8.10.17

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais."

O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer aprovação, de quem quer ver em mim um pai que diga "Isso! Faça esforço! Trabalhe duro e se controle! Bom garoto!".

Me recuso a fazer esse papel. Não estou no mercado de melhoramento de pessoas. Encontre outro terapeuta se é isso que você quer.

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Não quero dizer que aprimorar suas qualidades seja uma coisa ruim. Não é, não é mesmo.

Mas se você trabalha pela lógica do "Eu preciso melhorar, eu preciso me controlar mais", você está caminhando justamente para direção oposta de uma melhora.

"Tô me obrigando a ser mais paciente."
Se você precisa se obrigar, você não está sendo paciente. Adianta estar com aparência de calma e carcomido por dentro, cheio de vontade de empurrar alguém escada abaixo?

Por que não se deixar sentir a impaciência? Por que não senti-la profundamente, escutando o motivo de ela estar ali? Tentando ver o que esse sentimento te lembra, quando ele começou e deixando ele simplesmente existir?

Por que não sentir o sentimento que está ali, gritando dentro em você, até o fim e então aprender a lição que ele te traz?

Não.
Você quer forçar a barra: "EU VOU SER PACIENTE AGORA!".
Sem paciência nenhuma consigo mesmo, olha que ironia.

Certeza que vai dar certo, amigão. É bem desse jeito que você vai se tornar uma pessoa melhor: no grito.

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Provavelmente o que te torna impaciente, ou ansioso, ou depressivo - entre um milhão de outros fatores, favor contextualizar um pouco antes de jogar pedra aqui no tio - é essa olimpiadização da vida: não importa viver, importa ganhar o pódio.

Melhorei, agora eu sou paciente! Cadê minha medalha de ouro?

Talvez compense mais ver a vida como um passeio, sem um objetivo final, mas aproveitado a cada passo, do que vê-la como uma corrida, com um objetivo específico que precisa ser atingido o mais rápido possível mas que - apesar de todo o foco e disciplina exigidos para chegar lá - só vai te levar pro túmulo mais rápido?

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"Mas eu preciso melhorar! Isso me faz mal!"

Calma aí.
Só de acreditar que você tem coisas a melhorar, provavelmente, você já está melhorando. Só por estar atento. Só de estar passeando com calma e olhando por onde anda, seus passos vão ser mais corretos.

É devagar, mas é um processo. Não se afobe.

Se você acredita que precisa melhorar, e bate a cabeça pra chegar em algum ponto de suposta felicidade, sem nunca parar pra apreciar as pequenas evoluções do caminho... Você está correndo quando deveria estar passeando.

Está todo esbaforido, jogando uma perna na frente da outra com a intenção de chegar rápido em um lugar quando é justamente o andar cuidadoso que vai te fazer entender o caminho.

De tanto queremos ter paciência, calma, e hábitos melhores, acabamos ansiosos. E, com isso, acabamos jogando toda possibilidade de evolução fora.

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Anunciar "Estou aprendendo a ser paciente", enquanto olha para cada perda de paciência que se tem pelo caminho, é mais rico do que "Preciso ser paciente" que se obriga a fingir tranquilidade onde existe turbilhão.

Ter paciência - ou ser um melhor ouvinte, ou comer melhor, ou desenvolver o hábito da leitura - se aprende justamente pelo processo de tentar ter essa qualidade.

Se você tentar ensinar qualquer coisa para uma criança com agressividade e pressa, você vai ter uma criança assustada e desinteressada, incapaz de absorver mesmo um conceito simples.

Com carinho, entretanto, se ensina qualquer coisa - mesmo que se leve um pouquinho mais de tempo. Então por que não ser carinhoso consigo mesmo na hora de tentar adquirir uma qualidade?

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Você não "precisa" melhorar. Você quer melhorar.
O desejo tem muito mais força do que a obrigação.

Juntando o desejo com um pouquinho de carinho, você chega em qualquer lugar.
Enquanto isso, aproveite o passeio.

2.10.17

Gratidão não é amor

Qual a pior parte de ter um filho?
Pensa aí, rapidinho. Qual seria a parte mais difícil de ser pai ou mãe de alguém?

Preocupação demais? Muito gasto? Ter uma criança irritante e incômoda sob os seus cuidados vinte e quatro horas por dia?

Gosto de fazer essa pergunta aos meus pacientes, mas nem sempre para investigar o que elas acham sobre paternidade. É que sensação que se tem sobre ter filhos quase sempre reflete aquilo que a gente sente que foi para os pais.

Se você sente que ter filhos é uma preocupação constante, talvez tenha sentido que seus pais não tiveram paz ao te criar, cheios de preocupações.

Se você sente que ter filhos é um trabalho horrível, irritante e do qual é melhor fugir, talvez você tenha tido a sensação de que seus pais achavam lidar contigo algo irritante e do qual eles preferiam estar longe.

Não é uma regra, mas pode ser útil para explorar qual sentimento que tínhamos ao receber o amor de nossos pais - já que, para uma criança, tudo o que se recebe dos pais é encarado como amor.

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Normalmente quem sente que foi um grande trabalho para os próprios pais responde a isso com um grande sentimento de gratidão por eles.

Quer dizer, todo mundo se sente grato aos pais, já que é impossível criar alguém sem muito sacrifício, mas onde existe um sentimento muito grande de gratidão pelo amor recebido, existe também uma crença de que esse esforço precisa ser retribuído. E é aí que mora o problema.

A resposta natural para o amor não é a gratidão. Amor, quando sentido livremente, traz consigo uma sensação natural de alegria e tranquilidade, junto com desejo de se transmitir amor para o mundo. Para todos, não apenas para de onde esse amor inicial veio.

Ou seja: quem recebe amor puro retribui com amor puro, não com meio-amor-meio-gratidão.

A gratidão é uma resposta para quando se sente que alguém fez um esforço por você. Um esforço que você, talvez, sinta não ter merecido.

Por isso que gratidão demais faz mal: ela pode esconder sensações profundas de baixa autoestima.

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É importante olhar para como nos sentimos em relação aos nossos pais porque esse tipo de sensação costuma se repetir em outros relacionamentos.

Se a sensação maior for a de gratidão, os relacionamentos tendem a ser vistos como baseados em trocas. Você fez algo por mim, eu faço algo por você em compensação.

O complicado é que amar com base no “Você demonstrou carinho por mim, então eu preciso lhe retribuir com alguma coisa” é a semente mais comum para relacionamentos abusivos.

Porque quanto maior a sensação de gratidão por um pedaço de carinho, menor precisa ser o carinho recebido para se sentir envolvido com alguém. A partir disso, as exigências ficam cada vez menores e as tolerâncias, cada vez maiores.

Excesso de gratidão é o que faz alguém acreditar que pode apanhar de vez em quando, porque a outra pessoa também tem seus problemas e, veja só, é uma pessoa tão boa quando está bem. Basta um mínimo de carinho ocasional para justificar todo um relacionamento.

A gratidão prega que “Eu mereço ser amado enquanto fizer algo”, e lutar contra isso é muito trabalhoso. Para amar além da gratidão, é preciso acreditar que é possível ser amado sem estar fazendo um esforço constante por isso - como um filho desejado que não precisa fazer nada além de existir para ser amado pelos pais.

Amar mesmo é acreditar que só existir basta, que você merece ser amado mesmo quando não pode fazer algo pelo outro (ainda que fazer coisas por quem se ama seja ótimo!).

Viver assim abre a porta para relacionamentos mais maduros. Sem ingratidão e sem a ausência de esforço mas fazendo pelo outro e recebendo coisas dele por outros motivos além do dever: Por desejo. Por vontade.

Por falta de palavra melhor, por amor.

27.9.17

Voo

Acabei de fazer minha primeira viagem de avião.

Por alguns anos, isso me incomodava.
Sonhava direto que estava prestes a embarcar pra algum lugar e opa!, cadê a passagem?, ou opa!, cadê o passaporte?, ou opa! desculpe, o Edson Arantes do Nascimento comprou todos os lugares desse voo e você vai ter que voltar.

A vontade era grande, mas o orçamento não deixava.
"Pôxa, vinte e três anos e eu nunca viajei de avião na vida?", eu reclamava.

E então vinte e quatro. vinte e cinco; os amigos conhecendo o mundo; vinte e seis, vinte e sete e pronto!
Risca a listinha, viagem feita.

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Não fiquei nervoso na hora. Queria ter ficado.

Queria ter sentido frio na barriga, medo, uma emoção forte. É uma primeira vez, cacete, e quantas primeiras vezes ainda restam depois de uma certa idade? Tem que aproveitar bem quando aparece uma.
Sei lá quando tinha sido a última vez que eu tive uma primeira vez de alguma coisa.

Mas fiquei frustrantemente tranquilo.
A única sensação forte mesmo foi de que eu precisava de um Dramin. Ninguém me avisou que quando o avião balança de um lado pro outro, você balança junto.

Agora, olha... o mundo é bonito, de cima. E bem pequeno.
E bem rápido.

Guardei o lanchinho de bordo para comer mais tarde. Comi tudo dez minutos depois do desembarque.
É que eu sei esperar, mas não muito.

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Sou um péssimo agente de viagens pra mim mesmo e escolhi o voo mais barato que consegui comprar, o que resultou num intervalo de oito horas entre o primeiro voo e a conexão que vem depois.
Oito horas é muito tempo.

Já passeei por Viracopos inteiro.
Já pesquisei por que é que o aeroporto tem esse nome (muito tempo atrás teve uma briga numa festa de igreja, o padre ficou bem puto e se referia ao incidente como "aquele viracopos maldito").

Andei na esteira rolante. Andei na esteira rolante no sentido oposto ao movimento da esteira rolante.
Apostei corrida na esteira rolante com a minha amiga. Apostei corrida de carrinhos de carregar mala.
Apostei corrida de carrinhos de carregar mala na esteira rolante.

Tomei um café que custou quinze reais.

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Também tive uma ideia para um livro.

Escrevi cinco páginas para ele, que, a partir de agora, se trata de um Projeto Oficial™, o que provavelmente quer dizer que essas cinco páginas vão ser tudo o que realmente vai ser escrito dele.

A ideia é contar as melhores histórias que eu tenho dos meus avós pra tentar entender o que é que eu tenho em comum com eles, duas gerações depois.

Sempre achei que os avós são uma maneira muito mais carinhosa para explicar uma pessoa do que os seus pais. Histórias com pais dão muita treta, os avós costumam ser um tipo de amor mais pacífico.

O livro ia chamar "De onde vem a voz".
Pegou? Pegou? A voz, avós, a voz?

Imaginem um livro bem bom, porque foi assim que eu imaginei, e é bem possível que ele fique só na imaginação mesmo.

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Tentei tirar uma soneca, mas o café de quinze reais tá fazendo valer o seu preço e me impediu.
Agora estou aqui, exausto e ligadaço, escrevendo esse boletim especial de acontecimentos irrelevantes, e ainda tenho mais três horas pela frente.

Quem sabe o próximo voo traga a emoção que o primeiro não trouxe.
Talvez voar seja que nem transar, que a primeira vez não é tudo aquilo e depois vai melhorando.

Talvez eu passe o tempo todo dormindo, porque até lá esse bendito café já deve ter dado efeito rebote.

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De qualquer forma, estou oficialmente de férias. Não tem avião suficiente no mundo, nem horas de espera suficientes pra tirar a alegria disso.

Por enquanto, eu não preciso ter foco nenhum. Acho que vou correr mais um pouco na esteira rolante pra passar o resto do tempo.

Tomara que o segurança não venha brigar comigo. Mas, se reclamar, já tenho a resposta pronta:
"É minha primeira vez, não sabia que não pode!"

Alguma vantagem precisa ter pra quem é novato.

Insatisfeitos

Nós somos seres insatisfeitos.
Desde o momento em que você chorou no berço e não foi prontamente atendido, seu cérebro ativou um sistema de sobrevivência: a fantasia.

Pra lidar com a opressora realidade de não ser cem por cento compreendido (se já é difícil para um adulto, imagine para um bebê), você começa a imaginar como seria ser plenamente amado.
Surge um personagem na sua cabeça, o de alguém que te entende e te ama sem reservas.
Alguém que te faz apenas bem e antecipa todos os seus desejos, além cujo único objetivo de vida é te deixar contente - sem falhas!

O mecanismo da fantasia existe por instinto de sobrevivência emocional: a fantasia é a reserva do nosso tanque de combustível, permitindo que sigamos em frente mesmo sem sentir amor.

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Por isso mesmo, ela vai nos acompanhar por toda a vida - mesmo quando estamos muito bem, só por via das dúvidas.

Você pode estar solteiro, imaginando alguém que esteja ao seu lado, namorando com essa pessoa todas as noites ao deitar a cabeça no travesseiro, por mais que pessoas não imaginárias que te amem apareçam e você não as deseje.

Você pode estar muito bem casado e imaginar que aquela pessoa que ficou no passado poderia ser a verdadeira melhor opção pra você (e, se tivesse se casado com ela, estaria fantasiando a mesma coisa a respeito da pessoa com quem realmente se casou).

Imaginar um afeto constante é o equivalente emocional da fome. É uma maneira de manter o cérebro ligado para não esquecer de encontrar recursos que o mantenham vivo.

Você pode estar super bem alimentado mas vai salivar ao pensar numa refeição bem preparada.
Mesmo enquanto está comendo, pode acontecer de alguém falar de outra comida e te dar vontade de comer aquela. Isso não quer dizer que sua refeição de agora seja ruim.

Jogar tudo para o alto a cada pequeno sinal de insatisfação só prova que não evoluímos muito do bebê que abriu o berreiro ao não ser prontamente atendido pela mãe.
Estar um pouquinho insatisfeito não quer dizer que você precisa mudar tudo na sua vida.
Só quer dizer que você está vivo - e lutando para sobreviver.

22.9.17

Popstars

É fácil entender o sucesso de programa Popstar, na Globo.

Atores, apresentadores, artistas bem sucedidos em outras áreas se amontoam e se estapeiam pra soltar a voz em público. A cada canção bem recebida, choram como se não tivessem tido outro sonho na vida a não ser cantar.

E, realmente, talvez não tivessem.
Eu também, famoso fosse, ia querer estar lá, fazendo karaokê de Tim Maia e soltando minha voz grave e rouca pelo ar.

Todos nós tivemos nossas grandes paixões profissionais.
Se desse certo pra todo mundo, seríamos todos rockstars, astros de Hollywood ou o Neymar.

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É importante saber separar o saber do ofício.

Um arquiteto com um grande interesse em pessoas pode saber muito mais profundamente sobre a psicologia humana do que um psicólogo formado, ainda que não saiba praticar psicoterapia.

Um pedreiro com um grande interesse em música pode sentir muito mais profundamente um solo de guitarra do que um músico formado, ainda que não saiba explicar as escalas pelas quais o guitarrista passa.

Um cineasta com um grande interesse por matemática pode não saber resolver equações avançadíssimas, mas vai sentir uma emoção tremenda ao entender como um grande cálculo se executa do começo ao fim que talvez um matemático não saiba perceber.

Um dentista pode amar poesia. Um poeta, quem vai dizer que não?, pode achar lindo um tratamento de canal.

Um psicólogo com um grande interesse em música pode cantar muito mal, mas te indicar uns discos pouco conhecidos bacanas e... Tá, nesse caso não se aplica.

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Essa compreensão profunda e amor pela arte por quem não é artista acontece porque a distância - a falta, a sensação de não poder realmente alcançar o que ama - traz uma angústia que aprofunda as experiências que residem brevemente nos sentidos antes de voltar ao mundo dos sonhos.

Em tempos de escolher uma carreira aos dezessete anos, com a pressão de ganhar dinheiro e fazer o que ama pelo resto da vida, saber que o que se toma de ofício não é necessariamente uma garantia de amor eterno pode parecer pesado.

Mas saber que tornar da paixão um ofício pode trazer angústia e frustração - não financeiramente, como todos os pais pregam, mas na alma, por trazer o seu amor para perto demais, sob uma ótica muito real e cruel, capaz de desmontar as ilusões - pode ser libertador.

É como casar com a pessoa dos seus sonhos: o casamento começa e os sonhos acabam.
Amar à distância pode fazer o amor ficar muito mais interessante. Se o objetivo for manter o sonho, melhor guardar as alianças para si.

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Talvez meu conselho para quem está procurando uma profissão seja esse: faça o que ama, mas não dependa disso totalmente.

Case-se com um ofício que lhe seja fácil e pouco desgastante e persiga sua paixão como quem persegue um amor com astúcia: cuidadosamente, sem se mostrar disponível demais, sem depositar todas as suas expectativas e dando ocasional bote, quando a situação ideal aparecer.

Quem sabe você tenha sorte e sua tórrida paixão mantenha-se luxuriosa e intensa por anos a fio.
Quem sabe sua grande paixão seja melhor como uma amizade para toda a vida.

Amores mudam pela vida, ainda que haja amores duradouros.
Seu ofício pode não ser o que você sempre sonhou, mas pode ser aquele amor que te esquenta os pés no fim da noite e te faz se sentir satisfeito.

Aí, de vez em quando, você masturba sua imaginação botando um bom disco pra tocar e canta junto a plenos pulmões, se sentindo uma estrela do rock. Não há nada de errado em fantasiar com uma grande paixão enquanto se vive um amor maduro.

18.9.17

Cura gay

Como as pessoas pensam que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade é:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"MAS QUE ABSURDO! Gay é lindo, gay é vida, experimenta esse sapato!"

E seguem-se várias sessões rumo a uma inscrição no RuPaul's Drag Race.

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Como as pessoas querem que ir a um psicólogo pra tratar sobre a sexualidade seja:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"Ótimo. Olhe bem para essa piroca e prenda a respiração. Você precisa associar a visão de um pênis a falta de oxigenação no cérebro."
"Eu vou deixar de ser gay?"
"Não, mas vai desmaiar toda vez que ver uma rôla."

E seguem-se várias sessões pra aprender a cuspir no chão, coçar o saco e decorar a escalação do time do Curíntia.

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Como ir a um psicólogo pra tratar sobre sexualidade realmente é:
"Eu sou gay e quero deixar de ser."
"Me conta sobre isso... Como você se sente sobre ser gay?"

E seguem-se várias sessões verdadeiramente escutando a pessoa, prestando atenção nos ditos e desditos do seu desejo, facilitando a própria escuta sobre suas vontades e medos e aumentando a autonomia dela sobre as próprias decisões.

Então, e só então, segue-se para a inscrição no RuPaul's Drag Race.

17.9.17

A favor de ser trouxa


Eu sempre tive uma fascinação por aquelas pessoas que fazem todo mundo cair a seus pés. As Frida Kahlos, Marylin Monroes e Marlon Brandos do mundo, aquelas pessoas que fazem todo mundo se apaixonar por elas enquanto elas, impassíveis, estão nem aí.

Quando um amigo qualquer reclamava que tinha alguém no seu pé o tempo todo, como se isso fosse a coisa mais chata do mundo, meus olhos brilhavam de admiração. Quanto poder, né? Ter alguém te querendo muito enquanto você faz cara de blasé e prefere ficar em casa cortando a unha. Eu, trouxa por formação e vocação, morria de inveja.

"Ah, mas é meio chato, não rola, sabe?", dizia a pessoa independente e feliz.
"Dá uma chance pra ele! É um chato bonzinho!", eu respondia, advogando por nós trouxas.

Afinal, eu sempre ocupei o papel de estar no pé dos outros, e achava isso muito, muito chato.
Não conseguia entender a capacidade de alguém negar um amor que estava ali, tão de graça.

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Precisei de um bom tempo de trouxice (suficiente pra uma faculdade bem longa, pós-graduação e mestrado), pra chegar num ponto de exaustão.

Algo perdeu o encanto. Até aquelas pessoas que, em outro momento, eu mataria pra ter uma chance, chegavam perto e me davam vontade de sair correndo pra casa, pra ficar quieto e sozinho, lendo um livro que eu já li antes e coçando a orelha.

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Mas adivinha o que acontece quando você chega nesse ponto? TODO MUNDO QUER NAMORAR CONTIGO.

Que tipo de sensor é esse, de pegar a pessoa mais machucada e aversa a relacionamentos que pode encontrar e falar "É esse!", e investir tudo o que pode?

Como sempre fui eu do outro lado desse cabo-de-guerra, fiquei feliz. Quer dizer, sair do papel de pessoa que quer muito ter alguém ao seu lado só pode ser uma evolução, certo?

Acontece que ser a pessoa indisponível pode até te dar mais poder, mas não te dá mais prazer.
Não é só auto-suficiência. Você quer sentir o contato próximo e o amor de alguém, mas alguma coisa te impede, como uma azia violenta que te dá ânsia só de olhar pro seu prato favorito.

E quando você se força a baixar um pouco a guarda... Vem uma gastrite violenta.

Tá ruim, sai de perto, preciso de ar.

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Pode ser muito divertido experimentar esse poder.
Aprendi muita coisa vendo a minha trouxitude refletida no outro.

Eu, que sempre me dobrei em cinco pra tentar agradar quem estava comigo, me surpreendi com como você pode ser cuzão e ainda assim ser atendido.

"Te trouxe flores", diz a pessoa, feliz, fazendo o papel que devia ser o meu.
"Ah, valeu. Eu tenho um pouco de rinite.", eu respondo, escroto.
"Nossa, desculpa, eu troco, eu trago outras coisas, quer chocolate?"

Ei, eu conheço esse sentimento de pedir desculpa por ter feito algo legal! Que coisa besta!

"Não, não, tá bom.", eu respondo, sorrindo.
"Nossa, mas eu vou te recompensar por essa... Não sabia que você não podia com flor."
"..."
"Desculpa, tá?"

Jesus Cristo, eu já fui assim.

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Ser indiferente ao carinho alheio não é sinal de força. É casca grossa, calo, fachada.
Tudo coisa de quem está machucado demais e não está disposto a se arriscar outra vez. Fica indiferente ao amor quem tenta se curar dele. Fica com azia quem se recusa a digerir a dor dos amores que deram errado.

Porque o amor dói e te faz de besta, mas é justamente isso que faz ser muito gostoso quando ele é retribuído.

É ser trouxa de vez em quando que faz encontrar um amor dar aquela sensação de ter ganho na loteria.

Exigir sair por cima toda vez que está com alguém é uma defesa que tira toda a graça de viver. Se privar de um sentimento é se privar de todos.

Há uma grande lição em aceitar que perder o poder às vezes pode ser bom. Você exercita um pouco o masoquismo, volta a ter emoções novamente e lembra o motivo de ser tão gostoso amar.

Marlon Brando que me perdoe. Ser fatal é lindo no papel, mas ser trouxa não é tão ruim.

(Até você ser bem trouxa outra vez. Aí é uma bosta. Mas aguenta, quem quis amar foi você.)

Você não precisa melhorar

"Mas eu vou melhorar isso. Vou me controlar mais." O paciente me solta uma dessas e olha pra mim com uma carinha de quem quer ap...