21.5.07

Vocacional

(o texto a seguir me deixa tão desconfortável quanto uma moça que vai numa consulta ginecológica e descobre que o seu médico vai usá-la como material didático para sessenta jovens estudantes de medicina - e a moça tem certeza que os estudantes vão achar a vagina dela muito, muito estranha)

Todo artista deveria fazer o que sente. Se cantor, cantar o que sente. Se pintor, expressar o sentimento mais forte em cada tela. Escrevendo crônicas ou contos, como eu faço lá de vez em quando, nem sempre isso acontece. Não dá pra sentir tanta coisa pra acompanhar o ritmo em que eu gostaria de escrever, ou fazer qualquer outra coisa.

O problema maior é que eu exijo muito de mim. Faz quase um ano que eu faço terapia e eu ainda não aceito muito bem a idéia de não ser perfeito em tudo, ou de nem todo mundo gostar de mim – e tem muita gente não gosta, mas pelo menos agora tentar mudar a opinião dessas pessoas não é o pensamento mais corrente na minha cabeça. Sabem aquela música do Kid Abelha, que diz “eu sei de quase tudo um pouco, e quase tudo mal”? Diz mais do que eu poderia dizer em muitas outras linhas. A Paula Toller cantou o que eu sinto e não tenho capacidade de descrever.

A mesma música continua “eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim”. Maldito espelho que me dá vontade de quebrar em pedacinhos. Pra me refletir tal e qual, eu só mudaria pra “tudo tanto assim”. Isso que tem me amarrado e me proibido de escrever o quanto eu queria, ou pelo menos na qualidade que eu desejo.

Porra de mania que é procurar a perfeição. De tanto procurar ser perfeito, me tornei um bosta até na única coisa que eu sei fazer não tão mal: escrever. Tudo me interessa, tudo me deixa curioso, tudo me parece um caminho. E escolher uma coisa, querendo ou não, significa quebrar mil outras vontades e outros possíveis caminhos.

E, pra deixar tudo ainda pior, agora eu preciso escolher alguma coisa. Alguma coisa, não qualquer coisinha tipo ir no mercado e tentar escolher entre Negresco e Trakinas, mas uma escolha que vai afetar o resto da minha vida. Não que eu não saiba do que eu goste, mas “tanta coisa me interessa”.

Agora eu tenho dezessete anos, estou desempregado, brigado com boa parte da família, com as piores notas da minha vida, completamente indeciso quanto ao futuro, sem um tostão no bolso e com o cabelo torto porque eu mesmo cortei por falta de dinheiro. Toda vez que eu quebro a cara parece que cai uma calota de ingenuidade da minha cara. E aí passa uma semana, eu faço mais alguma asneira e percebo que sou muito mais ingênuo do que pareço. E repete-se o ciclo mil vezes, seja em alguma esperança que deu errado ou numa coisa pequena, como reler algum texto aqui do blog e perceber que minhas palavras andam bem longe do que eu quero mesmo dizer.

Eu li em algum lugar, faz pouco tempo, alguém indicando o blog de um menino de dezoito anos e dizendo que fazia aquilo porque o dono do blog era inteligente, e que pessoas inteligentes de dezoito anos são difíceis de encontrar. Eu admiro qualquer pessoa inteligente, queria muito ser desse jeito, pra alguém apontar pra mim e dizer “esse tem dezessete e é inteligente, vejam!”, e não tão terrivelmente comum, mas espero que isso mude um pouco com o tempo.

Desculpem se não fiz um texto que te faça rir, ou pensar, ou coçar a cabeça e dizer que não entendeu – quer dizer, talvez essa última opção aconteça – mas como eu não ando com o cérebro em condições de escrever algo mais apropriado ao estilo do blog, esse status típico de blog de uma patricinha de treze anos já serve pra alimentar o mês e o arquivo aqui ao lado não ficar faltando um mês. Mania de deixar tudo perfeito, mesmo pra tentar falar de quase tudo um pouco, e sair quase tudo mal.

Suicídio e graça

Morro de inveja de quem sabe contar uma boa piada. Eu sou pior do que uma pessoa que não é engraçada: eu sou uma pessoa que tenta ser engr...