23.2.18

Chapa Branca

Depois de anos escrevendo me veio o insight: puta merda, como eu sou chapa-branca.

Me surpreende o quanto eu consegui passar anos escrevendo evitando ao máximo cair em polêmicas. Até me orgulhei disso por um tempo, numa de "olha como eu consigo tocar em temas pesados sendo ponderado!".

Acontece que ser ponderado não estava trazendo benefício nenhum nem pra mim, que continuava sendo reprovado por vários leitores, nem pra quem lia, que dava de cara com uma opinião pasteurizada.

Sempre tinha alguém reprovando.

Eu fazia um texto com tom de brincadeira falando mal de hétero?
"Esse cara se diz psicólogo mas é um preconceituoso!"
Texto falando sobre depressão masculina?
"Eita, não dá pra confiar em macho mesmo, já começou a fazer desculpinha pra ômi!"
Texto com um tom otimista?
"Você não está levando em conta a realidade das coisas! Não é assim pra todo mundo!"
Texto com tom pessimista?
"Você tá se vendendo só porque tá na moda ter depressão!"

E eu só estava falando de coisas que eu acho, opiniões que eu tenho. Eu. Euzinho, pessoinha só, sem maiores pretensões de ser mais do que uma pessoa ou de formar a opinião de ninguém.

Não estava adiantando tentar comunicar mais claramente. Parece que tudo que eu escrevia já saía de fábrica com um disclaimer de "mas não é tanto assim, viu? não é assim pra todo mundo, inclusive o que é que eu sei, né? É só o que eu acho", e mesmo assim vinha chinelada.

Eu já estava ficando com medo de ter uma opinião.

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Isso de "tentar agradar todo mundo não funciona e ainda vai arrancar toda sua energia" é um pilar da minha prática clínica e um dos lemas da minha vida, e ainda assim eu estava caindo nessa.

Engraçado que não é a crítica que me incomoda. Podem achar o que quiserem de mim, podem xingar, não me importo com isso.

O que me doía era ver algum comentário como "Esse texto me magoou". Nada do que eu escrevo tem a intenção de ferir ninguém. Minha vida é dedicada a cuidar das feridas emocionais dos outros, eu jamais semearia isso de propósito.

Outros comentários eram com um tom de "Isso pode magoar alguém". Pode, claro! Tudo pode magoar alguém. Mas essa polícia já estava demais.

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Chegou a hora em que isso me deu um bode imenso. Fiquei um tempo sem escrever (pra sorte de quem me segue no Facebook). Pensei no que eu estava fazendo, no porquê de eu ter escolhido essa carreira, no objetivo que eu tenho ao escrever.

E eu precisei me perdoar por magoar algumas pessoas de vez em quando. Faz parte da minha exploração individual de quem eu sou me permitir entrar em contato com coisas pesadas.

Eu preciso ser honesto, eu preciso estar desarmado e eu preciso poder errar.
Falar besteira de vez em quando. Provocar um questionamento mais pesado. Falar alguma coisa que balança quem lê para que o que eu falo tenha algum efeito.

Não existe "provocar mudança" sem "provocar".

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Um dos próximos textos que vêm chama "Relacionamentos abusivos são ótimos", sobre como uma pessoa pode crescer ao passar como uma experiência como essa. Isso quer dizer que eu ache relacionamentos abusivos uma coisa maravilhosa? Não!  É uma hipérbole pra fazer a pessoa parar um pouco e ler uma opinião diferente sobre algo que costuma ser tratado sempre do mesmo jeito.

Se eu for colocar um título chapa branca só pra ninguém reclamar, eu perco uma boa parte do impacto que esse texto poderia ter, e boa parte do tesão que eu tenho em escrever.

Em algum momento as pessoas facilmente ofendíveis vão precisar aprender a pegar mais leve. Nem toda opinião diferente é um ataque, nem todo mundo que discorda é um inimigo.

Ainda não há - que eu saiba - registro de pessoas que tenham caído mortas de choque ao dar de cara com um texto no Facebook que diz algo que elas não gostam. E mesmo se houvesse, eu morreria de inveja da pessoa que escreveu um texto com um impacto tão grande.

Eu trabalho com psicologia porque acredito que o ser humano pode se desenvolver, crescer emocionalmente e ficar mais forte, e faz parte de tornar-se mais forte deixar de se ofender por qualquer coisa.

Caso ofenda ainda assim, conheço ótimos psicólogos para indicar.

21.2.18

Sobre a depressão masculina

Nenhuma mulher sofre do mesmo jeito que outra.
Há tantas depressões femininas quanto há mulheres, cada uma com seu sofrimento muito único, como um bordado feito a mão que é impossível de replicar exatamente.

Infelizmente, homens não são bordam.
Ou pelo menos não são ensinados a bordar seus sofrimentos de uma forma tão atenta quanto às mulheres. Depressão masculina há uma só, quase sempre percebida tarde demais, e devastadora.

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Um homem precisa de um grande projeto.
Talvez pelo passado de caçadores, os homens tendem a precisar de um grande foco para dedicarem toda a sua energia.

Repare ao seu redor como os homens costumam ser obsessivos:
É da mente masculina eleger uma prioridade para a vida por vez, e ela é perseguida violentamente.
O foco é o trabalho? Pois trabalho vai ser o nome desse homem. Serão quatorze, quinze horas por dia trabalhando, a saúde em frangalhos, o peso aumentando, o cabelo caindo. Nada mais importa.

Mais forte ainda quando um homem se apaixona. Que mulher nunca ficou confusa depois de ser o foco da paixão intensa de um homem para depois de se entregar ver essa intensidade esfriar? Não quer dizer que ele deixou de amá-la: é que ele passou para o objetivo seguinte.

É como se cada vida masculina fosse um projeto a longo prazo - e a cada vez que algo lhe tira dessa direção, a validade do projeto é questionada e, com ele, a validade da vida desse homem.

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Homens são - e isso foi testado em mil experiências científicas - menos adaptáveis do que mulheres. Demoram mais tempo para se encaixar a uma situação nova, para entender qual é o comportamento esperado deles e para adquirir o sentimento de capacidade dentro de uma hierarquia que não conhecem.

Numa metáfora bem Clube do Bolinha, pense num automóvel voltado ao público feminino, como uma minivan. O carro vai ser versátil, econômico, espaçoso, capaz de carregar crianças e tralhas, ao mesmo tempo em que tem um design diferente e é fácil de estacionar.

Agora pense num carro voltado ao público masculino, como um muscle car. O carro é só motor. O banco é duro, o interior é chocho, e nem fazer curvas direito aquilo faz.
Seu único propósito é seguir em frente com força.

Esse é o homem: muito motor, muitos cavalos, muito foco - mas quando esse motor tem um problema, toda a sua vida parece perder o sentido.

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“Um homem se humilha se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida e a vida é trabalho
E sem o seu trabalho um homem não tem honra
E sem a sua honra se morre, se mata
Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz”
 - Gonzaguinha

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A depressão masculina é muito marcada pela sensação de falta de sentido. Os homens em geral parecem derivar menos satisfação das pequenas conquistas. Essas lhe são quase invisíveis quando aquilo a que dedicaram todo seu foco deixa de existir.

Por isso tantos homens murcham quando se aposentam ou perdem o emprego, por isso tantos homens não conseguem se localizar no mundo depois do fim de um relacionamento.

Sem um objetivo, a força do homem fica estagnada, e uma grande força sem direção específica é o ingrediente principal da autodestruição.

Sem um foco externo, o homem se destrói. Fica agressivo, abusa do álcool, age de um jeito ranzinza e insuportável de ficar por perto ou, a cena mais triste, murcha no sofá e olha para a parede com toda a força que tem, esperando a vida acabar.

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Parece simples lidar com isso. Por que não simplesmente diversificar os interesses e diluir a obsessão masculina em vários projetos diferentes? Não é tão fácil: o foco em uma questão só é uma questão estrutural. Como fazer uma faca de um gume só cortar em várias direções?

Até acontece uma flexibilização, depois de muito tempo. Pode levar uma vida inteira, filhos, trabalho, relacionamento e uma série de trabalhos concluídos para que um homem consiga se aquietar um pouco dessa busca interminável por uma grande conquista por vez. Ainda assim, se reparar bem, é provável que ele esteja completamente neurótico cuidando do jardim. Nem uma graminha fora do lugar, nenhuma.

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“Não tem tempo pra gastar, não
Não me vê passar, não
Nada tira a atenção de um homem com uma missão”
- Leoni

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Então, como resolver o problema do homem depressivo?
Voltando ao básico. Aceitando que ser homem é caçar e que masculinidade é a busca constante de um grande ideal.

Se as depressões femininas geralmente exigem muito acolhimento e escuta, a depressão masculina exige encorajamento e responsabilização - e até uma bronca bem calculada, de vez em quando.

Dê a um homem um grande projeto e veja-o prosperar. Dê a ele o senso de que ele é capaz de conquistar uma grande coisa e veja como ele se ilumina e se prepara para aquela jornada.

Mais do que tudo: dê a ele a responsabilidade de fazer algo grande por si mesmo e veja como essa carga vai lhe fazer bem. Com essa grande responsabilidade virá um senso de valor e honra que pode recuperar a razão de existir dessa máquina masculina de dedicação intensa.

É um papo que parece antiquado, mas responsabilidade, honra e dignidade são valores essenciais para que um homem seja feliz.
Recuperando isso, pode deixar o resto com ele. Ele vai saber se virar.

2.2.18

Como evitar uma terapia furada

Tá bem, não é só psicólogo que mexe com saúde mental. Muita gente trabalha na área, e eu até acho que isso pode ser uma coisa boa. Nenhum recorte do conhecimento humano pode ter um manda-chuva só.

Por isso, hoje em dia existem muitas alternativas ao tratamento psicoterápico convencional. Novamente, não sou contra, mas eu tenho recebido pessoas bastante prejudicadas por tratamentos alternativos feitos por pessoas que simplesmente não tem preparo pra trabalhar com uma coisa tão séria quanto a saúde mental.

Aqui vai minha visão sobre vários desses tipos de trabalho. Vou perder alguns seguidores, mas acho que a dica pode ajudar quem está em busca de um tratamento.

Constelação sistêmica: Olha, a filosofia do negócio é linda, os livros do Bert Hellinger são muito interessantes, mas... Não é psicologia. É uma filosofia de vida com respostas bem prontas sobre como as coisas devem ser, e lugar de dogma é na religião, não no consultório psicológico. Os exercícios e as técnicas de constelação são bem legais e algumas eu até roubei pra usar com meus pacientes, mas elas são baseadas em uma visão de vida muito específica e que não vale pra todo mundo. Já recebi pacientes emocionalmente destroçados pela visão de "Você precisa aceitar sua família a qualquer custo" das constelações. Não é assim pra todo mundo e não faz bem pra todo mundo ser tratado desse jeito. Uma resposta pronta pode machucar muita gente.

Psicanálise: Não sou contra a psicanálise, fiz análise por muitos anos e inclusive recomendo a muita gente que se dedique a um trabalho de análise tradicional. Acontece que a psicanálise também é um método de escuta bastante específico e que não vale pra todo mundo. O tratamento é muito baseado em silêncios e posturas do terapeuta que podem gerar muita angústia pra quem não está preparado pra esse tipo de processo. Me incomoda que alguns profissionais vendam a psicanálise como uma terapia que serve pra todo mundo. Não serve e, em alguns casos, chega a fazer mal.
Inclusive, se optar pela psicanálise, confira a formação do seu terapeuta, porque tem muita gente fazendo cursinho por correspondência e se chamando de psicanalista. Infelizmente, isso é permitido por lei.

Coaches: Novamente, nada contra. Já atendi pessoas que passaram por coaches ótimos e que ajudaram a dar uma guinada e tanto na vida. Infelizmente, a área está bem na moda e não tem regulamentação específica, então qualquer um pode se dizer coach de qualquer coisa. Confira a formação do seu coach e o quanto ele promete que vai mudar tudo na sua vida rapidamente. Se está prometendo coisas que parecem milagre... provavelmente se trata de um charlatão.

Conselheiro da igreja que é formado em psicologia: Muitas igrejas tem feito isso, de disponibilizar uma pessoa formada em psicologia para escutar os membros. O duro é que essa pessoa vai estar a serviço da igreja, mais do que da sua saúde mental. Não dá pra atender duas demandas ao mesmo tempo, e é melhor procurar um profissional independente se for possível.

Homeopatia / Florais: Bastante gente fala muito bem desse tipo de tratamento, e se elas estão contentes eu também estou. O que me incomoda é que sejam tratamentos vendidos como soluções super efetivas, quando são técnicas não científicas. Não dá pra apostar todas as suas fichas de saúde mental nisso, não é garantido. Faça consciente de que pode ser um complemento bom, mas não o seu tratamento principal.

Psiquiatra: "Vai falar mal de psiquiatra?" Não! Psiquiatras são ótimos, tenho até amigos que são. Só não me venha com o papinho de "Eu faço terapia, porque eu vou uma vez por mês no psiquiatra e falo dos meus problemas antes de ele ajustar minha receita". Existem psiquiatras que são psicoterapeutas maravilhosos, mas o trabalho não é tão fácil quanto ir uma vez por mês e não ser questionado pelo que você fala. Seu psiquiatra está te ouvindo e está trabalhando de acordo com isso, mas isso não é psicoterapia.

Filosofia Clínica: Essa me deixa encafifado, até porque... em algum momento você pode esbarrar num transtorno mental, e esse profissional não está informado o suficiente sobre psicopatologia, psicofarmacologia e dinâmicas de ajuda psicoterapêutica pra reconhecer, tratar e encaminhar corretamente um caso como esse. Pode ser bem bacana com um profissional bem preparado, mas tem muito charlatão trabalhando na área.

Hipnose: Outra área em que existem profissionais muito bons, em geral aqueles que se atém a uma área bem específica. Desconfie daquele que diz que resolve tudo. Sobre o tratamento em si, na minha opinião, é melhor para coisas bem focadas e ainda assim o trabalho não é garantido. Como um trabalho que acontece completamente a nível de rebaixamento de consciência vai ter eficácia para questões em que você está plenamente consciente, sem que você enfrente essas questões conscientemente?

Vidas Passadas/Reiki/Renascimento/Grito primal/Regeneração do Raio Coletivo da Irmandade Fraternal da Chama Cor de Rosa do Caralho a Quatro: Se uma coisa promete uma solução mágica, faça uma pergunta a si mesmo antes de aceitar: "Mágica existe?". Se você acredita que sim, vai fundo.

Isso quer dizer que você não pode recorrer a uma das terapias citadas acima, e que só um psicólogo vai ser capaz de atender a cada demanda sua? Não.
Você pode escolher o trabalho que quiser, mas... São alternativas, e não um trajeto calculado, científico e preparado em vários aspectos ao mesmo tempo pra te acolher melhor.

E olha, eu até incluo alguns psicólogos na lista, porque tem muito psicólogo por aí fazendo besteira. Sempre confira a formação do seu psicólogo, pergunte se ele faz supervisão, pesquise sobre a linha de trabalho dele e tente seguir indicações de alguém que você confie.

"Mas eu quero uma terapia diferente!"
Então vai fundo em qualquer uma dessas! Experimenta. Ninguém é dono da verdade. Mas saiba que você está explorando coisas que podem ser mais baseadas em achismo do que em ciência, e que pode topar com profissionais pouco preparados, por isso mantenha o senso crítico ligado e faça bastante esforço pra não acreditar em tudo o que te falam.

Depois disso, boa terapia pra você!

28.1.18

Aprendendo a Falar

Dá pra separar as pessoas em dois grupos, que se formam muito cedo na vida: tem as pessoas cuja primeira palavra foi “Mamãe” ou “Papai” e as que estrearam o vocabulário falando algo como “Água” ou “Bola”.

As primeiras começam sua interação verbal requisitando a presença de pessoas, acreditando que essas pessoas podem adiantar seus desejos e trazer a elas aquilo que desejam alcançar.

As outras começam a vida verbal focando direto no objeto que desejam: dane-se a mamãe, o que eu quero é um copo d’água.

Pra efeitos de comparação, minha primeira palavra foi “biba”.
Segundo a minha mãe, foi uma tentativa de dizer “Bíblia”, que ela estava lendo na hora que eu falei, mas eu acho que foi meu jeito de dizer “Amiga, malz aí, mas o futuro que você tá planejando pra mim não vai rolar”.

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As pessoas que focam no objetivo, as que falaram “água” primeiro, procuram comunicar seus desejos bem claramente: Quero isso, não gosto daquilo, aquilo outro é inaceitável.

O outro grupo já sofre um pouco mais para se comunicar.
Passam a vida emitindo sinais não verbais de seu gosto ou descontentamento, e esperam que quem está ao seu redor compreenda o que elas querem dizer com isso.

A comunicação já é complicada o suficiente com palavras: mesmo dizendo claramente o que queremos, as palavras podem ser mal interpretadas, podemos ser ignorados, pode passar um caminhão de gás com a música no talo enquanto você fala...  agora imagina o quanto essas confusões se intensificam quando nem se tenta dizer o que quer.

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Mesmo sendo um profissional da psicologia treinado para escutar a comunicação verbal e não verbal, pode acontecer de que os sinais emitidos por um paciente sejam tão sutis que eu demore várias sessões para percebê-los.

Como eu lido com isso? Perguntando o que a pessoa está sentindo. Dando a ela a oportunidade de falar, e fazendo questão de mostrar que estou aberto para escutar qualquer questão que ela tenha em mente.

Posso não ser responsável pela comunicação do outro, mas sempre tenho a opção de deixar o caminho aberto para que ela aconteça.

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Quando alguém guarda tudo o que deseja pra si, é porque sabe o poder que suas palavras teriam se fossem botadas pra fora. A pessoa sabe o estrago que isso pode fazer, e morre de medo de ser responsável por qualquer estrago que seja.
Aí é ziper na boca, e nunca se diz com detalhes o que se deseja e o que se espera de uma situação.

Temos medo de abrir a boca porque falar é demonstrar poder. A fala é uma atitude essencialmente agressiva, e a palavra é uma evolução do rugido: é só a partir dela que conseguimos demonstrar nossa força sem efetivamente morder alguém.

Se é o rugido que faz do leão o rei da floresta, precisamos aprender a rugir também. Ou, pelo menos, a falar “água” quando estamos com sede.

Questão de prática: a agressividade precisa ser ensaiada sem medo, com a gente falando mesmo que pareça que ninguém escuta e gastando a garganta até que cada palavra nossa seja ouvida.

Só assim se retoma o poder que se dá ao outro quando se espera que ele adivinhe os seus pensamentos. Sem contar que isso tira uma ansiedade imensa da outra pessoa, que precisa se virar em oito pra tentar imaginar o que é que você está querendo dizer quando não diz nada.

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Ninguém tem a obrigação ou a capacidade de adivinhar o que você quer.
Ou você aprende a falar ou começa a namorar com o Walter Mercado. Quem sabe ele consiga te entender.

Infelizmente, custa R$4,99 o minuto.

20.1.18

A história inteira

Vários anos atrás eu estava em algum lugar da internet lendo poemas e vi um que me tocou profundamente. Fiquei anos com aquele poema na cabeça, e nunca consegui encontrá-lo de novo.

Procurei mil combinações de termos de busca, em línguas diferentes, e nunca achei nenhuma pista. Talvez eu só tenha sonhado com ele.

De qualquer forma, acordei com o poema na cabeça hoje e, depois de tentar encontrá-lo de novo sem sucesso, resolvi tentar reescrevê-lo de cabeça. Se alguém conhecer o original, por favor, me mande pra postar aqui, porque era bem melhor que isso. Mas lá vai a tentativa:

A HISTÓRIA INTEIRA

"Pegue seu pijama, querido",
eu disse, tentando parecer confiante,
Hoje você vai dormir lá em casa."
"Por quê, tio?", o menino respondeu
e como eu senti raiva da sua curiosidade.
Respondi como se fosse algo muito casual:
"Seu pai vai dormir fora de casa hoje,
E eu pensei que a gente poderia assistir um filme,
passar tempo juntos, tomar um sorvete"
-- Só oferece sorvete a uma criança
quem quer trapaceá-la. --

"Essa é a história inteira?",  ele perguntou,
franzindo a testa talvez pela primeira vez na vida.
"Sim", respondi.
"Então por que você tá triste?"

Incrível como as crianças sempre sabem quando alguém
diz que está sentindo o que não sente.
"Estou preocupado, só isso."
"Com o quê, tio?"
Fiquei em silêncio, e ele insistiu:
"Me conta a história inteira."

Minha vontade foi de explodir com o menino,
dizer "Pega sua mala e vamos",
mas não seria justo com ele,
não naquele momento.

"Seu pai não está muito bem, querido,
mas logo ele melhora. Vai escolher seu pijama!"
Mas nada interrompe a curiosidade de uma criança
quando ela acha que estão escondendo algo dela,
e as perguntas continuaram.

"Por que você está com pressa, tio?"
Eu estava mesmo inquieto.
"Quero chegar logo em casa, querido,
pra gente poder ver um desenho logo,
você não está animado?"

"Tio", disse ele, sem acreditar na minha desculpa,
"Me conta a história inteira."
"Estou com pressa, querido, porque o dia foi comprido
e eu preciso descansar os olhos,
e porque está acontecendo muita coisa,
e porque se eu ficar parado aqui eu vou acabar enlouquecendo.
Vamos logo."

Tentei ir até a porta mas minha jaqueta foi puxada
por aquela mão gordinha muito cheia de si:
"Meu pai está bem?"
Respirei fundo.
"Seu pai está bem. Ele está num momento difícil,
mas quem sabe pela manhã ele esteja bem outra vez.
Só que agora a gente não pode fazer muita coisa,
e eu fiquei responsável por cuidar de você.
Já pegou seu pijama?"

Quem retrata as crianças como pessoas ingênuas,
brincalhonas e bobas nunca viu uma criança na vida.
"Ele vai ficar bem mesmo?"
"Espero que sim", e suspirei.

"Tio!"
"Sim?"
"Me conta a história inteira."

Eu jamais teria recomendado incentivar a curiosidade de uma criança
se eu soubesse que isso iria me dar trabalho desse jeito.
"Seu pai passou mal no trabalho hoje à tarde, querido.
E ele está no hospital, e sua mãe está com ele,
e nós não sabemos o que está acontecendo."

"E por que eu não posso passar a noite com eles?"
De onde sai tanta realidade de uma pessoa tão pequena?
"Você não ia gostar, querido.
Você não acha que vai ser mais divertido assistir desenho comigo?
Tomando sorvete? Dando risada com seu tio?"

"Você não quer dar risada, tio.
Você tá triste.
Me conta a história inteira."

Eu não estava pronto para a história inteira,
mas ele estava,
e ele precisava da história inteira mais do que eu precisava me poupar.
Fiquei de joelho e segurei aquelas mãos gordinhas,
olhando firme nos olhos daquilo que eu pensava ser só uma criança.

"Querido, seu pai talvez não volte pra casa.
Mas sua mãe está fazendo tudo o que pode pra que talvez ele volte,
Porque ela te ama muito,
e seu pai te ama muito,
e eu te amo muito também.

Mas agora eu não sei o que vai acontecer
Nem se ele volta pra casa
Nem como vai ser se ele não voltar

E eu não quero que você se preocupe com isso,
querido, porque não há nada que a gente possa fazer pra ajudar,
mas a gente pode assistir desenho
e comer alguma coisa doce
e brincar antes de ir pra cama
e ver se amanhã as coisas melhoram

Porque seu tio também está cansado
e muito triste, e com medo
e também precisa da sua companhia
pra conseguir ficar calmo até amanhã

E só pra você ficar sabendo
não importa o que aconteça
você sempre pode chamar e ir lá pra casa
e assistir desenho
e tomar sorvete
e ter um momento tranquilo,
mesmo que as coisas lá fora não estejam boas,
tá bem?"

"Essa é a história inteira?", ele perguntou.
Respondi que sim.
Então ele pegou o pijama
e fomos para casa.

14.1.18

As diferentes vertentes da Psicologia

Psicanálise: "Vamos analisar como seu inconsciente afeta suas decisões"

Psicologia Analítica: "Vamos analisar seus sonhos e como eles se relacionam com seu processo de individuação"

Psicologia Cognitivo-Comportamental: "Vamos analisar como seus pensamentos afetam suas emoções"

Psicologia Humanista: "Vamos analisar sua disposição criativa no seu processo de autorrealização"

Psicologia Evolucionista: "Vamos analisar como o instinto de sobrevivência afeta seu comportamento"

Psicologia Sócio-Histórica: "Vamos analisar como a dialética social-cultural constituem o mundo subjetivo"

Psicologia Experiencial: "Vamos analisar como suas sensações manifestas no corpo afetam seu pensamento"

Eu: "O que é analisar se não alisar com o ânus, não é mesmo?"

9.1.18

Bonito



"Ah, então só o bonito tá certo?", diz toda mãe ao filho em algum momento da vida, "Tá todo mundo errado, menos você, o sabidão? Só você sabe tudo?".

O filho abaixa a cabeça, pede desculpa e fica em silêncio.
Aí continua fazendo tudo exatamente o que fazia antes.

Por que, lá no fundo, o bonito tem plena certeza de que só ele que está certo mesmo.

--

Nessa eu fico do lado do filho. Às vezes tá todo mundo maluco, vai fazer o quê?

Todo mundo é uma pessoa teimosa, até porque "pessoa teimosa" é uma expressão muito redundante. Isso acontece porque cada pessoa é única, é justamente por isso, cada pessoa tem perspectiva muito particular e diferenciada sobre o que vive.

Por conta desse ponto-de-vista só dela, pode ser que enxergue coisas que ninguém mais veja.

E aí, vai acreditar em quem? No que sente e vê ou no que os outros falam?

--

Todo mundo diz que você tá fazendo a escolha profissional errada, mas lá no fundo, depois de considerar suas opções e possíveis riscos, você continua sentindo profundamente que é por ali que tem que seguir?
Pois vá fundo, tá todo mundo errado, menos você.

Todo mundo tem uma opinião política que te parece absurda, mas caem de pau em você quando você abre a boca? Mesmo depois que você se informou, pensou bastante e chegou numa conclusão diferente?
Pois eles que te aguentem. Tá todo mundo errado, menos você.

As maiorias frequentemente não sabem de nada. Só se destaca do pensamento comum e das reduções bobas quem consegue pensar diferente por um instante e dizer "Pôxa vida, todo mundo é uma anta! Eu sou ótimo!".

Claro que isso exige muita espinha dorsal pra dar conta de bancar a própria escolha. Isso só consegue quem acredita mais em si mesmo do que nos outros.

--

É importante considerar a opinião do outro? Claro que é, inclusive essa é uma das melhores maneiras de se aprender na vida.

O que não dá pra permitir que aconteça é que a opinião do outro seja sempre mais forte que a sua.

E se o outro estiver certo e o seu plano estiver errado?

Aí você errou, pôxa. Paciência.
Que escândalo bobo esse de sofrer quando erra, qual o problema de sofrer um pouco? Quem disse que errar é tão errado?
Dar mancada também é uma das melhores maneiras de se aprender na vida.

"Ah, mas todo mundo sofre quando erra!"
Não me interessa. Tá todo mundo errado.

Só o bonito aqui que não.

Chapa Branca

Depois de anos escrevendo me veio o insight: puta merda, como eu sou chapa-branca. Me surpreende o quanto eu consegui passar anos escreven...