8.12.17

Suicídio e graça

Morro de inveja de quem sabe contar uma boa piada.

Eu sou pior do que uma pessoa que não é engraçada: eu sou uma pessoa que tenta ser engraçada, e nada é mais triste que isso.
Meu timing falha, minhas piadas não são fáceis de entender e minha dicção é pior do que a da Tatá Werneck depois de levar uma picada de vespa na língua.

Mas, como um bom tiozão em potencial, eu me esforço.

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Pouco depois de montar meu primeiro consultório, levei um golpe de uma sócia e cheguei a ficar sem ter onde morar.

Quase precisei desistir de tudo e voltar pro interior e morar com meus pais, mas tive amigos legais o suficiente pra me ajudarem a arranjar um lugar pra morar e um emprego que pagasse melhor do que os bicos que eu fazia na época.
Chacoalhei a poeira e segui em frente. Aquilo não ia me derrubar.

Eu já sabia que não ia gostar muito daquele emprego, mas se ele fosse o preço de seguir morando na cidade que eu escolhi e perto das pessoas que eu escolhi ter na minha vida, era ali que eu ia investir minhas energias.

O primeiro dia de trabalho foi massante, torturante, cansativo. "A gente se acostuma com qualquer coisa", eu repetia pra mim mesmo.

No final do expediente, fui dar uma caminhadinha pra espairecer. Telefonei pro meu então namorado tentando desabafar e, no meio da ligação, fui assaltado. Levaram meu celular, minha carteira com todos os meus documentos e o dinheiro que eu tinha recebido de adiantamento naquele dia.

Merda, né? Mas acontece. Bola pra frente.

No segundo dia, eu somei a frustração do trabalho bosta com o assalto, mas consegui enfrentar o dia tranquilamente. Só fiquei um pouco chateado que meu ex não ligou nem tentou entrar em contato de outra forma depois de ter me ouvido sendo assaltado.

Acabado o expediente, já que não tinha mais nada que pudessem me roubar, fui fazer outra caminhada.

Fui atravessar a rua e dei de cara com o meu namorado ficando com outra pessoa. Eu não consegui reagir: cumprimentei e voltei, caminhando calmamente, pro meu outro emprego.

Fui até a sala onde meus amigos estavam, perguntei se eles podiam conversar um pouquinho e caí no choro antes de terminar a frase. Eu soluçava, eu tremia, eu perdia a voz.

Eu nunca tinha desabado daquele jeito.

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Juntando os problemas todos com aquela depressãozinha marota que tá sempre à espreita querendo dar o bote, os meses seguintes foram tenebrosos.

A sensação era de fracasso em todos os aspectos. Eu estava sem grana, num emprego ruim, sem coragem pra sair na rua por medo de mais um assalto, sem perspectiva de mudança... e corno.

A vida estava muito, muito sem graça.

Foi aí que eu decidi me matar.

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Planejar se matar é muito mais difícil do que parece.
Eu não tenho armas de fogo, sou desajeitado com facas (sempre que tento cortar um legume acabo me machucando, se eu tentasse cortar os pulsos ia acabar fatiando uma cenoura por acidente), não sou daquelas pessoas que tem muito remédio em casa...

Me veio à mente me enforcar.
Dei uma olhada pela casa e notei como eu tinha dois problemas:
1 - eu não tinha corda
2 - nenhuma parte alta da casa tinha espaço pra amarrar uma corda com segurança.

Fiquei parado um tempo na porta do banheiro, olhando pro cano do chuveiro e imaginando se daria pra me matar arrancando os fios de luz dali e amarrando no cano mesmo.

Foi quando me ocorreu o pensamento de que, já que eu ia me matar mesmo, eu podia pelo menos passar um tempo fazendo tudo o que eu bem quisesse, sem me preocupar com as consequências.

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Tá, e o que é que eu sempre quis fazer que eu nunca tive coragem?
Bem... Eu sempre tive curiosidade de subir num palco. Já tinha feito muita análise até então pra associar essa vontade a um desejo infantil de atenção e um narcisismo, mas naquela hora isso não importava. Eu ia me matar mesmo, foda-se a análise.

Me cadastrei numa noite de open-mic num clube de comédia de Curitiba. A data era pra quinze dias depois daquilo.

Eu tinha quinze dias para pensar em algo engraçado e não me matar.

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Fiz pilhas e pilhas de rascunhos de coisas que me pareciam engraçadas, mas nada me parecia muito interessante. Acabei escolhendo a opção mais inócua de todas, uma brincadeira com como algumas pessoas tem carisma e outras simplesmente não tem.

Num trecho do stand up, eu comparava a Ivete Sangalo (com carisma) com a Claudia Leitte (sem carisma), e dizia como a Claudia Leitte podia doar medula óssea pra uma criança que ia ser acusada de golpe de marketing, enquanto a Ivete podia derrubar uma criança de um pŕedio que o comentário geral seria de "Eita, que molecona desastrada!".

Nada muito engraçado, mas servia.

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No dia da apresentação, duas amigas me acompanharam. Eu bebi um chope e fiquei torcendo pelo melhor.

Não era só uma questão de conseguir ser engraçado: minha vida dependia daquilo. No fundo, no fundo, eu tinha alguma esperança de que aquilo me desse alguma energia pra viver.

Subi no palco e parecia que eu estava fora do meu corpo, me assistindo. Não conseguia enxergar nada, com as luzes fortes na minha cara.

"Simplesmente faça", eu falei na minha cabeça, pra me motivar, e simplesmente fiz.

Vomitei as palavras uma depois da outra, vorazmente. Acabei meu texto e saí do palco.

No backstage, os outros iniciantes me olhavam com cara de "Sinto muito por ter sido ruim".

Eu só sentia alívio daquilo ter acabado.

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Minha amiga filmou a apresentação.
Eu nunca tive coragem de assistir o vídeo inteiro, mas o pouco que eu vi era eu metralhando palavras sem ritmo nenhum:

"Ahurhue ijiejr heruhrau a CLAUDIA LEITTE iahduahifua e MEDULA ÓSSEA ufduauifeui IVETE SANGALO uahiuahda CRIANÇA DA JANELA nfonfaeuf"

Ansioso, eu apresentei meus cinco minutos de texto em menos de dois. Não tinha nenhuma risada na plateia, mas também não dava pra entender absolutamente nada do que eu falava.

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E foi naquele dia que eu me tornei um comediante de stand up de muito sucesso e minha vida mudou!

Mentira. Eu nunca mais tive coragem pra fazer stand up novamente, mas também não me matei.

Segui me dando outras chances de fazer coisas novas. Fui estudar improviso, subi num palco mais vezes e fui tentar me expressar um pouco mais.
Aos pouquinhos, fui reencontrando a graça da vida.

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E foi aí, sim, que eu encontrei a receita da felicidade e nunca mais fiquei triste!

Mentira. Hoje mesmo foi um dia muito, muito difícil e levantar da cama foi um batalha - e dessa vez não tinha nenhuma tragédia pessoal pra botar a culpa. Só os mesmos monstrinhos internos de sempre botando suas caras feias pra fora.

Aí um colega do curso de improviso me convidou pra participar de uma noite num espetáculo junto com ele e... Bem, o que custa esperar mais quinze dias?

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Talvez esse seja o lance das pessoas engraçadas:  quem faz muito esforço o tempo todo pra tentar achar a graça da vida é porque sente, lá no fundo, que ela não tem graça nenhuma.

Mesmo assim, entre a desesperança e a graça, dá pra continuar vivendo.
A vida é mesmo uma piada.

2.12.17

Sofrimentos

Eu não sabia que era possível conviver com uma pessoa por tanto tempo e não sentir absolutamente nenhuma conexão com ela.

Mas foi assim que aconteceu com essa moça, que trabalhou comigo por sete meses. Linda de parar o trânsito, sempre no meio do povo, com o marido e a filha pra cima e pra baixo, ganhando um bom dinheiro e com uma família tão descolada que parecia saída de um comercial de aplicativo de banco.

A gente se cumprimentava todo dia, beijinho no rosto, “como você tá?”, mas era esquisito.

A sensação que eu tinha era a de conversar com uma fotografia de tamanho humano impressa num papelão.

Eu tentava fazer alguma piadinha, ela ria sem parecer ter entendido. Ela tentava me incluir falando “Olha o psicólogo, pergunta pro psicólogo o que o psicólogo acha, psicologicamente!”.

Ela me parecia meio rasa. O que eu achava, no fundo, é que ela não gostava de mim.

De qualquer forma, sempre nos tratamos muito bem.

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Eu estava matando tempo no quintal da empresa quando nos encontramos.
Minha primeira reação foi de levantar rapidinho, pra disfarçar que eu não estava fazendo nada, mas então lembrei que era aniversário dela.

Fui até ela e dei um abraço. “Feliz aniversário!”

Ela me abraçou forte. Bem forte.
Apertou a unha nos meus braços, de tão forte. Sussurrou no meu ouvido, com a voz agoniada:

“Feliz aniversário um caralho, né? Tão feliz que tá tudo uma bosta.”

Mal deu tempo de estranhar o que ela falou, porque ela continuou, com o sussurro cada vez mais gritado:
“Feliz aniversário mas a família tá uma merda, o casamento tá arruinado e minha filha me odeia.”

Ela afrouxou o abraço e sorriu.
Mais gente chegou perto de onde a gente estava, e estavam começando a reparar na nossa conversa. Começaram a fazer uma fila informal pra dar parabéns pra ela também.

Ela me abraçou de novo, agora sussu-gritando na minha outra orelha.
“Feliz aniversário, mas eu não faço ideia do que fazer dessa merda de vida. Feliz aniversário, mas eu queria estar correndo pra bem longe daqui.”

Ela me soltou e foi sorrindo receber os parabéns das outras pessoas que estavam por perto. Meu braço doía, de tanta força que ela agarrou.

Enquanto eu olhava aquela mulher linda e bem sucedida, à beira de um surto no dia supostamente mais feliz do ano, lembrei daquilo que todo mundo sabe mas acha tão difícil aceitar:

Tem muita gente sofrendo calada.

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Tem aquele ditado-de-meme que fala pra nunca julgar ninguém que cruza contigo, porque nunca se sabe pelo que essa pessoa está passando.

E sim, todo mundo está com algum sofrimentinho ou preocupação, mas tem muita gente com sofrimento muito muito grande andando por aí completamente destruído por dentro enquanto trabalha, conversa e (finge que) se diverte.

O homem de negócios bem sucedido está preocupado com o tratamento de saúde da irmã e tem muito medo de que mais alguém que ele ama morra.

A moça do corpo perfeito está num relacionamento abusivo e tentando criar forças pra contar para a mãe que apanhou.

O colega que recebe os parabéns de todo mundo por ter parado de fumar está sofrendo muito porque sente que perdeu um dos maiores prazeres que tinha e sabe que voltar atrás e acender um cigarro vai lhe fazer se sentir um fracasso.

O primo que sempre foi o nerd da família está cortando um dobrado pra lidar com as ideias suicidas que não saem da sua cabeça depois da frustração de não estar dando conta do ritmo da faculdade.

Deve até existir algum felizardo ou outro que está surfando uma onda fácil, mas hoje em dia? Acho que é minoria.

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Estar sofrendo não necessariamente impede de tocar a vida em frente, até um momento em que o sofrimento seja mais conciliável ou que - imagina que sorte! - as coisas realmente tenham melhorado.

Para passar por isso, alguma coisa em nós precisa acreditar que passar por cima de um grande sofrimento é possível e que vale a pena continuar tentando.

Isso fica muito, muito mais fácil, quando alguém percebe nossa condição e se aproxima, nos escuta honestamente e nos faz sentir menos sozinhos.

Quem sabe um olhar mais atento ao seu redor possa lhe mostrar um sofrimento bem na pessoa que você menos imagina.

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A moça do começo do texto? Chamei num canto, depois de um tempo, lhe entreguei o telefone de um bom psicólogo e sugeri com muito carinho que começasse uma terapia. Disse que isso poderia ajudar a lidar com as dificuldades todas que estava passando, e que ela merecia ajuda pra passar por aquele momento.

Ela não ligou para o meu colega, nem aceitou tocar no assunto novamente quando eu perguntei. A decisão é dela, eu respeito.
Espero que esteja se sentindo melhor.

30.11.17

Regrinha de ouro

Era meu aniversário.

Uma amiga apareceu na festa exibindo a namorada nova, toda orgulhosa. Fui puxar papo:

"Ah, você é a famosa fulana?"

Ela disse que sim, a famosa fulana era ela.

"Você é bonita demais pra minha amiga, viu? Ainda dá tempo de fugir!", eu disse, rindo de um jeito que só dá pra transcrever com "kkkkkkk", de tão escroto.

Nem percebi que podia estar ofendendo alguém.

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Foi só umas duas semanas depois que eu fui perceber que minha amiga estava meio distante e tive um estalo. Liguei pra ela na hora.

"Puta merda, me desculpa por ter falado aquele negócio na minha festa! Eu juro que não tive a intenção! Você é linda e merece muito ser amada por quem você quiser!"

Eu esperava uma bronca, um perdão, mas o que veio foi um "ahn?":

"Que negócio? Nem tô lembrando..."

A sorte de falar merda o tempo todo é que as pessoas começam a desconsiderar as merdas que a gente fala.

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Mas não dá pra abusar da paciência de ninguém.

Eu já tinha percebido faz algum tempo esse meu hábito chato de colocar os outros pra baixo. Sutilmente, piadinhas, e nunca com desconhecidos - só com gente que eu realmente gosto.

Coisas pequenas, nada humilhante, mas aquela pinicadinha desnecessária, tipo "A gente tá comendo demais, né? Cê pensa em fazer uma academia?", ou "Que legal que você não lavou a louça antes de eu chegar, tô me sentindo super especial".

Boçal à beça, mas eu nunca disse que eu era super legal.

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Foi só falando disso na minha própria terapia que me caiu a ficha óbvia.
Por que é que eu só agia assim com gente que eu amo?

Porque eu fazia igual comigo mesmo.

Quando alguém fica perto demais, é fácil confundir as barreiras de onde começa a outra pessoa e onde termina o eu.

Aí, no meu caso, aquela característica quase fofa de autodepreciação assume a forma cruel que verdadeiramente tem.

É muito fácil parecer legal se botando pra baixo.

Te deixa mais aproximável. Soa genuíno. Não intimida.

As pessoas ficam mais confortáveis na sua presença... Até elas chegarem perto demais e sobrar depreciação para elas também.

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É engraçado o caminho que isso tomou: eu só fui perceber o quanto é brutal o que eu faço comigo quando vi o que isso fazia nos outros. Até porque com o outro eu tenho dó, né?

Comigo é chinelada na cara, e tudo bem, o que é isso, se incomodar é frescura. Bola pra frente.

Só que isso não me dá direito nenhum de culpar o outro pela minha insegurança.
Não é culpa da minha amiga e da sua namorada bonita se eu fico completamente intimidado com alguém interessante ao meu lado.
Não é culpa do meu colega que come bastante se eu estou irritado com o tamanho da minha barriga.

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Pois bem, vou começar a me tratar exatamente do jeito que eu acho que os outros gostam de ser tratados.

Vou acordar, olhar para a barriga no espelho e falar "Cada dia melhor!".
Vou tomar café na padaria encarando o rapaz bonito da mesa do lado.
Vou tirar cinquenta reais da minha carteira e entregar pra mim mesmo, porque eu mereço.
Vou lavar meu cabelo com L'oreal, porque eu valho muito.

E, de verdade, vou tentar me botar menos pra baixo.
Assim, quem sabe, eu consiga ser mais legal com as pessoas.

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Agora, se eu virar daquelas pessoas com autoestima demais, insuportáveis de ter por perto... Alguém se importa de fazer um comentário bem maldoso ao meu respeito, pra eu deixar de ser besta?

26.11.17

Workaholics

Estava num bar com uns amigos que vejo pouco e estava atualizando eles sobre a minha vida:

"Eu tô trabalhando quatorze horas por dia", eu falava orgulhoso, num tom calculado para gerar simultaneamente reações de "coitadinho dele!" e "uau, que homão da porra!".

Eu realmente estava exausto. Minha rotina era assim:
Paciente às sete e meia.
Oito e meia, eu corria pro meu outro emprego, fora da área, que por coincidência era bem pertinho de onde eu atendo.
Meio dia e trinta, eu engolia um ovo cozido como um emprego ruim engole seus sonhos, e ia atender outro paciente.
Voltava pro escritório e trabalhava lá até às seis. Depois, atendimentos até às nove da noite.
Aí, escrever e estudar um pouco pra não emburrecer de vez.

Parecia pouco, então comecei a acordar cinco e meia da manhã pra ir na academia, que é pra ser saudável.

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Depressão é moda da estação passada. O mal do século é a exaustão.

Quem não está no trabalho, está no trânsito a caminho do trabalho, ou fazendo um curso pra melhorar no trabalho, ou tendo um trabalhão pra conseguir conciliar trabalho com um momentinho de prazer.

Ninguém mais para.

Sei lá de que jeito, ficamos com a impressão de que só é bem sucedido quem está trabalhando vinte e quatro horas por dia, ou que sucesso e felicidade são coisas que você precisa trabalhar duro pra conquistar e seguir trabalhando para manter.

Aí saímos por aí, exaustos, desfilando o orgulho que temos de viver como escravos.

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Até dormir virou obrigação.

Manda logo um Rivotril, que é pra eu cair no sono logo e tirar essa tarefa da frente de uma vez.

Não é à toa que tem tanta gente com insônia.
A gente procrastina as coisas que não quer fazer, as coisas que a gente só faz por obrigação.

Enquanto dormir for tarefa e não prazer, vamos seguir assistindo mais um episódio de qualquer coisa antes de fechar os olhos.

E, depois de não dormir, enfia café goela abaixo, que a produtividade não pode parar.

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Está tudo na palavra: Workaholic.
Viciado em trabalho. Viciado. E nenhum vício é bonito. Quer dizer, uma pessoa fumando num filme em preto e branco é estilosíssimo, então vou usar outra palavra: nenhum vício é saudável.

Uma pessoa viciada em trabalhar pode ser tão doente quanto uma pessoa viciada em beber.

O problema é que os vícios são lentos
Ninguém bebe uma vez e sai quebrando todas as mesas do bar, xingando quem vê pela frente, condenado a uma eternidade de vício.

Criar um vício é um processo que demora e se constrói aos poucos, misturando o prazer com a ilusão de controle. A ilusão de prazer. A ilusão de vantagem.

As mesmas ilusões que alguém sente ao trabalhar 15 horas por dia.

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Engraçado que quando eu larguei o emprego que me dava alguma segurança financeira (e só larguei depois de juntar dinheiro suficiente pra manter essa segurança por um tempo enquanto me dedicava à clínica), meu trabalho melhorou muito.

Surpreendentemente, as pessoas preferem ser atendidas por uma pessoa acordada e atenta em vez de um psicólogo com olheiras imensas, bocejando o tempo todo e com a disposição de um zumbi.

Com muito menos coisa pra fazer, meu trabalho finalmente prosperou.

Sucesso!

Aí, antes que eu me desse conta, tinha entupido minha agenda novamente, com horários estúpidos que ninguém aceitaria em sã consciência. Lá estava eu, exausto de novo.

Todo vício tem suas armadilhas.

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O irônico da coisa é que a gente trabalha tanto em busca de uma sensação de sucesso, de completude, de chegar em algum lugar... sem ver que perceber isso é completamente impossível se você não para de trabalhar.

Sucesso só pode ser percebido a partir de um ponto de descanso, uma pausa em que você consiga ter perspectiva das coisas. Se você não descansa, seu sucesso é uma árvore caindo na floresta sem ninguém por perto: passa despercebido.

Sem contar que, se for reparar bem, sucesso mesmo é poder descansar à vontade.


24.11.17

Aceitações

Nós, que andamos pelo mundo acordando cedo, andando com nossas próprias pernas e reclamando quando temos gripe, somos um seleto grupo de abençoados. Tem todo um submundo de sofredores em tempo integral que, por conveniência, deixamos esquecidos num canto da memória.

São os doentes, os abandonados, os esquizofrênicos, os pulmões-de-ferro, essa multidão que a gente usa só nos momentos da nossa própria dor, pra relativizar nossa situação e se convencer que não está tão ruim assim.

O engraçado é que, no grupo dos que estão nesse sofrimento grandão, bruto, tem muita gente que dá show na gente sobre como viver com tranquilidade.

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Não sei explicar o motivo, mas quem teve a oportunidade de conviver com alguém com uma doença terminal ou muito grave sabe como é a transformação que um sofrimento desses faz com a pessoa.

Ninguém é herói e ninguém lida com isso sem muita briga, mas em alguns momentos surge uma aceitação que só se atinge num estado desses. É algo um passo além da resignação, como se a aceitação fosse tão profunda que saísse de um mero "Ok, isso está acontecendo na minha vida" e fosse para um "Muito bem, é isso que eu sou agora, e eu vou honrar esse papel que eu recebi".

Então, de alguma forma, misturando um senso de sacerdócio naquele sofrimento todo, a pessoa adquire forças suficientes para seguir o baile sem negar a situação ruim em que está.

Não gosto da palavra "missão" porque ela parece tentar convencer alguém que está muito doente de que ela tinha mais é que sofrer mesmo, mas parece que quem lida bem com problemas tão graves acaba encarando dessa forma mesmo.

Algo como um "Se é isso que me resta, deixe-me enfrentar com alguma dignidade pelo tempo que eu tenho."

Um "aceita que dói menos", se for resumir.

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A gente subestima muito a quantidade de coisas na nossa vida que somos condenados a aceitar.

Não escolhemos nossa aparência, além do corte do cabelo e, tendo grana, aquilo que um cirurgião plástico consegue fatiar. Não escolhemos nossa altura, não escolhemos nossa aptidão física, nem a maior parte dos aspectos de nossa saúde, nem o ambiente em que crescemos, nem nossa família, nem nada.

Nós somos o amontoado de todo o aleatório que fez a gente parar no mundo. O personagem vem pronto.

Daquilo que podemos fazer com aquilo que somos, podemos tirar um pouco mais de liberdade, mas o resto? Só podemos aceitar.

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Viver é aprender a aceitar imposições e mudanças. Só isso.
Por isso que a adolescência é o capeta que é. Todo mundo ao redor parece estar bem ajustado e bonito, e você com aquele pescoção que cresceu antes do resto do corpo, aquela espinha gigante na testa.

E aí você fica com raiva. Chora, culpa os pais, reza, muda a postura tentando disfarçar, faz o diabo.
Mas não adianta: aquilo no espelho é você.

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Ficar adulto não ajuda em nada, porque envelhecer é brincar um jogo de aceitação em que ganha quem aceita que perdeu.

As mudanças vão aparecendo aos pouquinhos, sorrateiras, e você precisa atualizar a listinha daquilo que faz parte de você a cada dia. Você se surpreende quando olha no espelho:

"Essas bolsas debaixo dos olhos não vão mais embora não? Que merda." - respira fundo e tenta aceitar - "Muito bem, é isso que eu sou de agora em diante. Uma pessoa com olheiras e bolas profundas sob os olhos."

Isso pra tudo:
"Joelhos que doem o tempo todo? Bem vindos! Esse sou eu agora: a pessoa que eu era ontem, somada a um par de joelhos que doem o tempo todo."

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É quase como se fosse um guichê de desgraças:
"Aceita que agora você não pode mais dançar como na juventude?"
"Aceito."
"Aceita que agora sua visão não é mais a mesma de antes?"
"Aceito."
"Aceita que sua mãe morreu e você nunca mais vai comer a polenta com queijo que ela fazia?"
"Aceito."
"Aceita esse traste como seu legítimo esposo?"
"Manda ver."

Você envelhece, merda acontece, você aceita.
A cada dia você incorpora o novo e luta pra aceitar que o personagem que você interpreta mudou.

E tem alternativa?

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Tá vendo como é fácil esquecer de quem tá com um problema grave mesmo?
Em dois parágrafos eu fui de pensar em quem tem uma doença terminal pra uma lamentação sobre como é ruim ter rugas no rosto.

Mas a verdade é que ninguém precisa de uma doença grave pra adquirir a sabedoria de quão bonita e impositiva é a missão de ser aquilo que é, mesmo quando você é alguma coisa de que não goste.

É a única forma de dar sentido à vida: tentar conciliar as sinas às quais fomos condenados em um quebra cabeça que, de alguma forma torpe e esquisita, resulte bonito.

Se não resultar bonito, a gente aceita também.

14.11.17

Rituais


Rituais são necessários para marcar qualquer fim de fase na vida. É com o ritual do casamento que a gente se despede da vida de solteiro, com o ritual do velório que a gente se despede da vida, e com o ritual de fazer uma piada machista sem pensar que a gente se despede de metade dos seguidores que tem no Facebook.

Pra marcar o fim da infância, há vários rituais. Os judeus tem seus bar mitzvahs, as meninas tem suas festas de debutantes, meus colegas no interior tinham suas primeiras vezes com uma cabra... Enfim, o ritual varia.

Mas, se para as meninas a menarca inaugura a vida adulta, para os meninos, o fim oficial da infância é o momento exato em que começa a feder o sovaco.

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Meninos são desligados, meninos correm o dia todo, meninos fazem movimentos intensos com o braço direito debaixo do cobertor.
Logo, meninos suam.

Mas meninos também tem muito pouca autopercepção, então demora um pouco até se tocarem que precisam passar um desodorantezinho todos os dias. Os piores odores registrados no mundo são os de cadáveres abandonados, de enxofre queimado e de vestiário masculino cheio de adolescentes.

Alguns demoram pra perceber que o desodorante se passa antes, e não depois, de estar encharcado de suor. Alguns acham que, se suor é um cheiro ruim, desodorante só pode ser um cheiro bom, e por isso se banham em uma piscina olímpica de Axe achando que vão abafar.

Aos poucos, eles vão se acostumando, os hormônios descansam e o fedor vai embora. Mas há homens que passam uma vida inteira sem perceber que fedem. A estes, falta o ritual. São perpetuamente imaturos.

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Na minha família, tínhamos algo além do fedor para marcar nossa saída da infância: acne!

Quase todo mundo tinha muita espinha na adolescência. Os álbuns de família parecem ter sido atacados traças armadas com uma caixa de alfinetes, mas não, é só o jeito que as nossas peles ficaram depois de tanto espremer espinha e cravo.

Eu devia ter uns treze anos, fui lavar as mãos antes de almoçar e reparei que estava com uma espinha enorme na testa. Enorme, como se eu estivesse na metade do processo de virar um unicórnio, como um Hulk que se transforma quando se sente fofo.

Espremi a bicha.

O plotz que uma espinha faz quando explode é um dos maiores prazeres da vida, mas essa em particular tinha muito mais do que o plotz. Ela continuou inchada depois de espremer, cheia de sangue dentro.

Eu, como um homem do campo determinado a secar uma vaca, espremi aquela espinha até o último litro. Dava pra ter salvado um hospital infantil inteiro com a quantidade de sangue que saiu daquela espinha.

Como um sábio, limpei o sangue na toalha branca do banheiro e fui almoçar.

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Minha mãe urrou quando viu:
"Quem diabos sangrou na toalha de rosto inteira?"

Era minha hora de ganhar atenção. Fiz minha melhor cara de coitado e falei:
"Fui eu, mãe..." - pela minha voz, eu estava morrendo de hemorragia - "...eu espremi uma espinha e saiu muito, muito sangue."

Não sei bem o que eu esperava, mas talvez algo como abraços, apoio e gritos de "Você é nosso guerreiro! Você sobreviveu a toda essa perda de sangue!", ou "Meu Deus, filho! Evite ficar com anemia, coma urgente essa barra de chocolate!".

"Se você fizer isso de novo eu vou arrancar seu couro! Que nojo!", disse a minha mãe. Eu sinceramente não entendi qual era o problema. Ela percebeu.

Mães precisam ser ridiculamente didáticas às vezes., então ela me explicou:
"Se alguém limpasse a menstruação na toalha, cê ia gostar?"

Ah, faz sentido. Que vergonha.

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Eu era bem perdido para algumas coisas, mas o desodorante estava sempre em dia, inclusive porque eu era uma criança viada que vendia Avon. Já fedi por muitos motivos, mas nunca por falta de desodorante.

Até ontem.
Saí do banho antes de ir trabalhar, peguei o desodorante e... acabou. Só deu para uma axila. O outro sovaco saiu desprotegido.

"Tudo bem", pensei, "não vou andar muito e posso comprar outro hoje à tarde".

Acontece que justo ontem eu me distraí dentro do ônibus e desci super longe de onde eu precisava ir. Caminhei quarenta minutos, encharcando um lado da camisa enquanto o outro continuava intacto.

Então, me perdoem se eu estou meio fedido.
É um ritual importante pra mim. É hoje que eu amadureço.

13.11.17

Faxineiras

Eu só me senti verdadeiramente próspero na vida quando chegamos num ponto em que não estávamos mais dando conta da limpeza da clínica sozinhos e precisamos contratar alguém pra vir a cada duas semanas fazer a limpeza pesada.

Foi assim que conheci a Lázara.
A Lázara é uma máquina, uma grande máquina alta intensidade, que mesmo depois dos sessenta anos limpa uma casa grande em menos de três horas, usando só um balde, um pano e um rádio AM ligado na estação evangélica.

Reclamar, ela só reclamava de não poder vir mais cedo fazer a limpeza. Começar às oito era muito tarde pra ela, que preferia vir antes para poder emendar outra limpeza depois.

Aliás, um horário com ela era quase impossível de conseguir, porque ela sempre foi disputada pelo bairro todo - e ela nunca parava de trabalhar. Me contaram que ela tinha até uma casa na praia, como se fosse um escândalo uma diarista ter uma casa na praia.

Um dia eu até perguntei pra ela se era verdade:
"Lázara, você vai viajar no feriado?"
"Sim! Vou pra minha casinha na praia!"
"Que bom, descansar um pouco faz bem..."
"É, eu não descanso muito. Primeiro eu tenho que limpar a casa lá, depois eu tenho os meus clientes daqui que também vão pra praia no feriado, então quando eu vou pra lá eu limpo a casa de praia deles também..."
"E aí você descansa?"
"Não, aí eu vou aproveitar pra levantar um muro na frente de casa, que tá precisando..."

Não ouse se chamar de workaholic num mundo onde existe a Lázara.

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O preço que a Lázara pedia pela faxina era tão pouco que a gente deu um aumento pra ela à força, pra conseguir dormir sem peso na consciência.

A diária não era só pra faxina, era também um ingresso pra presenciar a força daquela mulher. Mesmo baixinha e aparentemente frágil, ela levantava móveis pesados como se fossem plumas, usando uma mão só, enquanto a outra mão passava o rodo.

Diz a lenda que ela já levantou uma jamanta de duas toneladas pra limpar uma mancha de óleo que estava embaixo.

Enfim, Lázara era um monstro, uma maravilha de pessoa, daquelas que a gente sabe que não vai saber viver sem.

Até que acontceu de precisarmos viver sem. Ela pediu pra liberar o nosso horário quinzenal com ela, porque ela estava precisando fazer um tratamento na coluna (quem diria que levantar coisas com dezoito vezes o peso do corpo fazia mal pra coluna?) e esse era o único horário que o médico tinha.

Nos outros dias, ela seguiria trabalhando. O motivo pra ela fazer o tratamento? Conseguir pegar o bisneto no colo.

Bisneto, gente, bisneto!

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Saiu a Lázara, entrou a dona Zeli. Outra sessentona.

A Lázara não é dona Lázara porque não gosta, e porque a energia dela já diz quem é que é a dona logo de cara. Já a dona Zeli precisa do dona, porque ela inspira uma coisa mais calma, mais maternal.

Ela não limpa as coisas com a voracidade da Lázara. Ela é a calma em pessoa, passa pano como quem faz um cafuné no chão, leva os panos sujos pra lavar em casa, com cuidado, e traz dobradinhos na limpeza seguinte.

Ela mesma puxa o assunto:
"O meu negócio é criança, sabe?"
"Ah, é, cê cuida de criança também?", perguntei.
"Não, eu sou professora aposentada."

Fiquei surpreso.
"Mas agora ninguém mais quer me contratar. Tô velha. Eu trabalhei na rede de ensino por anos, sou especialista em educação de crianças com deficiência", disse ela como se isso não fosse nada, enquanto esfregava a pia da cozinha, "só que agora não presta pra nada".

Doeu meu coração.

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É por isso que me dá vontade de bater na cara de quem fala "Eu cumprimento da faxineira ao presidente" querendo mostrar o quanto é uma boa pessoa.

Inclusive, se tem alguém com mais honra que o presidente, são essas duas mulheres. Quer dizer, todo mundo tem mais honra que o Temer, mas principalmente elas.

Inclusive, gostaria de fazer uma proposta: Vamos dividir o governo do Brasil entre a Lázara e a dona Zeli.

As duas seriam co-presidentes, e teriam uma ditadura temporária.

A Lázara esfregaria a cara de cada membro do congresso com água sanitária e seria responsável por deixar todas as esferas de governo limpinhas, pra depois organizar.

A dona Zeli gerenciaria a educação e as questões diplomáticas. Seria ela a responsável pelo ousado projeto de tratar gente como se fosse gente - algo que o nosso governo atual jamais faria.

Recomendo fortemente que a gente implemente essa forma de governo.
Minha única condição é que, a cada quinze dias, uma delas seja liberada pra fazer faxina aqui na clínica.

Aí sim, teremos paz.

Suicídio e graça

Morro de inveja de quem sabe contar uma boa piada. Eu sou pior do que uma pessoa que não é engraçada: eu sou uma pessoa que tenta ser engr...