18.7.08

Bonecas

No convite do casamento, uma foto dos dois abraçados mostrava aquela intimidade irritante que só pessoas prestes a se casar e recém-casadas têm. Noel com um sorriso que aumentava a distância entre as duas orelhas de abano (mal disfarçadas por um par de costeletas que envergonharia o mais bêbado imitador de Elvis), e Marina o abraçando por trás, com cara de quem estava doida para dar (dar de verdade, para mulheres como Marina, que se acham moderníssimas mas só dão de verdade, se entregando mesmo, só depois da aliança no dedo), e as enormes gengivas mais aparentes do que nunca.

Ignorava que menstruaria rios, como nunca antes na vida, bem na noite do casamento, manchando as primeiras camadas de tecido do imponente vestido de noiva e impossibilitando o sexo (apesar de Noel insistir muito, "Vamos, bem, eu não ligo, com catchup é mais gostoso", acabou se masturbando na cama enquanto Marina tirava a maquiagem na frente do espelho). A primeira vez de verdade como mulher casada, só depois da metade da lua-de-mel.

Talvez por começar (começar oficialmente, repito. Só fazendo sexo antes do casamento com uma mulher como Marina para entender como é fazer sexo antes do casamento com uma mulher como Marina) tão cambaleante, a vida sexual do casal foi fria durante os anos que se seguiriam. Ela botava a culpa no excesso de trabalho dele, ele botava a culpa na mulher que ela se tornara. "Você chega tão tarde que não dá tempo de ter vontade!" "Ter vontade de te embalsamar, só se for, com essa sua cara de velha." Ela não chorava, franzia o rosto, parecia ainda mais velha, e dormia chutando Noel de quinze em quinze minutos. Ele ficava culpado de não gostar mais da esposa. Vez em quando tentava explicar "É que você perdeu seu viço, sua doçura". Ela franzia até a bochecha depois dessas, de tanto que a testa se dobrava.

Revirando umas caixas antigas na dispensa, Marina achou sua velha casa de bonecas (não bem uma casa, mais pra um apartamento, uma república apertada, oito falsificações de Barbie dividindo quatro paredes com um espelho num canto e uma cama no outro, o cúmulo da superlotação e falta de humanidade). Lembrou tanta coisa, da vontade de ter uma aliança no dedo, e se sentiu tão burra, tão desiludida, tão enganada. Abraçou as oito bonecas de uma vez e começou a chorar. Nem chegou a ouvir Noel chamando alto o seu nome antes de também entrar na dispensa.

- Que houve, Marina?

Nenhuma resposta, só choro.

- Marina, cê tá bem? - chegou mais perto - Que cê tá fazendo com essas bonecas?

Nenhuma resposta, só as bonecas com cara de indignação no colo de Marina.

- Posso ver?

- Minha! - Marina respondeu gritando, feito criança.

- O quê?

- As bonecas é minha, sai daqui!

- As bonecas "são", Marina, "são".

- Sai daqui!

Noel se sentiu desrespeitadíssimo.

- Não saio! - com voz de birra.

- Sai! - com voz de birra com birra.

- Não saio!

- Vai embora, não te quero aqui.

- Então me dá! - e arrancou uma boneca da mão de Marina.

- É minha, devolve!

- Não, agora é minha, posso fazer o que eu quiser com ela! - e arrancou a cabeça da boneca.

- Você matou a Rebeca, justo a Rebeca! Seu bundão! - chorava bem alto.

- Vou matar todas essas bonecas feias! - e partiu pra cima com intensidade de criança de seis anos quando quer alguma coisa.

- NÃÃÃO!

Vinte minutos depois, corpos de bonecas pra um lado, cabeças pro outro. O melhor sexo que fizeram em todo o casamento, e a última trepada antes do divórcio. Como quase todo casal que se separa, continuavam transando de vez em quando, mas nunca a mesma coisa. Sexo de verdade com a Marina, só com aliança no dedo.

9.7.08

A antipática

Ela odiava títulos e não entendia como tanta gente no mundo utilizava-se deles o tempo todo. Um livro é tão cheio de palavras e de repente uma delas precisa ser a principal? Uma canção tem as palavras tão cheias de melodia, e é uma palavra falada que precisa dar nome a ela? Não lhe parecia justo.

Chegou ao ponto de quase não usar substantivos. “Bom dia, pai” virava “bom dia” apenas, porque quem garante que naquela hora do dia o pai era mesmo um pai, e não era um garoto? Algumas frases eram quebradas. “Vais ao supermercado?”, e não “O senhor vai...?” ou “Tu vais...?”. Lhe soava cruel chamar um moço de moço, sendo que talvez o moço não fosse um moço naquela hora, e sim um carrasco medieval no corpo de um moço, e jogar palavras assim pra determinar o que alguém é partia-lhe o coração.

Com o tempo, aprimorou sua teoria. Chamar alguém de bonito sendo que na verdade é feio não era elogio, descobriu, era um xingamento. Era um desrespeito com a palavra “bonito” ser usada dessa forma. Começou a tentar achar as palavras certas, ser justa com elas, mas como as palavras seriam certas pra todo mundo se cada um pensa diferente? E ela nem podia perguntar pra palavra a opinião dela.

Reduziu o próprio vocabulário em respeito às palavras. Achava “oi” uma palavra muito conveniente. Era dizer “oi” e quase sempre a resposta era um sorriso. Só não era sorriso quando a pessoa não estava de “oi”, estava de “tchau”, e quando a pessoa era de tchau era compreensível que não sorrisse. Todo mundo sabe que dizer “tchau” dói, a palavra em si dói, “tchhhhau!”, como uma mordida, um pedaço sendo arrancado, uma separação.

Reduziu os ois. Só dizia “oi” quando tinha certeza que a outra pessoa estava de oi, mas ainda assim alguns ois pareciam ser o primeiro oi de uma jornada que começou em algum “tchau” anterior.

Largou os ois de vez, complicação demais tentar descobrir se a pessoa era de oi ou de tchau. E quem garante que se é só de oi ou só de tchau? Seria definir a pessoa como uma coisa só e ela odiava, odiava isso.

Começou apenas a sorrir. Sorria para todo mundo. Nem todos respondiam, mas quando alguém respondia era sempre com outro sorriso. Não bastou; alguns sorrisos eram doces, outros ameaçadores, outros ainda tristes. Alguns sorrisos nem sorrisos de verdade eram. Até os sorrisos querem rótulos!

Parou de sorrir, pra não rotular mais. Ficou conhecida como a antipática do bairro.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...