19.8.17

Amar é frustrar

Pais machucam filhos.

Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo.
Duas certezas biológicas: a da reprodução e a da produção de traumas.

Agora, pobre do pai que acredita que pode se poupar de machucar um filho.
Todo pai que age cheio de dedos para evitar causar traumas futuros em seu filho não o faz pelo bem do filho: o faz pela vaidade de ser considerado um bom pai.

Ironicamente, os bons pais são odiados,
Bons pais incomodam, bons pais tem defeitos horríveis, bons pais dão a seus filhos o presente de, desde cedo, saber lidar com situações difíceis.

Um bom pai precisa criar, pelo menos, três bons traumas em seus filhos por semana.

Menos do que isso é negligência.

--

Filhos machucam seus pais.

Aliás, bons filhos machucam seus pais.

É necessário não ceder às suas expectativas e botar alguma ordem nessa bagaça. Sim, eles mandam em casa, mas eles não mandam na vida de todo mundo.
Muito menos na vida de um bom filho.

Quer ver um filho ruim? É aquele que vai com a mãe na igreja, que leva o pai ao supermercado e que deixa o salário inteiro em casa no fim do mês. É aquele que paga com a própria gastrite pela mania de limpeza da mãe.

--

Um bom filho presenteia sua mãe kardecista com uma tatuagem do Belzebú, pra ela aprender a ter tolerância religiosa.

Um bom filho presenteia seu pai vascaíno com uma bandeira do Flamengo na porta do próprio quarto, pra ele aprender que seu amor pelo filho supera tudo.

Um filho ótimo aparece com um neto de presente para os pais assim que completa quatorze anos.
Ah, quanta coisa esses pais vão aprender com isso!

--

É no embate entre pais e filhos que acontecem os maiores crescimentos nessa relação.
Na hora do colo e cafuné tudo é muito bonito, mas pobre da família que só tem amor e carinho.

Família serve pra entender a ambiguidade de amar e odiar a mesma pessoa.
Pra gritar no almoço de domingo e pra ferrar com todas as possibilidades
Pra ser tão ruim, tão ruim, a ponto de uma pessoa aprender que os horrores de ser independente e se ferrar na vida não são tão ruins assim,

Família serve pra ferir, pra pedir perdão e seguir amando.
Pra ensinar que, mesmo causando danos horríveis à vida de outro ser humano, é possível ser amado incondicionalmente.

--

Pra chegar nesse nível de evolução, só soltando o cinto de segurança e deixando a própria personalidade correr solta, por mais que ela possa causar acidentes no trajeto.

Frustrar não é falta de amor. Frustrar é, justamente, amar.
Frustrar é mostrar a possibilidade de um mundo real e libertar a outra pessoa da infantilidade de viver desejando um mundo ideal.

Seja de pais para filhos, seja de filhos pra pais.

Todos feridos, todos frustrados, todos banhados de amor.

14.8.17

Pra quê serve a adolescência?

Nem todo choro é igual.
Existe aquele choro comum, um choro de cotidiano, pras angústias do dia-a-dia, e existe o choro sentido, vindo do fundo da alma.

Esse último é reservado para momentos de dor profunda que há de se guardar por muito tempo, ou para dores que estão guardadas há tempos e saíram do guarda-roupas pra arejar.

--

Esse choro sentido, quando vem de olhar pra trás, quase sempre é de alguma rejeição profunda de infância ou... de alguma coisa superficial da adolescência.

Dor de infância a gente respeita. Quer dizer, pra quê dar mais porrada em uma criança que está ali dentro de um adulto, sofrendo?

As de adolescência não.
"É bobo falar disso", meus pacientes dizem antes de contar do pé na bunda que sofreram aos dezessete e que não conseguiram superar.

"É um sonho irrelevante", eles falam, quando passaram a noite andando nus pelo colégio em que estudaram e sendo ridicularizados.

--

No fundo, no fundo, temos a ideia de que adolescentes são inúteis.

Eles não servem para muita coisa: comem muito, reclamam muito e cheiram mal. Não sabem controlar o próprio corpo e falam alto demais. 

Se você disser que não gosta de crianças, vai receber mais desaprovação pública que o governo do Temer, mas diga que não gosta de adolescentes e apenas escute "Aborrecentes, né?".

Nem os adolescentes gostam de adolescentes. 
Até quem já saiu da fase olha pra quem foi naquele tempo e fala "Puta merda, que franja horrível eu tinha, Como eu era sem noção."

Mas, assim como uma criança interior mora em cada um de nós, um adolescente incômodo está ouvindo a música mais dramática possível, no último volume, em algum quarto do nosso coração.

E, pra que a gente consiga aguentar esse barulho... Só arranjando um jeito de amá-lo.

--

Se a infância é a fase da descoberta, a adolescência é a fase da vergonha.

Temos vergonha da nossa pele, temos vergonha da nossa voz.  Achamos que somos o centro do universo e temos pressa de mudar. 

Essa vergonha e sensação de reprovação constante é muito útil, porque impulsiona o pensamento de "Eu vou provar pra eles!" que faz uma pessoa chegar longe.

Depos disso, é uma vida inteira tentando consertar nossos defeitos de adolescência, pra depois de velhos pensarmos "Eu era feliz e não sabia". 

A única coisa boa de envelhecer é perceber que você não precisa sentir vergonha de si. 
Pra chegar nesse ponto, só elaborando bem a própria adolescência. Isto é, lembrando das vergonhas da época, olhando para como cresceu e lembrando que não, isso não é bobo.

E, se for o caso, deixando aquele choro sentido correr.

--

Um adulto sem força pra viver é um adolescente que ainda está dando ouvidos às críticas que escutou. Nada recompõe mais uma pessoa abatida do que assumir como qualidade o que, quando jovem, ouviu dizer que era defeito.

Com generosidade, dá pra perceber que, justamente naquilo que a gente não tentou consertar, melhoramos muito. Que merecemos amor, mesmo ainda sendo desengonçados.

Que crescer é inevitável e bom, mesmo quando nos sentimos (e somos!) inadequados.

--

De uma fase com tantas mudanças, só sai bem quem aceita que vai seguir sempre mudando. Cresce de verdade aquele que permanece adolescente. 

Sim, a adolescência é uma fase irritante e transitória, mas mudar é irritante mesmo - e não estar em transição é estar morto.

11.8.17

Quase-Perdão

Sempre achei estranho quando uma pessoa falava "Nunca consegui perdoar fulano!".

Acho que é de geração. Hoje o pessoal tem mais como lema  aquele "Eu só me arrependo do que eu não fiz" que as pessoas falam quando saem do Big Brother do que as velhas ideias católicas de pecado e arrependimento.

Não adianta. Chega uma hora em que você é passado pra trás ou alguém faz algo que te fere. 
Como o assassinato é um crime e esconder um corpo é muito difícil, o que sobra pra fazer?
Exercer o perdão.

Mesmo sem acreditar tanto assim nele.

--

Começar a perdoar é muito difícil, porque a primeira fase do perdão é a raiva e nós somos um bando de frouxos. A gente acha que raiva é coisa boba, a gente imita a Sandy na capa da Capricho falando que "Ódio é uma palavra muito forte" e empurra tudo goela abaixo.

Mas a raiva é essencial para botar fim numa situação de dor. É preciso ter ódio, agressividade, vontade de matar, ou pior!, de casar a pessoa com o José Serra, porque a raiva é justamente a energia que permite botar ponto final em uma coisa e ir para outra.

Para perdoar , você admite que a pessoa que (traiu sua confiança? roubou seu namorado? sequestrou seu cachorro? deu o nome do próprio filho com o nome que você sonhava desde o jardim de infância?) foi escrotíssima, e confessa a si mesmo que não é um anjo de luz e que sim, está se mordendo de  ódio da pessoa pelo que ela te fez.

A raiva é a mastigação do perdão: se você tentar engolir alguma coisa sem ela, a situação vai ficar entalada na sua garganta por muito tempo. 

--

A segunda fase do perdão é a mais difícil. É o "Quase-Perdão".

Quando você está no "Quase-Perdão", a situação já parece ter ficado pra trás e os pingos já parecem ter caído confortavelmente sobre os is, até que...

Você sonha com o desgraçado.
E, no sonho, você faz com um taco de beisebol o que normalmente se faz com creme antirrugas, e espalha porrada na cara de quem te machucou.


Quando você acha que já está tudo superado, você cruza com um carro igualzinho ao de quem te machucou e você imagina a cena se repetindo, dói tudo de novo, todos os sentimentos vem à tona e você chora no meio do estacionamento da Havan... 
Mas esquece tudo meia hora depois, porque afinal de contas, você já perdoou - ou quase.

--

A terceira fase do perdão já não tem a ver com a outra pessoa.
Perdão mesmo, de verdade verdadeira, pra fechar o negócio, é dado a si mesmo. Você precisa se perdoar por ter sido trouxa o suficiente pra passar pelo que passou. 

A gente gosta de pensar que é o centro do universo, e que provocou tudo o que o outro fez com a gente, mesmo que tenha sido atropelado por um desconhecido bêbado. 

Por isso, mesmo sem ter feito nada, é preciso perdoar-se por ter provocado o problema. 

Por ter acreditado em quem não devia, por ter sido ingênuo e ambicioso, ou por repetir o mesmo padrão que, agora, olhando pra trás, estava na cara o tempo todo.

Se perdoar por ser humano e ter acreditado quando alguém ofereceu uma oportunidade de ganhar muito dinheiro rápido, e por ter deixado essa pessoa fugir com as suas economias para o Paraguai.

--

Depois de tudo perdoado (a si mesmo) e esquecido (porém guardado para futuras referências), você pode retirar seu diploma de Perdoador Exemplar na paróquia mais próxima.

Não é uma conquista muito feliz, porque ela sempre vai partir de ter tido uma experiência ruim.
Infelizmente, perdoar não dá prazer nenhum. 

Mas, pelo menos, abre espaço pra que algum outro prazer aconteça.
Se você tentar tudo isso e o perdão não vier... Falha minha. 
Me perdoe.

6.8.17

Como acaba um relacionamento

Não são claros os termos do que faz uma pessoa se apaixonar por outra, mas a coisa fica muito mais simples quando falamos do que faz um relacionamento acabar.

Não é o fim da atração física, não é parar de ter conversas interessantes sobre os seus artistas musicais favoritos.
Isso não é munição suficiente.

Não é brigar, nem ter uma convivência difícil.
Isso ainda passa, se o dinheiro estiver entrando e o sexo continuar bom.

Um relacionamento só acaba quando uma pessoa entende que ela não é importante para a outra na medida que a outra é importante para si.
Pode demorar pra chegar lá, mas quando esse momento chega... Acabou de vez.

--

Estava tudo bem enquanto a gente saía no soco de vez em quando, sabe?
A gente perdia a cabeça, mas encontrava o corpo.
Incrível como o corpo é muito mais maravilhoso do que a cabeça.

Estava tudo bem enquanto a gente se traía, sabe?
Não era bom, de jeito nenhum, mas dançar entre a culpa, a raiva e a paixão deixava meu cérebro mais ligado do que três baldes de café, e não saber se o que você falava era mentira ou verdade te dava um ar de mistério muito sedutor.

--

Estava tudo bem quando você levou todo o meu dinheiro
Você chorou na minha frente quando eu te descobri. Você sofreu sinceramente e me abraçou.
Eu te percebi tão criança, tão sem saber o que fazia. Me senti tão íntimo de você, tão querendo te dar carinho.

Estava tudo bem quando cheguei em casa e vi minha avó no chão, com o olho roxo, depois de você discutir com ela sobre o jogo de gamão.
Sim, ela era a pessoa mais doce que eu já conheci, mas ela podia ter tido um pouquinho mais de paciência contigo.
Todo mundo se vai um dia, e pelo menos ela parecia tranquila deitada no chão com a dentadura cuspida pra fora do rosto.

--

Agora, você ter ficado oito horas sem responder minha mensagem?

EU VI QUE VOCÊ ESTAVA ONLINE!
Não consigo compreender tamanho desaforo.

Fora da minha vida. Fora. Agora. Já.
Tudo tem limites.

--

Não é por acaso que as pessoas falam como bebês quando estão apaixonadas.
Nós voltamos a ser crianças quando estamos no colo de quem a gente imagina que vai nos amar para sempre, como a mamãe amou.

Não é por acaso que as pessoas passam anos em análise falando sobre as falhas das suas mães. Uma mãe pode cometer o erro que for, mas não há filho que perdoe quando sente que a mãe não está lhe dando atenção.

--

Belisque um bebê e ele vai esgarçar os pulmões chorando, mas continuar vivo.
Mutile um bebê* e ele vai sofrer horrores, mas passar a vida inteira tentando entender como isso veio de alguém que deveria amá-lo.
*por favor, não mutile um bebê

Agora, ignore um bebê e... se ele sobreviver, vai ser só pra te dar dezesseis golpes de faca quando completar dezoito anos.

Mentira, ele não vai fazer isso.
Mas que ele vai começar a namorar com alguém que ele vai querer matar quando não ganhar atenção... Isso vai!

Porque não tem graça nenhuma viver se não for pra ser o centrinho do universo de alguém.
Nem que seja só na ilusão.

3.8.17

O avião

Adoro andar pelo centro da cidade. Ele sempre me lembra do que realmente importa.

Hoje foi assim.
Era quase meio dia e eu estava esperando pra atravessar uma rua bem movimentada. Estávamos em uns vinte, todos aguardando na calçada por uma notícia do semáforo de pedestres.

Ninguém olhava pra ninguém.
A vida da cidade é dura. Todos estão ocupados, todos estão apressados, todos tensos. Ninguém se conhece, ninguém parece se importar.

Subitamente, uma moça quebrou o marasmo do momento. Desesperada, apontou pro céu e gritou:
"MEU DEUS, OLHA O AVIÃO!"

Eu dei um pulo.
Geral olhou pro céu. Os executivos colocaram a pasta na cabeça para fazer de boné, as senhoras baixinhas esticaram o pescoço, todo mundo pareceu acordar da rotina, na esperança da sorte de ter um acidentezinho aéreo pra colorir o dia.

Os próximos segundos passaram como se fosse em câmera lenta.
Olhei, olhei, e não vi nada. Pescoço por pescoço foi virando de volta, seus donos frustrados por não conseguirem ver nada. Olhamos de volta pra moça que deu o grito, pra ver se ela explicava o que tinha acontecido.

Ela apontou o dedo pra todos nós e disse:
"VOOU NO SEU CALÇÃO!

Ninguém conseguiu reagir de imediato. Ela gritou de novo:
"AAAAAAAAAAAAAAAAAAH!", como quem diz "Peguei vocês!".

O povo ficou PUTO. Eu comecei a rir.
O semáforo abriu e cada um seguiu o seu caminho.

Já falei que eu adoro andar pelo centro da cidade?
Ele sempre me lembra do que realmente importa.

20.7.17

Encontrando caminhos

Ele era uma constante distante nas sessões da minha paciente. Quer dizer, ele sempre aparecia nos fundos de alguma história, ou como motivação para algum comportamento, mas poucas vezes chegava a entrar no assunto como personagem principal.

Com algum tempo de prática, é fácil identificar quais são esses assuntos: na primeira menção, todo disfarçada de elemento casual, já se identifica a força de sucção desse buraco negro – que, em geral, a pessoa trata como assunto resolvido.

Felizmente, o inconsciente não deixa assuntos importantes passarem batidos, e nunca se sabe onde se encontrará com um caminho para chegar a eles.



Ana era particularmente dedicada aos seus sonhos.

A cada sessão, traz um pequeno calhamaço de papéis rabiscados, contando das jornadas intensas que fazia todas as noites.

Cada dia uma jornada, cada jornada abrindo uma porta para o passado, mas algo se mantinha entre quase todos os seus sonhos: caminhos perigosos, escuros, e a necessidade de chegar em algum lugar.



Depois de algumas sessões, no meio da interpretação de um sonho, Ana mencionou novamente, como quem não quer nada, o rapaz.

Era hora de atacar.

“Me fala mais sobre ele! Como foi a história de vocês?”, eu disse, também com um quê de quem não quer nada.

“Bem… Nós nos vimos por algum tempo. O sexo era muito bom, mas depois eu entrei em uma crise terrível. Eu quis morrer. Ele tinha namorada, sabe?”

“Isso te incomodava?”

“Muito. Eu estava no motel com ele, um dia, quando me dei conta do que estava fazendo. Eu não era aquela pessoa, eu quis morrer. Cortei todo o contato com ele, mas foi terrível. Fiquei um bom tempo sofrendo. Me sentia culpada de ter feito ele trair a namorada.”

Deixei passar a oportunidade de perguntar sobre a culpa. Ainda não era hora.
“Você ainda pensa nele?”

“Não muito. Mas tem uma coisa estranha… Ele me levava para tomar café, em um café desses mais arrumadinhos, de rico. Eu ficava impressionada, aquele mundo não parecia ser meu, eu ainda na faculdade, sem grana… Até hoje eu procuro por esse café, acredita? Eu sei que fica perto de onde eu moro hoje, mas eu já passei mil vezes pela rua e não encontro. Nunca mais achei onde fica, não é engraçado?”

Ela falou do assunto rapidamente, e eu não quis me prolongar muito.
Quando a ferida dói muito, a gente limpa com toquezinhos delicados em vez de esfregar com bucha.





Algumas sessões depois, Ana chegou ansiosa.

“Você acredita que ele me ligou? Anos sem falar com esse homem, e ele me ligou do nada! Ele perguntou alguma coisa sobre trabalho, mas parecia que era desculpa. Eu aproveitei a situação e pedi para ele me responder algumas coisas.”

“Algumas coisas?”

“Perguntei se ele tinha traído a namorada novamente. Você acredita que sim? E, se eu não tivesse falado pra ele que não tinha interesse, teria traído novamente!”

“Como você se sentiu?”

“Aliviada. Livre. Não fui eu que provoquei a traição. Ele teria feito isso de qualquer jeito, com qualquer pessoa. Foi como se eu não tivesse mais culpa.”

Ana contou a história com a alegria de quem conquista algo importante. Continuou:
“Ah, e você acredita que eu achei o café essa semana? Estava passando pela rua, tão pertinho de casa, e finalmente encontrei o café novamente, depois de tanto tempo!”

Como o inconsciente é lindo. Só depois de se livrar da culpa de levar um homem para o caminho da traição naquele café, ela pode encontrar o caminho para lá novamente.



Sonhou, dessa vez, com caminhos fechados.

“Eu subia escadas, mas não conseguia passar por elas. Trocava de corredor e isso se repetia, até que cheguei em um lugar alto e bonito, e eu via um pôr do sol lindo. Eu ficava contente.”

“Você sente que chegou num lugar positivo?”, perguntei.

“Sinto. Mas então, eu me virei e encontrava um elevador que...”

O sonho continuava. Sua história ainda não acabava ali.
Ainda assim, ela já havia encontrado um caminho.


(Alguns nomes e situações foram alterados para preservar a identidade do paciente, que autorizou a publicação desse texto.)

17.7.17

Em semi-círculo

Você já assistiu essa cena:
Um educador bem intencionado, que quer que seus estudantes se engajem um pouco mais, junta todos eles numa sala e avisa:
"Hoje a aula vai ser diferente!", fala como se isso fosse algo que os alunos gostam de ouvir, "por favor, façam um semicírculo."

Depois de meia hora de gente arrastando cadeiras, ele decide que é hora de começar.
"Hoje nós vamos discutir uma questão polêmica. Aborto!"

Vinte minutos depois, começa a terceira guerra mundial.

--

Já estamos tão acostumados com isso que parece que o bate-boca é parte essencial de qualquer discussão.

Talvez o erro seja estarmos tentando avançar logo para a questão polêmica, sem olhar para o que vem antes dela (justamente onde podem haver mais pontos de convergência entre os dois lados da conversa).

Ser a favor ou contra a legalização do aborto (ou da maconha, ou reforma trabalhista, o assunto que for) é a ponta de uma lança muito comprida. Muitas perguntas precisam anteceder essa. Não adianta - mesmo com as melhores intenções - juntar pessoas para discutir aborto sem antes discutir profundamente sobre temas muito mais básicos do que ele, como a liberdade individual, liberação sexual, o papel da mulher na sociedade...

Mas a gente pula etapas, e quando vê... a discussão complexa que um tema como polêmico requer vira uma briga infantil com gente gritando "Assassino de crianças!" de um lado e "Você odeia as mulheres" do outro.

Temos pressa demais para chegar no final das questões, e não querer perder tempo com o básico só atrapalha nossa capacidade de empatia.

Até uma discussão precisa de tempo e preparo para começar.
Se botar uma criança com bicicletas de rodinhas pra fazer manobras radicais, o tombo é certo.
E olha, pode até ser divertido de assistir... mas não vai ser produtivo.

--

Lembro de uma discussão que tive em sala de aula, ainda na faculdade de psicologia.

Uma aluna evangélica fez alguns comentários preconceituosos bem primários sobre homossexualidade.

A professora, um gênio, doutora pela USP, ativista na área há décadas, tentou argumentar. Um argumento de cá, uma resposta de lá, e... a professora não aguentou.
Mandou a menina embora da sala. A turma, que estava em peso do lado da professora, murchou. A atitude só serviu pra reforçar a ideia de que quem é liberal é intolerante.

Acontece. Mesmo uma pessoa muito preparada acaba perdendo a cabeça.
Uma pessoa super educada e capaz de aprofundar-se nos assuntos a que se dedica não é obrigada a perder tempo escutando argumentos de gente que não quer ouvir...

Mas, se não for pra ouvir os argumentos do outro lado, pra quê entrar num debate?

--

Só existe um modo de sobreviver ao Método SuperPop de Abordagem a Assuntos Polêmicos, e é tratar o outro lado com a paciência e a didática de um professor de jardim de infância.

Deixar o outro lado berrar um pouquinho e responder, na voz mais calma do mundo, um argumento extremamente simples, apelando pros fundamentos mais básicos da questão. Pelo menos você aparenta ter um pouco mais de classe. 

Ser um pouco mais frio e condescendente, tirando o elemento emocional da conversa, parece ser errado, ainda mais quando estamos falando de um assunto que mexe muito conosco. Mas só assim se coleta o benefício de conseguir permanecer plácido enquanto o outro lado esbraveja sozinho até conseguir perceber, sozinho, que está sendo ignorante.

Senão é o Jean Willys cuspindo no Bolsonaro tudo de novo. 
Catártico, mas superficial.

--

Saber dar um passo para trás e fazer a pergunta por trás da pergunta é uma das habilidades mais importantes de se aprender na vida.

Conter o impulso de erguer a voz e perguntar para si mesmo "O que eu quero com essa discussão?".
É ganhar o argumento? É promover um ponto? É que a outra pessoa deixe de te ver como um inimigo? É parecer malvado?

Com essa resposta nas mãos, você vai saber direcionar seu argumento para onde você deseja, em vez de para onde a emoção manda.

Se o outro lado ainda assim não quiser te ouvir... Tente ignorá-lo.
Se não der... Desce a porrada. Violência mesmo. Conflito nem sempre é tão ruim assim.

Depois marque um novo debate. 
Dessa vez, sobre a importância da paz.

Amar é frustrar

Pais machucam filhos. Essa é uma lei da natureza tão certeira quanto a de que pais botam filhos no mundo. Duas certezas biológicas: a da ...