13.11.07

Linho Ácido

Sempre que possível, depois do almoço eu ia à casa dela para tomar chá. Chá, chá mesmo, só nos primeiros dias, porque eu precisava trabalhar logo depois e o sono era pouco, então optei por café, bastante café. Ela era um momento de paz no meu dia, uma hora que eu podia conversar sobre minhas inseguranças e ter uma voz que me escutasse, sábia e condescendentemente interessada no que eu tinha a falar.

Ela sempre me pareceu um paradoxo, uma pessoa tão mais rica e inteligente que eu, e ainda assim tão simples e próxima. Lógico que quando conhecemos alguém pensamos a pessoa de um jeito e aprofundar esse conhecimento pode revelar sustos. Me assustei ao saber que ela tinha uma família, próxima até, mas que eu não conhecia - com o tempo, freqüentei a casa dela em outros horários e conheci até alguns amigos da família. Mal sabia ela que muitas vezes me sentia mais em casa nos poucos minutos depois do almoço e antes do trabalho do que nas longas horas em que tentava dormir sem conseguir na minha verdadeira casa.

Como nos conhecemos, mistério. Não sabemos ao certo nosso primeiro contato, não fomos apresentados. Nos conhecemos sabe-se lá quando, e tomamos nossos lugares à mesa para tomar chá, e o hábito estava instaurado.

Eu mudei muito nesses anos, da água para o vinho, do chá para o café. Perdi tantas coisas, ganhei tantas outras, aprendi, emburreci, aprendi que emburrecer não é ruim, tanto, tanto. E ela lá, um olhar vigilante e a conversa depois do almoço. A diferença da idade parecia um imã, eu me sentia o ontem dela, e talvez ela visse o seu ontem em mim, éramos lados da mesma moeda, paralelos mas de certa forma distantes. Eu olhava para ela como se ela fosse uma esperança para o futuro, uma professora que o destino colocou ao meu lado pra que eu não sofresse tanto ao tropeçar.

Besteira minha esquecer que ela também sofria. Ela fez cerimônia pra me contar que estava doente, que poderia estar doente, aliás, e depois me contou que realmente estava sem cerimônias, sabia que eu já sabia. Ela era magoada, como um cão acuado pelo dono, que depois de tanta surra aprendeu a abanar o rabo pensando em morder com força. A mágoa a deixou doente, e quebrou com força o banquinho que a deixava um nível acima de mim. Por isso ela era tão doce, por isso ela me ouvia! Porque de certa forma, via o seu ontem em mim e via os bofetões duros que a vida lhe dera sendo dados em mim, e sentia medo.
O medo só contribuia para a criação de expectativas nela para que minhas expectativas não me magoassem e ferissem como a ela tinham ferido. Ela, assim como eu, tinha sonhos de perfeição. Ela, assim como eu, tinha medo. Ela, assim como eu, era eu.

Mesmo assim, não falávamos tanto sobre a doença durante as conversas, a não ser quando ela, por causa da doença, não podia participar da conversa como gostaria. Falava em seus silêncios e comia seus líqüidos enquanto eu me queixava das minhas pequenezas como se fossem gigantescos grilhões que me prendessem à mediocridade.
Ela não sabia que eu também sabia coisas dela, ela era eu no futuro, como eu deixaria de saber? Eu sabia das expectativas, ela também queria ser genial! Ela também queria a sobressaliência, por isso me olhava como se me prevenisse. E me prevenia até, de certa forma:
- E daí? Precisa ser genial? As pessoas gostam até quando você é medíocre.
O resto seria brinde.

Hoje, pensando nela e como será que eu vou ser amanhã, quando eu estiver em seu lugar, percebi porque ela estava doente. Criou uma casca em volta de si, por medo e por segurar a própria genialidade por muito tempo. Mesmo quando permitiu-se ser cortante, o medo estava lá. Não quis criar muros com quem a magoava, melhor criar linfomas. Não agredia quem a agredia. Ajudava a quem a agredia e agredia a si mesmo com força muito maior. E estava de bem com isso.

Ela era tudo o que eu queria e não queria ser. Ela me botava no chão e patrocinava meus sonhos, me arranjando um trabalho e outro ou mesmo me dando algum dinheiro que eu negava de início, mas precisava e aceitava feliz.

Não sei se tínhamos troca, mas sei que em seu mundo de amizades profundas e infecções, era plena em genialidade. Se sobressaía com pouco.

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...