29.12.07

Olho mágico

Três batidas seguidas na porta. Ela corre uns passinhos e anda normalmente o resto do caminho. Abre a porta sem olhar o olho mágico antes, primeiro por já saber quem é, segundo porque ele sempre dançava para o olho mágico. Sempre. Ela, lógico, achava constrangedor.
- Boa tarde, Eridí!

A Eridiane ia reclamar que odiava que a chamassem de Eridí, mas não teve forças. Comparada à roupa do namorado, a dança pro olho mágico não chegava ao “C” de uma escala alfabética de constrangimento. A roupa seria, no mínimo, um sólido e constrangedor “T”. Era situação recorrente no casal um se sentir constrangido por algum comportamento do outro.
- Que é isso, Ricardo?!
- Pra festa, ué.
- A festa é daqui a cinco horas!
- Mas eu ia ter de vir pra cá, e daqui pra festa, e não ia ficar trazendo roupa pra trocar e depois destrocar, muito trabalho à toa.

Ele passa por ela e caminha em direção ao sofá. Ela vira para o lado dele e cruza os braços.
- Aí você resolveu vir vestido de palhaço em plena luz do dia?
Ele chega bem perto do sofá, mas não senta. Os braços cruzados eram um sinal claro de que ele não devia sentar.

(Um casal costuma transar da mesma forma que discute: a briga é barulhenta, imprópria e enérgica? Assim também é a transa. Os dois discutem sentados de perna cruzada, cada um em um sofá diferente, de forma quase imperceptível? Tal briga, tal foda.)

- Tem diferença de palhaço noturno pra diurno, Eridí?
- Eridiane!
- Tem diferença?
- O que você vai ficar fazendo o resto do dia aqui em casa vestido de palhaço?
- Mas foi você que pediu pra eu vir cedo pra te dar opinião no que vestir.
- E você acha que eu vou aceitar palpite de palhaço?

Ricardo faz bico e senta no sofá, só pra fazer birra. Birrar pode fazer sentado, porque é mais ou menos equivalente à uma preliminar, que também pode-se fazer relativamente sentado (ah, vá, dá sim). Se voltassem a discutir, ele levantaria. Os homens e suas inúmeras formas de demonstrar a quantidade de testosterona no sangue...

Ela fica quieta, ele também. A cada trinta segundos, ela faz um barulhento “humpf”, pra lembrar que está em silêncio. Ele se rende.
- E você, vai como?
- Eu ia botar um conjuntinho rosa velho, um broche e ia de Molly Ringwald.
- Em qual filme?
- Tem diferença?
- É, não tem mesmo.

Eridiane faz mais um “humpf” e resmunga:
- Sabe, agora que você tá todo fantasiado eu vou ter de trocar de fantasia pra alguma coisa mais chamativa, pra você não passar por idiota. Ou arranjar uma desculpa pra eu não ir fantasiada e você ser o assunto da festa, só pra aprender.
- E a Molly Ringwald?
- Você aniquilou qualquer possibilidade de Molly Ringwald.

“Que pena”, pensa Ricardo, “sempre tive tesão na Molly Ringwald”. O pensamento é interrompido pelo telefone, que Eridiane atende depois de um toque e meio.
- Alô? Ah, não?
- Quem é? - Ricardo sussura alto.

Eridiane faz um gesto com a mão que é para ele esperar.
- Morreu? Nossa, sinto muito!
Ricaro volta a sussurar, ainda mais alto que da outra vez.
- Quem é, diz!
O gesto com a mão é outro, mais agressivo.
- Então tá. Sinto muito, viu? Qualquer coisa liga. - e desligou.
- Quem era?
- Custava esperar? - ela senta ao lado dele - Era o Renatinho. A mãe da Mildes morreu agora no começo da tarde, a festa foi pro saco.
- Ah, merda. E eu cancelei tanta coisa pra ter a noite livre...
- Quer sair?
- Pra outro lugar, Eridí? Vestido de palhaço?
- Eridiane. E pensando bem, melhor não.

Trinta segundos e um humpf depois, Ricardo quebra o silêncio.
- Ei, já que a gente tá com a noite vazia, que tal...?
- Ricardo!
- Só uma sugestão, não quer aceitar não aceita.
- Eu não disse que não ia aceitar... Pode ser, então.
- Você me chama de Bozo?
- Você me chama de Molly?

Se as discussões eram constrangedoras, o sexo era mais ainda.

10.12.07

Legendas e Gerações

Morava com os avós e um primo, a empregada vinha em alguns dias da semana. Os avós não teriam a companhia dos netos se não fosse a faculdade estadual que se instalara na cidade. Talvez preferissem que a faculdade nunca tivesse sido aberta, ou que falisse de uma hora para outra. Aceitaram os netos de favor, porque os filhos nunca puderam fazer estudar e cobravam isso dos pais. Era como uma compensação pelo passado.

O fato é que o encontro de gerações era um péssimo encontro. Era um encontro daqueles que você descobre que a outra pessoa guarda todas as unhas que já cortou na vida num saco de lixo preto dentro do guarda-roupa, e ainda come algumas de vez em quando e que o gosto é de frango. Os avós discordavam dos netos quanto ao horário de dormir, de acordar e de ficar nessa maldita externet.

Quando assistiam TV juntos, ele e a avó, ele ficava irritado só pela presença dela. Claro que ela perguntar o final de cada legenda que fosse mais comprida também ajudava a irritar. Ele passou a ignorar a avó ao máximo que podia, porque assim os momentos em que não a ignorava - pensava ele - não seriam tão irritantes. Mas a avó se ofendeu, e falou que o neto só ficaria contente quando ela morresse. “Drama”, ele pensou.

Alguns dias depois, saindo da sala de televisão, ele encontra o cadáver da avó, balançando e pendurado por uma corda amarrada no pescoço e numa viga da cozinha. “Ai, meu Deus”, ele pensou. Mas não “Ai, meu Deus” de “Ai, meu Deus, o que foi que eu fiz?”, e sim um “Ai, meu Deus” na entonação de “Ai, meu Deus, o gato fez cocô no vaso de plantas mais uma vez”.

Chamou o avô e o primo, que correram desesperados para a cozinha. Ele sentou numa cadeira num canto e ficou assistindo a avó ser retirada da corda, deitada no chão e depois levada embora.

O primo começou a ficar mais tempo em casa, abalado com a morte da avó. Não necessariamente a morte da avó, mas a morte em si. Nunca tinha visto a morte tão de perto, tão apavorante, tão degolada e tão pendurada numa viga da cozinha. Nas poucas vezes que saía de casa, bebia como se fosse morrer no dia seguinte. Um dia, o palpite estava certo: voltou para casa, levou uma bronca do avô por fazer muito barulho, se revoltou e não foi para a cama, foi para a viga.

Saindo da sala de TV, o primo do primo viu o primo pendurado. Chamou o avô e assistiu a cena se repetindo.

O avô sentiu remorso, mas não pela morte do neto, mas por ser a segunda vez que alguém se suicidava naquela casa sem que ele tivesse percebido o mínimo sinal de transtorno. As coisas aconteciam paralelas a ele, não com ele envolvido na história. Isso era errado, era errado, não podia ser certo, não podia. Só podia seguir o mesmo rumo.

Ele saiu da sala de TV e enxergou o avô pendurado e nem chegou perto. Foi direto ao telefone chamar alguém para tirar o corpo do avô dali. Nem compareceu ao enterro.

De início, aproveitou que tinha a casa só para si. Assistia TV em paz, dormia em paz, estudava em paz, vivia em paz. Mas ninguém pedia qual era a legenda, ninguém chegava bêbado e barulhento, ninguém o ofendia mais. A casa era pacífica e monótona demais.

Ele destrancou a porta da frente e foi para a cozinha. Jogou a corda na viga, que já estava marcada pelas outras cordas, e a amarrou lá. Enrolou a corda no pescoço e foi encontrar o resto da família.

Na manhã seguinte, a empregada abriu a porta, caminhou até a cozinha, viu o moço pendurado, e virou o rosto. Então viu a pia cheia de louça e deu meia volta. Saiu para comprar corda.

13.11.07

Linho Ácido

Sempre que possível, depois do almoço eu ia à casa dela para tomar chá. Chá, chá mesmo, só nos primeiros dias, porque eu precisava trabalhar logo depois e o sono era pouco, então optei por café, bastante café. Ela era um momento de paz no meu dia, uma hora que eu podia conversar sobre minhas inseguranças e ter uma voz que me escutasse, sábia e condescendentemente interessada no que eu tinha a falar.

Ela sempre me pareceu um paradoxo, uma pessoa tão mais rica e inteligente que eu, e ainda assim tão simples e próxima. Lógico que quando conhecemos alguém pensamos a pessoa de um jeito e aprofundar esse conhecimento pode revelar sustos. Me assustei ao saber que ela tinha uma família, próxima até, mas que eu não conhecia - com o tempo, freqüentei a casa dela em outros horários e conheci até alguns amigos da família. Mal sabia ela que muitas vezes me sentia mais em casa nos poucos minutos depois do almoço e antes do trabalho do que nas longas horas em que tentava dormir sem conseguir na minha verdadeira casa.

Como nos conhecemos, mistério. Não sabemos ao certo nosso primeiro contato, não fomos apresentados. Nos conhecemos sabe-se lá quando, e tomamos nossos lugares à mesa para tomar chá, e o hábito estava instaurado.

Eu mudei muito nesses anos, da água para o vinho, do chá para o café. Perdi tantas coisas, ganhei tantas outras, aprendi, emburreci, aprendi que emburrecer não é ruim, tanto, tanto. E ela lá, um olhar vigilante e a conversa depois do almoço. A diferença da idade parecia um imã, eu me sentia o ontem dela, e talvez ela visse o seu ontem em mim, éramos lados da mesma moeda, paralelos mas de certa forma distantes. Eu olhava para ela como se ela fosse uma esperança para o futuro, uma professora que o destino colocou ao meu lado pra que eu não sofresse tanto ao tropeçar.

Besteira minha esquecer que ela também sofria. Ela fez cerimônia pra me contar que estava doente, que poderia estar doente, aliás, e depois me contou que realmente estava sem cerimônias, sabia que eu já sabia. Ela era magoada, como um cão acuado pelo dono, que depois de tanta surra aprendeu a abanar o rabo pensando em morder com força. A mágoa a deixou doente, e quebrou com força o banquinho que a deixava um nível acima de mim. Por isso ela era tão doce, por isso ela me ouvia! Porque de certa forma, via o seu ontem em mim e via os bofetões duros que a vida lhe dera sendo dados em mim, e sentia medo.
O medo só contribuia para a criação de expectativas nela para que minhas expectativas não me magoassem e ferissem como a ela tinham ferido. Ela, assim como eu, tinha sonhos de perfeição. Ela, assim como eu, tinha medo. Ela, assim como eu, era eu.

Mesmo assim, não falávamos tanto sobre a doença durante as conversas, a não ser quando ela, por causa da doença, não podia participar da conversa como gostaria. Falava em seus silêncios e comia seus líqüidos enquanto eu me queixava das minhas pequenezas como se fossem gigantescos grilhões que me prendessem à mediocridade.
Ela não sabia que eu também sabia coisas dela, ela era eu no futuro, como eu deixaria de saber? Eu sabia das expectativas, ela também queria ser genial! Ela também queria a sobressaliência, por isso me olhava como se me prevenisse. E me prevenia até, de certa forma:
- E daí? Precisa ser genial? As pessoas gostam até quando você é medíocre.
O resto seria brinde.

Hoje, pensando nela e como será que eu vou ser amanhã, quando eu estiver em seu lugar, percebi porque ela estava doente. Criou uma casca em volta de si, por medo e por segurar a própria genialidade por muito tempo. Mesmo quando permitiu-se ser cortante, o medo estava lá. Não quis criar muros com quem a magoava, melhor criar linfomas. Não agredia quem a agredia. Ajudava a quem a agredia e agredia a si mesmo com força muito maior. E estava de bem com isso.

Ela era tudo o que eu queria e não queria ser. Ela me botava no chão e patrocinava meus sonhos, me arranjando um trabalho e outro ou mesmo me dando algum dinheiro que eu negava de início, mas precisava e aceitava feliz.

Não sei se tínhamos troca, mas sei que em seu mundo de amizades profundas e infecções, era plena em genialidade. Se sobressaía com pouco.

5.10.07

O Caminhante Noturno

O rapaz estava insone, tinha passado a madrugada aceso. Não por ansiedade, ele não ansiava muita coisa, quer dizer, talvez ansiasse dormir e isso o afastava ainda mais do sono, mas nenhuma grande ansiedade que justificasse o estado de atenção ligado.
Resolveu sair. O bairro não era perigoso, mas ainda eram 4 e meia da manhã, escuro, o dia ainda parecia uma esperança incerta. Saiu mesmo assim: vestiu uma jaqueta, botou o celular no bolso, saiu e trancou a casa.


A cidade estava calmíssima. Mais clara do que de dia em alguns lugares, graças à iluminação artificial e às luzes das vitrines de uma ou outra loja. A cidade, pensou o rapaz, era aquela, não aquele lugar barulhento que, naquele momento, parecia tantos quilômetros distante e na verdade era distante por algumas horas. Depois inverteu o pensamento, e parecia estar no esqueleto da cidade, no corpo morto, sem vida, calmo. Talvez, se fosse comparar, seria o cadáver de um vilão, que ganha uma serenidade e uma quase-beleza calma depois de perder a sua cruel vitalidade.


Caminhou sem encontrar pessoa até chegar à pequena praça do bairro. Muitas árvores, e aquele cheiro que a natureza adquire pela manhã. O rapaz andava, observador e calmo, até a surpresa:
- Você!


O rapaz olha para a direção da voz. Esqueceu que a cidade não estava realmente morta.
- Eu?
- Tá vendo mais alguém aqui? - Era outro rapaz, mais ou menos da mesma idade, gorro e casaco.
- Burrice minha, desculpa. Não imaginei que encontraria alguém aqui nesse horário.
- É, aqui é calmo mesmo. Mas, rapaz...


“Deve estar querendo alguma informação. Não deve ser daqui, deve ter descido do ônibus no começo da noite e caminhado até aqui.” pensou o rapaz que passeava.
- Sim?
- Er... Passa a grana.
- O quê?
- Acho que foi uma punch line bem clara! Quer dizer, talvez “Mãos ao alto, é um assalto” soasse melhor. Só que tem rima, e eu não sou bom com poesia. Passa a grana!
- Você precisa mesmo falar mais alto e com mais velocidade quando pede pra passar a grana?
- Passa a grana!
- Bem desse jeito mesmo!
- PAS-SA A GRA-NA. - O ladrão falou lentamente, por entre os dentes.
- Agora sim, parece ladrão de filme americano quando tortura o mocinho um pouco mais antes do mocinho tirar uma arma do bolso e atirar nele até a morte.
- Valeu. Poesia não me dou bem, mas até que me viro como ator. Ei, arma?
- Era modo de falar. Tenho medo de arma. Um tio meu morreu quando a arma que estava no bolso disparou nele.
- Morreu com tiro no pé?
- Não, na cabeça. Ele usava a arma ao contrário pra impressionar as garotas.
- Ah. Então você não tem arma?
- Não, não trouxe nada. Aliás, trouxe o celular, mas é velho, não serve pra nada. Nem tira foto, pra você ter idéia. - Mostrou o celular, antigo, pra provar o que estava falando.
- Uau. Ainda existe isso? Mais um tempo e valeria roubar como relíquia.
- É. Mas mesmo assim, se isso fosse um filme americano, eu não seria mocinho.
- Você não é mocinho?
- Ainda não menstruei.
- Ahn?
- Piada... Era piada, sabe, a mulher fica mocinha quando mens...
- Sim, entendi. Mas você não tem dinheiro, nada?
- Nadica. Mas também, olha a hora!
- Como?
- Roubando à essa hora? Não passa quase ninguém na rua!
- É. Mas tem muito ladrão concorrendo comigo, tenho que pegar esse turno algumas vezes por semana pra completar a renda.
- E adianta?
- Depende do dia. Hoje, por exemplo, acho que vai valer.
- Por quê?
- Pagamento dos aposentados. Já, já, passa um monte de velhinhos indo cedo pra não pegar fila.
- E você assalta eles?
- Sim, lógico. As crianças precisam comer.
- Você tem filhos? - já era praticamente um encontro social.
- Não, mas não vem ao caso.
- Não seria mais sensato assaltar os velhinhos depois deles sacarem a aposentadoria?


O ladrão levou a mão ao queixo e balançou a cabeça.
- Sabe que faz sentido?
- Você sempre vem em dia de pagamento do INSS?
- De três meses pra cá.
- E isso nunca te passou pela cabeça?
- É... não é à toa que os velhinhos só tinham passe de ônibus pra me dar. Os que ainda pagam pra andar de ônibus, pelo menos.
- E dá pra viver de passe de ônibus, me diga?
- Pelo menos dá pra voltar pra casa.
- Onde você mora?
A mão do lavadraz volta ao queixo.
- Ahn, aqui.
- Na praça?
- É. Melhor, perto do trabalho. Me poupa uma caminhada...
- Eu devia ter batido na árvore antes de entrar na praça, então?
- Quê?
- Esquece. Mas eu vou indo então, que já tem velhinho vindo e tenho de voltar correndo pra dar tempo de me arrumar pra ir pro trabalho. Até mais!
- Até.
O rapaz anda alguns metros e escuta:
- Espera!
Vira-se para trás.
- Que foi?
O ladrão estende a mão:
- Quer um passe pra ir de ônibus?
Bom sujeito, o gatuno.
(O andante notívago dormiu no ônibus e perdeu o trabalho aquela manhã. Foi demitido e está considerando pegar o turno da manhãzinha na praça.)

17.9.07

A Unção Extrema

E vamos todos nos fingir de mortos por alguns minutos
mas só por alguns minutos
porque a morte de verdade pode chegar no meio do faz-de-conta.


Pôncio era solteiro, apesar da idade (velho, mas nem tanto, perto dos seus sessenta anos). Nunca casou, mas chegou a ter relacionamentos mais longos, com mulheres sempre covardes o suficiente pra nunca se aproximar tanto assim. Todos os seus casos amorosos eram de uma noite só, mesmo se durassem três anos de uma-noite-sós. No resumo de tudo, era só o sexo e apenas isso.

Teve o que muita gente chamaria de uma vida ideal. Era relativamente solitário: não tinha amigos, tinha companheiros de bebedeira ou de discussões - o que, pra muita gente, é elemento chave para uma vida ideal. Sucesso profissional, sucesso sexual, sucesso financeiro, por Deus, até sucesso alimentar, chegou perto dos sessenta comendo gordura e fumando todos os dias. A parte chata era não ter quem o visitasse agora, nos seus últimos momentos.

Duas enfermeiras que se revezavam, constantemente assediadas, mas com humor e classe, e um bom salário que evitava que pedissem demissão. Mesmo assim, não teriam muito emprego por muito tempo. As forças se perdiam aos poucos, e os poucos já eram muitos à essa altura, e sem avisar, chamaram um padre para a fazer a extrema-unção. Ele chega perto das onze da noite.
- Boa noite. Você deve ser o Pôncio.

Pôncio olha para a enfermeira com cara feia. Ela se mete:
- Chamei o frei Antônio pra te visitar. Nessa hora, talvez você queira ter um papinho com alguém religioso...
- Mas eu não sou religioso! - disse Pôncio.
- De qualquer forma, vou deixar vocês à sós. - a enfermeira da noite mal tinha fechado a boca do que falou e já estava fora do quarto.

O padre senta num canto da cama.
- Posso, meu filho?
- Não. E eu tenho idade pra ser seu pai.
- Formalidades. Até que você está bem, pra quem está tão debilitado.
- Consigo falar e só. Sabe o que eu comi nos últimos três meses? Sopa. E eu odeio sopa.
- A provação nos faz pessoas melhores, Pôncio.
- Não acredito nisso.
- Deus não dá ponto sem nó.
- Devia me matar de vez ao invés de ficar costurando.

Pôncio não era ateu, mas nunca foi em igreja sem ser por turismo. Mesmo pequeno, a família não era religiosa e isso o livrou da culpa que quase todo cristão sente depois do alívio de abandonar a igreja.
- Bom, não sabemos dos planos de Deus.- disse o padre - E mesmo assim, a morte vai chegar alguma hora. E, vamos ser honestos, a sua hora parece próxima.
- Quanta sinceridade.
- Bem, mentir é pecado, você sabe. E a única certeza que temos na vida é a morte.
- E os impostos. E ereções involuntárias, no seu caso.

O frei olha para baixo, assustado, mas logo relaxa a expressão.
- É o forro da batina que enrosca na cueca, às vezes, e causa esse volume. Desculpe.
- Será que foi isso no filme da Pequena Sereia?
- Ahn?
- Nada.
- Mas como eu dizia, a única certeza da vida é a morte. E quando a morte está perto, precisamos nos arrepender dos nossos pecados.
- Não concordo.
- Com o quê?
- Que a única certeza da vida seja a morte.
- Como? Todos nós vamos morrer um dia.
- Isso mesmo. Um dia.
- Explique melhor.

Pôncio se arruma na cama.
- Suponhamos que uma pessoa jovem esteja completamente isolada...
- Sim...
- E essa pessoa está completamente saudável, digamos que acabou de fazer um check-up, está bem alimentada, e não há risco nenhum de ser atingida por uma bala ou coisa parecida. O oxigênio é abundante.
- Prossiga.
- Essa pessoa pode ter certeza de que não vai morrer nos próximos minutos, certo?
- Podemos dizer que sim. Mas vai morrer, um dia.
- Sim, mas não agora. Saber que vai morrer eventualmente não é certeza nenhuma.

O padre não tem tempo de responder.
- Você não tem certeza nenhuma sobre o dia, ou sobre as circunstâncias, certo?
- Realmente.
- Então que tipo de certeza é essa?
- Bem...
- É uma certeza incerta. Uma incerteza. Que você proclamou como verdade. Mais ainda, que você proclamou como a única certeza possível.
- Não chega a esse ponto...
- Chega sim, padre. O senhor mentiu.
- Não cheguei a mentir, não.
- Dizer uma incerteza como certeza é mentir. E mentir é pecado, não é?
- Bem...
- É ou não é?
- Devo dizer que sim.
- Então você também deve se arrepender antes que morra. Posso ficar sozinho, agora? Muito obrigado pela visita.

Sem muito o que dizer, o padre saiu, confuso. Pôncio só não morreu aquela noite porque agora tinha uma história pra contar pra enfermeira do dia.

7.8.07

Da lata do lixo: Discrição

Nota rápida: Vendo meus arquivos no computador, resolvi começar uma nova série, só com os textos que escrevi e disse que nunca iria publicar uma merda daquelas, só pra me contradizer e ter o que colocar aqui quando não dá tempo de escrever.

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Acho que na vida tudo se equilibra. Se você tem só o claro, ou só o escuro, é fácil definir. É claro!, é escuro!, é fácil definir. Mas o claro e o escuro só existem juntos. Até no mais claro dos claros, tem um pouco de escuro, e o bastante do claro se mistura no escurinho do pouco escuro e aquela claridão é única, e é mistura, e não dá pra definir o que é, e tudo por causa do pouquinho de escuro que deixa tudo equilibrado ali.

Ela ficava apavorada naquele quartinho. A enfermeira já nem vinha ver mais, não era caso de tratar com remédio. As paredes azuis daquele quarto que parecia enorme quando ela entrou ali pela primeira vez desbotavam no mesmo ritmo que ela. Perdiam o viço, perdiam o gosto, perdiam a cor. O quarto que era gigante à primeira vista, e parecia que ia engolí-la, virou anão. E a engoliu mesmo assim, a engolia um pouquinho cada dia.

Por menor que o quarto parecesse, a porta parecia cada vez mais longe dela. Mais longe do mundo.
Ela imaginava que se alguém batesse na porta...

Ela imaginava que a porta tremia – era alguém batendo – e depois rangia para abrir, e então entrava um homem. Não bonito. Careca, mas que sorria a careca inteira quando a via e dizia que sempre quis ter vindo e tê-la conhecido, e a abraçava e a levava para longe e tratavam de ficarem felizes.

Ela imaginava que a porta escancarava e entrava todo um circo de uma vez, e os palhaços a faziam rir, e os malabaristas lhe faziam cair o queixo, e ela arranjava uns trocados para comprar o algodão doce, e depois ela aplaudia e o circo ia embora, e ela ficava com peso na consciência de ter gasto os poucos trocados que tinha.

Ela imaginava que uma mulher entrava – era sua mãe – e a acolhia, e a amava e a nutria como acontecia tantos anos antes, e ela voltava ao útero e tudo que sentia era amor e calor, nem fome sentia mais, e perdia a memória das paredes azuis desbotadas.

Mas só pôde fazer imaginar. A porta a escarnecia, estática, e a humilhava cada vez que não abria. Levantar ela não podia, e tudo na vida se equilibra, e ela queria viver. Todo o mundo em volta não a queria viva, ela era pobre e ocupava espaço. Ela querendo a própria vida, os outros querendo a sua morte. E as coisas se equilibravam e as vontades se confundiam e misturavam. Nem vivia nem morria, nem claro, nem escuro. Apenas estava lá.

O claro da vontade dela se dissolveu murcho no escuro da vontade dos outros, e então a lembraram como “discreta”.


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Nota rápida #2: Um assassino, vários suspeitos, vários escritores. Minha participação no Austregésilo foi para o céu foi publicada hoje, e você pode ler o depoimento de Alceu, o biógrafo.

10.7.07

Jacuzzi

Quarto lugar no vestibular pra entrar na faculdade mais concorrida do país. Não o suficiente pra se gabar – pelo menos não para ela. A perfeição era tão presente na sua vida que tudo o que não era perfeito ou perto disso era descartado.

Medicina, e depois se especializaria em plástica. Não que ela fosse superficial, superficialidade é defeito e ela beirava à perfeição (ainda mais pela modéstia, ela sempre agia igual com todos). Você poderia julgá-la pela aparência, mas ela jamais te julgaria por isso. Inteligente, sempre a melhor aluna da sala. Não dependia apenas do estudo para se distrair. Tinha amigas. Amigos. Namorados, mas sempre namoros mais longos, que acabavam por algum acontecimento grande desses que a vida está cheia e não se pode escolher. Mesmo assim, beirava à perfeição.

O dia já começou difícil. Acordou atrasada e correu para o hospital. A especialização parecia cada dia mais distante. Dor nas costas, o dia inteiro, e mesmo assim, o sorriso impecável no rosto, a simpatia em cada conversa, o brilho ainda nos olhos azuis, o cabelo loiro que parecia perfeitamente planejado.

Fora o cansaço, seria mais um dia normal. Faltava pouco pro horário de sair. Assim que chegasse em casa, tomaria um banho de banheira e dormiria, talvez tomando um comprimidinho pra relaxar. Lembrou do seu cachorro e isso deu fôlego pra continuar o dia.

Pouco antes do horário de sair, chega uma ambulância. Mais um desafio, mais uma oportunidade para ela salvar o dia - e ficar ainda mais cansada. É uma criança, uma menina, que se contorce de dor, toda vermelha do sangue. Ela acalma a menina com um olhar.

Foi atropelamento, e a mão da menina foi quase arrancada pelo carro. O motorista fugiu. A menina ainda chora. Ela chama mais médicos. Sala de cirurgia, e mesmo anestesiada a menina tinha expressão de dor no rosto. A mão estava comprometida demais.

O médico que a supervisionava aquela tarde resolve dar uma chance para a aluna e pede para ela mesmo pegar a serra - incrível como não há exatamente um equipamento especializado pra esse tipo de amputação, usa-se serra mesmo - e amputar o que sobrava da mão da criança. Aliás, pouco sobrava da mão. Foi-se um pedaço do antebraço, também.

Quando a menina acordou da anestesia, ficou desesperada com a falta da mão, com aquela pontinha enfaixada do braço. A quase-médica observando a agonia da garota. Agonia, agonia. E o sistema público não cobriria um tratamento psicológico. Ela esperaria uns dias, e voltaria pra casa. Mesmo assim, a menina foi atendida com toda a atenção e cuidado, porque a estudante que a tratara beirava a perfeição..

Quase perfeita, mas ainda assim muito assustada com o que viu. Nunca tinha participado de nada assim antes. Viu a menina perder uma parte do corpo, uma parte da vida, uma parte da auto-estima. Passou no gabinete de remédios, voltou para a sala de cirurgia, guardou suas coisas e foi embora. O turno acabou.

Chegou em casa. Tinha pego uns comprimidos fortes no hospital, estavam na bolsa. Não queria continuar a se sentir perturbada. Encheu a banheira. Abriu uma garrafa de champagne que estava guardada há tempos para alguma ocasião especial, tirou uma tulipa do armário e a encheu.

Foi para a banheira. Tomou os comprimidos todos de uma vez. Estava zonza. Tirou a serra que roubou da sala de cirurgia. Lembrava do rosto da menina, do resto da mão que foi jogada fora como lixo hospitalar, da agonia. Não sentia nada mais no corpo. Zonza. Pegou a serra e cortou a mão esquerda. Com força. Não sentia muito, mas ainda doía. Mesmo se não sentisse nada, estava em choque e tudo parecia absurdo. Conseguiu cortar toda a mão.

Cada vez mais zonza, largou a serra da mão direita, pegou a tulipa cheia de champagne e bebeu um gole. Pensa “Não é bom misturar remédios com álcool”, e percebe que isso não faria diferença nenhuma agora. Ri do pensamento bobo. A água da banheira começava a ficar vermelha. Ela, cada vez mais zonza e porfim derrubou o champagne no chão. A hidromassagem continuava a espalhar o vermelho na água. Não sentiu mais nada até apagar de vez.

E beirava à perfeição.



(com um agradecimento à Dra. Hanna Machado, que me passou umas informaçõezinhas médicas pro texto)

5.6.07

Sexta-feira, lábios

Dois colegas de quarto, sexta-feira à noite:

- Sair, hoje, topa?
- Hoje não. Preguiça.Vou dormir.
- Dormir? E o caçador em você? E as chances de arranjar a mulher da tua vida? Ou da tua noite, que é melhor ainda?
- Dormir.
- Eu acho que a gente tem de seguir o impulso da vida. Aceitar os impulsos sexuais. Ser um caçador. Seguir pra onde o pinto aponta, sabe?
- É, até concordo. Quer dizer, no meu caso isso significaria andar em círculos para a esquerda...
- Não! No sentido de ir para onde a gente tem possibilidade sexual. Seguir o instinto. Aproveitar todas as oportunidades sexuais da sua vida.
- Pra daqui a vinte anos encontrar uma menina novinha safada, e descobrir que ela é filha de uma mulher que você ficou hoje?
- Com cuidados. Não vai acontecer. E se acontecer eu não vou saber. O que os olhos não vêem...
- O pinto não sente? Ah, vai que escapa? Que acontece e você não sabe? Tem a filha, vinte anos depois acaba indo pra cama?
- O que os olhos não vêem...
- Não venha com provérbios pela metade pra cima de mim! Provérbios já são um saco, quando falam pela metade fica pior ainda.
- É que pra bom entendedor...
- Vou te dar um soco.
- Brigas fazem a gente perder tempo que poderia ser utilizado para o sexo.
- E se você reconhecer a menina?
- Que menina?
- A filha que você teve com uma total estranha e nunca soube.
- Ah. Filha hipotética.
- Você leva a Hipotética para a cama, e reconhece alguma coisa estranha nela.
- Mas eu não vou lembrar que era relativo a mãe.
- Suponhamos que a mãe tenha um detalhe. Os grandes lábios com uma curvatura diferente.
- Ahn?
- Grandes lábios...
- Ahn?
- Na vagina.
- Lábios?
- Na boceta!
- Ah, tá.
- E você reconhece na filha. O que você faz?
- Não dá pra ter certeza.
- Dá sim. Grandes lábios são como impressão digital.
- Os pequenos talvez, mas os grandes?
- Até dez segundos atrás, você nem sabia que boceta tinha lábios. Nem teime.
- Está bem. O que eu faria?
- Exatamente. O que você faria? Viria com “Acho que te conheço de algum lugar”?
- “Você não é filha da Matilde?”
- “Reconheci o sinalzinho na virilha”
- A Matilde tinha sinalzinho na virilha? Perdi todo o tesão nela, agora. E na Hipotética também.
- Um sinalzinho bonito.
- Como é um sinalzinho bonito?
- Esquece. Vamos supor que ela seja filha da Matilde, o que você faria?
- Se a Matilde tivesse sinalzinho na virilha, eu não faria ela. E se tivesse feito, falaria pra Hipotética: “Você têm os grandes lábios da sua mãe”.
- E levaria um tapa.
- Triste.
- Sádico, de leve. Vou dormir.
- Mas você não ia sair?
- Tem chocolate na geladeira.

21.5.07

Vocacional

(o texto a seguir me deixa tão desconfortável quanto uma moça que vai numa consulta ginecológica e descobre que o seu médico vai usá-la como material didático para sessenta jovens estudantes de medicina - e a moça tem certeza que os estudantes vão achar a vagina dela muito, muito estranha)

Todo artista deveria fazer o que sente. Se cantor, cantar o que sente. Se pintor, expressar o sentimento mais forte em cada tela. Escrevendo crônicas ou contos, como eu faço lá de vez em quando, nem sempre isso acontece. Não dá pra sentir tanta coisa pra acompanhar o ritmo em que eu gostaria de escrever, ou fazer qualquer outra coisa.

O problema maior é que eu exijo muito de mim. Faz quase um ano que eu faço terapia e eu ainda não aceito muito bem a idéia de não ser perfeito em tudo, ou de nem todo mundo gostar de mim – e tem muita gente não gosta, mas pelo menos agora tentar mudar a opinião dessas pessoas não é o pensamento mais corrente na minha cabeça. Sabem aquela música do Kid Abelha, que diz “eu sei de quase tudo um pouco, e quase tudo mal”? Diz mais do que eu poderia dizer em muitas outras linhas. A Paula Toller cantou o que eu sinto e não tenho capacidade de descrever.

A mesma música continua “eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim”. Maldito espelho que me dá vontade de quebrar em pedacinhos. Pra me refletir tal e qual, eu só mudaria pra “tudo tanto assim”. Isso que tem me amarrado e me proibido de escrever o quanto eu queria, ou pelo menos na qualidade que eu desejo.

Porra de mania que é procurar a perfeição. De tanto procurar ser perfeito, me tornei um bosta até na única coisa que eu sei fazer não tão mal: escrever. Tudo me interessa, tudo me deixa curioso, tudo me parece um caminho. E escolher uma coisa, querendo ou não, significa quebrar mil outras vontades e outros possíveis caminhos.

E, pra deixar tudo ainda pior, agora eu preciso escolher alguma coisa. Alguma coisa, não qualquer coisinha tipo ir no mercado e tentar escolher entre Negresco e Trakinas, mas uma escolha que vai afetar o resto da minha vida. Não que eu não saiba do que eu goste, mas “tanta coisa me interessa”.

Agora eu tenho dezessete anos, estou desempregado, brigado com boa parte da família, com as piores notas da minha vida, completamente indeciso quanto ao futuro, sem um tostão no bolso e com o cabelo torto porque eu mesmo cortei por falta de dinheiro. Toda vez que eu quebro a cara parece que cai uma calota de ingenuidade da minha cara. E aí passa uma semana, eu faço mais alguma asneira e percebo que sou muito mais ingênuo do que pareço. E repete-se o ciclo mil vezes, seja em alguma esperança que deu errado ou numa coisa pequena, como reler algum texto aqui do blog e perceber que minhas palavras andam bem longe do que eu quero mesmo dizer.

Eu li em algum lugar, faz pouco tempo, alguém indicando o blog de um menino de dezoito anos e dizendo que fazia aquilo porque o dono do blog era inteligente, e que pessoas inteligentes de dezoito anos são difíceis de encontrar. Eu admiro qualquer pessoa inteligente, queria muito ser desse jeito, pra alguém apontar pra mim e dizer “esse tem dezessete e é inteligente, vejam!”, e não tão terrivelmente comum, mas espero que isso mude um pouco com o tempo.

Desculpem se não fiz um texto que te faça rir, ou pensar, ou coçar a cabeça e dizer que não entendeu – quer dizer, talvez essa última opção aconteça – mas como eu não ando com o cérebro em condições de escrever algo mais apropriado ao estilo do blog, esse status típico de blog de uma patricinha de treze anos já serve pra alimentar o mês e o arquivo aqui ao lado não ficar faltando um mês. Mania de deixar tudo perfeito, mesmo pra tentar falar de quase tudo um pouco, e sair quase tudo mal.

8.4.07

Armários

- Olha, Juninho, é neve!
- Queria ter ido pra praia, tio! Seattle é um saco.
- Você quer me matar do coração? Aqui é refinamento! Se me pedisse pra conhecer a Disney eu entendia, é coisa da idade. Mas praia?
- Praia sim, tio! Surfar, chupar picolé, areia...
- Meus sais!

o.o.O.o.o

- Meu pai, senhor Coronel?
- Fale, filho.
- Eu gosto de moça não.
O Coronel atira duas vezes. Os problemas precisam ser resolvidos da maneira mais prática.

o.o.O.o.o

Na comunidade hippie:
- Cevada não, mãe! Eu quero Sucrilhos.
- Pequeno burguês ingrato!

o.o.O.o.o

- Preto, minha filha?
- O que tem de errado?
- Não podia ser um mais branquinho, não?
- Ele é perfeito pra mim!
- A filha da Antônia arranjou um preto também, uma noite bateram nela e bau-bau, ela morreu.
A filha concorda e vai procurar um carro mais claro.

o.o.O.o.o

- Eu sou um pote de margarina e ninguém pode me mudar!
- Sim, querida, mas precisa ser com sal?

o.o.O.o.o

O garoto volta da escola:
- Mãe, pai, cheguei!
Os pais tentam abafar:
- Quieto, filho! Os vizinhos podem escutar!

o.o.O.o.o

- Eu tenho assistido bastante Woody Allen ultimamente.
- Senhor, mas até na nossa família?

o.o.O.o.o

- Ciclismo!
- Não, futebol!
- Ciclismo!
- Fu-te-bol!
- Ciclismo!
- Futebol!
- Sedentarismo!
- Fechado.

o.o.O.o.o

- Então, decidiu?
- Sim, Zé. Odontologia.
- NÃÃÃÃO!

o.o.O.o.o

- Nem maconha?
- Não, vó.
- Nem cigarro?
- Não, vó.
- Abstêmio?
- Nem carne vermelha!
- Traidor! Mas também, criado pela avó, só podia dar nisso...

o.o.O.o.o

- Vejam bem, a classe média...
- Não! Nem comece!
- O risco de seqüestros diminui bastante!
- E o nome da família?
- A classe média nunca viveu tão bem!
- Porque você não faz como a Lucinha, ela casou com o...
- Eles estão atolados em dívidas!
- Ele dirige um Bentley, pelo amor de Deus!

o.o.O.o.o

- Pai, mãe, preciso contar uma coisa pra vocês.
- Você não é veado, é?
- Bom...
- Mas filho, isso é pecado!
- Sério mesmo? Desculpa, não sabia!
Na falta de outra mulher mais próxima, o menino estupra a mãe ali mesmo. O pai balança a cabeça, satisfeito. “Isso que é filho.”

o.o.O.o.o

- Filho, você é o filho que a gente pediu a Deus!
- Que bom, mãe.
- Mas você não acha isso meio monótono, não?

31.3.07

Tapete

Marido e mulher, na sala de estar.

- Não tô gostando do jeito que anda esse tapete.
- Acho que só tá sujo.
- Sujo mesmo.
- É só lavar.
- Lavar tapete dá muito trabalho, e não adianta.
- Não adianta?
- Não adianta. Pensa: tem um monte de ácaros aí, não tem?
- Provavelmente. Isso se eles não forem alérgicos a mofo.
- Acho que ácaros gostam de mofo.
- Ninguém gosta de mofo.
- Você nunca foi à França, foi? Eles adoram mofo.
- Franceses não são ácaros, amor.
- Você acabou de destruir minha imagem mental do povo francês.
- Esse tapete é persa? Pérsia fica perto da França? Pérsia ainda existe, aliás?
- Comprei na Pernambucanas, não deve ser de lugar nenhum não.
- Não existe essa de lugar nenhum.
- Digo, deve ser produção nacional.
- O Brasil não é lugar nenhum.
- Agora você destruiu minha imagem mental da minha pátria mãe.
- Por quê lavar tapete é ineficaz?
- Tem um monte de ácaros aí, não tem?
- Não vamos começar tudo de novo.
- Enfim, esses ácaros vivem aí faz tempo. Aos milhões.
- Não tem milhões de ácaros nesse tapete. Eles não são tão pequenos.
- Eles dominam a França, por quê não esse tapete?
- Conclua.
- Aí a gente joga um monte de água neles. E sabão, muito sabão. Precisa muito sabão pra lavar um tapete, sabia?
- Muito sabão.
- E com tudo isso, ou eles morrem afogados ou intoxicados com sabão ou esfregados com a vassoura.
- Vassouras são armas letais e eu não sabia.
- A gente passa a vassoura neles e eles, supostamente, morrem.
- Eu pensava que sua família só usasse vassoura pra voar.
- Mas eles são tantos, e tão pequenos, que mesmo mortos, eles continuam lá aos milhões.
- É como pisar num cemitério na própria sala de estar.
- Na verdade, é como usar uma panela pra cozinhar, depois jogar sabão em cima e cozinhar na mesma panela de novo, sem limpar a sujeira.
- Pelo menos o tapete fica sem manchas.
- Mas ainda é um cemitério. Um jazigo, que a gente usa pra decorar a sala.
- Combina com a jaguatirica empalhada na estante.
- Aquilo é uma jaguatirica empalhada?
- Claro.
- Você quer dizer que tem um bicho morto, que já esteve vivo e jaguatiricando pela floresta, e eu pensava que era só um bicho de pelúcia dura?
- Você é ingênua.
- E você ainda destrói minha imagem mental das jaguatiricas.
- Mando lavar o tapete?
- Se essa jaguatirica estivesse viva, ela comeria ácaros ou a gente?
- Talvez muitos ácaros de uma vez só, ou um pedaço pequeno da gente.
- Ela passa segurança, né?
- Vou mandar lavar o tapete.
- Odeio esse tapete. Vou sempre levar na memória que esse tapete é um cemitério, e não só um tapete.
- São só ácaros! E a gente nem usa tanto essa sala, mesmo.
- Um dia, e você destrói a França, o Brasil, as jaguatiricas e esse tapete.
- Mando lavar ou não?
- Bota no quarto da empregada.

19.3.07

Variáveis

A maior qualidade de uma pessoa é sempre o seu maior defeito. Dizem que a beleza está nos olhos de quem vê, mas esse efeito vai muito além do que define o que é belo e o que é feio.

Jacir é um senhor elegante, companheiro e fiel. Sua esposa, Luiza, não poderia encontrar parceiro melhor. Luiza vê em seu marido uma pessoa que está sempre com ela, ela precisando de ajuda ou não.

Almoço na casa do casal:
- Couve, Luiza?
- Já me servi, amor. Obrigada.
- Se quiser, eu te alcanço o prato.
- Está bem, amor.
- Vou pegar um copo d'água, quer também?
- Sim, mas não gelada.
- Aqui está.
Os dois sorriem, felizes. São um casal adorável. Não, Luiza não poderia encontrar parceiro melhor.

Mas nem todos compartilham o ponto de vista de Luiza. Vitório, o chefe de Jacir, o vê como uma pessoa que está sempre com ele, ele precisando de ajuda ou não.
No escritório:
- Senhor Vitório, o homem que forneceria as tampas de bueiro para o novo loteamento está na linha, quer falar contigo.
- Existe uma pessoa só para fornecer as tampas de bueiro?
- Eu acho que já li isso em algum lugar...
- De qualquer forma, fale que eu não estou.
- Ele não está – e o homem do outro lado da linha responde alguma coisa e desliga – Senhor Vitório, ele quer marcar uma reunião contigo essa semana. Diz que é importante.
- Confira na minha agenda e marque.
- O senhor prefere algum dia em especial?
- Qualquer horário livre está formidável.
- Terça-feira pode ser?
- Tanto faz, Jacir.
- Eu posso marcar para quarta-feira, também.
- Tanto faz, Jacir.
- Quarta-feira, então.
- Formidável, Jacir.
- Então tá marcado. Quarta-feira.
- Está bem, Jacir!
Vitório pensa em demitir Jacir. É um funcionário incômodo.

Para Luiza, um gentleman. Para o chefe, um chato. A chatice está nos olhos de quem vê.


o.o.o.O.o.o.o

Reinar. Mandar e ser obedecido, o poder por qual muita gente daria um olho. Curiosamente, James era um rei cego. Ter súditos e servos, para ele, não era muito importante. O poder mais admirado por James era o de ter o povo sempre prestando atenção em suas atitudes, sempre obrigado a lhe ouvir.

Por ser cego, James sempre apreciou muito a música. Começou ouvindo os músicos da corte, em seus tempos de príncipe. Com pena do pobre príncipe rico, um dos músicos lhe deu uma harpa. James aprendeu a tocar a harpa sozinho. Sabia muitas canções populares de cor, mas o que realmente o fazia sentir a vida valer à pena era compor.

Compôs muito com o passar do tempo, e já rei convocou todo o povo para vê-lo tocar. A multidão, obrigada a ir, era grande e se amontoava sob a sacada real. O rei começou a tocar. O povo se assustou com a música do rei. A música do rei era pior que a de um disco solo do Mick Jagger.

A multidão começou a diminuir. Voltavam para suas casas e tentavam esquecer o que tinham ouvido. Alguns continuavam assistindo, apenas pelo prazer bizarro da cena. Os servos de James, depois do fim do concerto, o aplaudiram e elogiaram muito.

Para James, um grande músico. Para o povo, um rei maluco. O talento estava apenas nos olhos de James. Mas James, o rei, era cego.

23.2.07

Super-herói Aleatório Begins

(Texto tapa-buraco, já que as aulas voltaram e são uma boa desculpa pra ficar sem atualizar o blog por um tempo. Foi escrito originalmente para um concurso das Garotas que Dizem Ni, e não ganhou porque é ruim.)

Nos dias de hoje, várias profissões têm sumido, e muitos jovens optam por profissões mais clássicas, com vagas de emprego mais fáceis de encontrar. Com essa tendência tomando força, em alguns anos podem faltar profissionais em certos ramos. Entre esses ramos, o de super-heróis. Para evitar que isso aconteça, seguem sugestões para quem deseja fazer carreira nessa profissão – e ter sucesso. Para ser um bom super-herói, você precisa ter:

Um poder que te destaque: O poder é o ponto de princípio para criar um super-herói. Depende:
a) do lugar onde ele vive: se ele vive na água, o poder de ser um peixe. Se ele mora em São Paulo, o poder de respirar gás carbônico. Se ele mora no Rio, o poder de desviar de bala perdida. Se ele mora no Paraná, o poder de não morrer de tédio.
b) do público alvo: um herói com o poder Sossega-Curíntia se daria bem entre palmeirenses, mas o Justiceiro-da-Barriga-de-Cerveja não se daria bem com o público feminino.

Um bom nome: O nome de um super-herói precisa ser escolhido a dedo. Ele pode:
a) ser escolhido com base no poder: Homem-Mata-Barata-No-Canto, Mexe-Com-Computador-Man, Usa-Muitos-Hífens-Boy.
b) ser americanizado: um nome terminado em “man” ou “boy” acumula vários pontos. Assim foram batizados heróis clássicos como o Office-boy e o Ombudsman.

Um vilão: Todo herói precisa de um antagonista. Ele precisa contrabalançar as bondades do herói com defeitos: Se o herói salva mulheres grávidas, o vilão come criancinha. Se o herói é o Homem-Que-Tem-Amante, a vilã é a Corna-Com-Pau-De-Macarrão-Woman.

Uma identidade a proteger, um trauma do passado a resolver:

a) Não tem graça ser só herói o tempo todo. Pra quê passar o tempo todo voando e salvando o mundo se você pode passar metade do seu tempo sendo Bob, o operador da máquina de xerox, ou dedicar sua vida profissional a ser Tuck, o mecânico de cidade pequena?
b) A respeito do trauma do passado: você não pode ser simplesmente o HeavyMetalMan, você precisa ser um garoto cuja família foi assassinada por integrantes de um grupo de pagode.

Um grupo de amigos: Um grupo de heróis, quando reunido, tem seus poderes multiplicados. Mesmo assim, evite juntar heróis de ambientes muito diferentes. Senão, como você vai conseguir explicar o Aquaman numa sala de reuniões mais seca que o sertão nordestino?

Uma crise: Do que serve o super-herói se ele não tem perigo algum a combater? O herói precisa ser herói por alguma razão. Depois de resolver a crise, ele será coberto de honras e glória – até que o acusem de ser culpado por alguma outra tragédia. Então, outra crise começa para o nosso paladino.


Agora, vamos colocar a lição em prática. Imagine a cena. Alguns super-heróis estão reunidos numa sala de reuniões, prontos para proteger o mundo.

PaladinoMan: O dia está estranhamente quieto hoje.
OfficeBoy: É. Acho que vou aproveitar pra ir ao banco. Senão tem de pegar fila, é um pé no saco.
Justiceiro Clubber: Vamos dar uma festa!
PaladinoMan: Não, rapazes. Isso só pode ser uma armação.
Homem Interrogação: Uma armação? Como? De quem? Por quê? Esse porquê é junto ou separado?
PaladinoMan: Calma, Homem Interrogação. O Homem-Arbusto deve estar tramando alguma.
Homem Interrogação: Homem-Arbusto?
PaladinoMan: Sim, o homem que quer dominar o mundo!
Justiceiro Clubber: Uau, galera! Devemos nos proteger. Vou colocar um CD de techno, e a gente salva o mundo.
PaladinoMan: Nós precisamos tomar uma atitude.
OfficeBoy: Eu, hein! Nem a ONU toma, a gente vai ter de tomar.
PaladinoMan: Nós somos super-heróis, devemos ser destemidos!
Homem Interrogação: Quem disse? Quem?
PaladinoMan: É a nossa missão. Respeitem.
Homem Interrogação: Mas o que ele vai fazer?
OfficeBoy: Será que ele vai decretar feriado, antes de botar o plano maligno em prática? Se tiver feriado, eu tenho que ir no banco antes, senão quando eu for vai estar lotado, e eu ainda tenho um monte de cobrança pra fazer.
PaladinoMan: Não sei o que ele pode fazer. Invadir algum país sem motivo aparente, como antes?
Justiceiro Clubber: Acho que ele pretende coisa pior. Talvez bombardear todas as raves do mundo.
Homem Interrogação: Será? Vocês tem certeza?
OfficeBoy: Vejam! O alarme de catástrofes mundiais está apitando!
PaladinoMan: Sabia! Vamos ver o que ele fez dessa vez. Liguem o painel.
OfficeBoy: Não será preciso, chefe. Ele está no telefone. SecretáriaWoman está passando a ligação.
SecretáriaWoman: Eu não sou secretária! Eu sou a MulherMãeSolteiraQueTrabalhaFora, e vocês não me reconhecem! Eu não sirvo só pra atender telefone, sabiam!
PaladinoMan: Deixem-me atender o telefone em paz.
SecretáriaWoman: Metido.
PaladinoMan: O quê?
SecretáriaWoman: Atende o maldito telefone.

PaladinoMan atende o telefone. Quem fala é o vilão.
Homem-Arbusto: Olá, PaladinoMan. Quanto tempo, hã?
PaladinoMan: Corte a conversa mole! O que você está tramando.
Homem-Arbusto: Uma crise que vocês não poderão deter.
PaladinoMan: Desembuche, seu bastardo!
Homem-Arbusto: Um surto mundial de amnésia.

Homem-Arbusto desliga o telefone, rindo malignamente. PaladinoMan conta o que ouviu ao telefone.

PaladinoMan: Ele pegou realmente pesado dessa vez!
Homem Interrogação: O que ele fez?
PaladinoMan: Ele... Ele... Ahn, não lembro.
OfficeBoy: Então não deve ser nada de importante.
Justiceiro Clubber: Vamos pra náite, então?
Homem Interrogação: Vamos pra onde?
Justiceiro Clubber: Ah, esquece.
OfficeBoy: Vamos rachar uma pizza?
Homem Interrogação: Do quê?
OfficeBoy: Do quê o quê?

Esqueci de avisar antes. Como super-herói, evite casos que você não pode combater. Evite também... ahn, do que eu estava falando?

22.1.07

Vantagens

-- Eu gosto de ser mulher. Dá um poder especial sobre os homens. É como se os homens fossem cachorros e você fosse um saco de biscoitos caninos.
-- Mas...
-- E você ainda pode dar ordens. É como se os homens fossem cachorros e as mulheres fossem um pacote de Pedigree que dá ordens.
-- Mas vocês perdem muito tempo.
-- Como?
-- Por exemplo, no banheiro. Vocês precisam levantar a tampa, conferir se a tampa tá limpa, abaixar a calça, abaixar a calcinha, sentar no vaso, fazer xixi, limpar com papel higiênico e fazer todo o processo de novo, ao contrário.
-- Fazer xixi ao contrário?
-- Você entendeu o que eu disse.
-- E vocês?
-- É só abrir o zíper, dar uma desviada na cueca e fazer xixi.
-- Mas sempre cai uma gota na cueca, depois. E aí fede.
-- Ô, a de vocês também cheira, às vezes.
-- Mas a gente não precisa se preocupar se a última gota cai na calcinha.
-- Mas a gente pode lavar o nosso na pia.

A rumo da conversa muda por um tempo.
-- Mas vocês tem de usar calça o tempo todo.
-- Isso é ruim?
-- No verão, vocês tem de ir pro escritório de paletó e gravata, a gente pode usar vestido. Aliás, a gente até é obrigada a usar vestido. Enquanto vocês são obrigados a passar calor, a gente é praticamente obrigada a ficar fresquinha.
-- Mas no inverno vocês passam frio quando têm de usar saia.
-- A questão aqui é o verão.
-- Nós podemos usar bermuda.
-- Bermuda não é tão fresquinha quanto saia. Esquenta igual.
-- Esquenta igual o quê?
-- Esquenta a região cuecal, igual calça.
-- E aí?
-- Aí que pode ficar fedido.
-- Mas a gente pode lavar o nosso na pia.

2.1.07

Rômulo, a batalha

Rômulo. Criado por uma loba, pai de um império. Acostumado às interpéries. Um mito. A história do nome fez a mãe batizar o filho dessa forma, esperando que o filho fosse resistente como o Rômulo mitológico.

Não, esse Rômulo não foi amamentado por uma loba, mas a mãe também era cruel. Obrigava a criança indefesa, aprisionada na cadeira de bebê, a comer. Rômulo detestava a papinha, mas sua mãe lhe forçava a receber a sua tortura pela boca: “Come, Rômulo, come!”. Rômulo resistia. A mãe lhe ameaçava com ataques aéreos: “Olha o aviãozinho!”. Rômulo permanecia forte. A mãe lhe chantageava: “Se não comer não ganha presente”. A mãe ainda era irônica: “Tanta criança que não tem o que comer nesse mundo!”. Rômulo balançava, mas não transigia.

A mãe, crudelíssima, até tentava parecer inofensiva. “Se você não comer, como eu”, e comia uma colherada da papinha como se ela fosse inócua. Rômulo tentava permanecer valente, mas a mãe tinha mais força. A mãe perde a paciência, e chega a pensar em chamar reforços: “Vou chamar seu pai, Rômulo!”.

Mesmo assim, Rômulo não afrouxa. É um garoto ideológico. Ele pensa grande. A mãe tem força física, Rômulo tem a força de resistir. A mãe desiste de convencer o filho e apela para as vias de fato. Enfia a colher boca abaixo em Rômulo. Rômulo tenta se esquivar, tenta fugir de todas as formas, mas não tem sucesso.

O gosto da papinha na boca era o mesmo gosto da derrota. Rômulo é forte, e cospe energicamente a papinha para fora da boca. Ele ainda tem muita força para resistir, e a mãe já começa a se cansar. Mas a mãe também é resistente, e já torpeda outra colherada. Rômulo pensa em cospir novamente, mas a mãe é rápida e obriga o filho a ingerir mais um pouco da papinha.

Rômulo tenta não ceder, tenta oferecer resistência, mas acaba comendo a maior parte da papinha do prato. A mãe respira aliviada. Rômulo decide que na próxima hora de comer, vai fugir. Talvez consiga achar um lugar como sempre sonhou, onde nunca precisaria comer.

A mãe, cansada, decide que não quer mais filhos. E que se tiver, não vai dar nome de guerreiro. Com um filho assim, cada dia é uma batalha.

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...