26.11.08

Homens de Bem

Homem de bem. 45 anos. Um homem que trabalha todos os dias, que tem uma fileira de camisas brancas no guarda-roupa, quase todas amareladas no colarinho. Camisas que chegam amassadas e suadas todos os dias, às seis e quarenta e cinco, se o ônibus passa no horário certo. Os limites da cidade castram qualquer fuga: Homem de bem, 45 anos, pai de família.

Trinta e dois anos antes,

Luiz Fernando, 13 anos, mas pode chamar de Papagaio. Empina pipa como ninguém na rua. Brinca de bombeiro e é apaixonado pela Ana Cláudia, filha do dono da padaria, gordinha, linda gordinha.

Antônio, 13 anos, pode chamar de Tonho. Na escola, ficaquieto, no canto da sala. Lhe falta um dente, mas ele não sabe qual - pelo menos sabe que sua boca não era bonita de ficar aberta. Desenha carros batidos, acidentes de carro, pedaços de carros amassados em qualquer pedaço de papel que tenha por perto. É apaixonado pela Luísa, que nem pensa em menstruar ainda, a última da turma, e nem suspeita de ser vítima de paixão alheia.

Nando, 13 anos, não chama de Fernando que ele não gosta. Odeia o pai. Joga futebol muito bem, mas já pensa em fazer contabilidade, pra ganhar dinheiro logo e sair de casa. Lê pouco, mas compra revistas toda semana, sabe que sempre tem alguma foto de mulher pelada em algum lugar, combustível para a imaginação e para horas a fio no banheiro.

Pedro, 13 anos. Ninguém o chama pra nada. Usa mangas compridas o tempo todo, tem vergonha dos braços. E das pernas, e do rosto. Não usa roupas pra cobrir o rosto porque não existe disso por aqui. Queria ter nascido árabe, pra se enfiar num turbante. É pobre e sente culpa por não trabalhar ainda pra ajudar a família. É apaixonado por alguma menina feia, qualquer menina feia, qualquer uma que seja feia o suficiente pra um dia casar com ele, pra um dia transar com ele sem cobrar os quinze reais que a mais feia do puteiro lhe cobra.

Todos eles, todos tão diferentes, tão peculiares, tão adolescentes, tão treze anos de idade.

Todos se tornaram Homem de Bem, 45 anos, dono de várias camisas brancas.

Todos se esqueceram de se tornar quem deviam ser. Todos viraram adultos por engano, engolidos pela mesma ambição.

Estranham os sonhos que tinham antes. Distraem assistindo televisão com a esposa, que já ameaçou separar. Indiferente separar ou não, qualquer coisa serve. Não existe crise de meia idade apenas pela meia idade, existe crise de identidade.

Impossível olhar no espelho e enxegar Homem de Bem. Papagaio, Nando, Tonho, Pedro, é assim que eles se vêem. Distorcidos pela evolução que pensam ter sofrido. Pela adultice que lhes engrossou a voz e os fez de espantalhos, plantados em algum jardim, exemplos de moral, exemplos de "o melhor que eu pude ser".

Manequins de Homens de Bem, 45 anos. A voz grossa disfarça a angústia. Homens de Bem, nada mais do que isso.

Dezenove anos depois,

Luiz Fernando, 64 anos. Pode chamar de Seu Luiz. Se chamam de senhor, "Senhor tá no céu". Só não pode chamar de você, que aí já é desrespeito "com alguém da minha idade".Divorciou-se de uma magrela pra casar com uma mulher gordinha muitos anos mais nova: Maria Cláudia, neta do dono da padaria.

Antônio, 64 anos, não pode mais ser chamado. Morreu aos 49, num acidente de carro. Deixou mulher e filha, a mulher frustrada pela falta de seguro de vida, a filha frustrada por ter de aturar a mãe sozinha.

Nando, 64 anos, mas só é chamado assim pela esposa. Faz academia desde os sessenta e está na melhor forma de sua vida. Pede pra chamarem de Fernandão, mas ninguém leva a sério. Peida em público de vez em quando, não consegue malhar o esfíncter.

Pedro, 64 anos, sobrevivente de quatro casamentos fracassados (quatro divórcios bem sucedidos?). Agora é vereador, passou a se meter em política por falta de coisa melhor pra fazer, eleito por falta de candidatos melhores. Seu sobrenome virou dígitos e propaganda. Ternos lhe caem mal, mas escondem o que ainda pensa que deve ser escondido.

Todos odeiam e perdoam a si mesmos em maior ou menor grau. O problema é uniformizar as intersecções. Todos concordam que a pior fase de suas vidas foi quando eram homens de bem, cidadãos responsáveis. Nem sempre é bom ser homem de bem, mas quem escapa?

26.10.08

O ser idiota

Estava tão melancólico que quando fui interrompido por um momento de alegria, fiquei triste. Um flerte com a felicidade é bom, mas um relacionamento mais sério não costuma dar certo. O amor banaliza, todos ficamos iguais quando estamos apaixonados, assim como ficamos iguais quando estamos de luto. Nos extremos das emoções, todos somos a mesma racinha monocromática e alegre, ou monocromática e triste, sem relatividade e sem intersecções entre uma sensação e outra.

Como uma foto, sem profundidade, plana e colorida, ou seu negativo escuro e cheio de sombras. E isso me apavora. A banalização, a humanização completa. Ser gente. Tem coisa mais assustadora que ser gente? Prefero ser melancólico, melancolicamente inventar alguma coisa que me separe da humanidade.

Personagem puro. Cenas, cenário, figurino. Chet Baker tocando, vinho na mão girando numa taça, cigarro baforado lentamente, cara de cu. Citar escritores obscuros. Rir de si mesmo, e depois dizer 'Idiotice minha, esquece.' Me esconder, me reservar. Passar horas sozinho, fazendo questão de que todos percebam que passo horas sozinho.

Pior que isso, pensar que é isso que me define. Acreditar que sem isso é impossível. Cair na vala da idiotice pra não cair na vala da humanidade. Que ciências humanas, o quê. Inventemos as Ciências Idiotas. Seremos todos únicos, todos melancólicos, todos pessoas especiais. Todos fazendo a mesma coisa e reclamando de não ter ninguém que nos entenda.

Afirmar que o futuro é nosso, que dominaremos o mundo. Somos os seres idiotas, aqueles que compreendem o contra-senso de ser humano e por isso comentam música e vinhos. Que seguram peidos, mas debatem calorosamente a repressão cultural sobre um peido. Falamos da hipocrisia da beleza, mas escondidos, nos arrumamos para parecer esquisitos o suficiente para causar fascínio, mas não demais para não causar repulsa. Estamos de bem com nossa feiúra, mas adoramos ganhar um elogio só pra falar "Não, são seus olhos".

Os seres idiotas, nós, somos uma evolução dos seres humanos. Tudo é sutil, tudo é não-manifesto. Abraçamos a idéia da nossa não importância. Estamos em harmonia com a desarmonia, em acordo com o desacordo. Estamos eternamente em botão, florescer é vulgar e humano demais.

Nós, os seres idiotas, somos dependentes da nossa co-dependência. Jogamos nossa expectativa na não expectativa. Não assistimos filmes que todo mundo assista. Assistimos cinema alternativo, mas não os clichês do cinema alternativo, porque aí fica mainstream demais. Se o personagem é um ser idiota, melhor ainda. Atributos esquisitos, veneramos atributos esquisitos. Só não dá pra chamar de ídolo. Ídolos são humanos demais para um verdadeiro idiota.

22.9.08

Um cálice

Há muitos anos derramava um cálice
que implorava a Deus pelo que seja,
e derramava o que talvez amasse,
e derramava o que de mim rasteja.

Fazia limo, e à noite tossia
toda a umidade que a secura ardia.
Fazia festa o mofo que tecia
todo o calor de sua existência fria.

Quando abraçava, à noite, sua caneta
abria arquivos de uma lua preta,
Quando pintava com dor e palavras
cenário cego, insípida paleta.

Sonhava as cores de uma obra-prima
em seus outonos de textura fina
atualizava-se no nascimento
do dia; a noite que o sol assassina.

O seu sorriso desprendia pedra
com a crueza que me transpenetra.
Há muitos anos derramava um cálice
que ainda hoje minha vida afeta.

("Fuja do jardim enquanto temos tempo"
alguém gritou, quebrando o encantamento)

16.9.08

Concreto

O mundo é concreto e tudo que é feito de mundo vem da mesma fôrma. Tudo é rigido, tudo é intransponível. Tudo pode machucar. O humano, coitado, nasce macio. Sem pretensão. Cai de um tobogã celestial pra dentro de um mundo que o ricocheteia de um lado para o outro, que abusa de sua maciez, que é concreto demais para sua maciez.
E cai várias vezes. Quando em queda-livre, torce pra uma hora chegar no chão. Melhor que o chão chegue o mais cedo possível. Dói cair, mas dói mais ainda cair depois que a gravidade nos acelera em direção ao espatifo.

Melhor do que se revestir de uma casca que tenta imitar o ambiente, endurecer as próprias extremidades e tratar tudo o que está no cerne como delicado demais para ser exposto. Porque uma hora o chão chega. Uma hora a queda acaba, precisa acabar, e caímos feito melancia. A casca só serve pra esparramar o que é sensível, para dilacerar em pedacinhos irreconhecíveis e espalhar pelo chão o que um dia foi macio e sobrevivia.

Iludimo-nos com a idéia de que o chão não chega. Chega. Chega pra todo mundo e quando acabamos de cair em um chão qualquer, começa outra queda livre em direção a outro lugar ainda mais irreconhecível. Sorte se caímos em grupo, todos de uma vez, e nos confortamos na maciez alheia - azar se nos machucamos na rigidez e pretensão das cascas que acreditamos nos proteger.

O mundo é concreto mas é nossa casa - mesmo que temporária. Casas temporárias revelam o nosso mais profundo desconforto com onde estamos nos domínios que não precisam de casa, com nosso pensamento, com a cabeça que escolhemos pra habitar. Caímos no concreto e nos sentimos em casa. Estamos em queda-livre e nos sentimos em casa. Aí criamos uma casca em torno de nós mesmos e subitamente não estamos mais em casa. Estamos numa concha, transformados em caramujos que não tem forma e nem mobilidade decente. Enchemos de gosma o trajeto e demoramos a aceitar o que está por vir. E quebramos completamente na próxima queda.

O mundo é concreto e eu fujo da sua realidade rígida. O mundo é concreto e eu prefiro o imaginar macio. Que o próximo abraço do chão não vai doer - ou nem ocorrer. Viro uma sátira de mim mesmo. Um objeto em movimento que fecha os olhos e crê honestamente que não se move, com toda a beleza de sua ingenuidade. Com toda a vicissitude de sua inocência pisada tantas vezes. Inocência pisada não morre; resiste, se disfarça de força ou de sabedoria. Tenta criar mil proteções mas a única coisa que pode consolar de verdade é a certeza da queda. A certeza de que a dificuldade aumenta e carrega um prazer gigantesco no processo. Basta se render ao processo. E existe não se render? Rendo-me. E caio novamente.

5.9.08

Prelúdio para a cegueira

- Tô com uma coceira filha da puta, cê não faz idéia.
- Coça, ué.
- Não consigo!
- Como assim? Não alcança?
- É.
- Cê tá com ardência pra urinar?
- É no meu olho, porra!
- Ah, tá. Dentro do olho?
- É.
- Tipo, no globo ocular?
- Não, na pálpebra.
- Então coça!
- É do lado de dentro!
- Cê não tá com piolho?
- No olho?
- Nos cílios.
- Piolho nem cabe nos cílios.
- Pode ser um piolhinho criança.
- Lêndea?
- Ou um piolho anão.
- Vá a merda.
- Uma vez eu li num livro de auto-ajuda...
- Lá vem bobagem...
- Que coceira significa o espírito falando que quer sair do corpo, porque o corpo não aceita o espírito.
- Eu não tô segurando espírito nenhum.
- Não nesse sentido...
- Cárcere privado é crime.
- Você não tem fé.
- Impossível ter fé com uma coceira dessas.
- Já sei, pega um garfo.
- O quê?
- Um garfo. Ergue a pálpebra pra fora com a mão, coça com o garfo.
- Tá, traz o garfo.
- Aqui. Mas toma cuidado.
- Vou tomar. Só não dá pra agüentar essa coceira.
- Fica calmo e segura firme o garfo.
- Aaaaah. Muito melhor agora.
- Tá ajudando?
- Muito. Nossa, nem dá pra falar o quanto.
- Agora chega.
- Só mais um pouquinho, peraí...
- Aaaaaaai, um rato!
- AAAAAGH, CHAMA UM MÉDICO!

5.8.08

A Bênção

No jardim, Maitê (a filha mais velha) empurrava a irmã no balancinho que rangia a cada vaivém da moça que não pedia para ir mais rápido, nem mais forte, nem mais nada. Gostava dos embalos de Maitê, que empurrava a irmã sem dar atenção ao que fazia, de tanta coisa que lhe passava pela mente. Várias coisas amenas, um caderno que estava acabando e precisava ser substituído, um recado que esqueceu de passar, um empurrão de leve no balanço; alguns avisos mais ríspidos da mente, um pouco de ódio por ter arrancado folha só pore educação, pra emprestar pra alguém que tinha pedido sem merecer receber folha nenhuma, uma pequena raiva de não ter o oi respondido por alguém, um empurrão mais forte - que a irmã no balanço ignorava, de tanta coisa que também lhe passava pela cabeça de criança, pequenas melancolias infantis enquanto a perna erguia e abaixava no movimento do balanço.

Era o que entendiam por família, a ignorância completa mas com um braço por perto que empurrasse quando necessário. Os pais, avançadíssimos, democracia na casa, todos ignoravam-se por igual. Reuniões de família que poderiam ser convocadas por qualquer membro, que discorreria por qualquer assunto sem ser ouvido.

A notícia ainda mal absorvida, a mãe grita da cozinha para que as filhas entrem. O pai já sentado com os ombros caídos para fazer conjunto com o queixo. Com as filhas entradas, a mãe começa a reunião.
- Estava falando com o seu pai e a gente resolveu pedir a opinião de vocês.
As filhas entraram na pose de quem tem opinião importante.
- Sobre o quê? - a mais nova.
- Vocês duas já tem tamanho pra saber de onde as crianças vêm, certo?
- Não é conversa de sexo, né? - Maitê.
- Calma.
- Eu já sei que preciso usar camisinha.
- Não é isso.
- Só burro pra engravidar sem querer.
- Maitê!
- E eu sou virgem mesmo.
- Filha, deixa eu falar.
- Vocês deviam parar de cuidar da minha vida, viu?
- Filha!

Maitê com cara de adolescente ouvindo, a mãe tornou a falar.
- Eu e seu pai cometemos um pequeno deslize... E queremos saber se vocês querem ou não uma coisa. Pode ser bom, dependendo do ponto de vista, mas se vocês quiserem ir pra faculdade...
- Vai direto ao ponto, elas não precisam de introdução - o pai, com voz e impaciência de pai.
- Eu estou grávida.
- Quê, mãe? - a mais nova com medo de perder o posto.
- Mas vocês precisam decidir conosco se a gente tem essa criança ou não.

A mais nova franziu a testa, Maitê coçou o olho e a mãe tirou caneta e bloquinho de papel da bolsa enquanto o pai afrouxava a gravata (costumava chegar do trabalho e ir direto pro quarto arrancar as roupas de gerente de vendas e vestir calção rasgado perto da bunda e regata manchada, o momento de ser homem porco e não o vendedor perfeito, mas essa era uma ocasião especial e certa formalidade era necessária).
Maitê pediu o porquê do bloquinho, a mãe respondeu que era uma para botar tudo no papel que ficaria mais fácil de decidir desse jeito.
- Pronto, agora brainstormem.
- Brainstorm virou verbo?
- Feedbackem, então.

A mais nova começou:
- Estou entre o irmãozinho e um cachorro. Se não tiver irmão, posso comprar um labrador?
- Eu não vou ficar limpando cocô de cachorro, filha.
- Mas de bebê você vai? Não é justo.
- Bom ponto, filha. Vou anotar no bloquinho.

Vez da Maitê.
- Eu adoro criança, sou completamente a favor... Mas eu tenho que ir pra faculdade, né? Não dá pra ficar jogando dinheiro fora.
- Faculdade tá o olho da cara mesmo. - o pai.
- E eu também tenho que fazer, daqui a um tempo. - a mais nova.
- Outro contra pro caderninho.

O pai.
- Plano de saúde aumentou de novo essa semana, ia ser um aperto e tanto incluir mais um.
A mãe anotou no bloquinho enquanto ditava o que ela mesmo escrevia, pausadamente.
- Ex-ces-so de cus-tos. Tá, o que mais?

O que mais? A família se entreolhava enquanto pensava.
- Só contras? Nenhum pró? - a mãe deu mais uma chance pra criaturinha ainda não nascida.
- Bom, seria um ânimo pra casa... - o pai.
- Cachorro faz muita bagunça - a irmã.
- Eu posso trabalhar durante a faculdade, não seria justo matar uma criancinha indefesa. - Maitê.

A mãe sente um aperto na barriga e diz "Ai".
O pai pergunta o que foi. A mais nova dá um pulo na cadeira. Maitê levanta a hipótese:
- Foi o bebê?
O pai quase se emociona:
- Ele chutou?
A irmã mais nova:
- Meu irmãozinho chutou? Posso sentir?
O pai chuta o balde e quase chora:
- É uma bênção!
A mãe se surpreende e resolve não dizer que foi só um desconforto causado por gases. Concordou:
- É uma bênção.

Sendo uma bênção, resolveram ter um filho. Se perguntavam como teriam a frieza de abrir mão de uma vidinha tão importante. Um presente de Deus.

Duas semanas depois, Maitê convoca reunião de família.
- Gente, tô grávida.

Foi direto pro consultório tirar. A família não suportaria tanta bênção no orçamento.

18.7.08

Bonecas

No convite do casamento, uma foto dos dois abraçados mostrava aquela intimidade irritante que só pessoas prestes a se casar e recém-casadas têm. Noel com um sorriso que aumentava a distância entre as duas orelhas de abano (mal disfarçadas por um par de costeletas que envergonharia o mais bêbado imitador de Elvis), e Marina o abraçando por trás, com cara de quem estava doida para dar (dar de verdade, para mulheres como Marina, que se acham moderníssimas mas só dão de verdade, se entregando mesmo, só depois da aliança no dedo), e as enormes gengivas mais aparentes do que nunca.

Ignorava que menstruaria rios, como nunca antes na vida, bem na noite do casamento, manchando as primeiras camadas de tecido do imponente vestido de noiva e impossibilitando o sexo (apesar de Noel insistir muito, "Vamos, bem, eu não ligo, com catchup é mais gostoso", acabou se masturbando na cama enquanto Marina tirava a maquiagem na frente do espelho). A primeira vez de verdade como mulher casada, só depois da metade da lua-de-mel.

Talvez por começar (começar oficialmente, repito. Só fazendo sexo antes do casamento com uma mulher como Marina para entender como é fazer sexo antes do casamento com uma mulher como Marina) tão cambaleante, a vida sexual do casal foi fria durante os anos que se seguiriam. Ela botava a culpa no excesso de trabalho dele, ele botava a culpa na mulher que ela se tornara. "Você chega tão tarde que não dá tempo de ter vontade!" "Ter vontade de te embalsamar, só se for, com essa sua cara de velha." Ela não chorava, franzia o rosto, parecia ainda mais velha, e dormia chutando Noel de quinze em quinze minutos. Ele ficava culpado de não gostar mais da esposa. Vez em quando tentava explicar "É que você perdeu seu viço, sua doçura". Ela franzia até a bochecha depois dessas, de tanto que a testa se dobrava.

Revirando umas caixas antigas na dispensa, Marina achou sua velha casa de bonecas (não bem uma casa, mais pra um apartamento, uma república apertada, oito falsificações de Barbie dividindo quatro paredes com um espelho num canto e uma cama no outro, o cúmulo da superlotação e falta de humanidade). Lembrou tanta coisa, da vontade de ter uma aliança no dedo, e se sentiu tão burra, tão desiludida, tão enganada. Abraçou as oito bonecas de uma vez e começou a chorar. Nem chegou a ouvir Noel chamando alto o seu nome antes de também entrar na dispensa.

- Que houve, Marina?

Nenhuma resposta, só choro.

- Marina, cê tá bem? - chegou mais perto - Que cê tá fazendo com essas bonecas?

Nenhuma resposta, só as bonecas com cara de indignação no colo de Marina.

- Posso ver?

- Minha! - Marina respondeu gritando, feito criança.

- O quê?

- As bonecas é minha, sai daqui!

- As bonecas "são", Marina, "são".

- Sai daqui!

Noel se sentiu desrespeitadíssimo.

- Não saio! - com voz de birra.

- Sai! - com voz de birra com birra.

- Não saio!

- Vai embora, não te quero aqui.

- Então me dá! - e arrancou uma boneca da mão de Marina.

- É minha, devolve!

- Não, agora é minha, posso fazer o que eu quiser com ela! - e arrancou a cabeça da boneca.

- Você matou a Rebeca, justo a Rebeca! Seu bundão! - chorava bem alto.

- Vou matar todas essas bonecas feias! - e partiu pra cima com intensidade de criança de seis anos quando quer alguma coisa.

- NÃÃÃO!

Vinte minutos depois, corpos de bonecas pra um lado, cabeças pro outro. O melhor sexo que fizeram em todo o casamento, e a última trepada antes do divórcio. Como quase todo casal que se separa, continuavam transando de vez em quando, mas nunca a mesma coisa. Sexo de verdade com a Marina, só com aliança no dedo.

9.7.08

A antipática

Ela odiava títulos e não entendia como tanta gente no mundo utilizava-se deles o tempo todo. Um livro é tão cheio de palavras e de repente uma delas precisa ser a principal? Uma canção tem as palavras tão cheias de melodia, e é uma palavra falada que precisa dar nome a ela? Não lhe parecia justo.

Chegou ao ponto de quase não usar substantivos. “Bom dia, pai” virava “bom dia” apenas, porque quem garante que naquela hora do dia o pai era mesmo um pai, e não era um garoto? Algumas frases eram quebradas. “Vais ao supermercado?”, e não “O senhor vai...?” ou “Tu vais...?”. Lhe soava cruel chamar um moço de moço, sendo que talvez o moço não fosse um moço naquela hora, e sim um carrasco medieval no corpo de um moço, e jogar palavras assim pra determinar o que alguém é partia-lhe o coração.

Com o tempo, aprimorou sua teoria. Chamar alguém de bonito sendo que na verdade é feio não era elogio, descobriu, era um xingamento. Era um desrespeito com a palavra “bonito” ser usada dessa forma. Começou a tentar achar as palavras certas, ser justa com elas, mas como as palavras seriam certas pra todo mundo se cada um pensa diferente? E ela nem podia perguntar pra palavra a opinião dela.

Reduziu o próprio vocabulário em respeito às palavras. Achava “oi” uma palavra muito conveniente. Era dizer “oi” e quase sempre a resposta era um sorriso. Só não era sorriso quando a pessoa não estava de “oi”, estava de “tchau”, e quando a pessoa era de tchau era compreensível que não sorrisse. Todo mundo sabe que dizer “tchau” dói, a palavra em si dói, “tchhhhau!”, como uma mordida, um pedaço sendo arrancado, uma separação.

Reduziu os ois. Só dizia “oi” quando tinha certeza que a outra pessoa estava de oi, mas ainda assim alguns ois pareciam ser o primeiro oi de uma jornada que começou em algum “tchau” anterior.

Largou os ois de vez, complicação demais tentar descobrir se a pessoa era de oi ou de tchau. E quem garante que se é só de oi ou só de tchau? Seria definir a pessoa como uma coisa só e ela odiava, odiava isso.

Começou apenas a sorrir. Sorria para todo mundo. Nem todos respondiam, mas quando alguém respondia era sempre com outro sorriso. Não bastou; alguns sorrisos eram doces, outros ameaçadores, outros ainda tristes. Alguns sorrisos nem sorrisos de verdade eram. Até os sorrisos querem rótulos!

Parou de sorrir, pra não rotular mais. Ficou conhecida como a antipática do bairro.

22.6.08

Ponto

Não é minha intenção me analisar tão gratuitamente e tão cruelmente, mas às vezes eu me sinto como se tudo que eu pensasse passasse por uma peneira de pensamentos que me dita não o que é próprio e o que não é próprio, mas se o que eu tô pensando é mesmo o que eu tô pensando ou se eu tô fugindo do que realmente quero pensar ou se é só mais uma forma de sair da minha vida pra poder fugir pra minha cabeça. Na cabeça é mais seguro, pensar é mais seguro, viver não é seguro. Viver é pisar em terra firme, é machucar os joelhos, é pisar em caquinhos de vidro que só pinicam na hora mas deixam aqueles cortezinhos pequenos que inflamam e doem no conjunto, o baile todo, os caquinhos de vidro, as inflamaçõezinhas, os dois pés, os joelhos que doem de tentar pisar com força demais onde não se conhece o terreno, tudo.

A vida - e eu odeio frases que começam com 'A vida', é generalista e pretenso demais - a vida é um terreno que não se conhece. E você anda ou olhando pro chão pra garantir que não cai, ou pro que te cerca pra apreciar a visão, mas os dois ao mesmo tempo não tem como. Ou é a paisagem ou é o chão.

E nenhum deles deve ser realmente produtivo de olhar. Olha pro chão o tempo todo, e a paisagem te joga um cachorro na frente que te morde e te deixa caído. Olha pra paisagem, olha o céu bonito, e o caminho é tão sorrateiro que você tropeça e fica preso num bueiro até alguém ter a piedade de te deixar sair dali (se você quiser sair dali, digo. bueiros são úmidos, confortáveis, um refúgio e tanto, não são? E tão escondidinhos. Ninguém te incomoda dentro de um bueiro, tá todo mundo preocupado em não cair em um ou em não ser visto no próprio.)

Aí eu tento resolver tudo por andar um passo com os olhos na paisagem, um passo com o olho no chão, mas os passos se confundem e eu acabo olhando pra minha cabeça bagunçada e pensando se vão me ver caminhando torto ou se vão rir de mim por estar tentando entender a vida num nível tão profundo quanto o de andar na rua, quanto a se andar é mais seguro olhando pra estrada ou pra paisagem, e fazendo metaforazinha vagabunda, olha só a profundidade. Adianta metaforazinha vagabunda? Porque nunca vai ser seguro, nunca vai dar pra olhar pra lugar nenhum, nunca, nós andamos às cegas. "Nós", olha a minha pretensão generalista de novo, EU ando às cegas, EU ando pensando no que vão pensar de mim e acabo nem andando direito.

(Outra coisa que eu odeio, estou odiando muitas coisas hoje, eu odeio prolongar metáforas. Jesus Cristo era um barbudinho bom de marketing que se deixou morrer porque queria viver pra sempre nos calendários de papel metalizado ao lado dos fogões das donas de casa do mundo inteiro. Jesus não prolongava metáforas. Jesus enfiava um significado qualquer, desenvolvia uns três personagens e ficava faceiro. O povo trepava em árvore pra ver Jesus falando, e vai ter gente acelerando os olhos e lendo o texto na vertical pra passar mais rápido porque eu não sou tão facilmente conciso e direto, sou cheio de curvas e sem significado nenhum. Ninguém vai trepar em árvores pra me ver porque minhas metáforas nem são metáforas direito, só uns reflexos da psicologia barata que a gente aprende lendo revistinha e vendo programete pretensioso de TV. Tudo bem, não trepem em árvores nem botem foto minha em calendário de lado de fogão. Não ligo. Eu odeio quem estende demais suas metáforas e odeio mais ainda que eu seja assim.)

Não é tudo de mentirinha, essas porras todas da física quântica? Odeio terem inventado mais uma física. FÍSICA, gente, FÍSICA, mundo físico, planeta Terra, aqui, no sólido, no A+B, e inventam uma física que é abstrata. "Olhem, fulanos, tudo é abstrato, aquelas fórmulas que vocês não lembraram no vestibular não servem pra muita coisa, porque no final tudo é metafísica, tudo é quântico e vocês são todos gatinhos mortos/vivos dentro/fora de uma caixa/não caixa".

E isso só alimenta a tendência de ficar analisando e revendo e repensando tudo na cabeça, e não no corpo, já que tudo é imaginação mesmo e na caixola tudo serve, e no final a gente nem caminha, só cuida pra não cair em buraco sendo que tá num buracão faz tempo e não percebe. Buracão/não buracão, digo.

E eu fico nessas de me analisar demais.

Mas como eu vou me ver se eu não me analisar, me diga? Se me analisando eu já não me vejo? Se pagando alguém toda semana pra contar tudo o que me acontece de desinteressante e me analisar (mais uma pessoa me analisando, é tudo que o Universo precisa!), se assim mesmo eu minto, e desminto e filtro tudo duas vezes antes de deixar sair da minha boca? Porque se eu não filtro não sobra nada, só uma intenção de pensamento mal sucedida que não se deixa morrer e fica ali, sendo, pensando, até que eu o analise nos meus filtrinhos de meia tigela.

É capaz de, com bastante tempo ignorando aquela matilha de pensamento, sumir tudo, mas eu gosto dos meus pensamentos, gosto mesmo. A não ser quando eles me fazem ficar acordado sem motivo nenhum e cheio de compromissos no dia seguinte, mas ainda assim, eu sou um trouxa por eles, eu deixo. Sou apegado em pensamento, e com pensamento é o pior tipo de separação, é tipo abandonar filho no frio e a criança batendo na janela e implranto "me deixa entrar de volta, pelo amor de deus, eu não quero morrer no frio, você não vive direito se não me analisar, me deixa entrar, me deixa! eu prometo que vou ser bonzinho", fica tudo ali, querendo ser pensado, e você não quer deixar, é um bangue-bangue, é ou eles ou você - eu, não tem nenhum você nessa história, caralho de mania de projetar em "vocês" imaginários aquilo que eu não quero pensar que eu tenho (e tão claramente tenho. desculpe tanta delonga, imagine eu com esses pensamentos todos me querendo fazer fechar a cortina e eu querendo abrir, e deixar tudo aberto e exposto, mas a cortina tem tendência a fechar e o esforço é tanto, e uma hora eu não faço uma coisa nem outra, fico ali como um peso de cortina porque tô exausto demais pra continuar o processo, e o processo se força a acontecer e é como se nunca acabasse essa tortura).
Retornando ao ponto, não quero estender metáfora, nem metáfora tem aqui, sei lá o que eu tô estendendo, mas alguma coisa eu estendo que me faz perder o ponto, e nem tem ponto, qual o ponto de se escrever uma carta? um texto? não tem ponto, é tudo egocentrismo de querer ser lido e visto pelo endereçado.

A vida é feito carta, mesmo - e foda-se o generalismo e a filosofia de banca de revista - não tem ponto, é um querer ser visto o tempo todo quando nem você - não você, eu, não tem você aqui, que droga - quando nem eu me enxergo! Não tem ponto. E aí cada um fica num bueiro prolongando suas metáforas e pensando se está sendo útil ou não. Não tem ponto, não tem ser útil, não tem ser interessante. Tem inflamaçõezinhas no pé que doem de vez em quando, mas nada tão terrível, tem pensamentos que irritam e voltam e persistem e machucam, mas nada que não se enfrente, tem vontade de ser aprovado por todo mundo (e todo mundo, todo mundo, todo mundo mesmo, quem gosta de vermelho e quem gosta de azul, e aí eu acabo como uma mancha roxa que nem se agrada e sendo só um hematoma), mas nada tão péssimo assim.

O problema, acho, é não ter ponto. Nem de partida, nem final, nada, nenhum ponto, só um círculo chato de rotinas cansativas. Ponto.

3.6.08

Pintura

Adriane tinha seus raros momentos de lucidez quando resolvia gastar um grande pedaço de seu salário (grande demais pra ser gasto nisso) em duas telas grandes de pintura, tintas e pincel. Metódica, assim que vestia o feioso macacão jeans que podia sujar o quanto quisesse, ia de sua placidez habitual a uma fúria imensa.

Já imensamente furiosa, abria as mãos e batia com força em cada um dos tubinhos de tinta. A tinta deveria apanhar. Não adiantaria nada que ela se entregasse ao doloroso processo de arrastar suas emoções para fora do corpo e para dentro de uma tela, de transformar suas aflições em imagem, se as cores que representariam tudo isso não tivessem passado por dor semelhante.

(Como um ator que nunca sofreu e não carrega no rosto a angústia necessária para o personagem - para qualquer personagem, não há personagem sem angústia. Jamais defenderia que uma pessoa se torna melhor por ter sofrido, aliás, é melhor pessoa quem não se dá o trabalho de sofrer, mas um ator que não sofreu não pode ser crível. O personagem tem angústia, cadê a angústia no teu rosto, ator?)

E assim eram esmagadas as tintas, que resignavam-se e se tornavam migalhas palpáveis do que Adriane sentia. Era a sua glória fazer a tinta sofrer.

Na primeira tela, Adriane deixava-se fluir. Atirava tudo que estivesse dentro de si para dentro da tela. Passava o pincel, passava a espátula, passava a unha fundo na tela, deixava marca. Escrevia pequenas frases, o que lhe viesse à mente, com a maior agressividade possível. "ESTOU COM FRIO". "ODEIO MEU PAI". "CHUPARIA O PRIMEIRO QUE ME CANTASSE".

Aí pintava por cima de tudo, mas mesmo com todo o seu esforço as frases persistiam lá, soberanas à segunda demão, rindo da tentativa débil de serem encobertas.

O ódio de Adriane culminava em algumas lágrimas dolorosas, daquelas que não querem ser lágrimas e sim pontapés, e ela desabraçava a tela com força, e quebrava a estrutura, e gritava Boceta! e jogava num canto pra depois jogar no lixo (num daqueles sacos plásticos pretos, pra ninguém ver que ali estava um cadáver de pintura).

Como um dia de sol é subitamente interrompido por uma tempestade, a fúria de Adriane era (cabrum!) interrompida pela volta da placidez de lei.

Os tubos de tinta tão maltratados e ainda pela metade voltavam ao trabalho quando Adriane (a plácida, completamente diferente da lúcida, a furiosa) carinhosamente os espremia para pintar a outra tela.

Primeiro um azul indefinido no fundo deixando um buraco branco no meio da tela, aí uns pequenos esboços de verde, aí uma flor, aí outra, e ficava pintado um buquê de flores meio esquisitas, com cara de quem fez esforço demais pra ficar bonito, e a assinatura no canto inferior direito. "Adri" em letra cursiva e uns risquinhos por cima.

Um passo para trás e Adriane admirava o buquê pintado e pensava "Ah, minha arte!". O segundo quadro ela não jogava fora, esperava secar, cuidadosa, e pendurava na parede da sala junto com os outros quadros de flores.

Vinha uma visita de vez em quando e elogiava.

A fúria, jogada no lixo.

5.5.08

Mãe, filha, filha da filha

Natal quase sempre é sinônimo de reunião. Famílias se reúnem, parentes brigados se abraçam como se nada tivesse acontecido, empresas fazem festas nas quais quem compete o ano inteiro tem a chance de se presentear.

Lúcia estava indo visitar a mãe, como em todos os natais - exceto o último, em que não foi porque não queria que a mãe, Ivete, descobrisse a barriga de cinco meses de gravidez. A mãe descobriu duas semanas antes do nascimento: Lúcia precisava de dinheiro e o último recurso disponível - o único - era o dinheiro do pai. O pai não tinha dinheiro, e o recurso que não era nem considerável até então - o dinheiro da mãe - foi considerado.

Desavenças de lado, queriam cear as duas, mãe e filha, como de costume. Seriam mãe, filha e filha da filha, mas a filha da filha não cearia, só mamaria às oito, arrotaria algumas vezes e dormiria cedo - e com sorte não acordaria com os gritos vindos da sala de jantar.

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Ivete abriu a porta com o sorriso que as mães usam quando escondem alguma coisa (lógico, mães sempre escondem alguma coisa, só não usam o sorriso tanto assim).
- Lúcia! Saudades! - mas nem abraçou a filha, só pegou a filha da filha no colo enquanto caminhava em direção à sala de estar.
- Oi, mãe. - A parede da casa fora pintada umas quinze vezes desde que saiu de casa, mas Lúcia ainda conseguia ver as ranhuras que fazia por nervosismo. Toda vez que brigava com a mãe, corria para perto da janela da frente da casa e olhava a rua, com vontade de ir e raiva de não poder. Cravava a unha na parede e arrastava. O barulho irritante condizia com seu estado de espírito e as marcas na parede faziam conjunto com as marcas de expressão que causava na mãe.
Lúcia respirou as memórias embora e seguiu a mãe até o sofá.

- Maria tá grande!
- Oito meses e desse tamanho... Se continuar crescendo desse jeito vou ter de construir uma casa maior, só pra ela. Pé direito de um quilômetro.
- Pensando em construir casa, já, Lúcia? Nem me pagou o empréstimo e já quer sair esbanjando?
- Tava brincando, mãe. Eu sei que eu tenho de te pagar, mas sabe como é criança, cada dia uma despesa.
- Devia ter pensado nisso antes de fazer uma. Sabe como é difícil criar uma filha sozinha?
- Lá vem o discurso.
- Você não tem idéia do que eu passei por sua causa, menina.
- E me chamando de menina, porque eu não tenho...
- Não tem responsabilidade. Eu repito porque ainda é verdade. Pulou na cama com o primeiro que apareceu e depois eu tenho de bancar a criança?
- Eu pedi ajuda! E nem foi pra você, foi pro papai.
- Que é um quebrado irresponsável como você. E arrogante, ainda. Queria que eu desse o dinheiro pra que ele te desse.
- Nós já discutimos isso.
- Eu tenho de consertar as calhas, Lúcia.
- Eu tô trabalhando, mãe! Ainda esse ano eu consigo te pagar.
- Talvez se você morasse aqui...
- Claro, pra você me torturar todo dia com essa conversa.
- Eu podia te ajudar com a Maria, você sabe disso. Gasta uma nota em babá à toa.
- Meu emprego é lá.
- Arranja outro cá.
- Não é tão simples.

A filha da filha interrompeu a conversa fazendo pum.

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Horas depois, mãe e filha mãe da filha da filha cercavam o berço.
- Ela é linda.
- Pegou seu nariz, mãe.
- Esse nariz é do seu pai. Não tenho esse calombinho.
Ivete tinha, sim, o calombinho, mas Lúcia não quis teimar.
- Pegou seu nome, também.
- Tentar subornar a própria mãe! Nem achei Maria Ivete bonito. Parece nome de pobre.
- Foi homenagem.
- Homenagem é pra morto, Lúcia. Francamente.

Sinos.
- Meia-noite, quer descer?

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Lúcia entrega um pacote para a mãe, que o abre. Um relógio de parede em forma de pingüim.
- Pra cozinha, mãe. É simples, mas é o que deu pra comprar.
- É lindo. Toma, esse é teu - e entrega um envelope. Lúcia abre.
- As promissórias!
- Eu te fiz assinar, mas esquece. O que é meu é seu. Pode rasgar.
- Você só tá fazendo isso pra me jogar na minha cara.
- Não quero jogar na sua cara! Eu sei que é difícil pra você. Esquece, tá? Não precisa me pagar nada não.
- Agora você quer ser boazinha? Depois de me torturar um ano inteiro com isso você quer dizer "eu te perdôo"?
- Por que você não me contou antes?
- De novo isso, mãe?
- Você estava grávida, grávida! Eu não consigo entender qual a razão nesse planeta que faz uma filha negar uma informação dessas pra própria mãe! Eu teria te ajudado!
- Eu não precisava da sua ajuda!
- Não ainda! Quanto tempo demorou até você vir aqui bater na minha porta?
- Nem devia ter batido!
- Deveria, só que antes. Eu sei como é criar uma criança sozinha, Lúcia! Eu não quero que você passe pelo que eu passei, você sabe como teu pai é um ninguém.
- Você ia fazer o mesmo discurso.
- Ia, mas ia te ajudar desde o começo. Você devia ter confiado em mim.
- Tem coisas que eu preciso fazer sozinha, mãe.
- Mas se você viesse morar comigo ia ser tão mais fácil!
- Eu não preciso da sua ajuda.

Ivete fica quieta por alguns segundos, mas volta a falar, quase gritando.
- Você me contava tudo quando era menor, tudo! Uma vez você pisou num caramujo e me trouxe ele pela mão! Você queria saber se tinha como colar ele de volta na casinha, Lúcia! Você achava que eu podia consertar tudo!
- Mas você não pode. Essa mania sua de querer consertar até o que não tá quebrado.
- Você que tem mania! De quebrar até o que não tem conserto.

Lúcia levanta e caminha até a janela. Lembra de quando deixou a casa da mãe. Sente a mesma angústia que a levou a sair. Tenta arranhar a parede, mas as unhas estão curtas para não machucar o nenê. Pensa em voltar a morar com a mãe, o aluguel de onde mora está caro e o emprego não está indo tão bem assim.

Ivete se sente solitária e, mesmo brigando, está feliz com a presença da filha e da filha da filha em casa. Não sabe se agüenta até o próximo natal sozinha como está. O dinheiro que Lúcia lhe devia nem lhe fez tanta falta assim, Lúcia fez. Pela primeira vez, sente falta de ter um marido.

Maria Ivete faz pum.
Os sinos tocam mais uma vez.

18.4.08

Tarefa de casa

Na cidade grande, as crianças são logo confinadas a apartamentos, não tem muito convívio humano, mas são mais adiantadas que as do interior. Será?

Lição de português. Interior do interior de algum estado do interior. Tarefa de casa, em duplas designadas pela professora, e o menino fica feliz de ficar na mesma dupla da menina pela qual é apaixonado.

Vão juntos à casa dele para estudar. O menino sugere o sofá, a menina prefere a mesa, o menino tenta fazer uma limonada disso e puxa a cadeira dele para bem perto dela.
Menina diz "Cadê seus pais?"
Menino diz "Trabalhando"

Oportunidade rara no interior, ele não quis contar que ia estar sozinho com medo que ela recusasse ir.
Menino diz "Quer que eu ligue a TV?"
Menina diz "A gente tem de estudar"
Menino diz "A gente tem a tarde inteira"
Menina diz "Vão vir me buscar em meia hora"
Menino diz "Trouxe todos os livros?"

Ela trouxe, e os esparramou pela mesa. Abriu um caderno e sugeriu alguma forma de fazer a tarefa, que o menino aceitou sem ter escutado direito.
Menino derruba o lápis de propósito e quase se deita na menina para pegar no chão.
Menina se esquiva.
Menino segura na mão da menina.
Menina puxa e diz "A gente tem de estudar"
Menino boceja e estica o braço atrás das costas dela.
Menina levanta para pegar um livro que ficou na mochila.
Ele tenta não desistir. Ela é a menina mais linda da sala.
Menino diz "Me dá um beijo?"
Menina diz "Não posso!"
Menino diz "Você já pode sim, já tem treze anos"
Buzina.
Menina diz "Meu marido chegou, termina e leva na aula amanhã?"

Meninas do interior casam muito cedo.

26.3.08

Motivação

Magda admirava a avó como só a avó poderia ser admirada. Negra, alta, imponente e doce, muito doce, casou com um jovem empresário quando moça e, hoje viúva, passa os dias conversando com a neta - e retribuindo a admiração: adorava ver que sua paixão resultou, tantos anos depois, na criança que escutava suas histórias tão atenta.
- Vovó, como a senhora conheceu o vovô?
"Boa história", pensou a avó. Sentou-se ao lado da neta para contar.
- Bem, quando eu vim para a cidade, era muito ingênua, Magda. Eu pensava que seria como era no interior, na cidade onde eu cresci. Você pedia um emprego, ganhava, e se trabalhasse bastante, ficaria rica. Mas não foi assim. Cheguei querendo estudar, querendo tanta coisa, e tudo era tão difícil, Magda, tão difícil... Não fosse a ajuda de uma pessoa, eu ia até acabar dormindo nas ruas.
"Lá vem alguma história heróica", pensou Magda, "a vovó é admirável", e pediu:
- E essa pessoa era o vovô?
- Não, mas me levou a conhecer o seu avô. - fez uma pose, como se visse as cenas novamente, assim como foram, mas cobertas em um tom branco esvoaçado que confere solenidade aos flashbacks - Era uma sexta-feira, eu tinha pedido emprego aquela manhã toda e, como no resto da semana, não tive sucesso. Parei para comer num boteco e um homem se aproximou.
- E esse homem era o vovô?
- Calma, Magda. - Voltou à pose de flashback - Se chamava Antenor, era velho, me pediu se eu estava triste, e eu confirmei e falei o porquê, e ele me disse que era palestrante motivacional e que palestraria em um colégio próximo dali aquela noite. Falou que para mim a palestra seria de graça e que seria muito útil para o meu futuro.
- E a senhora foi?
- Hesitante, mas fui. Aquela palestra mudou a minha vida.
- Lá a senhora conheceu o vovô?
- Ainda não. Acontece que esse Antenor era procuradíssimo. Um gênio da motivação, diziam. Falou por alguns minutos, depois levou toda a platéia para fora, onde uma árvore estava cercada por arbustos e mais arbustos, e disse "Aquela árvore representa o sucesso, tentem chegar ao sucesso" e todos pulamos para dentro dos arbustos, e tentávamos tocar a árvore e nenhum de nós conseguiu. Antenor nos mandou voltar e disse "O que mudaria em suas vidas tocar essa árvore? Essa é a minha concepção de sucesso. Cada um de vocês precisa saber que o sucesso está em todos os lugares. Ninguém precisaria ter tocado a árvore, e sim aproveitado a oportunidade que tinha na mão e apenas observado a beleza da árvore, ou tentado pegar alguma fruta, ou tirado uma foto. O sucesso está em todos os lugares, ninguém precisa sofrer tentando alcançá-lo. Basta aproveitar-se de tudo o que está à mão." Todos aplaudimos.
- E depois a senhora conseguiu emprego?
- De certa forma, sim. Antenor me chamou em particular depois da palestra e começou a dar em cima de mim. "Basta aproveitar-se de tudo o que está à mão", lembrei-me, e me ofereci para passar a noite com ele em troca de algum dinheiro.
- Vovó! - Magda, repreendendo.
- Era pouco dinheiro, se você visse o quanto ele estava acabado.
- Vovó! - a neta pensando em tapar as orelhas e sair correndo.
- E quando passávamos a noite, ele gritou doído e morreu dentro de mim.
- Oh, vovó! - era informação demais.
- Lembrei-me mais uma vez: "Basta aproveitar-se de tudo o que está à mão", e peguei sua carteira, algumas peças de roupa, enfim, tudo de valor. Chamei uma ambulância e fui embora. No dia seguinte, saí para tentar vender o que tinha pego do Antenor. Foi aí que conheci seu pai.
- Avô.
- Isso, avô. Vendi algumas das coisas para ele, ele se apaixonou por mim, e nos casamos rapidamente.

A avó levantou-se, abriu uma gaveta e dela tirou uma pequena caixa forrada com veludo. Sentou-se novamente e a abriu diante da neta, que levou um susto.
- Vó, isso é um olho!
- Um olho de vidro, Magda, não é de verdade. Era de Antenor, foi do seu avô e agora será seu.
- Vovó, eu não quero isso! - Magda nem olhava para o olho, de tanto nojo. "Como a avó poderia querer dar um olho de presente, credo!"
- É um olho muito bonito. Vamos, Magda, eu até te dou um desconto!

A neta arregalou os olhos e saiu da cozinha lentamente. Melhor conferir se a avó estava tomando os remédios direitinho.

11.3.08

O Abismo

Éramos o abismo, nos tornamos o abismo com o tempo. Nem sempre fomos, éramos unidos. Olho no olho, frente a frente até que as primeiras frentes frias vieram e nos encolhemos cada um ao próprio canto. Mas ainda próximos. Cantávamos melodias diferentes, mas cantávamos juntos, e ainda nos encarávamos.

Presenciávamos o afastamento, via-mo-lo aparecer lentamente como o crescimento de um filho, mas era natural. Nenhuma aproximação é eterna, sabíamos. E quem tem motivo pra conversar a vida toda? O assunto acaba, e dá lugar a coisas melhores como a frieza íntima de quem já se conhece mais do que deveria.

Menos próximos, mas lado a lado. Talvez fosse a educação, cúmplices não são tão educados quanto éramos. Nos desculpávamos demais, nos feríamos de menos. É o perdão que passa a doer quando não conversamos.

Mas a distância crescia devagar como supúnhamos que deveria ser, éramos distantes como deuses um ao outro, como distantes supúnhamos que Deus fosse. Éramos a névoa um do outro, a expectativa conquistada e colocada ao lado, a lembrança do que desejávamos ser.

Não que tivéssemos o que foi desejo, talvez isso machucasse a vontade de ainda abraçar, ainda ver de perto e ainda sentir carinho. A distância crescia e diminuímos ante a distância.

O buraco que nos separava era mesmo culpa nossa, e sabíamos, e deixamos crescer e virou o abismo e éramos o abismo, nos tornamos o abismo. Déssemos um passo adiante, cairíamos nele e não nos braços um do outro.

Não era arriscado, riscos são probabilidades e não havia sequer probabilidade de reunião. Felizmente a distância sabe que não sentimos o que não vemos, e de repente não víamos mais. Éramos lembrança apenas, e não havia mais nem névoa distante de visão real. Éramos pólos opostos. Negativo e negativo.

O mundo é circular, e de tanto nos afastarmos eventualmente voltamos a topar, costas com costas, e não nos reconhecemos. O abismo se fechou em círculo e subitamente éramos nada, nem lembrança.

A frieza imperou e mastigou a conversa. “Guarda-te do homem que não fala e do cão que não ladra”, o popular é tão inutilmente sábio para essas coisas. Mas conversávamos eventualmente, não conversávamos? Talvez não com sinceridade. Talvez por medo, talvez por sabermos que não teríamos assunto para conversar alguma coisa útil. Talvez se gritássemos “Ladra!”, seria possível escutar.

Mas não responder. O abismo emudece qualquer resposta.

19.2.08

Lilith

O que diferencia casais antigos de casais recentes é o tempo que passam juntos. Mais especificamente, é como gastam o tempo. Casais recém-formados costumam passar horas juntos, contando cada detalhe que lhes passa a cabeça, e tudo é interessante e digno de atenção. Casais com mais tempo de união passam, também, muito do seu tempo um com o outro, mas as conversas diminuem.

É como se o tempo junto fosse mais precioso, e cada um prefere resumir o que deve falar ao essencial, ao que mais lhe incomoda. Chegando em casa, desabam seus problemas sobre o ombro alheio, em busca de conforto. Os ombros pesam. Fala-se muito, até. Mas foca-se no que dói.

E só no que dói.

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A Bíblia, dizem alguns estudiosos, teve uma pequena alteração no livro de Gênesis. No primeiro capítulo narra-se a criação, até onde se cria o primeiro humano. Depois, no segundo capítulo, há outra narração sobre como o primeiro homem foi criado pelo deus bíblico.

Isso porque Jeová teria criado homem e mulher, macho e fêmea, Adão e Lilith, criados ao mesmo tempo, os dois feitos de barro. Ao deitarem juntos pela primeira vez, Lilith teria recusado ficar abaixo de Adão, submissa. Exigia igualdade.

Para resolver o problema, Adão pediu a deus uma nova companheira, uma ajudante, uma coadjuvante. A equivalência não seria justa, e então Jeová aniquilou Lilith para criar Eva, criada não do barro como Adão, mas de sua costela, para que nunca mais o homem tivesse de lidar com um ser equivalente. Eva foi ensinada a ser inferior, o exemplo da mulher que a Bíblia ensinaria a ser inferior por milênios. Eva era submissa.

E Eva fez com que Adão perdesse o direito à vida eterna. Adão deve ter ficado feliz: Morrendo não sentiria tanta falta de Lilith.

-

Cláudia tinha seis anos quando conheceu Nonair. As duas tornaram-se melhores amigas em poucos minutos, um giz de cera emprestado e estavam unidas para toda a vida.

- Sim, para toda a vida, mesmo se nunca mais se vissem. Não é como se quando um relacionamento acabasse e todos os laços miraculosamente desatassem. Sempre há sobras. Sempre há cicatrizes -

Aos dezessete, foram morar juntas enquanto faziam faculdade. Em poucos meses descobriram que não era só amizade, era amizade, mas mais que amizade, e se tornaram mais que amigas. Mudaram de endereço várias vezes, mas tudo o que tinham desde a faculdade foi guardado junto.

Assim foi até que, trinta e três anos depois, Nonair decidiu que tinham livros demais. Deviam jogar fora algumas coisas. “Tem coisa que tá aí desde os tempos de facul!”, mas Cláudia não compreendia. Para Cláudia, não eram livros que Nonair queria jogar fora. Eram dias. Eram histórias. Eram símbolos da vida em comunhão do casal.

“Guarda. É só organizar que cabe tudo. É bom guardar”, Cláudia dizia, mas Nonair achava que “Presta pra nada, melhor jogar fora. Olha esse livro, tá sem capa e acho que metade das páginas já caiu”, mas Cláudia lembrava que a capa tinha caído numa sessão intensa de sexo na escrivaninha, e Nonair nada, e Cláudia se ressentiu.

Trinta e três anos de casamento, quarenta e quatro de amizade, e nada tinha magoado Cláudia com tanta violência. Era mais uma cicatriz, e Cláudia nunca mais foi a mesma, e Nonair pensou que sua esposa tinha murchado. Nonair também murchou, tempo depois. O casal perdeu o viço e a mais que amizade tinha virado amizade e depois menos que amizade, apenas companhia.

O que nem Cláudia nem Nonair sabiam era que, mesmo quando o relacionamento é de muito tempo, não brigar não significa estar bem. O mais saudável sempre é evitar que o coração já dinossauro da relação se petrifique. Se soubesse que o melhor é sempre ter a capacidade de ser machucado e assim fugir do risco de fossilização, Claudia teria jogado um livro na testa de Nonair e brigariam e mais tarde arrancariam o resto das páginas do livro com mais uma boa trepada na escrivaninha.

Mas Claudia se deixou murchar, renunciou à Lilith e virou Eva, e passou o resto da vida se sentindo um pedaço de costela.



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Desculpem pelo tempo ainda mais longo que o normal pra postar. Pra saber mais sobre o mito de Lilith, clique aqui.

Suicídio e graça

Morro de inveja de quem sabe contar uma boa piada. Eu sou pior do que uma pessoa que não é engraçada: eu sou uma pessoa que tenta ser engr...