22.1.07

Vantagens

-- Eu gosto de ser mulher. Dá um poder especial sobre os homens. É como se os homens fossem cachorros e você fosse um saco de biscoitos caninos.
-- Mas...
-- E você ainda pode dar ordens. É como se os homens fossem cachorros e as mulheres fossem um pacote de Pedigree que dá ordens.
-- Mas vocês perdem muito tempo.
-- Como?
-- Por exemplo, no banheiro. Vocês precisam levantar a tampa, conferir se a tampa tá limpa, abaixar a calça, abaixar a calcinha, sentar no vaso, fazer xixi, limpar com papel higiênico e fazer todo o processo de novo, ao contrário.
-- Fazer xixi ao contrário?
-- Você entendeu o que eu disse.
-- E vocês?
-- É só abrir o zíper, dar uma desviada na cueca e fazer xixi.
-- Mas sempre cai uma gota na cueca, depois. E aí fede.
-- Ô, a de vocês também cheira, às vezes.
-- Mas a gente não precisa se preocupar se a última gota cai na calcinha.
-- Mas a gente pode lavar o nosso na pia.

A rumo da conversa muda por um tempo.
-- Mas vocês tem de usar calça o tempo todo.
-- Isso é ruim?
-- No verão, vocês tem de ir pro escritório de paletó e gravata, a gente pode usar vestido. Aliás, a gente até é obrigada a usar vestido. Enquanto vocês são obrigados a passar calor, a gente é praticamente obrigada a ficar fresquinha.
-- Mas no inverno vocês passam frio quando têm de usar saia.
-- A questão aqui é o verão.
-- Nós podemos usar bermuda.
-- Bermuda não é tão fresquinha quanto saia. Esquenta igual.
-- Esquenta igual o quê?
-- Esquenta a região cuecal, igual calça.
-- E aí?
-- Aí que pode ficar fedido.
-- Mas a gente pode lavar o nosso na pia.

2.1.07

Rômulo, a batalha

Rômulo. Criado por uma loba, pai de um império. Acostumado às interpéries. Um mito. A história do nome fez a mãe batizar o filho dessa forma, esperando que o filho fosse resistente como o Rômulo mitológico.

Não, esse Rômulo não foi amamentado por uma loba, mas a mãe também era cruel. Obrigava a criança indefesa, aprisionada na cadeira de bebê, a comer. Rômulo detestava a papinha, mas sua mãe lhe forçava a receber a sua tortura pela boca: “Come, Rômulo, come!”. Rômulo resistia. A mãe lhe ameaçava com ataques aéreos: “Olha o aviãozinho!”. Rômulo permanecia forte. A mãe lhe chantageava: “Se não comer não ganha presente”. A mãe ainda era irônica: “Tanta criança que não tem o que comer nesse mundo!”. Rômulo balançava, mas não transigia.

A mãe, crudelíssima, até tentava parecer inofensiva. “Se você não comer, como eu”, e comia uma colherada da papinha como se ela fosse inócua. Rômulo tentava permanecer valente, mas a mãe tinha mais força. A mãe perde a paciência, e chega a pensar em chamar reforços: “Vou chamar seu pai, Rômulo!”.

Mesmo assim, Rômulo não afrouxa. É um garoto ideológico. Ele pensa grande. A mãe tem força física, Rômulo tem a força de resistir. A mãe desiste de convencer o filho e apela para as vias de fato. Enfia a colher boca abaixo em Rômulo. Rômulo tenta se esquivar, tenta fugir de todas as formas, mas não tem sucesso.

O gosto da papinha na boca era o mesmo gosto da derrota. Rômulo é forte, e cospe energicamente a papinha para fora da boca. Ele ainda tem muita força para resistir, e a mãe já começa a se cansar. Mas a mãe também é resistente, e já torpeda outra colherada. Rômulo pensa em cospir novamente, mas a mãe é rápida e obriga o filho a ingerir mais um pouco da papinha.

Rômulo tenta não ceder, tenta oferecer resistência, mas acaba comendo a maior parte da papinha do prato. A mãe respira aliviada. Rômulo decide que na próxima hora de comer, vai fugir. Talvez consiga achar um lugar como sempre sonhou, onde nunca precisaria comer.

A mãe, cansada, decide que não quer mais filhos. E que se tiver, não vai dar nome de guerreiro. Com um filho assim, cada dia é uma batalha.

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...