver como fica a parte de trás daqui a algum tempo e passar vergonha retroativa. E não fume na frente dos outros, você ainda não sabe fumar. Quando aprender, vai passar vergonha retroativa. E punheta não dá espinha.

Do eu,

17.11.09

Bárbara

Bárbara sentava na minha frente, e tinha o sobrenome esquisito (vindo de um pai desconhecido). Era tão gordinha e esquisita quanto uma garota de sete anos pode ser. Eram os anos noventa, e ainda assim o cabelo dela era estranho. Crespo, grande, de um loiro que eu nunca tinha visto antes. Um loiro com vergonha de ser loiro. Um loiro que faria Marilyn Monroe sair correndo de medo.

A santíssima trindade: Bárbara, Isabela e Fernanda. Loira esquisita, Morena magra demais e Loira que dá vontade de casar. A hierarquia era a seguinte: Fernanda seria a minha esposa-troféu. Todos os garotos da sala eram completamente enfeitiçados por ela e sua inocente propensão a nos castrar. Com a maturidade que eu tinha aos seis anos, era lógico que ela ia cair no meu papo.

Mas se ela não caísse, e fosse acabar nos braços de um outro homem, um outro homem de seis anos muito mais rico, com muito mais Hot Wheels que eu, tudo bem. Isabela me adorava. Seu cabelo era liso e esnobe, preto como um pneu de Hot Wheels (perdoem minhas metáforas, eu só tinha seis anos de idade e uns cinco de poesia - aliás, é muito difícil arranjar uma rima para Hot Wheels).

Enfim, Isabela era uma segunda opção simplesmente por Fernanda ser um avião, com sua beleza impossível de atingir. Uma miss em miniatura. Mas calma, estou me deixando levar pela emoção. O planejamento aqui deveria ser lógico. Então, na impossibilidade de Fernanda e eu casarmos antes de chegar a primeira série, Isabela seria o caminho a seguir.

Ela era magra demais. Era a garota com os menores peitos do jardim de infância. Ela usava sutiã. Isso me irritava e atraía. Por debaixo do uniforme da escolinha, uns fiapinhos de tecido cor-de-rosa. Nunca entendi isso direito. O que mais me atraía em Isabela eram suas bonecas. Barbies. Barbies magérrimas como Isabela era.

Mas se Isabela e eu nos divorciássemos, eu sabia que Bárbara estaria me esperando. Gordinha, esquisita, loiro-urubu nos cabelos. Minha mãe era gorda, Bárbara era gorda e maternal (aliás, nossa relação começou no maternal mesmo). Bárbara era minha última opção, mas seríamos felizes juntos. Ela e seu amor por mim, eu e minha recém-adquirida humildade e renúncia pelos desejos por beleza exagerada.

Minha única confidente nesses planos era Jandira, a empregada lá de casa, o carinho em forma de pessoa, pessoa em forma de rugas e pele maltratada. Jandira me esperava todos os dias com um copo de Nescau e um sorriso com dentes a menos.

Até o dia em que eu cheguei em casa e Jandira não estava lá. Minha mãe me explicou, enquanto eu olhava perplexo e também com dentes a menos, que o dinheiro estava difícil e que Jandira teve que ir pra outro lugar. Acho que mordi minha mãe, mas não lembro muito bem, tamanho o choque que levei com a notícia.

Nada que abalasse meus planos de casamento com Fernanda, ou quem sabe Isabela, ou ainda Bárbara se tudo desse errado. Até o dia em que eu saí da escola e encontrei Jandira no portão. Ela tinha voltado! Corri para abraçá-la. Ela disse que estava com saudades e que sempre lembrava de mim no emprego novo.

O emprego novo? Bárbara correu portão afora, também para os braços de Jandira. Mulher venenosa, tinha roubado minha babá.

Acho que foi por aí que eu me apaixonei.

14.11.09

A óbvia porta

Assustado, ele me perguntou:
- Como você sabe que eu sou gay?

Pensei em uma forma de explicar.
- Como você sabe que uma porta é uma porta?
- Basta olhar para ela.
- Então.
- Não pode ser tão óbvio. Eu não sou tão óbvio.

As feições masculinas estavam lá, a voz grossa, os pêlos. A chucrice. Mas eu conseguia enxergar, eu conseguia enxergar.
- Olha essa porta - e apontei a porta de saída.
- O que tem?
- Ela é da cor da parede.
- Sim?
- Ela está na mesma linha reta que a parede.
- Não estou te entendendo.
- Ela está pregada na parede, pelo amor de deus.
- Onde você quer chegar com isso?

Arrematei:
- Ela continua sendo uma porta. Uma óbvia porta. Por mais que tenha tudo pra se confundir com a parede;
- Eu não sou uma porta.
- Porque não se deixa abrir. Mas deixa eu te dizer uma coisa, meu amigo: uma porta fechada perde completamente a utilidade.

Aí a gente fodeu.

7.10.09

O Rei do Penico

A vida era uma linda sucessão de descobertas divertidas até o momento da descoberta não-divertida que me mudou a vida: do alto do meu penico, eu dominava o mundo.

Só podia, só assim se explicava a aflição da minha família para que eu saísse dali: minha mãe, meu pai, minha avó, todos suplicantes, ajoelhados, falando "Vamos lá, campeão, você consegue! É só empurrar!". Isso no começo, lógico. Depois de alguns minutos de insistência, porém, não suportavam mais o meu olhar condescendente de quem manda, e tentavam usar de tirania. "Se você não fizer agora e quiser vir depois, eu não te trago!".

Bobagem deles. Era eu quem fazia as regras do jogo. Não me levavam depois? Tudo bem. Mas no momento que me esquecessem sem fralda, era a hora do ataque. Bombardeio químico. Não me importava em nada com o trabalho que eles (eles, o inimigo) teriam para lavar minhas calçolas.

O poder traz desafios, meus caros. Mas eu sempre fui meio Napoleão do meu bumbum, e conquistava outros territórios. Não me bastava o penico. Eu queria o mundo. O tapete de sala. O vaso de plantas na sala de jantar. Nenhuma terra era impossível para o meu domínio. Só não atingi outros continentes por uma questão de logística.

Aliás, talvez não tenha conquistado outros continentes por uma questão de incontinência, mesmo. Quem diria que contrair o esfíncter seria tão difícil. Tudo bem, eu sou persistente. Mamãe implora para que eu vá. Não vou. Um bom governante sabe resistir aos apelos do povo, quando estes não lhe são interessantes. Com toda a segurança do mundo, eu seguro.

É difícil a ponto de deixar escapar uns punzinhos, e quem não deixa? Mas eu no máximo disfarço com um sorriso besta - não tanto pelo pum, mais pelo rosto esperançoso de mamãe, que esperava uma manifestação mais concreta do meu poderio.

Mas tudo na vida muda e, talvez por alguma atitude relapsa no meu governo, fui transferido para o vaso sanitário. Pensei ter sido promovido, mas, que nada. É um reino de vários reis. Sou um mero vassalo do meu intestino.

Nada que tenha me irritado muito, até o dia em que mandaram que eu parasse de brincar com meu cetro na frente das visitas.

11.9.09

Diesel

Era um daqueles momentos em que você percebe que tem 19 anos e se sente velho. E se sente culpado por se sentir velho, sabendo que em cinquenta anos você vai olhar pra trás e rir do sentimento de agora. E talvez se sentir muito mais jovem do que você está se sentindo.

O pior de estar num momento ridículo é estar consciente do ridículo do momento. É como elevar o ridículo ao quadrado. Aí você apalpa o ridículo como se ele estivesse completamente fora de você, como se isso lhe excluísse dele, e tenta passar adiante ao próximo momento de sensatez.

Só que naquele dia, ele apalpou o ridículo, sentiu como o ridículo estava maduro, e tascou-lhe uma mordida. O fruto da árvore do conhecimento do que é ridículo. Naquele momento, apercebeu-se de como o ridículo era suculento. Se rendeu ao momento.

Juntou umas poucas coisas e correu pra beira da estrada. Dedo esticado, mão balançando. Sabe por quê os caroneiros balançam a mão tão vigorosamente? Para não perceberem que tremem. O dedo esticado pra apontar o caminho que se finge saber. Ele não se dava conta do nervoso. Sabia do passo que estava dando. Sabia que podia ser assaltado, seqüestrado, assassinado. Estuprado não, porque no cu não passava uma agulha. Sabia que podia dar tudo errado.

Mas havia uma neblina de calma na sua vista que permitia seguir com o plano de viajar sem planos. Não precisou esperar muito: logo um caminhão encostou, com seu motorista barbudo de braço esquerdo vermelhíssimo, o olhar de quem não sabe o que é dormir direito.

Embarcou. Caroneiro inexperiente, pensou que precisava puxar assunto. Ainda não tinha se acostumado com a música da estrada, com a percussão dos pneus pulando nos buracos do asfalto. Com a poesia do cheiro de óleo diesel.
- Tá quente, né?

O caminhoneiro se deixou levar pelo papo furado.
- Pra caralho.

Muito comunicativo, ele. O caroneiro fez esforço:
- Se bobear, chove no fim do dia.
- Se bobear chove. - e coçou a barba.
- Gosta de dirigir com chuva?

Não teve resposta.
- Gosta de dirigir com chuva?

Mais alguns segundos de silêncio, até que o caminhoneiro fez um movimento súbito e abraçou o volante com as mãos grossas. O caroneiro percebeu que não fazia sentido distrair um homem que já caía de sono e ainda dirigia. Tentou respirar um pouco daquela calma que sentiu antes da carona e ficou observando a estrada.

E se tocou que o que fazia sentido ali era a estrada. Não eram as cidades pelas quais passaria, não eram as paisagens que encontraria. Era a BR, era o asfalto e o pó. Era o diesel.

Começou sem destino, esperando encontrar um no meio do caminho. Só pra perceber que destino é uma coisa completamente desnecessária. Descia aqui, chacoalhava a mão e subia em outro carro. Em outro caminhão. Em outra vida.

Quem ia de carro, sozinho, dava carona com um medo só superado pela solidão extrema que justificava parar e acolher um completo desconhecido. Algumas dessas pessoas até que queria que o desconhecido fosse malvado, queria sofrer uma malvadeza, só pra não precisar continuar enfrentando a estrada.

Mas a cada carona ele explicava, sem precisar de mais do que olhar pra frente, que a estrada era cheia de ensinamentos. Não uma professora, professoras mastigam demais. A estrada era um livro. E ele era um autodidata da estrada.

E foi vivendo desse jeito: sem parar em lugar nenhum, só em movimento. Faixas brancas e amarelas que se sucediam sem fim. A cada dia percebendo como foi ingênuo no dia anterior.

A insensatez que deu início à viagem fez sentido.

Morreu um tempo depois, num acidente. Rosto e asfalto próximos e espalhados, como se fossem uma coisa só. Como um amante que morre num momento de clímax. Não chegou a experimentar a velhice, e nunca mais se sentiu velho, a estrada não envelhece. No fundo da boca esmagada, um gostinho de ridículo.

A estrada sentiu saudades, mas seguiu em frente.

11.8.09

Farinha

Estou sendo perseguido. Eu vejo minha sombra e eu vejo minha imagem espelhada nos vidros, e eu sei que isso me persegue. Eu lembro da minha família, ela também me persegue.

O meu futuro me persegue muito. Ele me caça, ele quer me ver morto. Ele quer repetir a história desgraçada de tanta gente que veio antes. Gente que fez rimas bonitas e que trabalhou das oito às seis, e que recebia salário e que se preocupava com o que os outros pensavam.

Viraram todos farinha. A farinha me persegue. A farinha quer me alimentar, quer que eu vire tão pó quanto eles. Não existe forma de fugir do pó, mas dos pós que eu possa ser, que não me torne farinha. Que seja cocaína, que seja glitter. Que seja proibido.

A atmosfera é azul e etérea, nublada com suspeita e ingenuidade. Eu estou escondido em uma casa abandonada, porque estou sendo perseguido. Aqui, debaixo dessa mesa, estou seguro. (Não seguro do que me persegue, mas seguro do que eu penso. É como dormir assustado com um ladrão querendo pular a janela, eu puxo o cobertor o mais alto possível e escondo o rosto. Eu me rendo, eu combino com o ladrão "Venha aqui, roube o que quiser, eu finjo que estou dormindo e você não me mata, e finge que acredita no meu sono e finge que não ouve os meus soluços",)

Eu me obrigo a ficar coberto, eu não posso ser visto. Eu estou sendo perseguido, bolas. O céu está lá fora, e está doido pra me atacar. Ele quer me arrancar pedaços, ele quer que eu ache as estrelas bonitas como todos os mortais acham. Não vou achar, As estrelas são feias.

As estrelas são poucas, elas não são suficientes, elas não me impressionam. Elas mal brilham. Elas não me impressionam. Eu não sou mortal, eu não me impressiono com as estrelas. As estrelas são repetitivas, elas não podem me hipnotizar.

Por não ser mortal me escondo, por não ser mortal me protejo. Estão me perseguindo e querem me matar.

28.7.09

Hortelã para Cristo

E fui tentando fazer as coisas de sempre de um modo diferente. De algum modo inspirado na minha superstição de coisas pequenas - grudar chiclete na cruz é comigo mesmo, mas e se ontem eu grudei um chiclete vermelho nela e fui assaltado? Hoje, só pra garantir, vou grudar um verde. Hortelã para Cristo.

É como começar um texto pelo título: os títulos são rígidos, os textos são fluidos. Toda a fluidez do texto precisa se ancorar na rigidez do título. Palavras lânguidas, períodos infindáveis, emoções impossíveis de descrever descritas palavra por palavra só por presunção de quem escreve? Prenda-as a um título sórdido e tudo está remediado. Em algum lugar se cria uma ironia que justifica qualquer baboseira dita.

Deu certo? Repita o chiclete verde na cruz. Deu certo duas vezes, na terceira não? Veja, é preciso saber construir superstições. O que mudou de um dia pro outro que você não achou interferir? Alguma coisa interferiu.

Fez sexo oral no dia anterior? O chiclete tem o efeito diferente nesse caso. Você grudou o chiclete na cruz de cima para baixo ou de baixo para cima? Importantíssimo. Guarde os detalhes, boas superstições se fazem nos detalhes.

Tente jogar uma pedra num gato preto na minha frente pra ver se eu não te atiro uma pedra bem maior, na nuca. Superstições não podem envolver animais. Mantenha-se em detalhes que não possuem vida.

Medo de ser assaltado? Logo antes de passar pelos dois simpáticos meninos maltrapilhos que te esperam com a mão no bolso na esquina, faça quatorze minissinais-da-cruz com o indicador da mão direita em uma pequena superfície do seu corpo. Mantenha a discrição. Cuidado, fazer quatorze minissinais com o fura-bolo pode ser fatal. Fazer catorze minissinais, o apocalipse.

(Não precisa ser cristão para fazer o ritual. Dispa-se dos seus preconceitos religiosos, estamos falando de segurança pública!)

Um bom sistema de compensação é muito importante. Quando desequilibrar as suas energias com uma superstição mal executada, seja ligeiro em repará-la com alguma ação semelhante, mas de valor contrário. Explico: Durante um minissinal-da-cruz, você topou com o pé esquerdo no meio fio. O que fazer? Dê um jeito de topar também o pé direito. Da mesma forma, na mesma intensidade. Outro minissinal (agora sim, com o indicador da mão esquerda, pra contrabalançar), e volte ao ritual anterior.

Acumulo milhões dessas superstições pequenininhas. Já me disseram que eu tenho TOC. Eu respondi '-TOC, quem é?'. Só pra completar a frase. Pra bom entendedor, meia palavra basta. Para um supersticioso, nada de deixar a frase pela metade.

Me ocorre também que grudar chicletes na cruz pode ser uma ótima maneira de utilizar chicletes mascados, inúteis para reaproveitamento ou reciclagem.

(Pequena pausa pra contar de uma vez que fui a um restaurante árabe e fui recomendado pelo dono do estabelecimento a comprar um chiclete sabor pimenta, que segundo ele era uma maravilha. Obedeci e adorei, adoro pimenta. Também segundo o dono, se eu guardasse o chiclete enrolado num papelzinho na geladeira, no dia seguinte o sabor voltaria. Fiz a experiência - o gosto não voltou. Árabe também entra no balaio popular de que judeu é pão-duro? Será melhor corrigir a fala popular e mudar nosso preconceito para 'proveninente do oriente-médio pão-duro'? É importante no Brasil de hoje termos preconceitos que não sejam limitados por fronteiras.)

Retomando minha teoria: grudando todos os nossos chicletes mastigados em cruzes, formaríamos gigantescas cruzes. Um símbolo da nova cultura brasileira. A fé, a fé de Aleijadinho, a fé dos nossos artistas interioranos desconhecidos, a fé nas megacruzes de chiclete.

Servem de ponto turístico e pra contrabalançar os minissinais-da-cruz que eu faço cada vez mais, com medo de ser assaltado.

15.7.09

A Gorda

Como quem descascava uma mexerica, a gorda procurava amor. Pedacinho por pedacinho da casca rasgada e arrancada, a acidez sentida por debaixo das unhas, a avidez de engolir os gomos. A gorda era gorda de tanto amor que tinha para dar.

Se apaixonava, vez em quando. Por alguém acessível, ninguém que fosse fora de seu alcance (não há limites pra sonhar? experimente ser gorda e sonhar com um namorado lindo como o da sua amiga magra). É como se as pessoas se separassem em camadas de beleza, tolerando pessoas de nível semelhante, ignorando os intocáveis feios e fingindo não sonhar possuir alguém superior.

Sem hipocrisia, sem essa de todos somos iguais. Alguém mais feio que você tem chance contigo? Honestamente? Sem ter muitos dígitos na conta bancária? E esse era o problema da gorda, ela não sabia fingir. Não sabia fingir que não queria aquelas pessoas tão inalcançáveis, as bonitas. Não ousava quebrar as regras, ela não interagia com os mais bonitos - eles a excluiriam. Até as amigas, as amigas eram todas tão feias quanto. A diferença da gorda para com as amigas - algumas também gordas - era que ela não aceitava a própria camada.

Os bonitos são os magros, não são? Ela não era magra. Os bonitos são os magros, não são? As amigas tinham namorados feios. A gorda não queria um namorado feio. Qual o sentido de namorar se não o de contemplar uma beleza, mesmo que só você a veja, na outra pessoa? E a gorda, azarada. só via a beleza no que todos concordavam ser belo.

Na casa da gorda, dois cachorros. Um era de raça, um amor. Brincava, corria, uma simpatia, não havia quem não gostasse. O outro, vira-lata, fora socorrido pela família depois de ser atropelado e que, por esquecimento, acabou ficando ali mesmo. Um poço de carência, o vira-lata. Chorava alto, pulava em qualquer um que chegasse perto, implorava atenção.

A gorda amava o de raça sinceramente, porque este se fizera amar. O vira-lata era desprezado pela família inteira, mas a gorda também o amava. Por obrigação. Os olhos pedintes do vira-lata refletiam o olhar desesperado por amor da gorda. Era uma corda-bamba, porque se identificar com um vira-lata carente não é tão gostoso assim: ela odiava o vira-lata, quando esquecia que devia amá-lo. Cachorro mais insolente, chato, pidão.

Tinha um amor que amava há algum tempo, porque de vez em quando a gorda via beleza em alguém do seu mesmo nível, sem perceber que caía na armadilha em que suas amigas já haviam caído. Só um. Ele era magro, e ela amava isso a respeito dele. Tinha um corpo quase bonito, uma postura quase elegante. O rosto era um desastre, mas até que os dentões tinham seu charme.

Conheceram-se num ônibus, que ela pegou pra ver uma tia no interior. Os dois sentaram lado a lado e ele ousou puxar papo. Pouco depois, consumida por desejo e vontade de transigir, ela se entregou pela primeira vez ali mesmo, o banco de ônibus testemunha de umas poucas gotas de sangue e alguns gemidos abafados.

Trocaram telefones, mas nunca voltaram a se encontrar. Conversavam longamente ao telefone, fantasiando um reencontro. Combinaram casar. Combinaram que começariam uma vida juntos, e ela levaria o vira-lata (até os vira-latas merecem um dia de protagonista). Com o tempo as ligações foram ficando esparsas, e eles se perderam numa curva que a vida deu. Coincidências não resistem ao destino.

Mesmo muito depois, ela se lembrava. Ela não foi ignorada. Ela não foi sempre só a gorda. Ela foi amada. (Se ele realmente a amou, não importa. Talvez tenha amado. De qualquer forma, a gorda acreditava sinceramente nas memórias).

Quando, depois disso, recebia uma proposta amorosa de alguém, a resposta padrão era não. O amor - que ela já tinha experenciado, pensava - aparece, ele não precisa de propostas. Ah, e quando ele aparece são horas no telefone contando todos os defeitos que tem, pra que o outro diga "Você não é assim" e você sobe às nuvens, estufado pelas ilusões macias que ouviu. O outro, coitado, pensa que você é perfeito. Você, esperto, sabe que o outro é perfeito, e de todas as formas tenta evitar que ele descubra suas verdadeiras imperfeições.

Foi visitar a tia novamente, muitos anos depois. A tia não tinha importância na sua vida, era só uma tia, e a gorda não se importaria se ela fosse só mais uma tia no porta-retratos da estante. Era a viagem que tinha valor, as horas no ônibus lembrando da sensação de roçar silenciosamente no banco suado, a vez que fora amada. A única vez.

Na casa da tia, abriu um jornal esperando que o dia passasse rápido, para entrar no ônibus novamente. Na coluna social, o garoto do ônibus casando com uma outra mulher. Ainda mais gorda. A gorda se sentiu traída. "Tudo bem que eu não sou tudo isso, mas me trocar pela ainda mais gorda?". Era pior que traição, era trair e humilhar. Chorou no banheiro, enquanto passava grossas camadas de batom nos lábios gordos, tentando parecer revigorada. Ficou parecendo uma palhaça, os olhos vermelhos combinando com a boca. A palhaça mais triste que já fora vista.

Voltou para casa, com nojo do ônibus, um enjôo horrível que insistia em fazê-la suar no banco, lembrando-a mais ainda do dia em que fora usada (não, não fora amada, pensava ela, fora usava, roubada, profanada); Chegando, foi cumprimentada alegremente pelo cachorro de raça. A gorda se ajoelhou, olhou para os seus olhos orgulhosos de cão comprado, encheu-se de raiva e atacou o cachorro com um soco. Soco mesmo, desses dados em cara de gente. Com força, bem no focinho idiota do cachorro. Como era arrogante! Pois era só um cachorro, não devia ser arrogante.

Enquanto olhava o cachorro de raça tentar, perplexo, se reerguer, sentiu uma forte dor no braço. Era o vira-lata, com olhos de fúria que ela nunca tinha visto antes, defendendo o amigo. Puxou o braço, e o vira-lata parecia ter voltado ao normal, pidão e carente, como se nada tivesse acontecido. Abanava o rabo e chorava, o pênis exposto pelo cio.

A gorda cobre o braço como pode, algum sangue escorre. A mordida não fora tão profunda.

Puxou o vira-lata direto pelo pescoço, sem o levantar do chão, e o trouxe para dentro da casa. Era a primeira vez que entrava na casa, lugar antes reservado para as pessoas e cachorros de raça. Foram para o quarto. O cachorro assustado, tentava acompanhar a velocidade da dona, mas as patas não conseguiam direito e ele era arrastado.

Ela chorava. As lágrimas escorriam pelo canto dos olhos vermelhos inchados, lambiam suas bochechas vermelhas e gordas e morriam nos lábios, borrando o batom em sua boca vermelha e pintando de vermelho também seu queixo (o primeiro de seus vários queixos de gorda).

Lembrou dos doze anos de idade. Na escola, escutou sem querer um professor dizendo "Coitada dela, ela tem um rosto tão bonito, pena que é gorda". Nunca ouviu alguém falar "Coitada de fulana, tem um rosto tão bonito, pena que ela é magra demais". Gordas sempre tem o rosto bonito.

Arrancou as roupas do corpo e puxou o vira-lata para cima de si. O cachorro, instintivo, penetrou-a com força. Ela gritou de dor. Ela também não entendia. O cachorro assustado com a atenção inesperada e com o grito da dona, chorava. A gorda, sem condições de pensar, gemia. Sentia nas canelas gordas que quase não existiam (pareciam uma extensão das coxas, que só terminavam em pés enormes e roliços que lembravam patas de elefante) o peso das patas do cachorro, o pêlo sarnento dele se misturando com a pele dela.

O cachorro é o melhor amigo do homem, e ela estava confusa por misturar amor e amizade. Ele, chorão e carente. Ela, chorona e carente. Almas gêmeas. Pela segunda vez, a gorda foi amada. O amor de um cão é sempre fiel.

9.7.09

O inferno

Eram duas mil pessoas dentro de um ônibus (pelo menos era apertado como se fossem. Se alguém soltasse um pum ali, ele voltaria cu adentro procurando um lugar mais agradável pra poder respirar). Se a voz do povo é a voz de Deus, naquele momento Deus resmungava:
- Puta que pariu! Deus me livre do valor dessa passagem, alguém aí começa a andar! tem gente passando mal por aqui, faz favor! O preço da passagem tão alto e a gente se espremendo?

O homem mal conseguia puxar o ar. Sorte ter o pescoço comprido e estar num patamar superior ao resto das pessoas. Era como se conseguisse enxergar o ar ficando turvo de tanta gente querendo respirá-lo. Ironicamente, as janelas estavam todas fechadas, vedando a possibilidade de um ventinho resgatador chegar para debochar do aperto daquela gente. Era tanta gente num lugar só, que se ele desse um pulinho, não voltaria a tocar os pés no chão.

Criança chorando. (Devia ser uma criança invisível, o choro era abafado e ela não parecia estar em lugar nenhum. Quem sabe seguiu o exemplo do pum e engatinhou vagina adentro na mãe, lutando por um lugar mais confortável; como se ouvia o choro não sei, quem sabe era uma vagina de boa acústica.)

Chuva do lado de fora. A mesma chuva que o fez pegar o ônibus naquele dia, pra não se molhar. A fila pra entrar no ônibus era enorme, e ele se molhou mesmo assim. Pelo menos chegaria mais cedo em casa. Mão no bolso de trás, pra segurar a carteira. Não dá pra dar bobeira nos dias de hoje.

Parecia um auto-pervertido, um masturbador da mão na bunda. Enquanto o companheiro do lado aproveitava do pouco espaço pra se esfregar na bunda senhoril que o sucedia (sem perceber que um outro companheiro atrás se esfregava na sua), ele apertava forte a mão na bunda. Quase dez reais e um xerox autenticado da carteira de identidade na carteira, ele não podia se dar ao luxo de ser roubado.

O bom da superlotação de um ônibus é que se quebra um pouco do gelo que os ônibus geralmente têm. Ônibus pode ser mais frio do que um elevador, porque elevadores não envolvem competição. Ônibus são as olimpíadas da frieza. Ninguém olha no olho de ninguém - maldito aquele que inventou as cadeiras de frente uma para a outra, forçando que o passageiro fique olhando para o lado pra não precisar fingir um meio-sorriso quando os olhos por acaso encontrarem o do passageiro que senta à sua frente. Ônibus apertado é a iluminação espiritual, uma aglomeração de almas capaz de superar qualquer procissão. E todo mundo pede pelo amor de deus por um espacinho a mais. É a definição mais perfeita de fé.

(Por exemplo, a fé de se conseguir espremer até a porta quando se chega no ponto de descida. Comece três quilômetros antes, puxe a cordinha assim que o ônibus passar do ponto anterior e torça, reze, dê a luz ao seu próprio menino Jesus, e ainda assim corra o risco de não conseguir descer no seu ponto.)

Ele sorriu. Ele não ligou pra mão que lhe beliscava o rim (ou era a costela de outra pessoa, mas que cutucava, cutucava). Ele não ligou pro congestionamento que o fez demorar mais para chegar em casa do que se tivesse ido à pé. Ele não ligou pela loucura financeira que cometia pagando o passe do ônibus quando poderia muito bem ter caminhado aquelas setenta e cinco quadras e ainda queimado umas calorias. Ele não ligou pra nada. Só segurou bem a mão na própria bunda, e enfrentou o ônibus.

Quando desceu, sentiu a própria calça cair.
- Puta que pariu, alguém arrancou meu botão!

Ônibus são o inferno.

14.6.09

O Fruto

Primeiro eu falava mais do que devia, pois era exatamente isso que eu devia fazer. Me conduzi a um estado de ignorância fingida que de tão bem fingida passou a ser ignorância verdadeira. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante.

De tão bem fingido, ignorei a minha ignorância, incapaz de saber que tudo em mim já era perfeito como podem ser perfeitas as coisas feitas de barro e sopro divino que andam distraídas pelo planeta. E me acreditei errado. Pela palavra, tornei-me imperfeito - comi o fruto da palavra, que me deu a capacidade de enxergar o bem e o mal - Bem e Mal não existem, esse é o grande pecado, a alucinação original de que algo pode existir e ser errado ao mesmo tempo. Não existe errado na existência, errado é não existir.

Entorpecido pelo fruto, tentei corrigir meus pretensos erros calando a minha boca, tão acostumada a falar demais. O problema de acreditar em erro é que também se começa a acreditar em correção, e é impossível corrigir o que nunca foi errado. Fingi ser o que não era (pois o que eu era não podia ser divino, era falho e fraco e humano), e de tão bem fingido, calei mais que a minha boca: calei minha capacidade de falar e me retornar, cego, à ignorância.

Como numa máquina de escrever, bati na mesma tecla mil vezes. O erro já estava lá, pintado na folha, mas eu insisti em bater em outra tecla, repetidamente, com a força que angústia dá, borrando outra letra no lugar da original errada. Por mais errada que fosse a folha original, era imaculada, e a correção só lhe manchou e enfeou. Fiquei manchado e enfeado eu mesmo.

A alucinação do fruto é persistente e contínua, e continuei a ver o erro em mim como algo a ser extirpado, arrancado como uma vesícula cheia de pedras. Agora, meu silêncio era o defeito. Me fingi espontâneo e cheio de coisas a dizer, mas não consegui fingir bem o suficiente. Abrindo a boca, escapava de mim o hálito podre do fruto da Árvore do Conhecimento. Em silêncio, era isolado do mundo. Falando, o mundo preferia isolar-se de mim.

A árvore que era do Conhecimento, não o fruto. Antes do fruto, nada era certo ou errado, tudo simplesmente era. Também não havia nada de errado no fruto em si, mas fomos incapazes de engolir o fruto por inteiro. Tudo era inteiro, antes da primeira mordida. Tudo era completo na sua objetividade. Mas não pudemos engolir o fruto por inteiro. Tivemos que rasgá-lo em pedaços, quebrar com os dentes a sua integridade, digerir nojentamente o que lhe compunha. Daí a ilusão. Do Conhecimento que originou o fruto, criou-se a ilusão.

Como fomos longe! O fruto proibido nos embriagou tanto que nos juntamos para corrigir os pretensos defeitos do mundo juntos, e passamos a dar sentido ao sentido dos outros - com a repreensão de quem não é capaz de olhar para si mesmo de tão embriagado - e nos enganamos de sentido, e fomos no sentido errado, e em vez de matar a ilusão, matávamo-nos uns aos outros. Queimávamos uns aos outros desejando queimar com eles o que estava queimando em nós, nos poucos momentos em que a realidade inicial, o Conhecimento, tentava brotar e dizer que tudo era ilusão.

Chegamos ao ponto de não saber viver sem o pecado. A alucinação foi tão longe que nos perverteu inteiros, e se não há religião, há o corpo que tenta se dizer imperfeito, e iludidos, tentamos curá-lo. Não há cura para o corpo. Não há correção. Não há melhora, porque não existe pecado.

O fruto se revira no meu estômago e tenta sair, tudo o que entra tenta sair - nem sempre consegue, somos todos prisões - e o vomito. Perdem-se os adjetivos, perdem-se os erros, perdem-se os nomes. Ganha-se um pouco de lucidez (o fruto já foi digerido em parte, já corre no meu sangue a maldição de querer nomear tudo como certo e errado, permitido ou não permitido). Minha consciência fica vaga e lenta, e estou absorvido em observar sem nomear o que vejo. O que vejo, aliás, agora faz parte de mim. Regrido a quando era perfeito (por desconhecer a alucinação do imperfeito), e tudo é uma coisa só.

Mas sou homem, e sou fraco, e estou sem alimento. Não conheço nada além do fruto. Me entrego a ilusão, viciado que sou. A fome me faz animal, desesperado por alimento a ponto de pular na jugular de qualquer coisa que passe a minha frente. Vou até a Árvore, tomo do fruto e dou mais uma mordida. Volto a falar mais do que devia.

À espreita, uma serpente me sorri.

5.6.09

O velho Paço

Ficava numa praça perdida entre outras tantas praças da grande cidade. Estava lá desde 1800 e qualquer coisa. O Paço era só mais uma construção antiga entre todas as outras que sobreviveram lá e cá.

Viu gerações nascerem e morrerem. Recebeu tanta gente, no seu tempo áureo - disputadíssimo, local em que pessoas medíocres recebiam honras mais ou menos. Pessoas não tão importantes assim, que adoravam o sentimento de importância que vinha de estar nos seus salões.

Perdeu a glória aos poucos. A sua imponência parecia zombar da sua inutilidade. A cidade se acostumou com o trambolho de concreto na praça. Construiu trambolhos maiores, que roubaram a importância do velho paço.

Recebia apenas a visita do vento frio que entrava por suas vidraças quebradas, que passava assobiando canções de abandono. Volta e meia abrigava um mendigo que conseguia dormir mesmo com o barulho e frio trazidos pelo vento.

Suas gigantescas paredes externas passaram a escorar prostitutas cansadas de se apoiar nos estreitos saltos durante a noite. Às vezes, recebiam a honra de um bêbado mijando. Ratos passavam por lá e cá, freqüentadores assíduos.

O Paço assistia. Viu pessoas brigando por coisas que também viu serem esquecidas. Viu, enojado, a pequena praça que lhe fazia companhia ganhar um calçamento feio de petit-pavet.

Viu as casas que lhe cercavam darem lugar a edifícios. Viu o tempo fazer seus remendos e estragos em tudo o que lhe rodeava - e em si mesmo. A paisagem mudou, mas permanecia o Paço, como um velho que não consegue morrer mesmo se sentindo um estorvo para os que ficaram.

Até que um dia um pequeno visionário qualquer se compadeceu do Paço. Convenceu um, convenceu outro, e começou a restauração. As paredes de madeira podre, do lado de dentro, foram todas quebradas e reconstruídas com um tijolo fajuto, que daria um ar mais histórico.

O Paço foi percebendo que era velho, não histórico. Pra ser histórico, precisava mudar. Viu suas lajes estupradas por encanamento e fiação elétrica. Viu as vidraças quebradas serem trocadas por outras de acrílico, semelhantes às antigas mas mais baratas. Recebeu pintura nova. Quadros valiosos.

Foi reinaugurado com pompa. A iluminação nova foi caríssima, e o Paço nunca pareceu tão imponente - nem nos tempos em que era novidade. As pessoas que passavam por ali sem notar o velho, notaram o histórico. Abismadas. Tiravam fotos, achavam lindo.

Voltou a glória. Mas, embalsamado vivo, o Paço não achou mais nada. Ganhou a eternidade, pelo menos por algum tempo. Mas perdeu a alma.

1.6.09

Alerta Vermelho

Alerta vermelho: comecei a pensar. Foi difícil tirar a nuvem que embaçava minha visão do que eu realmente pensava - desliguei-a lentamente. Preocupação, mandei embora. Meus pais, mandei embora. Senso comum, mandei embora.

E estava limpo. Tirei tudo o que não era exatamente o que eu pensava. Arranquei o que me ensinaram a pensar. Cheguei aonde? No vácuo. Pôxa vida, eu não pensava nada por mim mesmo?

Tá certo, vou começar do zero. Olhar pra qualquer coisa e pensar sobre ela. Pensar de verdade, pensar por mim mesmo. Pensar. Olhei pra uma cadeira. Porra, por que é que sempre que eu olho pra alguma coisa aleatória procurando inspiração me aparece justo uma cadeira na frente?
Mas tudo bem. Vou tirar meus preconceitos da cadeira. Às vezes ela tem uma tonelada de possibilidades de pensamento sentada nela e eu nem percebo.

Mas se tiver uma tonelada de possibilidades na cadeira, ela não ia se espatifar? Não, não. Não tem possibilidade na cadeira. Quem sabe me sentando nela... Não, as possibilidades iam parar todas na minha bunda - e minha bunda não é tão fã de possibilidades.
Melhor desistir da cadeira.

Um cachorro late, lá fora. Boa idéia, vou pensar sobre o cachorro. Cachorro. Quatro patas. Mamífero. Não, isso não é pensar, isso é acumular informações. Vamos lá, pensar. Pensando. Cachorro. Porra, maldito cachorro que não pára de latir. Não consigo pensar com esse barulho todo. A natureza foi planejada pra me impedir de pensar.

Será que existe deus? Se existe, garanto que ele não quer que eu pense. Nem vou entrar nos méritos de religião (se bem que, tem lugar melhor pra pensar do que na igreja? Não em coisas filosóficas, mas eu tenho uma teoria que diz que as igrejas são o melhor lugar possível pra se fazer uma lista de supermercado). Então, se existe deus, por que ele fez um cachorro que late tanto? Por que ele fez o Faustão, aliás?

Espera aí, se o Faustão apareceu na minha cabeça, é porque eu não estou pensando direito. Vou esquecer o Faustão. Sai, Faustão, sai. Quem sabe se esse maldito cachorro parasse de latir, eu conseguiria esquecer o Faustão.
Se o Faustão sentasse nessa cadeira, certeza que ela espatifaria. Certeza.

Por que eu tô imaginando o Faustão latindo na minha cadeira? Não é uma imagem bonita. Daqui a pouco aparece a Leonor Corrêa e eles começam a uivar, aposto. Por onde anda a Leonor Corrêa?

Chega. Chama a nuvem de novo. Alerta vermelho: desisti de pensar. Onde eu posso comprar uma Veja aqui perto?

27.4.09

Fagocitose

Arre, estou farto de gente normal. Também não quero semideuses. Quero demônios por inteiro, pessoas sem medo da própria humanidade. Quero a minha porcentagem de toda a matéria negra que é maioria no universo. Quero poder vampirizar os meus demônios, sugar sua vulgaridade doce, a doçura que aprendemos a banir de nós mesmos.

O mundo não é cão-come-cão. Acredito que os cães tenham mais dignidade. Somos primitivos demais para caçar em matilha, acabamos concorrendo e perdendo a caça. Não somos muito mais inteligentes do que um anticorpo que ataca o próprio corpo pensando estar fazendo o bem. Nos fazemos mal, e adoramos. Amar é devorar o próximo pelo prazer da indigestão.

Sou como o vinho: azedo com o tempo. Torno-me intragável, mais e mais a cada dia. Meu bouquet não encontrou lábio que o merecesse no tempo de sua doçura. Agora deleito-me da distância, dos calos deixados por pequenos machucados que receberam importância demais e que permeti que doessem uma dor desnecessária.

Brincar de esfinge é deliciosamente idiota e humano. Decifra-me ou o quê? Decifro-te antes, com garfo e faca na mão. Depois você me devora de volta e ficamos todos em fagocitose. Como é prazerosa a indigestão!

Pura imagem! O que me falta falar? "Oh, sou amargo e acho bonitinho?". Só me falta gesticular com um cigarro aceso. Talvez acarinhar um gato enquanto faço a minha mais ensaiada cara de cu. Milhões de anos de evolução, dezenas de músculos no rosto, tantas expressões possíveis e eu decido usar nenhuma. Aquela mesma cara que tinha minha ancestral ameba. Medo do ridículo?

RI-DÍ-CU-LO. Demônios por inteiro, agora fico de demoniozinho de mim mesmo. Vou amar o ridículo. "Amar é o ridículo da vida", foi Fernando Pessoa? Ridículo é amar a vida. Ridícula é a vida de quem ama. Ridículo é tudo, e eu amo o que me faz rizível. Perdi a vontade de ter graça. Que a graça venha involuntariamente, que surja a graça da minha desgraça. Demorei demais para acolher o meu ridículo.

Ser gente enjôa, tentar ser semi-deus é querer virar uma estátua de mármore e quebrar na primeira vez em que algo atinge mais o "semi" do que o "deus". Não quero ser semi-nada. Já me basta ser semi-novo e não poder me trocar por outro modelo mais recente. Demônio, sim, demônio como fui proibido de ser. Divirto-me mais. Quero amores mais doídos, mais reais, menos bonitinhos. Dores de verdade, não de fachada. Experimentar a vida toda, não só as partes bonitas.

Não tente mais me decifrar. Fagocita-me, tô pedindo.

25.4.09

Lábios Ateus

Lábios lambidos
Saliva espalhada por tudo
O amor, definitivamente, não sabe ser higiênico.

Devolva-me:
- o tempo perdido
- as noites sem sono
- o Neruda que você me fez ficar sem ler, porque quis ir ao cinema
- a capacidade de sentir o aroma de perfume barato e não lembrar do seu cheiro
- o dinheiro que eu gastei em telefone
- o retrato que você roubou da minha carteira (se ainda tens, não sei, mas se tiver...)
- o tempo que eu gastei tentando entender seu gosto musical ruim
- a minha ingenuidade (que você quebrou)
- a minha ingenuidade (tinha sobrado um restinho, você fez questão)
- a minha ingenuidade (ok, eu sou patético)
- as horas gastas na frente do espelho pra me sentir bom o suficiente pra você
- o esforço que eu fiz pra que fôssemos compatíveis e tivéssemos assunto
- o meu ridículo

Pode ficar pra você:
- a minha idiotice (por ter sido tão ingênuo)
- algumas das memórias boas
- aquele boné nojento que você não tirava por nada nesse mundo
- minha dúvida sobre você ser careca e tentar esconder
- tudo o que eu te escrevi
- as cicatrizes da minha paixãozinha barata e seus reflexos metidinhos a artísticos
- (te interessa um pouco da ingenuidade que ainda ficou comigo?)

Lambi seus lábios
Lambeste os meus
Só me restaram
lábios ateus
No fim das contas
de que vale um lábio?
Lábios: os pára-choques da alma.

21.4.09

Passou

Passou batom. Passou rímel. Passou blush.
Passou fome uma semana inteirinha esperando o dia do encontro.
Passou o vestido à ferro ela mesma, com medo que a empregada queimasse.
Passou um café bem forte, sem açúcar, pra agüentar ficar em pé durante o dia.
Passou pela farmácia e comprou camisinha, só pra garantir.
Passou raiva quando o flanelinha na frente da farmácia a chamou de tia.
Passou o tempo tentando assar uma torta (que ela só ia olhar, nada de comer). Passou do ponto - de tão distraída, esqueceu do forno.
Passou as obrigações do dia seguinte para uma colega (aquelas colegas que sempre entendem).
Passou a noite inteira sentada, esperando.
A noite passou.
No dia seguinte, passou com o carro por cima do infeliz.
Passou o resto da vida com um sorriso bobo - na cadeia não se passa fome.

17.4.09

Bibliotecas

O mundo mudou, e hoje somos completamente dependentes da grande biblioteca virtual - como diria uma reportagem de televisão sobre a internet, ignorando que ninguém pega vírus numa biblioteca normal (a não ser transando no banheiro da biblioteca, e sem camisinha). O problema mesmo foi quando a internet resolveu meter a mão nas bibliotecas de verdade, aquela metida.

É prático poder renovar o livro só entrando no site da biblioteca e botando o código de barras da sua carteirinha? Prático, é. Só que livro de biblioteca não tem a mesma graça se você não lembrar no fim da tarde que hoje é o último dia para a devolução e tiver que sair correndo pra não pagar a - caríssima - multa de um real por dia de atraso.

E outra, não é mais carteirinha, é cartão. Ficou tudo magnético demais, nem carimbo o cartão leva! Lembram dos carimbos de biblioteca? De morrer de orgulho porque teve de trocar quatro vezes de carteirinha no ano letivo, porque não sobrava mais espaço pra carimbar os livros?

Sem contar na delícia de olhar o cartão pendurado na parte de trás do livro, com as datas de devolução de quem pegou o livro antes de você. Ótimo pra ficar indignado: "Como assim, ninguém empresta Na Sala com Danuza desde 1997?", e depois comentar com todo mundo que as pessoas não lêem mais nada que preste.

E os códigos? Agora toda biblioteca tem vários computadores pra você procurar o livro pelo título, e é só dar Enter para saber em qual estante o livro está. Antes não, era preciso procurar a seção de Literatura, depois de Literatura Brasileira, depois de Clássicos, e achar o livro por ordem alfabética - escravidão! Tudo naqueles corredores frios, e aquela vontade de soltar pum que só um corredor de biblioteca consegue dar.

Me surpreende mesmo é que as bibliotecárias - essas sortudas - tenham se adaptado às mudanças. Se fosse eu no lugar delas, iam me encontrar abraçado nas fotos 3x4 e na cola de bastão, me recusando a largar as carteirinhas de papel. E os carimbos, meu deus? Largava o emprego, mas não os carimbos. Ia pra casa, carimbar todos os meus livros, todas as vezes que eu lesse. "Como assim, eu não leio Tereza Batista Cansada de Guerra desde 2006?". E dá-lhe carimbo.

19.3.09

Coração de Manteiga

Estava comendo um cachorro-quente olhando pela janela que dá pra rua, e me surpreendi com o olhar de uma criança, bem nova, que me fitava com inveja enquanto remexia o meu lixo. Todos os meus sentidos cristãos bonzinhos foram afetados, me senti o próprio anticristo. Por pouco não corri até a cozinha e peguei tudo de lá, só pra correr pela rua entregando e gritando "Não sofreis, trouxe víveres!". Enquanto viajava nas possibilidades de ser herói e na tristeza da figura quase bíblica da criancinha pobre, me peguei pensando que todos nós no mundo sofremos, em maior ou menor grau, aliás, que nem existe grau, já que não existe sofrimentômetro pra medir essas coisas.

Coisa de gente fútil com a barriga cheia. Aí, pra piorar, me lembrei da minha solidão (tudo ainda nos parâmetros que eu aprendi na escola bíblica, quando criança, aquelas unidades de medida tão brasileiras: "de dar dó", "um milhão de vezes", "me matei fazendo isso por você"), a minha solidão abismal (abismal! meu professor de catecismo morreria de orgulho lendo isso, morreria outra vez, já que ele se matava pelos alunos), e como eu sofro por essa solidão. Toda noite eu choro no travesseiro, vocês têm idéia da dor?

Meu travesseiro tem. Ele chora toda noite também, quando me vê chegando. "Merda, chegou o babão". Problema do travesseiro, quem mandou cair do ganso. É de pena caída do ganso que eles fazem travesseiros, né? Não pegam o coitado do ganso e passam o Satinelle nele, espero. Problema do ganso, também, quem mandou nascer ganso. Enfim, minha solidão. É tão ruim quanto o sofrimento da criancinha, pôxa. Ela não tem o que comer, eu não tenho quem me coma, o que é pior, hein? Aposto que a criança de rua deve fazer sexo muito mais frequentemente que eu, a sortuda.

E eu tenho bom coração, esses dias o cachorro roeu meu sapato de couro inteiro e nem bati nele tanto assim. Eu tenho coração de manteiga. E ninguém se interessa por mim, pôxa? Sempre cumprimentei pobre, sempre tratei preto como se fosse gente! Nos relacionamentos que eu tive, principalmente, me derreto todo. Levo café na cama, nem ligo de repartir o banheiro, brigo constantemente pra pessoa me dar valor, faço chantagenzinha o tempo todo pra fazer charme. O romance ideal.

Mas fica sempre um vazio, é tão triste. Quem sabe com outro cachorro-quente. Duvido que a criancinha gaste tanto tempo teorizando sobre mim.

1.1.09

A Visão Incômoda

Longe, você está longe. Nessas horas fica fácil te odiar, já que a distância me faz enxergar um plano geral e sentir o cheiro dos nós da corda que nos amarra. Impossível desatar os nós entre nós sem desatar-nos. Mais fácil tesourar nossos tesouros atados.

Na minha cama, mas longe. Quilômetros de distância, um telefonema impossível. As mãos ensaiadas para darem-se nunca mais se deram. Sinto a calma de estar completamente desesperado.

É duro estar vulnerável, e eu tenho estado vulnerável há mais tempo do que eu me esforço pra lembrar. A amiga do peito arrancou-se do peito, a amiga das fotos apagou-se das fotos. O moço distante perdeu-se na distância e encontrou-se no âmago da perda. O equilíbrio tropeçou em si mesmo. O longe não se mede: caiu do coração, está longe demais para ser tocado.

Algum dos meus seiscentos sentidos me permite sentir de longe, mas a emoção é uma lupa que distorce a visão e engrandece o desfoque. O ciúme engole a vontade de conquista, troca a direção e faz o sentido perder o sentido, sentido por não ter sentimento.

Mais econômico, e minhas emoções preferem ser econômicas, é evitar o risco. Arrancar o fruto pela raíz, acentuar o que parece errado para que as contas fechem e a dívida fique mais aparente. Preciso distorcer muito, no seu caso específico. Há muito tempo você somente soma. Você me deve débitos, meu caro, para que eu possa descontar minhas falhas das suas e igualar nossas desigualdades.

Estou contente com a distância, entenda isso. É fácil imaginar o mundo daqui de onde estou. Desconfortável de tempos em tempos, nos tempos em que as pálpebras se descolorem do faz-de-conta e abrem-se para a visão. Incômoda visão, lúcida demais pra minha inteligência emocional frágil.

Não vejo mais amigos na rua, talvez por não prestar atenção suficiente durante minhas caminhadas, talvez por não prestar atenção suficiente aos meus amigos. Desconheci meus conhecidos, impus minha distância. Por pura economia. Pão-durice emocional, um muquirana do espírito. A minha alma líquida vazou aos litros e esgotou-se.

Acaba o combustível e a força para tentar me aproximar. Longe, você está longe. Por deus, EU estou longe. Já não me vejo há muito tempo. Alguém me telefona e diz ter me visto em algum lugar em que não lembro ter estado. Estou distante de mim há tanto tempo que é bem possível que eu realmente tenha passado por lá e deixado de me contar. Perdi a intimidade com a meu íntimo.

Os cômodos estão incômodos, as paredes se contorcem e alimentam minha claustrofobia. Descanso ao trabalhar minha incapacidade de descansar. Dou razão à distância, ela é mais sábia do que eu. Jogo-me fora, estou obsoleto em frente a ela. Recolho-me.

Respiro fundo e volto para casa. Estou em lugar nenhum e já cheguei longe demais.

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...